sábado, 27 de novembro de 2010

A MINHA ESCOLA: ESCOLA DE REFERÊNCIA DESPORTIVA JÚLIO-SAÚL DIAS (VILA DO CONDE)




Após um longo interregno, o Orientovar volta de novo à Escola. Neste ano lectivo de 2010/2011, o regresso da rubrica “A Minha Escola” faz-se com uma visita ao Agrupamento Vertical de Escolas Júlio-Saúl Dias, sediado em Vila do Conde. Grande timoneiro do Grupo-Equipa de Orientação desta Escola de Referência Desportiva, o Professor José Mário Baptista faz as honras da casa e ajuda-nos a perceber o actual estado da Orientação na sua Escola… e não só!


Com sede em Vila do Conde, o Agrupamento Vertical de Escolas Julio-Saúl Dias, tem em Júlio Maria dos Reis Pereira o seu patrono. Aqui nascido em 01 de Novembro de 1902, já em adolescente Júlio Maria dos Reis Pereira mostrava uma clara apetência pela cultura, publicando poemas num Semanário da sua terra. Em 1919 matricula-se em Engenharia na Faculdade de Ciências do Porto, concluindo o curso em 1928. Entretanto, matricula-se também na Escola de Belas-Artes dessa cidade, já que a sua paixão eram as belas-artes. No decurso da década de 20 colabora no grafismo de obras de seu irmão, José Régio, desenha para obras deste e para a “Presença”. Pintura, desenho e poesia ocupam os seus interesses nos anos seguintes, expondo por variadíssimas vezes, algumas das quais ao lado de artistas plásticos como Almada Negreiros e Vieira da Silva.

No ano de 1953 expõe as suas obras plásticas em São Paulo, no Brasil e em 1958 vence o primeiro prémio de desenho no IV Salão de Outono do Estoril. Em 1962 é publicada a “Obra poética de Saúl Dias”. Entre 1979 e 1980, realizam-se exposições retrospectivas da sua obra em Vila do Conde, no Museu Soares dos Reis e na Fundação Gulbenkian. Faleceu na sua terra natal em 1983, com 81 anos.


Quem é o Professor José Mário Baptista?

Nascido em Vila do Conde, a 28 de Fevereiro de 1962, José Mário Laranjeira Baptista compara a sua formação – “elemento aqui, outro acolá, ainda outro além…” – a uma prova de Orientação. Possui o Curso de Mecânica (ensino básico), Engenharia Geotécnica, Curso de Qualificação em Ciências da Educação e Curso de Animação Comunitária. “Não é caso de imodéstia, é só para verem que ando aos zig-zag”, diz.

Professor desde 1987/1988, casado e pai de dois filhos, pratica Orientação desde 1993/1994. Para além do Ensino, colecciona entre os seus gostos a Pintura (principalmente bolos - http://boloscompinta.webnode.com.pt/), a Fotografia, caminhar na natureza, e “enfim, viver a vida”. Tudo isto resume aquilo que é, numa única e preciosa palavra: “Feliz”.


“Porque sim!”

Orientovar - Em vez dum professor de Educação Física, aquilo que temos na Escola de Referência Desportiva Júlio-Saúl Dias, à frente do Grupo-Equipa de Orientação, é um professor de… Matemática. Não haverá engano?

Professor José Mário Baptista - Mistério? Engano? Pode parecer, mas não. A história é simples. O meu filho Mário Baptista (alguns orientistas lembrar-se-ão dele) começou a praticar Orientação na Escola Frei João de Vila do Conde, onde eu leccionava. Dado o problema de asma que apresentava (grave na altura) não me senti descansado e comecei a acompanhar os treinos e as provas, embora apenas como espectador. Ainda pelo Desporto Escolar, pelas mãos da Prof. Belém, participou no Portugal O’ Meeting organizado pelo Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, em Viana do Castelo. Nessa altura o Fernando Costa falou comigo no sentido de ele integrar os 4 Caminhos. Daí até eu também seguir o mesmo caminho foi um piscar de olhos. Entretanto, na Escola, o professor responsável pelo grupo de Orientação passou à reforma e a escolha para o novo professor recaiu sobre mim. A medo aceitei. Fiz a formação inicial e avançada, dada pelo Fernando Costa sob a égide da Federação Portuguesa de Orientação e cá estou. E assim acaba o mistério.

Orientovar - No âmbito do Desporto Escolar, qual o porquê da Orientação ser uma modalidade tão especial?

Professor José Mário Baptista - Apetece-me dizer como alguns alunos, utilizando a resposta padrão: Porque sim! No entanto, comparando com outras modalidades, diria que a diversidade de locais de treino e de competição é o que torna tão atractiva esta modalidade, relativamente a outras do Desporto Escolar. Nós estamos sempre a variar, enquanto um Pavilhão é, no essencial, igual a qualquer outro. Quanto à vida escolar, o desenvolvimento de competências cognitivas e de decisão (que se treinam / desenvolvem como em nenhuma outra modalidade) são uma mais-valia, pelo que recomendo vivamente esta modalidade. A fruição do meio ambiente, não sendo exclusiva da Orientação, é outro ponto importante. Saliento a possibilidade de participação dos pais, que podem fazer Orientação nas mesmas condições que os filhos. Não são assim meros participantes de “bancada”.


“Tenho conseguido motivar alguns novos alunos a integrar o grupo”

Orientação - Como é que a Orientação está de saúde na Júlio-Saul Dias?

Professor José Mário Baptista – Do meu ponto de vista, apesar de ser sempre mais simples para um professor de Educação Física, que pode começar o ano lectivo com a iniciação à modalidade e assim conseguir novas fornadas de participantes, tenho conseguido motivar alguns novos alunos a integrar o grupo, pelo que entre saídas e entradas, tenho anualmente uma média de 25 inscritos, sendo 20 regulares. Como os treinos são ao Sábado de manhã, o que traz vantagens, tem a desvantagem de não permitir a participação de muitos alunos, que já estão sobrecarregados com outras actividades, pois Vila do Conde é rica em clubes e actividades. Em termos de faixa etária, temos no Grupo contemplados todos os escalões, dos Infantis aos Juniores, sendo os Iniciados Masculinos e os Juvenis Masculinos, respectivamente com 7 e 6 elementos, os escalões mais participados. Comparativamente com o número de elementos do sexo feminino, o número de rapazes é sensivelmente o dobro.

Orientovar - Como é que se processa o recrutamento de novos elementos para o Grupo-Equipa?

Professor José Mário Baptista - No início do ano elaboro um cartaz de apresentação bem apelativo, em grande formato (que generosamente a casa de fotografia João Brites de Vila do Conde produz), de forma a poder distribuir pelas escolas do concelho. No dia de apresentação dos alunos existe uma tenda na Escola com as modalidades existentes, onde posso motivar e explicar a alunos e pais a modalidade. No entanto o passa-palavra entre os alunos é o maior veículo de divulgação (não esquecer que nesta escola já vamos em sete anos consecutivos da modalidade). Dado os alunos serem de várias Escolas (Vila do Conde e Póvoa de Varzim) a forma de comunicação que encontrei foi a criação de um espaço na Internet - http://orijsd.webnode.com/ - e assim os alunos podem ver os avisos, horários de treino, alterações de última hora, etc.


“Deveria haver maior intervenção da Federação na formação dos professores”

Orientovar - Que condições tem para desenvolver o seu trabalho?

Professor José Mário Baptista - Tenho a sorte de pertencer ao Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos e de ter mapas em Vila do Conde e no Porto que servem às mil maravilhas para iniciar e desenvolver a modalidade. Por outro lado, a Câmara Municipal tem cedido transportes (cada vez menos, dadas as circunstancias orçamentais) que permitem que, uma vez por mês, possa ir a um mapa de Orientação com os alunos. Quanto a horários, tenho atribuído no meu quatro tempos semanais de quarenta e cinco minutos cada para desenvolver as actividades. Como é necessário ir para mapas de Orientação - que não estão propriamente ao lado da escola -, utilizo o Sábado de manhã para tal. Para a componente física, há também um treino às Quintas-feiras das 18:30 às 20:00. A Direcção da Escola tem estado 100% disponível no apoio ao Desporto Escolar da Escola e à Orientação em particular. Tenho também a sorte de ter pais que ao longo dos anos me foram ajudando e acompanhando.

Orientovar - Que avaliação faz dos quadros competitivos nacionais do Desporto Escolar e como vê os resultados alcançados nos anos mais recentes?

Professor José Mário Baptista - É sempre necessária uma candeia para iluminar o caminho. E os alunos que alcançaram as posições cimeiras são essa candeia e por isso estão de parabéns. No entanto, são quase todos atletas que se desenvolveram nos Clubes. Basta ver quantos atletas de topo não são federados. Será que estariam no mesmo patamar, se assim não fosse? Falta também realizar formação de base a uma grande parte dos professores responsáveis pelos Grupo-Equipa. Muitos deles nunca realizaram uma única prova de Orientação. Penso que deveria haver maior intervenção da Federação na formação dos professores, talvez com a criação de formação certificada na área da Orientação. Vontade e entusiasmo por parte dos professores não falta.


“Uma excelente forma de desenvolver a técnica de Orientação”

Orientovar - O Regulamento de Competições 2011 defende que os resultados alcançados pelos escalões de Formação possam ser tidos em conta para o “ranking” de Clubes. Concorda com esta situação?

Professor José Mário Baptista - Falando apenas como orientador de um Grupo-Equipa, penso que é positivo, pois pode levar os clubes a apostar mais na participação de jovens destes escalões na competição federada. No entanto, como contam poucos jovens para a classificação, isso pode levar a uma aposta nestes escalões por parte dos clubes, com um grupo diminuto de “super” atletas jovens, apenas pelos pontos e não na vertente saudável de desenvolvimento e formação inerente a estes escalões.

Orientovar - Num passado recente, levou a Orientação de Precisão à Escola Júlio-Saúl Dias. Que recordação guarda dessa actividade e, já agora, está nos seus planos repeti-la?

Professor José Mário Baptista - A experiência foi a mais positiva possível, para todos os intervenientes. E já foi repetida. A Orientação de Precisão é não só uma excelente forma de desenvolver a técnica de Orientação, mas uma das poucas maneiras de integrar - no sentido mais amplo do termo, pois funciona nos dois sentidos - portadores e não portadores de deficiência.


“O Desporto Escolar é o parente pobre da modalidade”

Orientovar - Tenciona lutar para que uma ou mais equipas da Júlio-Saul Dias possa estar presente nos Mundiais ISF 2013, que terão lugar no nosso País?

Professor José Mário Baptista - Não. Os custos das deslocações para provas de observação / apuramento teriam que ser suportados pelas Escolas e os orçamentos previstos não permitem fazer face a essas despesas. Por opção prefiro apostar mais em treinos perto de portas, que sirvam todo o grupo.

Orientovar - Como corolário desta nossa conversa, deixava-lhe uma última questão: O Desporto Escolar, dum modo geral, está no bom caminho?

Professor José Mário Baptista - Depende da opção ou visão que cada um tem do Desporto Escolar. Eu vejo um Desporto Escolar ligado aos Clubes. Nesta perspectiva, a resposta só pode ser negativa. No geral está muito fechado dentro da escola. Apenas consegue dar alguns passos quando o professor responsável do Grupo-Equipa está ligado a um Clube. Por outro lado, relativamente à Orientação, a maioria dos atletas mais jovens e que passaram e passam pelas Selecções, vieram do Desporto Escolar. O grande divulgador da modalidade, em termos de participantes, é o Desporto Escolar. No entanto, o Desporto Escolar é o parente pobre da modalidade. Falta haver uma aposta clara por parte da Federação Portuguesa de Orientação que não apenas o protocolo existente com o Ministério da Educação.








[Fotos gentilmente cedidas pelo Professor José Mário Baptista]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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