sábado, 20 de novembro de 2010

O GRUPO DESPORTIVO DOS QUATRO CAMINHOS E A VITÓRIA NO RANKING DE CLUBES DE ORIENTAÇÃO PEDESTRE 2009/2010




Lançado na época de 1997/1998, o “ranking” nacional de Clubes de Orientação Pedestre conheceu um domínio do Ori-Estarreja nos primeiros quatro anos. Seguiu-se o “reinado” COC com seis vitórias em oito temporadas, apenas interrompidas em 2005/2006 e em 2006/2007 pelo CPOC. Na época que agora chega ao fim, porém, há um novo nome que se impõe nesta restrita lista de vencedores: Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos. A colectividade da Senhora da Hora é a nossa convidada de hoje no Orientovar e as despesas da conversa ficam por conta de Fernando Costa.


Orientovar - Que significado tem para o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos esta primeira vitória no ‘ranking’ nacional de clubes?

Fernando Costa - Não consigo perceber muito bem o peso que esta vitória terá na concepção das pessoas. Não se fala muito nisto… A maior parte das pessoas nem sabe quem venceu o ‘ranking’, até porque este ano não houve sequer a possibilidade de o publicar. Os títulos nacionais são, seguramente, muito mais importantes. Os campeões são conhecidos no imediato e são festejados, os títulos têm outro impacto. Nesse particular aspecto, este foi um ano muito rico para o clube, já que tivemos a felicidade de garantir vários títulos, quer individuais, quer colectivos. Quanto à vitória no ‘ranking’ de clubes, claro que é sempre um motivo de orgulho, sobretudo para aqueles que trabalham ao longo do ano inteiro e acabam por ver reconhecido todo o seu empenho e esforço. Mas esta satisfação acaba por ser meramente interna, não tem qualquer projecção para o exterior nem ninguém reconhece o clube por causa disso.

Orientovar - Houve algum segredo na base desta vitória?

Fernando Costa - Penso que o factor mais importante residiu no equilíbrio entre o número de jovens, seniores e veteranos, por um lado e também no número idêntico de homens e mulheres. A percentagem de mulheres no nosso clube é, relativamente à generalidade dos clubes, muito elevada. Reconhecemos que há sempre um grande coeficiente de atrito, há atletas que entram e outros que saem, mas temos conseguido manter um número de atletas praticamente constante ao longo destes anos.


“As coisas estão muitas vezes ancoradas em duas ou três pessoas”

Orientovar - Quais as grandes áreas de actuação do Clube?

Fernando Costa - Como se deve imaginar, os clubes de Orientação não têm uma estrutura profissional e as coisas estão muitas vezes ancoradas em duas ou três pessoas. Mesmo que o queiramos, não temos a disponibilidade de tempo e de recursos humanos para avançarmos com os projectos duma forma sólida e consistente. Mas respondendo directamente à questão, em termos do clube, nos últimos anos, houve um grande desenvolvimento na área do Treino, graças sobretudo ao trabalho do António Marcolino, uma peça fundamental na actual dinâmica do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos. A motivação para o treino diário tem produzido um acréscimo de qualidade enorme e os resultados estão à vista. Temos também a parte da Organização de eventos, uma área vital para a sobrevivência do clube, que nos ocupa uma grande parte do tempo e dos recursos, mas que não podemos perder. E há ainda uma área que nos tem sido muito grata e que está ligada à Comunicação, onde temos feito um trabalho que ultrapassa em muito as fronteiras do clube e tem visado a divulgação e promoção da própria modalidade.

Orientovar - De que forma a crise económica que o nosso País atravessa se reflecte na organização de eventos e na afectação de recursos?

Fernando Costa - As organizações de provas têm vivido quase exclusivamente dos apoios dos Municípios e esses estão a começar a escassear. Até agora, esta realidade não tem tido grande impacto nas organizações, visto as coisas já virem de trás e estarem asseguradas na generalidade. Mas os apoios para a próxima época poderão estar em risco. Cada vez mais, as organizações vivem das inscrições e essas, como é sabido, têm um valor muito baixo. São, pois, de imaginar as dificuldades que os clubes irão ter para garantir a realização dos seus eventos. Em relação ao Portugal O’ Meeting 2011, posso dizer que só conseguimos garantir dois ‘sponsors’ que dessem apoio financeiro para o evento. E estamos a falar do evento que mais estrangeiros traz a Portugal e que é acompanhado à escala planetária.


“Quando é para organizar não é para competir”

Orientovar - Isto traz um natural desgaste ao próprio grupo…

Fernando Costa - Provoca imenso desgaste e é por isso que há elementos que saem e há outros que entram. Não é fácil acompanhar esta máquina organizativa durante tantos anos. São já mais de quarenta os eventos organizados pelo clube e, para nós, tanto faz que sejam locais como de nível internacional. Colocamos em todos eles o nosso empenho e a nossa chancela de qualidade. Quando é para organizar não é para competir. O clube coloca todos os seus elementos na Organização já que entendemos ser esta a melhor forma de promover a modalidade. E isso reflecte-se na conquista de novos praticantes. Quem vem pela primeira vez tem de sentir que valeu a pena ter vindo e vai querer continuar. Mas para isso, todos os meios são poucos. Acho estranho, por exemplo, que alguns clubes organizem provas e metade dos seus elementos estejam a participar.

Orientovar - No futuro, a realização do Norte Alentejano O’ Meeting poderá estar em risco?

Fernando Costa - Penso que não. Se continuar a haver municípios que deitem a mão a esta prova, julgo que não correremos esse risco. Mas a situação não é fácil e terá que haver um esforço de inovação da nossa parte no sentido de encontrar novas formas de atrair apoios. No caso do Norte Alentejano O’ Meeting, o facto de termos o evento implantado numa região relativamente pobre, despovoada e onde há muito pouco associativismo, condiciona o enraizamento da modalidade e isso também complica a nossa tarefa. Mas a capacidade de adaptação e o optimismo são características dos orientistas e é desta forma que encaramos os nossos projectos. É adaptando-nos que conseguiremos sobreviver.


“Posso dizer que gostei de todas as provas que organizámos”

Orientovar - Se lhe pedisse para eleger uma prova em 2010, qual escolheria?

Fernando Costa - Quando partimos para um projecto, independentemente da sua dimensão, procuramos sempre que ele seja melhor que o anterior. Daí que seja muito difícil eleger a prova de que mais gostei. Claro que o Norte Alentejano O’ Meeting 2010 teve um sabor muito especial, visto ser uma prova pontuável para o ‘ranking’ mundial e ter contado com a participação de alguns dos melhores atletas do Mundo. Mas depois começo a pensar nas provas regionais que fizemos, no Parque do Covêlo, no Parque da Lavandeira, em Manteigas, com mapas novos e em sítios tão bonitos, enfim… Foram provas que nos deram também um grande contentamento. Aliás, este ano posso dizer que gostei de todas as provas que organizámos, sem excepção.

Orientovar - E qual o momento alto de 2010?

Fernando Costa - Aí elegia a apresentação do livro “Crónicas Norte Alentejano O’ Meeting 2009 | Alter do Chão”, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos. Tivemos a honra de poder contar com a presença do Mário Zambujal na apresentação do livro e esse foi, para mim, um momento especial. As palavras por ele proferidas fizeram-me recuar uns largos anos, ao tempo em que comecei a praticar desporto. Julgo que ninguém como ele soube exprimir por palavras a pureza da modalidade, projectando-a nos nossos ideais enquanto desportistas. Esse momento, recordo-o com particular emoção.


“É por vezes mais fácil restringir do que abrir”

Orientovar - O Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos tem tido um papel fundamental no movimento de relançamento da Orientação de Precisão no nosso País. Que avaliação faz do trabalho desenvolvido até ao momento?

Fernando Costa - Os clubes não se devem limitar apenas à questão da competição pura e simples e devem ter bem vincada a parte social. Uma associação como a nossa, que não abdica da sua componente social, entende que todas as pessoas, por maior ou menor deficit físico que possuam, têm direito à prática desportiva. Assim, é com determinação e muita satisfação que emprestamos o nosso contributo para a melhoria da sua qualidade de vida através da promoção de actividades de Orientação de Precisão em todas as nossas provas. Este é um projecto que já teve, no passado, algum envolvimento da parte do nosso clube e que, actualmente, tem vindo a crescer graças ao empenho do Núcleo de Desporto Adaptado do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital da Prelada. Os resultados são muito gratificantes, temos sentido o entusiasmo daquelas pessoas e são elas mesmas que pedem para que haja mais provas, para que se dê continuidade ao projecto.

Orientovar - O Regulamento de Competições para 2011 impede os estrangeiros do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos de pontuarem para o clube. Que avaliação faz desta restrição?

Fernando Costa - É negativo criarmos um regulamento restritivo e contrário àquilo que se passa no resto da Europa. Penso que quem trabalhou a nova versão do Regulamento de Competições, nesta particular vertente, o fez sem conhecimento de causa. O facto de o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos ser praticamente o único clube a promover o intercâmbio com atletas e clubes estrangeiros faz com que esta situação não seja muito bem vista pelos outros clubes. As pessoas ainda não estão muito habituadas a estas coisas e é por vezes mais fácil restringir do que abrir. A mim custa-me um bocado entender esta mentalidade e sou de opinião que, se continuasse a ser permitido aos atletas estrangeiros federados noutras Federações pontuarem para os clubes, todos sairíamos a ganhar. Não nos podemos esquecer que somos um destino de Inverno e que há muitos atletas que poderão socorrer-se da abertura dos clubes para permanecerem mais algum tempo em Portugal nesta altura do ano. Os estrangeiros que têm vindo competir pelo nosso clube – e estou a falar de alguns atletas de craveira mundial –, fazem-no porque têm gosto nisso. São os próprios atletas que nos procuram, e que poderiam procurar qualquer clube, que fazem depois lá fora publicidade ao nosso clube, à nossa Orientação e ao nosso País. Durante vários dias vivem connosco, conhecem a nossa realidade. São eles que ajudam a levar para todo o Mundo a qualidade dos nossos mapas e terrenos, das nossas organizações, o nosso bem receber. A partir deste momento inverte-se completamente a situação e pode haver uma publicidade muito negativa.


“Dificuldades sempre temos tido”

Orientovar - De que forma perspectiva o ano que se avizinha?

Fernando Costa - Isto para nós não é novidade e dificuldades sempre temos tido. Julgo até que estaremos mais preparados do que muitas Federações para contornarmos os obstáculos. Toda a gente sabe que vai ser um ano difícil, mas todos vamos ter de fazer um esforço de adaptação às novas realidades, à actual situação económica, ao novo Regulamento de Competições. A paixão à modalidade é um factor comum a todos nós e estou confiante que saberemos encontrar formas de nos mantermos unidos e de ultrapassarmos as contrariedades.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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6 comentários:

José disse...

O GD4Caminhos tem crescido significativamente nos últimos anos, este título colectivo não é senão o corolário desse crescimento.
Na área da organização tornou-se, por ventura, o maior. Aquele Norte Alentejano-O- Meeting 2009 roçou a perfeição, a culminar com um espectáculo memorável na Flor da Rosa.
A questão dos atletas estrangeiros é melindrosa provoca uma certa inveja ou ciumeira a certos dirigentes de clubes rivais, daí ter surgido a alteração ao regulamento.
Quanto a mim é errado,estas restrições
só prejudicam a nossa Orientação já de si atrasada, o intercâmbio é bem vindo se queremos evoluir.
Enfim, um passo atrás da FPO...

Ao GD4Caminhos,aos seus directores,técnicos e atletas os meus parabéns.

Que política em Campolide disse...

Os meus sinceros PARABÉNS para essa grande equipa/família superiormente comandada por esse grande Senhor da Orientação: Fernando Costa!

Um grande Abraço também para o Margarido!

Orlando Duarte

ALIX disse...

Parabéns ao Grupo Desportivo 4 Caminhos,

Pelo percurso consistente que tem trilhado e pelo título colectivo indiscutível que nesta longa época de 2009/2010 conseguiu na Orientação Pedestre.

Um abraço,
Alexandre

Leandro Silva disse...

Caros,
Relativamente ao tema dos atletas estrangeiros, o processo de alteração do regulamento de competições não teve por base prejudicar ou qualquer questão de "inveja ou ciume", pelo menos no que diz respeito à sua proposta preliminar (diferente daquela que se apresentou para discussão pública). Apenas visou regular minimamente a participação desses atletas, privilegiando a estabilidade e regularidade da sua participação. Ou seja, na sua versão inicial a ideia foi de permitir a inscrição de qualquer atleta estrangeiro (enriquecendo com isto o nosso calendário competitivo, facto com o qual eu concordo por inteiro e não tenho qualquer reserva ou perspectiva "proteccionista") e a sua respectiva ponderação para os rankings, desde que ele não estivesse inscrito e consequentemente filiado noutro qualquer clube no estrangeiro.

Procurou-se manter aqui a coerência colocada no regulamento para os atletas nacionais, de um atleta apenas poder representar um clube por época.

Quanto à questão de estarmos bem preparados para enfrentar os problemas que se avizinham, tenho pena de não poder partilhar tal optimismo, dado que a situação poderá vir a revelar-se bastante complexa, bastando para tanto analisar-se o orçamento da FPO e a sua respectiva dependência dos apoios institucionais. Não é o mesmo para os clubes, no que diz respeito aos apoios por parte das autarquias?

Abraços,
Leandro Silva

Mário Santos disse...

Parabéns ao GD4C e em particular ao Fernando Costa pela vitória colectiva no ranking de Clubes, ma época que agora está a terminar.

Um abraço,

Mário

Ana disse...

Parabéns ao GD4C por tudo o que tem feito até agora em prol da Orientação, fruto de tanto trabalho e dedicação. As provas que têm organizado são sempre de altíssima qualidade, principalmente as dos “NAOM”, de que guardo belas recordações.
Parabéns ao Fernando Costa por todo o trabalho que tem feito, como timoneiro deste grande Clube!