sábado, 4 de dezembro de 2010

O MEU MAPA: LUÍS SÉRGIO, CAMPO DE ANTA E O PORTUGAL O' MEETING 2007




Respondendo a um desafio do Margarido para falar do “meu mapa”, entendi que seria interessante dar uma perspectiva diferente deste tema. Daí ter escolhido o mapa “Campo de Anta”, não só por ser um dos meus preferidos, mas também porque entendo que é meu, porque fui eu que o fiz.

Este mapa estava incluído num projecto de trabalho que incluía dois outros mapas na mesma área: Gestoso e Coelheira. Para os mais desatentos ou mais recentes na Orientação, relembro que se tratam de mapas usados no Portugal O’ Meeting de 2007, organizado pelo OriEstarreja e que se situam na Serra da Freita e Serra da Arada, em S. Pedro do Sul. Alguns dos acontecimentos referidos não aconteceram especificamente durante os Trabalhos em Campo de Anta, mas sim durante este projecto global.


A escolha das áreas

Cerca de um ano antes, fui contactado pelo OriEstarreja, informando que queriam a minha ajuda para identificar os melhores terrenos para a realização do POM, já que um outro técnico que se havia deslocado à área, tinha apresentado um relatório muito pessimista da qualidade do terreno, contrariando a opinião dos elementos do OriEstarreja. De forma a poder visitar mais rapidamente as áreas que me foram indicadas, optei por me deslocar de mota. Foi a primeira vez que me desloquei a esta região do país e fiquei agradavelmente surpreendido pela sua beleza agreste. Nesta visita identifiquei as várias áreas mais interessantes em termos técnicos e confesso que a minha opinião sobre a área em concreto de Campo de Anta não foi muito favorável, desde logo por ser uma área pequena, mas acho que também fiquei assustado com a perspectiva de ter que cartografar um terreno com aquela complexidade. Em boa hora houve por parte do OriEstarreja, uma insistência para avançar com este mapa.

Definidas as áreas para cada um dos eventos dei inicio aos trabalhos de campo, sem suspeitar que se iriam arrastar durante um período tão alargado, como acabou por acontecer. Os terrenos situam-se perto das 1000 m de altitude e rapidamente descobri que o clima ali pode ser muito rigoroso. Refiro que faço o Trabalho de Campo directamente num computador (uso um Tablet PC Motion L800), que como imaginam não é muito compatível com a humidade.

Arrumando já estas questões climatéricas, foram inúmeros os dias que passei à espera de melhoria de tempo, quer por estar a chover, quer por haver um nevoeiro cerrado que se prolongava por todo o dia. Em pleno Agosto houve alguns dias de trovoada intensa, que me impediram de trabalhar. Uma noite, quando estava a chegar, depois dum fim-de-semana em casa, encontrei a serra coberta por um ligeiro manto de neve, que rapidamente derreteu com o nascer do sol. Claro que durante o Inverno o frio foi uma constante, muitas vezes agravado pelo vento cortante.


O Trabalho de Campo

O mapa base que usei para o Trabalho de Campo limitava-se a fotografia aérea e altimetria com equidistância de 5 metros, de muito má qualidade em particular nas áreas arborizadas. Devido à complexidade da área, sobretudo no se refere a elementos rochosos, o Trabalho de Campo foi muito demorado, sendo de especial dificuldade nas zonas de floresta, já que não era possível ver quaisquer referências na foto aérea. O meu Tablet permite ligar um GPS via bluetooth, que permite ter uma mira no Ocad que indica a minha posição com um erro pequeno. O problema é que debaixo das árvores, onde seria mais necessária essa informação, o GPS tem má recepção e/ou perde o sinal ou a mira começa a vaguear por vários locais, o que como devem imaginar não é muito animador. A maior dificuldade neste tipo de terreno é a falta de espaço para representar os vários elementos. Neste caso a opção pela escala 1:7500 revelou-se muito útil, já que permitiu cartografar detalhadamente áreas complexas, que de outra forma teriam que ser generalizadas como área rochosa, o que iria inviabilizar a sua utilização para colocar pontos.


Os habitantes locais

Uma das coisas que mais valorizo nestes períodos é o contacto com a população local, aproveitando sempre para conhecer as suas histórias e tradições. Durante os trabalhos tive oportunidade de privar com várias pessoas, desde logo alguns pastores “colegas de infortúnio”. Não posso deixar de destacar a dona Milú e o Eduardo, do Parque de Campismo da Fraguinha onde eu ia tomar as refeições, com os quais privei durante agradáveis serões. Destaque também para os pitéus que a dona Milú me preparava de propósito, já que muitas das vezes era o único “cliente”.

Na segunda parte do projecto, já no Gestoso, passei a tomar as refeições na Tasca Serrana, no Merujal, sendo acarinhado pelo senhor Domingos e a sua esposa, que não se cansavam de manifestar a sua preocupação, por eu andar todo o dia sozinho pelos penhascos. Um dia que me atrasei um pouco para o almoço, já os fui encontrar em grande alvoroço e a pensar em chamar os bombeiros.



Acontecimentos dramáticos

Uma noite em que regressava de casa, vi um clarão indicador de incêndio florestal, que me pareceu ser na área de Campo de Anta. Quando me aproximei verifiquei que de facto estava a arder uma área que já tinha cartografado. Liguei para o 117 dando indicação da localização exacta do incêndio. Passado algum tempo chegaram os bombeiros, que rapidamente conseguiram dominá-lo, tendo apenas ardido uma área bastante pequena.

Noutra altura em que estava a dormir em Albergaria da Serra (ou das Cabras), uma noite fui acordado com gritos na rua. Levantei-me e fui espreitar à janela, descobrindo que uma casa do outro lado da rua estava a arder, embora estivesse uma noite chuvosa. Vesti-me rapidamente e fui para a rua onde já se encontravam várias pessoas. Fui então informado que estava um senhor dentro da casa, nesta altura já praticamente consumida pelas chamas. Tinha o meu carro estacionado a poucos metros da casa e decidi retirá-lo para mais longe. Em boa hora o fiz, pois numa altura em que já tinham chegado os bombeiros rebentou uma botija de gás que projectou diversos detritos pelo ar.

Enquanto estou a cartografar é normal cruzar-me com vários animais, que muitas vezes acabam por me assustar pois estou muito concentrado no trabalho. Aqui destaco os coelhos, que estão escondidos e esperam até ao último momento para sair a correr mesmo debaixo dos meus pés. Nesta área encontrei poucos animais, sendo de destacar ter-me cruzado com algumas raposas e também com várias cobras. Entre estas recordo uma víbora cornuda, que vi numa fresta da rocha e que é uma das raras cobras venenosas que temos em Portugal.


Conclusões

Este foi de facto um projecto especial, não só porque dele guardo muitas recordações, mas também pela qualidade técnica da área. Foi um prazer poder estar presente durante as competições e ver todos aqueles atletas a usufruírem do meu trabalho. Aqui não posso deixar de destacar o prazer que foi ouvir o Thierry Gueorgiou dizer que o mapa estava no seu top 20 de melhores mapas. Um outro elogio mais indirecto, mas nem por isso menos significativo, foi-me dado pelo Bruno Nazário, o Traçador dos Percursos. Após ter ido pela primeira vez ao terreno com o mapa, perguntei-lhe se tinha detectado alguma situação que necessitasse de correcção ou melhoria, ao que ele me respondeu que não era preciso rever nada. Num mapa desta complexidade, este foi de facto um louvor.

Depois desta descrição do trabalho da cartografia, suponho que alguns de vocês terão na mente a mesma pergunta que me fizeram ainda há alguns dias: Se gosto do meu trabalho? Como devem calcular, a minha resposta vai variando ao sabor das dificuldades que vou encontrando e alturas há em que estou verdadeiramente desanimado. Mas posso afirmar que gosto de cartografar, desde que sejam áreas interessantes tecnicamente, apesar de ser nessas que gasto mais tempo por km2. Claro que se não houvesse muitas vezes prazos apertados para terminar os mapas, o meu trabalho seria bem mais agradável.

A cartografia é uma actividade solitária, principalmente quando, como no meu caso, trabalho sozinho. Obriga a grandes períodos de tempo longe da minha maria e dos meus filhos, aos quais aproveito para agradecer a compreensão e o apoio. Não deixa de ser irónico que quanto mais tempo eu passo a cartografar um mapa (partindo do principio que o uso bem), menos tempo os atletas usufruem do meu trabalho, já que conseguem navegar mais depressa.

Luís Sérgio
ATV - Académico Torres Vedras
Fed 1209

PS: Escrevi este artigo em mais um desterro, desta vez em Gouveia, na Serra da Estrela, onde estou a terminar um mapa que, pelas suas excelentes características, pode até destronar o Campo de Anta…

3 comentários:

Bruno disse...

Infelizmente este Verão o fogo ganhou... Campo de Anta ardeu!
Ficam boas recordações e muitas horas passadas a disfrutar da beleza do terreno e do mapa. Obrigado Sérgio!

Ricardo Telmo disse...

E com tristeza que ouco que mais 1 excelente mapa ardeu, e revoltante a dimensao deste flagelo, e a falta de respostas concretas para o problema, nunca esquecerei essa manha gelada de nevoiro serrado, num dos mapas mais desafiantes que alguma vez vi.

Abraco

Rui Marques disse...

Muito bom artigo Luis. São histórias muito interessantes que fogem à prova em si, mas que fazem parte da orientação. São muito importantes de conhecer, pois mostra as dificuldades que os cartografos passam mas também os momentos bons. Obrigado por partilhares.

Os fogos são sempre um flagelo. É pena ver o estado gastar tanto dinheiro em submarinos e tgvs e depois não é capaz de gastar um centéssimo de um submarino na prevenção destes fogos.

Abraço,

PS: Margarido, porque não criar uma coluna para os cartografos? Mensalmente um cartografo deixar uma das suas muitas histórias sobre o seu trabalho.