sábado, 6 de novembro de 2010

O MEU MAPA: JOAQUIM SOUSA, SIGUEIRO - OROSO E A V TAÇA DOS PAÍSES LATINOS

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Quando me foi lançado o repto para escrever sobre um mapa que me pudesse dizer algo sobre a minha vida na Orientação, logo me surgiram inúmeras ideias.

Pensei em escrever sobre a minha primeira participação na Selecção Nacional no Campeonato Ibérico em Entre-os-Rios, em 1993, mas lembro-me pouco sobre isso (apenas que o mapa era muito mau). Depois ainda pensei em alguns mapas de Espanha, principalmente num em especial em que a minha participação nesse evento era apenas de treino e acabei suspenso pela FPO por me ter recusado a correr a estafeta; mas isto são tristezas, principalmente devido à forma como as coisas se desenrolaram. Também pensei num certo mapa e prova no Gerês em que devido à anulação dum percurso - mal, muito mal anulado, só foi anulado para favorecer certos atletas! - perdi a Taça de Portugal por apenas um segundo; mas isso também são tristezas. Pensei também em inúmeros mapas no Alentejo, mapas que foram quase todos de sucesso para mim pois vencia na altura quase todas as provas aí organizadas, nomeadamente o meu primeiro titulo Nacional.

Tinha também em mente o mapa da minha única final A no CISM (Conseil Internacional du Sport Militaire) na Croácia em 1998, em que o terreno era muito fechado e constituído na sua totalidade por depressões e de onde saí da prova pior do que tinha entrado, sem perceber patavina. Depois tinha mapas da Escócia em 1999, terreno muito duro fisicamente e muito técnico devido às muitas reentrâncias pequenas nas encostas e por ser muito fechado também, naquele que foi o Campeonato do Mundo onde me senti mais mal tratado pela FPO; estive eu e a Emília Silveira durante todo o evento sozinhos enquanto o representante Federativo andava de carro na companhia de outros membros da IOF e ainda por cima, depois de eu não ter conseguido um lugar de relevo, ouvi da boca do Director Técnico Nacional que se fosse ele a correr tinha feito melhor. Um pouco frustrante… Também podia falar do Suécia (O-Ringen) em 1998, onde corri nos mapas mais técnicos até aos dias de hoje e onde nunca tinha visto tanta gente junta (cerca de 15 000 pessoas nesse ano) para fazer Orientação; lembro-me sobretudo de, depois de ter terminado a minha prova, ficar parado junto ao ponto 200 e a cada segundo saia uma pessoa da floresta para acabar a prova, mas o mais impressionante é que quando eu estava a correr quase não tinha visto nenhum atleta (só os que passavam por mim, eh eh eh!).

Podia sem duvida falar dos mapas mais recentes, do mapa da Senhora da Conceição (Santo Tirso) onde venci o meu primeiro título ibérico em 2000 e onde tive a minha lesão mais grave na Orientação (espetei um pau na perna) e fiquei de fora do Campeonato Ibérico em Vendas Novas. Ou dos três WMOC em que participei, na Áustria onde fiz o 17º lugar, o melhor resultado de sempre nestes Campeonatos e igual ao melhor resultado conseguido por um atleta português nos WOC (este foi em BTT) ou no WMOC em Portugal também com um 17º lugar, ou então nos mapas da Austrália em 2009, onde consegui o 5º lugar no Sprint e o 6º lugar na Longa, mas que para a nossa FPO não passou apenas de uma prova regional, pois ainda estou a espera de ver estes meus resultados reconhecidos pela entidade oficial em Portugal (devem estar à espera que uns certos atletas lá cheguem para fazer melhor que eu). Enfim, ainda tinha muito que falar (e escrever) mas vou apenas falar de um mapa, que nem era grande coisa para se fazer Orientação, mas dessa prova saiu a minha maior vitoria e um título que pôs Portugal no mapa Europeu em termos de resultado.


A história reporta-se ao mapa de Sigueiro – Oroso e à V Taça dos Países Latinos e Troféu Internacional Xacobeo ‘99 (La Coruña, Espanha), disputada nos dias 09 e 10 de Outubro de 1999.

A equipa portuguesa saiu, como de costume, de carrinha na sexta-feira de Mafra, passando por Estarreja onde entrou quase toda a equipa. Já não me lembro se ainda fomos a tempo de fazer o Model Event, mas quase de certeza que não. A equipa era constituída pelo Luís Sérgio (Responsável FPO, DTN), Emília Silveira e Joaquim Sousa (Seniores), Rafaela Rua e Bruno Nazário (Juniores) e Mónica Teixeira e Pedro Rua (Juvenis). Eu e a Emília éramos do Lusitano de Évora e o resto dos atletas do Ori-Estarreja.

O mapa de Sigueiro – Oroso era muito mau para se fazer Orientação, com muito mato e com muitos caminhos. No Sábado fiz uma prova normal, apenas um pequeno erro no ponto 7º, o que me valeu o 2º lugar na Geral, a apenas 2 segundos do vencedor da etapa, o francês Thierry Gueorgiou (penso que no seu 1º ano de Sénior) e à frente do belga Fabien Pasquasy.

No Domingo fiz mais uma vez uma prova muito boa. Julgo que não estava (ainda) ciente do que tinha feito no Sábado - estar em 2º lugar numa prova era perfeitamente normal - e por isso parti normalmente, sem nenhum ‘stress’, apanhei o italiano Marco Seppi que tinha partido cinco minutos à minha frente e continuei a minha prova.

Para o 5º ponto lembro-me perfeitamente de descer o limite de vegetação em direcção a uma zona lavrada e a um rio; na zona lavrada vi várias pegadas dos atletas que tinham partido a minha frente o que me fez pensar que estava a fazer uma boa opção, mas quando dei por mim estava em frente a um rio com uns 10 metros de largura e não fazia a mínima ideia da profundidade. Dei uma olhadela ao mapa, não vi nenhuma passagem e sendo assim, não vendo outra alternativa e sabendo que os outros tinham chegado até ali devido às pegadas na zona lavrada, resolvi atravessar o rio.

Desci o morro, fui entrando na água mas quando dei por mim estava completamente gelado (era Outubro) com a água pelo pescoço, com o cartão de picotar numa mão, o mapa na boca e a dar lanço com o outro braço para me poder deslocar, pois quase não tocava com os pés no fundo. Mas lá cheguei ao outro lado e, depois de dar graças a Deus por não ter vindo uma onda que me levasse, prossegui a minha prova, mas um pouco desconfiado; pois se antes do rio o terreno estava cheio de pegadas, deste lado o lavrado estava completamente limpo e as únicas pegadas eram as que eu ia deixando. Ainda pensei nisso durante uns segundos… Como era possível eles terem atravessado o rio e não ter passado por ali, ainda por cima o ponto 5º era sempre em frente a partir da zona em que eu atravessei o rio?

Continuei a prova e nunca mais pensei no assunto. Até ao final fui passando alguns atletas e entre os pontos 16º e 17º (podem ver no mapa) descia eu a zona amarela e resolvi cortar na esquina da zona branca. Esse pequeno atalho foi o suficiente para torcer o pé e manter as sequelas durante três anos. Ainda fui até ao ponto um pouco a mancar, mas logo me passou a dor e continuei até ao fim.

Quando cheguei ao fim o Luís Sérgio disse-me que tinha ganho a prova por cinco minutos de diferença para o francês, uma noticia perfeitamente normal para mim o que me levou a ter uma reacção um pouco estúpida mas originada por, se calhar, a falta de atenção que me era dada na altura e que estava a começar a mudar nesse momento. Mas só porque eu tinha vencido a TPL o que, confesso, para mim não tinha sido nada de mais.

Foi um resto de dia diferente. Parabéns de toda a gente e uma surpresa - que ainda hoje me lembro e lembrarei até morrer -, foi as miúdas do Ori-Estarreja que fizeram uma coroa de fetos e me foram entregar quando eu subi ao pódio. Foi sem dúvida inesquecível! E mesmo depois, quando uma miúda muito querida se agarrou a mim a chorar (o que me deixou na altura um pouco confuso), mas quando questionei os pais dela eles disseram-me que ela estava a chorar de alegria por eu ter ganho a prova. Acho que foi nesse momento que comecei a ter a noção do meu resultado. O espanhol Pedro Pasión também me deu os parabéns e perguntou-me na altura quanto ía ser a ajuda do Estado português por eu ter ganho uma prova daquelas. Fiquei surpreendido com a pergunta e disse-lhe que em Portugal não havia nada disso; aí foi ele que ficou surpreendido, pois se fosse um espanhol a ganhar tinha o estatuto de Alta Competição.

De regresso a Portugal fomos conversando sobre o resultado e percebi que afinal até tinha feito algo de muito bom, pois de todas as participações até esse ano não tínhamos nenhum título (apenas dois terceiros lugares) e eu tinha ganho logo o Ouro!!! Também fiquei a saber que o rio afinal tinha uma ponte por onde todos os atletas passaram, menos eu (pelos vistos). É que quando estávamos a discutir as opções na carrinha e eu lhes disse que os espanhóis eram doidos por obrigar os atletas a atravessar o rio, ficaram todos muito admirados e perguntaram se eu não vi a ponte. Foi quando abri o mapa e lá estava ela, ali tão pertinho do local onde eu passei o rio.

Seguiram-se as homenagens, primeiro da FPO, em que no discurso da entrega do Troféu, o Presidente da altura disse que, se eu tinha ganho, tinha sido apenas com o meu esforço e com o meu trabalho, pois a FPO não tinha contribuído em nada para a minha participação nesse evento, em termos de forma física e técnica. Foi uma frase que me deixou orgulhoso por, pela primeira vez, ver o meu trabalho reconhecido e não ver outros a ficar com os louros do meu trabalho. Fui também homenageado pelo Lusitano de Évora, e só depois destas duas homenagens e depois de receber os parabéns em todas as provas que participava (uns dois meses depois) é que comecei a ter consciência do resultado alcançado. Ou, por outro lado, o resultado que os atletas antes de mim não conseguiram alcançar, embora teoricamente - e na ideia de certas pessoas - fossem muito melhores que eu.
E foi assim! Um mapa fraco, num fim-de-semana excelente e uma vitória inesquecível, agora, para inveja de muita boa gente.

A título de curiosidade, aqui ficam os resultados dos atletas portugueses: Joaquim Sousa 1º, Emília Silveira 5ª, Pedro Rua 6º, Mónica Teixeira 6ª, Bruno Nazário 6º e Rafaela Rua 6ª.

Joaquim Sousa
COC – Clube de Orientação do Centro
Fed 1281


[fotos e mapas gentilmente cedidos por Joaquim Sousa]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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3 comentários:

antunes disse...

Tive o prazer de estar presente na altura e na verdade como diz o Sousa, não nos apercebemos do seu excelente resultado.O Thierry era já na altura um atleta fantástico, mas como junior e por isso como tantos outros podería não vir a passar disso mesmo.
Os anos seguintes, felizmente vieram a confirmá-lo como o atleta de eleição que hoje conhecemos.
Parabéns ao meu amigo Joaquim por este e todos os seus imensos feitos posteriores, que infelizmente como ele refere, raramente foram enaltecidos como ele merecería.

Rui Antunes

José disse...

Ainda hoje o Sousa, apesar de ja estar na fase descendente da sua carreira, é um atleta admirado também no estrangeiro. Podemos confirma-lo nos últimos WMOC`s onde o Sousa continua a fazer excelentes
resultados, agora no H40.
O Sousa continua a fazer história na nossa orientação.
Um abraço do Velho

Joaquim Sousa disse...

Epá, até eu fico orgulhoso ao ler o texto que escrevi!!!

Joaquim Sousa