domingo, 19 de dezembro de 2010

HIGINO ESTEVES: A ORIENTAÇÃO TEM TODAS AS POTENCIALIDADES PARA SE AFIRMAR COMO O DESPORTO DO SÉCULO XXI EM PORTUGAL!




No dia em que se comemora o 20º aniversário da Federação Portuguesa de Orientação, o Orientovar abre espaço a uma rubrica intitulada “FPO – 20 Anos”. Periodicamente, aqui se darão a conhecer memórias e documentos, ideias e opiniões daqueles que ajudaram a construir e a consolidar a nossa Orientação. Temos a honra de abrir esta rubrica com Higino Esteves, Presidente da Federação Portuguesa de Orientação de 1994 a 2002 e uma figura incontornável na história da modalidade em Portugal.


Orientovar - Tomou sobre os ombros os destinos da FPO entre 1994 e 2002. Nesses tempos, quais os grandes desafios que se colocavam à Orientação?

Higino Esteves - O grande desafio que se colocava era, sem dúvida, a divulgação junta da Sociedade Civil, nomeadamente nas Escolas, e a implantação da Orientação como modalidade desportiva, com eventos de qualidade e que atraíssem praticantes em todo o território nacional. Cumpre lembrar que, em 1994, apenas quatro clubes estavam filiados na FPO: ANORT, ASORT, CIMO, AA MAFRA. A Orientação estava a dar os primeiros passos a nível nacional e o esforço no âmbito da divulgação foi enorme, a maioria das vezes à custa da boa vontade e a expensas dos próprios formadores. A minha colaboração com a FPO havia começado em 1991, quando o seu primeiro presidente, Camilo Mendonça, me convidou para coordenar o Departamento de Formação. Corríamos Portugal de lés-a-lés a dar Cursos e Acções de Formação em Escolas, Colectividades, Associações de Bombeiros, etc.

Tratámos pois, a partir de Março de 1994, de dar seguimento ao trabalho que vinha sendo desenvolvido no âmbito escolar (área onde Camilo Mendonça desenvolveu, na minha opinião, um trabalho meritório na génese do desenvolvimento da modalidade) e, ao mesmo tempo, pusemos em andamento o primeiro Campeonato Nacional de Orientação (o que hoje se designa por Taça de Portugal), com um conjunto de eventos que a FPO passou a apoiar com vista a elevar a qualidade organizativa dos mesmos. Ao mesmo tempo impunha-se a congregação, em torno da FPO, do trabalho que ia sendo feito por iniciativa de alguns voluntários e clubes. Lembro-me particularmente do Ori-Estarreja, que na época já vinha fazendo um trabalho meritório, mesmo antes de qualquer ligação à Federação.


“Começámos a dar provas que foram sendo
reconhecidas pela Administração Pública”

Orientovar - Como era, nessa altura, o dia-a-dia da FPO?

Higino Esteves - Os primeiros tempos foram muito difíceis. Precisávamos de uma Sede, de um telefone, um fax, um computador, de um técnico a tempo inteiro, de um serviço administrativo, de uma viatura pintada de branco e laranja… Quanto a Sede, não só não a tínhamos como não possuíamos verbas para suportar uma renda mensal. Valeu a boa vontade da Direcção dos Amigos do Atletismo de Mafra, que nos cederam um pequeno espaço da sua Sede. Um ano depois, em Março de 1995, inaugurávamos a Sede da FPO no local onde hoje ainda funciona. Foi um momento importante, que coincidiu com a realização do Mafra O’ Meeting (que no ano seguinte passou a designar-se Portugal O’ Meeting) e que contou com a presença do então Secretário-Geral da IOF, Lennart Levin, bem como dos Dirigentes dos Clubes – que nessa altura julgo eram já 14 ! - e de vários representantes das entidades desportivas nacionais. Começámos a dar provas que foram sendo reconhecidas pela Administração Pública e que possibilitaram apoios com vista à contratação de dois técnicos e uma funcionária administrativa e a FPO passou a funcionar como uma Federação Desportiva ao serviço dos praticantes e também, e muito, dos potenciais praticantes.


“O pior… A falta de lealdade
e de honra à palavra dada”

Orientovar - Fazendo apelo às suas memórias, entre momentos seguramente muito bons e menos bons, quais aqueles que mais o marcaram?

Higino Esteves - Os bons, por ordem cronológica. Participação no Congresso da IOF, em Julho de 1996, em Jerusalém (primeira foto abaixo), para onde o Francisco Pereira, então Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da FPO e eu fomos defender três tímidas candidaturas portuguesas: A minha candidatura a membro do Conselho da IOF (nunca um latino havia sido eleito); a candidatura para a realização, em Portugal, do Congresso da IOF comemorativo do Centenário Mundial da Orientação; e a candidatura para a realização, também naturalmente em Portugal, da Final da Taça do Mundo 2000. Apesar da elevada concorrência de algumas grandes potências mundiais da nossa modalidade, com alguma (grande!) surpresa nossa, ganhámos as três candidaturas! Portugal estava, definitivamente, no Mapa da Orientação Mundial! Depois recordo também a fundação da Confederação Brasileira de Orientação, em 11 de Janeiro de 1999 (segunda foto abaixo). Estive lá em representação da IOF, mas naturalmente também como Presidente da FPO e foi com muita satisfação e orgulho que vimos nascer uma organização que viria a permitir o melhor desenvolvimento da Orientação num País irmão e com quase 200 milhões de pessoas a falar português. Também a vitória do Joaquim Sousa na Taça dos Países Latinos, em Outubro de 1999. Foi o primeiro grande resultado internacional de Portugal na categoria Elite, numa altura em que estávamos ainda numa fase embrionária do desenvolvimento de projectos para a Alta Competição.

O pior… A falta de lealdade e de honra à palavra dada, por parte de dirigentes da Administração Pública Desportiva no apoio a conceder à FPO para a realização do Congresso da IOF comemorativo do Centenário Mundial da Orientação. Os Planos de Actividades e Orçamentos são para o ano seguinte e nós necessitávamos, em 1996, de garantias de apoio para este evento a realizar em 1998. Incentivados pela Administração Pública Desportiva, e prometido que estava o necessário apoio financeiro, avançámos com a candidatura. Ganhámos. Organizámos um Congresso memorável, em cuja Cerimónia de Encerramento esteve presente o Senhor Secretário de Estado do Desporto e, depois, o apoio financeiro não foi atribuído, o que veio a originar grandes dificuldades orçamentais à modalidade.


“Tive o privilégio de trabalhar
com uma Equipa de Gigantes”

Orientovar - Em 2002, na altura do adeus, qual era o seu estado de espírito?

Higino Esteves - O meu estado de espírito era de satisfação pelo dever cumprido e de confiança plena no futuro da Orientação. Tive o privilégio de trabalhar com uma Equipa de Gigantes. Como pessoas, como dirigentes desportivos, como atletas de Orientação.
Fui eleito Presidente da Mesa da Assembleia-Geral na mesma lista em que Augusto Almeida era eleito Presidente da FPO o que, de certa forma, significou para mim que os Dirigentes e Praticantes reconheciam o nosso trabalho. Fiz muitos amigos na Orientação e, apesar de em determinados momentos, termos tomado decisões menos “populares”, não tive nem tenho nenhum inimigo. Nem na Orientação, nem no Mundo!

Orientovar - De que forma acompanhou a evolução da Orientação em Portugal nos oito anos seguintes?

Higino Esteves - Devido à minha ausência de Portugal durante três anos, perdi a ligação ao quotidiano da modalidade. Mas sempre fui acompanhando as coisas pela internet e, claro, pelo contacto com alguns grandes amigos, principalmente a Isilda Santos e o Luís Sérgio, e foi sempre com muita alegria que vi a modalidade crescer, amadurecer e começarem a despontar novos talentos.


“Já não ouvimos tão amiúde a pergunta
‘O que isso da Orientação?’ ”

Orientovar - Comparativamente ao "seu" tempo, quais as grandes diferenças para a Orientação de hoje?

Higino Esteves - Sem dúvida, o enorme crescimento do nível competitivo nas diversas categorias e disciplinas da Orientação, com particular relevo para a Orientação em BTT. Mas também a elevada qualidade técnica dos grandes eventos organizados em Portugal e a organização e a qualidade do trabalho de diversos clubes nacionais, os quais demonstram uma maturidade e um “profissionalismo” muito elevados, não estando já dependentes dos orçamentos e apoios da FPO. Vejo com grande alegria a participação dos nossos atletas e clubes em provas por esse Mundo fora, em campos de treino, em intercâmbios com clubes de outros Países. Isto era um sonho que tínhamos desde 1994, quando dois orientistas e eu agarrámos nos equipamentos de Orientação e duas tendas de campismo e fomos participar nos 5 Dias da Suécia (terceira foto abaixo). Lembro, com alguma emoção, as conversas que tivemos na época: “Há-de chegar o tempo em que muitos portugueses participarão em eventos destes por essa Europa fora”. Estas participações não dependentes de apoios ou iniciativas da FPO e a autonomia e vontade de clubes e atletas têm um significado enorme para o crescimento da Orientação em Portugal.

Orientovar - Que avaliação faz do momento presente da Orientação em Portugal?

Higino Esteves - A modalidade está implantada em Portugal. Já não ouvimos tão amiúde a pergunta “O que isso da Orientação?” O nível competitivo dos nossos atletas nas diversas disciplinas está a crescer de forma exponencial. Os desafios para a actual Direcção são grandes, porquanto já atingimos um nível organizativo que é irreversível e que tem que continuar a evoluir positivamente. Temos que “democratizar”, dentro da FPO, a importância das diversas disciplinas da modalidade. Orientação de Precisão, Orientação Pedestre, Corridas de Aventura ou Orientação em BTT são disciplinas que merecem igual atenção para um crescimento sustentado e que nunca originem cisões no seio da Orientação Portuguesa.


"A Orientação tem todas as potencialidades
para se afirmar como
o Desporto do século XXI em Portugal!"

Orientovar - Numa altura em que a FPO comemora 20 anos, que espécie de emoção isto lhe causa, tendo em conta que foi uma peça fundamental em todo o processo evolutivo?

Higino Esteves - É um aniversário em que comemoramos o suor e as lágrimas (de alegria ou de desalento) de todos quantos dedicaram e dedicam muito do seu tempo, esforço e saber à Orientação em Portugal.

Orientovar - Que perspectivas se abrem ao futuro da Orientação em Portugal?

Higino Esteves - Temos que permitir e até incentivar a ligação Atleta/Federação, sem descurar o papel dos Clubes, mas de modo a que todos se sintam parte de um processo. Os Dirigentes da FPO não são, nem podem ser, políticos distanciados do cidadão. Temos que evitar e, quando necessário, até corrigir, palavras como “eles lá na Federação…”. A Federação Portuguesa de Orientação é uma Instituição aberta a todos os Atletas, Técnicos e Dirigentes e, como tal, é “património” de todos nós. Os índices de prática desportiva em Portugal continuam a crescer e a Orientação tem todas as potencialidades para se afirmar como o Desporto do século XXI em Portugal!






[Fotos gentilmente cedidas por Higino Esteves]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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4 comentários:

Manuel disse...

Foi fantástico o crescimento que a modalidade teve nos últimos 15 ou 16 anos. As declarações de Higino Esteves ilustram-no bem. Um abraço para ele e parabéns ao Margarido, por mais esta excelente iniciativa.
Manuel Dias

Nuno Rebelo disse...

Uma entrevista muito interessante, para verem as diferenças e dificuldades que havia á 15 anos atrás.

Carlos Pires disse...

Obrigado, Higino, até pelas memórias!
É pena que pessoas marcantes da Orientação se afastem magoadas. Perdeu-se o Camilo, perdeu-se o Cândido, "escondeu-se" o Higino (ainda bem que reaparece) e agora estamos a perder o Almeida, isto para não falar de muitos outros técnicos e dirigentes de clubes.
Será solução criar um Conselho de "Conselheiros"?
Bom ano novo
José Carlos Pires

Gino disse...

Olá amigos. Não gostei do "escondeu-se"! Ausente do País até finais de 2006... regressado às filieiras do Exército Português, optei pelo serviço no CTOE em Lamego, com uma missão no Kosovo em 2008 /2009... Cursos e treino operacional, páraquedismo... ainda tive oportunidade de impulsionar e coordenar o "Raid Aventura Ranger /Campeonato Ibérico CA/2009". Quando posso estou presente como Orientista.
Um Conselho Honorário da Orientação, com funções exclusivamente consultivas, é uma ideia já abordada no passado e que, com o amadurecimento da Modalidade, pode agora ser útil. Abraço e Votos de Bom Ano 2011 para Todos.
P.S. Joaquim Margarido, votos que em 2011 possamos continuar a contar com o seu empenhamento que tanto tem contribuido para a credibilidade da Orientação.