quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

WORLD OF O E A CORRIDA DO ANO 2010: MAPAS PORTUGUESES VOTADOS COM DISTINÇÃO




Como é do conhecimento geral, o prestigiado “site” World of O promoveu uma votação para apurar as melhores corridas de Orientação de 2010. A Jukola, prova de Estafeta que tem lugar anualmente na Finlândia, recebeu o maior número de votos e foi um merecido vencedor. Com três mapas entre os sessenta a concurso, Portugal viu a prova do terceiro dia do Portugal O’ Meeting (mapa de Quiaios) alcançar um brilhante 4ª lugar, enquanto a prova do primeiro dia do Norte Alentejano O’ Meeting (mapa de Aldeia da Mata) concluiria numa extraordinária 6ª posição. Mérito da Cartografia portuguesa, mérito sobretudo dos cartógrafos e traçadores de percursos de ambas as provas, cujas opiniões acerca desta distinção o Orientovar aqui reproduz.


Produzido em Março de 2006 e revisto em Dezembro de 2009, o mapa de Quiaios, palco do 3º dia do Portugal O’ Meeting 2010 e cujo excerto se reproduz acima, tem trabalho de campo e desenho de Rui Antunes. Em declarações ao Orientovar a propósito da distinção que lhe foi atribuída, o seu autor começou por afirmar ter visto, “com natural satisfação, dois percursos de traçadores portugueses em mapas elaborados por cartógrafos portugueses colocados no Top 10 da votação. Na verdade, um 4º e um 6º lugar num universo de 60 percursos, acho que é de louvar.”

Esclarecendo que “este mapa de Quiaios foi elaborado em conjunto com o mapa Costa de Lavos, com vista à realização dos Campeonatos Nacionais de Distância Longa e Estafetas que se realizaram nos dias 29 e 30 de Abril e 01 de Maio de 2006”, Rui Antunes aponta o início dos trabalhos em Outubro de 2005 e, “cerca de dois meses depois, estava concluído o mapa de Quiaios, com 7,8 Km2”, diz. Em Março foi efectuada a revisão final e dado o mapa por definitivo. A título de curiosidade, Rui Antunes refere um pormenor: “Logo nesse ano, acertámos – nós, Direcção -, deixar uma área deste mapa virgem com vista a uma futura realização dum Portugal O’ Meeting (World Ranking Event), o que se veio a verificar quatro anos mais tarde”.


“Elegeria este como um dos três melhores mapas que elaborei em Portugal”

Admitindo que Rui Antunes possui, segundo critérios de ordem pessoal, um escalonamento de todos os mapas por si realizados até ao momento – cerca de sessenta em Portugal e outros trinta em vários países europeus -, quisemos saber que lugar ocupará este mapa no seu ‘ranking’ pessoal. A resposta não se faz esperar: “Este mapa é, sem margem para dúvidas, um dos que mais prazer me deu a elaborar.” Afirmando que em Portugal, dentro do mesmo género, ainda não viu nenhum mapa que, no mesmo espaço, albergasse tanta variedade e tanta quantidade de elementos, Rui Antunes admite que “este mapa é dos que tem maior densidade de possíveis pontos de controlo por metro quadrado”, acrescentando que “esta é uma das características fundamentais para um bom mapa de Orientação porque isso obriga os atletas em prova a manterem uma permanente concentração.”

Profundo conhecedor dos meandros da Cartografia, Antunes esclarece que “num mapa de Orientação mais simples, os espaços mortos permitem ao corredor, por assim dizer, ‘respirar um pouco’. Mas neste só podem respirar um pouco, aqueles poucos que conseguirem em velocidade simplificar todo aquele emaranhado de desafios que o próprio mapa lhes apresenta. E esses seguramente são os melhores.” Em jeito de conclusão, afirma: “Dito isto, elegeria este como um dos três melhores mapas que elaborei em Portugal.”


“Sou português e era aqui que gostaria de estar a dar o meu contributo para a Orientação”

Em relação à elaboração do percurso para o Portugal O’ Meeting 2010, Rui Antunes não encontrou qualquer dificuldade na sua execução. Recordando que “desde a criação do COC – Clube de Orientação do Centro, do qual sou sócio fundador, já realizámos todo o tipo de provas e em todos esses milhares de percursos fui sempre o traçador dos mesmos”, o traçador dos percursos para todas a finais do WMOC realizado em Portugal assevera: “Se me perguntarem qual é o segredo para uma boa traçagem de percursos, direi que é necessário ser conhecedor da modalidade, ter gosto e – importantíssimo! - arranjar tempo para o fazer. Já tenho ouvido colegas meus dizerem que há traçadores que traçam os percursos para um evento numa noite. Acho que é completamente impossível fazê-lo nesse curto espaço de tempo e bem.” É que, se “os atletas que participam nas nossas organizações merecem que lhes demos muitas coisas boas como simpatia, arenas agradáveis e tudo o resto que roda à volta do evento”, aquilo que verdadeiramente leva qualquer amante da Orientação a deslocar-se muitas dezenas ou centenas de quilómetros são, principalmente, duas coisas: “Bons mapas e bons percursos.”

Mas a vida não pára, bem como a actividade de Rui Antunes, ele que vem de elaborar dois mapas fora de Portugal e se prepara para avançar com novos projectos já este mês, em 2011 a partir de Maio e ainda “no início de 2012, fora do país, onde vou elaborar quatro a cinco mapas numa das mais belas e desafiantes zonas que conheço para a prática do nosso desporto.” A terminar, um lamento: “Sou Cartógrafo profissional e, sinceramente, gostaria de lhe estar neste momento a dizer que tinha um ou mais projectos em Portugal. Sou português e era aqui que gostaria de estar a dar o meu contributo para a Orientação. Mas apesar de todo o trabalho desenvolvido, tenho a sensação que não sou conhecido suficientemente para ser convidado a entrar em projectos de cartografia no nosso país.” Ainda assim, a esperança é a última coisa a morrer: “Espero que a situação se modifique e continuo a aguardar propostas em Portugal. Tenho em mente um projecto que poderá vir a ajudar nesse sentido, mas provavelmente só o irei propor lá para 2012.”



“A cartografia em Portugal está de parabéns e... recomenda-se!”

Com trabalho de campo de Armando Rodrigues e José Batista, desenho de Armando Rodrigues e Traçado de Percursos de Fernando Costa, o mapa de Aldeia da Mata (excerto acima), no qual teve lugar a primeira etapa da edição 2010 do Norte Alentejano O’ Meeting, mereceu igualmente a distinção de se colocar entre os seis melhores do mundo, de acordo com a votação do World of O. A este propósito, Armando Rodrigues mostra-se “muito feliz, pois mesmo não trabalhando para isso, gostamos de ver o nosso trabalho reconhecido. Foi o Mapa do NAOM mas poderia ser qualquer mapa executado por mim ou por outros cartógrafos Portugueses, pois a qualidade de alguns cartógrafos já é muito boa. A cartografia em Portugal está de parabéns e... recomenda-se!”

No tocante ao mapa distinguido, Armando Rodrigues adianta que “foi mais um dos muitos trabalhos elaborados em conjunto com o José Batista”, com a atenção principal a incidir sobre “os pormenores de referência que são do interesse dos atletas, tentando elaborar um mapa que não estivesse muito saturado de elementos, mas onde também não faltasse nada que fosse útil para a leitura do mesmo.” Referindo-se ao trabalho de campo – que decorreu entre Outubro de 2008 e Maio de 2009, com produção do mapa em Fevereiro de 2010 -, Armando Rodrigues adiante que “num mapa deste tipo e finalidade, não se torna diferente ao cartografar, pois todos os trabalhos nos merecem a mesma atenção e qualidade, embora alguns sejam mais do nosso agrado devido ao tipo de terreno que estamos a cartografar.” E deixa ainda uma palavra de parabéns “ao Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos e ao Fernando Costa pela escolha dos terrenos, pois sem um bom terreno não existem bons mapas.” Reafirmando a sua satisfação pela distinção, Armando Rodrigues termina com um desejo: “Gostaria que se repetisse este prémio, porventura já no próximo Portugal O’ Meeting 2011 ou então num qualquer mapa feito por cartógrafos portugueses.”


“O trabalho do traçador de percursos é geralmente um trabalho solitário”

Fernando Costa assinou, uma vez mais, o traçado de percursos do Norte Alentejano O’ Meeting e classifica como “fora de série” o facto de o mapa de Aldeia da Mata ter sido distinguido com o sexto lugar na votação. A este propósito, confidenciou: “O trabalho do traçador de percursos é geralmente um trabalho solitário e que acaba por ficar nas mãos duma só pessoa ou pouco mais.” No caso concreto deste mapa de Aldeia da Mata houve a necessidade de jogar com uma série de condicionalismos, “desde a necessidade de adaptar as partidas e chegadas ao espaço que tínhamos até ao enorme número de cercas que existiam no terreno”, mas Fernando Costa considera que o percurso eleito – correspondente à Elite Feminina – “era aquele que se apresentava realmente com um nível superior.” Mas não deixa de acrescentar, em jeito de dúvida: “Foi excelente a Helena Jansson ter elegido este mapa como o seu favorito em 2010. Se ela não falasse no mapa, se calhar nem tinha sido contabilizado.”

Mas porquê este percurso na Elite Feminina e não na Elite Masculina, por exemplo? A resposta, pronta, causará eventualmente uma certa estranheza: “O elevado número de participantes na Elite Masculina obrigou-nos a fazer outro ‘loop’ já depois do percurso estar feito. Quando somos obrigados a mexer no produto acabado não é nada fácil fazer com que as coisas fiquem como realmente desejaríamos.”


“Os atletas que nos procuram sabem que vale a pena vir a Portugal”

Na impossibilidade de contabilizar as vezes que se deslocou ao Crato ao longo do período de preparação do NAOM 2010 – “não tenho esse diário feito… às vezes lembrava-me disso mas sou muito desorganizado nesse aspecto e as situações depois passam-me” -, Fernando Costa recorda que este trabalho específico de traçado dos percursos começou em Outubro de 2009. Afirmando que gosta de ver os pontos no próprio terreno e que nunca traça um percurso sem ir ao campo primeiro, assegura que “se andar por ali e sentir que o terreno é bonito e agradável, os atletas também vão sentir isso.” No tocante a este mapa, acrescenta que “devido à sua extensão, obrigou-me a ir muitas vezes ao terreno, ver as passagens, os obstáculos, as opções”.

A terminar, quisemos saber a opinião de Fernando Costa sobre eventuais reflexos destas distinções no Portugal O’ Meeting que se avizinha. Carregada de optimismo, a resposta diz tudo: “Foi muito bom não apenas para o próximo POM mas sobretudo para Portugal e para as organizações portuguesas. Sou de opinião que a qualidade das anteriores edições do Portugal O’ Meeting e das provas WRE realizadas no nosso país têm tido sempre uma qualidade muito boa. Os atletas que nos procuram sabem que vale a pena vir a Portugal. E estas distinções só vêm reforçar esse sentimento.”

Saiba tudo sobre a “Corrida do Ano 2010” em http://news.worldofo.com/2010/11/25/the-course-of-the-year-2010-jukola/


[excertos dos mapas gentilmente cedidos por Rui Antunes e Fernando Costa]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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