terça-feira, 7 de dezembro de 2010

NA ORDEM DO DIA: JOSÉ FERNANDES E O PLANEAMENTO DE PERCURSOS DE ORIENTAÇÃO




Creio que poderia afirmar com segurança que os percursos são a essência de uma prova de Orientação, mas não vou fazê-lo por respeito à diversidade de opinião e preferências de toda a comunidade orientista. No entanto, não cometerei nenhuma heresia se disser que são uma componente essencial em qualquer evento.

Esta temática tem sido bastante discutida nos últimos anos e mais recentemente no âmbito da elaboração do novo Regulamento de Competições. As acções de reciclagem programadas para traçadores de percursos são reveladoras de que o tema suscita alguma preocupação por parte dos novos órgãos sociais da FPO.

Por me encontrar a trabalhar a mais de 800 quilómetros é-me muito difícil estar presente nessas acções, mas como o tema sempre me apaixonou, deixarei aqui algumas reflexões em jeito de contributo para que, em conjunto, sigamos rumo ao bom caminho, do qual em bastantes ocasiões temos andado bastante arredados.

Só falarei do planeamento de percursos para Orientação Pedestre, já que de BTT não tenho qualquer formação.

“Nos últimos anos penso que assistimos em Portugal
a uma deriva competitiva que assentou
essencialmente nas Selecções e Grupo de Selecção”


Quando se regulamenta que “os percursos de Orientação têm de ser adaptados aos escalões a que se destinam e têm de ter em conta a realidade nacional dos respectivos escalões”, que “os percursos de Orientação Pedestre devem ser traçados com o objectivo de serem cumpridos pelos respectivos vencedores dentro dos tempos definidos no Anexo III” e que “cada percurso de competição deve exigir ao atleta a utilização de diferentes técnicas de orientação e garantir a sua máxima segurança”, alíneas 2, 3 e 5 do artigo 13º do Regulamento de Competições, acredito que nenhum traçador de percursos será criticado se cumprir com estes três princípios. E - verdade seja dita -, em algumas provas, não muitas, eles foram tomados em conta.

Nos últimos anos penso que assistimos em Portugal a uma deriva competitiva que assentou essencialmente nas Selecções e Grupo de Selecção, esquecendo-se frequentemente os restantes escalões de competição, de formação e abertos. Como suporte desta afirmação, recomendo que se revejam os programas OTV e facilmente se verificará que a Orientação gravitou à volta de poucos intervenientes.

Se calhar deu-se a atenção devida às Elites, Juniores e Juvenis, mas o pecado do quase esquecimento dos restantes levou a que em muitos casos se banalizassem os percursos dos Veteranos e se pusessem os Iniciados e às vezes os Infantis a realizar percursos de elevada dificuldade para as suas idades e grau de desenvolvimento.

“Um percurso de Distância Longa nos mapas da Serra da Cabreira,
 Alvão ou Gerês nunca poderá ter a mesma distância de um percurso
 da mesma disciplina, num mapa de Mira, Marinha Grande ou mesmo do Alentejo”


Actualmente, a quantidade de escalões existentes na nossa Orientação permite a qualquer traçador de percursos efectuar o seu trabalho sem medos, desde que tenha sempre presentes os três princípios que acima enumerei, competindo depois a cada atleta inscrever-se no escalão que melhor lhe sirva ou assumir por inteiro a responsabilidade de não o fazer.

Vimos no passado serem definidas distâncias dos percursos para cada escalão e escreverem-se críticas nos fóruns de modalidade por essas distâncias não serem cumpridas em certas provas. Ora, relativamente a este ponto, o que haverá para dizer - e não será nada de novo para muita gente - é que a distância num percurso de Orientação terá que depender sempre das características do terreno da competição.

Como exemplo direi que um percurso de Distância Longa nos mapas da Serra da Cabreira, Alvão ou Gerês nunca poderá ter a mesma distância de um percurso da mesma disciplina, num mapa de Mira, Marinha Grande ou mesmo do Alentejo. Caso isso acontecesse, seria seguramente violado um dos princípios sagrados do planeamento de percursos, que é o de se respeitar o intervalo de tempo estabelecido para o vencedor.

“Um traçador de percursos tanto pode
‘salvar’ um mau mapa como ‘assassinar’ um bom”

Outro facto a que se tem assistido frequentemente é a proliferação de provas com um elevado número de pontos de controlo, independentemente das características do terreno de competição, originando em alguns casos que os percursos sejam uma espécie de corrida balizada.

Relativamente a este ponto diria que é possível planear bons percursos na grande maioria dos mapas existentes em Portugal, desde que se aproveitem as suas potencialidades e não se caia na tentação de trabalhar segundo um formato padrão previamente estabelecido ou de uma qualquer moda.

O terreno terá sempre que condicionar o trabalho do traçador de percursos, nunca o contrário e compete ao segundo aproveitar e se possível potenciar as qualidades do primeiro. Costuma dizer-se que um traçador de percursos tanto pode “salvar” um mau mapa como “assassinar” um bom, daí a sua enorme responsabilidade em relação aos atletas, mas ainda maior em relação aos cartógrafos.

“As questões de segurança numa prova são da maior importância,
 mas são frequentemente negligenciadas”


Cada percurso de competição deve exigir ao atleta a utilização de diferentes técnicas de orientação e garantir a sua máxima segurança. Para que esta máxima seja viável é necessário que os percursos tenham algumas pernadas que possibilitem aos atletas múltipla escolha de itinerário e isso, infelizmente, acontece com pouca frequência, salvo em alguns casos em que os traçadores de percursos são pessoas com bastante experiência na modalidade e de uma maneira geral com experiência internacional também.

As questões de segurança numa prova são da maior importância, mas são frequentemente negligenciadas. Como exemplo direi que uma grande lacuna no planeamento de percursos está na forma como às vezes se planeiam as travessias de algumas linhas de água em certas épocas do ano ou em zonas muito acidentadas do terreno, pelo perigo que encerram para a integridade física de muitos dos participantes de diversos escalões. Como é sabido, na Orientação temos participantes desde tenra idade até idade muito avançada.

Penso que estas situações se resolvem com passagens obrigatórias em zonas sem perigo com o recurso à montagem de pontos de controlo, para que não haja a tentação dos participantes se aventurarem por outros locais de passagem. Este recurso deve também ser utilizado nas provas de Sprint, sempre que seja necessário. Poder-se-á dizer que são “pontos de borla”, mas o que está subjacente à sua utilização é da maior importância.

“Recomendo vivamente a todos os traçadores de percursos
que nunca caiam na tentação de fazer
o seu trabalho quase exclusivamente em casa”


Recomendo vivamente a todos os traçadores de percursos que nunca caiam na tentação de fazer o seu trabalho quase exclusivamente em casa. Tudo o que se pensar e decidir em casa carece de confirmação no terreno e com o desenho do mapa, não apenas nos locais dos pontos de controlo, mas também pelo menos nos possíveis corredores de passagem dos atletas. Caso isto não se faça, o mais provável é que as surpresas desagradáveis aconteçam. Que isto dá trabalho, com certeza que dá, mas quem não quiser tê-lo, melhor será não se aventurar neste tipo de actividade.

Ter em conta a realidade nacional quando se planeiam percursos, significa isso mesmo, ter em conta a realidade nacional. Essa realidade, mais uma vez na minha opinião, é a de que não somos de maneira nenhuma um país de primeiro nível internacional, mas arriscaria dizer que integramos um grande conjunto de países que constituem uma espécie de segunda divisão. Este diagnóstico vale para todos os escalões da nossa Orientação, desde as Elites até aos Infantis, passando por todos os restantes, e é sustentado pelo desempenho dos nossos atletas em representação das Selecções em provas oficiais ou em outras provas internacionais, bem como a participação dos nossos Veteranos nessas mesmas provas internacionais e também nos Campeonatos do Mundo.

Assim sendo, não entendo que em algumas provas se planeiem percursos de primeiríssimo nível para as Elites, Juniores e Juvenis isto no que diz respeito à distância. Se queremos evoluir, esta prática aceita-se; mas o que não é aceitável é que depois se agrupem no mesmo percurso D17 com H50 ou H17 com H45.

“Para que esta situação espelhasse a realidade portuguesa,
a primeira classificada de D17
teria que ganhar 10 minutos de vantagem ao Albano João”


Poderia dar outros exemplos, mas estes são suficientes para provar não ser possível cumprir com os intervalos dos tempos dos vencedores especificados no Anexo III do Regulamento de Competições e praticados na maioria dos países onde a Orientação está desenvolvida.

Para que esta situação espelhasse a realidade portuguesa, a primeira classificada de D17 teria que ganhar 10 minutos de vantagem ao Albano João no mesmo percurso ou o primeiro H17 teria que ganhar ao Manuel Luís ou ao Mário Duarte pelo menos 5 minutos. Perdoem-me estes colegas por ter utilizado os seus nomes e todos os restantes, porque o meu objectivo não é fulanizar estas questões. Claramente a realidade nacional não se reflecte em situações como a que referi, a qual foi prática corrente nas últimas épocas e não estou seguro que não tenha feito escola.

Poder-se-á não concordar em planear percursos para a realidade portuguesa, mas a verdade é que na devida proporção ela não é muito diferente de maioria dos países onde a Orientação está mais desenvolvida. Assim, a função do traçador de percursos não se esgota no planeamento, mas também na adequação dos percursos aos respectivos escalões e deverá colocar em todos o mesmo cuidado e respeito.

“Estas são reflexões de uma pessoa
 que está há uma década e meia na Orientação (…)
e cujo trabalho já foi repetidas vezes analisado, apreciado e criticado”


Sobre planeamento de percursos muito havia ainda para dizer, mas não devo abusar da paciência de quem consiga ler tudo o que escrevi e de alguém que lhe queira dar alguma espécie de uso.

Em jeito de conclusão direi que estas são reflexões de uma pessoa que está há uma década e meia na Orientação, que desde sempre esteve envolvido em organizações algumas delas muito grandes e cujo trabalho já foi repetidas vezes analisado, apreciado e criticado, mas que ainda hoje mantém a mesma vontade de sempre: A de aprender e de se aperfeiçoar naquilo que faz nesta e por esta modalidade.

Tudo o que aqui escrevo reflecte apenas a minha opinião e alguma critica que se consiga descortinar não é dirigida a ninguém em particular.

José Fernandes
.COM - Clube de Orientação do Minho
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4 comentários:

antunes disse...

Parabéns Zé;

Li com atenção tudo o que referiste e concordo com praticamente tudo.
Fiquei um pouco confuso quando referes que ao colocarem o D-17 no e o H-50 no mesmo pacote(percurso) isso só seria viável se a melhor menina ganhasse 10 minutos ao Albano que normalmente ganha esse escalão. Mas então assim é que não faria mesmo qualquer sentido ela lá estar.O ideal seria que o tempo dos dois fosse o mais próximo possível para fazer sentido esse agrupamento(este e todos os outros).Isto para além de como penso que também referes, o aspecto técnico do percurso dever ser um pouco diferente(mais técnico e menos físico para os veteranos).Penso mesmo que traçadores menos experientes se baseiam muitas vezes nas distancias esquecendo-se do aspecto que atrás referi.
O traçador também é muitas vezes criticado na minha opinião injustamente (principalmente por atletas menos capazes) porque estes não raras vezes fazem tempos muito para além do previsto, esquecendo-se eles que os tempos planeados para cada percurso é para o vencedor e só assim se justifica que haja escalões de competição e outros.
Acho que deste um valioso contributo com os teus comentários.

Cumprimentos
Rui Antunes

Ori-BTT de Rosa Choque disse...

Muito obrigada por ter exposto tão bem os vários aspectos a ter em conta, bem como o que tem funcionado pior nos últimos tempos.
Estou-lhe particularmente grata por ter tocado na questão dos traçados dos veteranos e dos mais jovens, que é um ponto que me é particularmente caro. Neste particular, parece-me importante que o Regulamento de Competições tenha tabelas para tempos dos vencedores mais adaptadas aos escalões etários do que sucedia no passado. Resta agora saber em que medida é que isso vai ser tido em conta e até que ponto é que os envolvidos têm os conhecimentos técnicos necessários para avaliar as médias de progressão no terreno dos provavéis vencedores...
Por outro lado, pegando na observação de quem me antecedeu, provavelmente os agrupamentos dos vários escalões em termos de percursos também é um ponto a rever. Por exemplo, no BTT, o meu escalão (D45) está agrupado com o dos juvenis F/M e com os juniores F, o que também não faz nenhum sentido porque a diferença nas capacidades físicas é abissal. Por outro lado, o nosso percurso deveria ser mais difícil tecnicamente do que o deles, o que também fica inviabilizado com este "agrupamento".
Cumprimentos
Margarida Novo

fernando disse...

Parabéns pelo tema e pela forma como foi aqui explicado.
Relativamente aos agrupamentos de escalões o que dizem os manuais são meras ajudas para aconselhar a juntar os escalões mais parecidos ou equivalentes.
Qualquer traçador pode traçar um percurso único para cada escalão. Em Portugal como existem poucos atletas, obriga que desta forma fiquem poucos participantes em alguns percursos.
Por vezes é mais útil fazer mais um ou dos percursos do que agrupar escalões que com níveis muito diferentes.

pontoCOM disse...

O tema é importantíssimo e o que o Zé Fernandes refere relativamente ao agrupamento de escalões de facto acontece.

Mas existem competições menos importantes aonde por vezes mais vale planear menos percursos do que sacrificar a sua qualidade, por falta de tempo e recursos.