segunda-feira, 15 de novembro de 2010

GRANDE ENTREVISTA: REMO MADELLA, PRIMEIRO CAMPEÃO ITALIANO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO

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A região de Friuli foi palco, no passado mês de Outubro, do I Campeonato Italiano de Orientação de Precisão (ITOC – Italian Trail-Orienteering Championship). O evento contou com a participação de trail-orientistas da Itália, República Checa, Eslovénia e Croácia e consagrou Remo Madella como o primeiro Campeão Italiano desta fascinante modalidade. É ele o convidado de honra do Orientovar, numa conversa com tanto de interessante como de proveitosa para quem, como nós, dá os primeiros passos na Orientação de Precisão.


Orientovar - Como define a Orientação de Precisão?

Remo Madella – Um jogo belíssimo, muito exigente mentalmente, de leitura dum mapa de Orientação.

Orientovar – Que significado tem para si ser o primeiro Campeão Italiano de Orientação de Precisão?

Remo Madella – Fiquei muito contente com a vitória no ITOC. Neste último ano pensei sempre em ser o melhor trail-orientista italiano e chegara o momento de demonstrá-lo. Ora, contrariar o favoritismo nem sempre é fácil. O aparecimento de Guido Michelotti, há cerca de um ano, no panorama trail-orientístico italiano veio introduzir uma variável acrescida. O meu “amigo-rival” tinha conseguido excelentes prestações nos Europeus e nos Mundiais da modalidade e tinha-me “destronado” como melhor italiano da temporada. Assim, a vitória no ITOC foi a minha “vingança” e estabelece novos desafios para 2011.


“Ser cartógrafo ajuda imenso”

Orientovar - Como é que decorreu o ITOC e o que achou do seu nível, quer técnico, quer competitivo?

Remo Madella - O ITOC constituiu um desafio muito interessante, desenrolando-se ao longo de duas provas bastante diferentes uma da outra: Sábado em Trieste, num Parque Urbano e Domingo em Monte Prat, num terreno desnivelado com bosques e prados. O bom desta situação de termos duas provas, com um total de 38 pontos de controlo, é que se minimiza o factor “sorte” e o resultado final deverá ser justo. Infelizmente, a corrida de sábado foi organizada duma forma precipitada e o traçador de percursos dedicou-lhe muito pouco tempo. Acabou por ser uma prova não tão interessante quanto seria de desejar e, sobretudo, teve alguns erros técnicos. A prova de Domingo foi muito bonita, muito bem traçada e com um elevado grau de exigência técnica, muito difícil. Felizmente, a minha pontuação foi algo destacada da dos meus adversários directos (venci com trinta e cinco pontos, enquanto os segundo e terceiro classificados alcançaram trinta e dois pontos cada) pelo que sinto que a minha vitória foi merecida, não obstante as irregularidades da prova de Sábado.

Orientovar - Ser cartógrafo confere-lhe alguma vantagem especial em relação aos outros concorrentes?

Remo Madella – Seguramente, ser cartógrafo ajuda imenso. Estou permanentemente em contacto com mapas de Orientação, com o programa OCAD, com as regras e recomendações da IOF. É praticamente um treino contínuo. Mas por outro lado, a minha “precisão” acarreta sempre uma série de problemas se o mapa está mal desenhado, enquanto os outros concorrentes fazem tranquilamente a sua prova sem disso se darem grande conta: É o reverso da medalha.


“É essencial ser-se preciso, concentrado…”

Orientovar - Quais as condições para ser um bom atleta de Orientação de Precisão?

Remo Madella – É essencial ser-se preciso, concentrado, conhecer os princípios da Orientação, conhecer as regras da cartografia e a sinalética, as linhas gerais da Federação Internacional de Orientação para a Orientação de Precisão, saber ler bem o mapa e ter a capacidade de ‘recartografar’ a realidade, ou seja, fazer a necessária correspondência do mapa com o terreno. Nos pontos cronometrados, é necessário ter a capacidade de fazer tudo isto no mais curto espaço de tempo.

Orientovar - Seria possível traçar um pouco da história da Orientação de Precisão em Itália?

Remo Madella - Antonio Lunardon foi o percursor da Orientação de Precisão em Itália. Foi ele que, com enorme entusiasmo, conseguiu arrancar com esta disciplina há uma dezena de anos atrás. Depois apareceu Roberta Falda, que se dedicou de corpo e alma à Orientação de Precisão, trazendo para Itália o prestigiado título mundial paralímpico no ano de 2006 e dando um grande impulso a esta disciplina. A partir dessa altura, o número de provas não parou de aumentar e o seu nível técnico tem vindo a crescer a olhos vistos. Em 2008 começou a falar-se numa Selecção Nacional, uma vez que aqueles que participavam até essa altura nas grandes competições internacionais faziam-no a título individual. Desde então, as coisas são levadas a sério.


“Desafiar a nível internacional as nações escandinavas”

Orientovar - Como vê o momento actual da Orientação de Precisão no seu País?

Remo Madella – Penso que este é um momento delicado e a minha esperança é que haja praticantes italianos com capacidade para dar o necessário salto qualitativo e poderem desafiar a nível internacional as nações escandinavas. Entretanto, há vários anos que se disputa regularmente um circuito da Taça de Itália, com cinco a nove provas por ano. O nível organizativo tem conhecido um desenvolvimento muito bom, embora eu mantenha algumas críticas relativamente a uma certa forma de traçar os percursos. Quando as balizas se encontram demasiado próximas umas das outras, quando o traçador tenta “baralhar” os concorrentes ou propõe quesitos impossíveis, a Orientação de Precisão perde todo o interesse.

Orientovar – A quem cabe a organização das provas?

Remo Madella - Em Itália, são os clubes que têm a responsabilidade de organizar as provas, encontrando maneira de se auto-financiarem. Em 2010, a Federação Italiana deu € 150,00 aos clubes para a organização de cada prova da Taça de Itália, mas em termos gerais (como sempre na Orientação) os organizadores trabalham gratuitamente, de forma voluntária e ainda chegam a pôr dinheiro do seu bolso. Neste ano que agora termina, o número médio de participantes por prova foi de cinquenta. Procurou-se organizar corridas de Orientação de Precisão em concomitância com as provas da Taça de Itália de Orientação Pedestre, ao encontro duma maior visibilidade e procurando atrair mais participantes, mas esta experiência apenas parcialmente foi conseguida: Torna-se muito difícil organizar em simultâneo duas provas. A melhor solução passa por inserir a Orientação de Precisão num fim-de-semana de provas, reservando-lhe um espaço único no programa (talvez no sábado à tarde), ou melhor ainda, aproveitando um evento de cinco dias e reservando o dia de folga para a Orientação de Precisão.


“A divisão em escalões é dos aspectos que mais me desagrada na Orientação de Precisão”

Orientovar - As provas têm um escalão Aberto e um escalão Paralímpico. Considera adequada esta divisão?

Remo Madella – A divisão em escalões é dos aspectos que mais me desagrada na Orientação de Precisão. A beleza da Orientação de Precisão reside no facto de pessoas com deficiência e sem deficiência, senhoras ou homens, jovens ou menos jovens, poderem concorrer em pé de igualdade. Porquê então fazer esta divisão em duas categorias? A situação é agravada pelo facto de até agora poderem aceder à categoria Paralímpica pessoas que podem caminhar sem limitações aparentes. Parece que as regras irão ser alteradas no futuro mas as regras actuais definem como “paralímpicos” todos os concorrentes com deficiência física permanente (incluindo deficiências ocultas), o que acarreta vantagens significativas para aqueles que deslocam a pé. Dito isto, é inquestionável que numa prova de Orientação de Precisão de grande qualidade, seguramente estarão em vantagem todos aqueles que possam caminhar ou correr, movendo-se mais facilmente e tendo a possibilidade de melhor visualizarem as balizas de vários ângulos. A solução passa por dar mais tempo aos concorrentes com problemas efectivos de deambulação.

Orientovar - Como é que fazem a captação e o recrutamento de praticantes?

Remo Madella – Devo confessar o meu desconhecimento nesta matéria. Os meus interesses e capacidades situam-se na esfera agonística (melhorar para vencer a corrida) e organizativa (organizar uma prova de Orientação de Precisão perfeita). Mas estou convencido que dar a necessária credibilidade à Orientação de Precisão (quer através da conquista de resultados a nível internacional, quer organizando corridas de alta qualidade) será a melhor forma de promovê-la e de convencer muitos orientistas da área pedestre a praticá-la. Sei que na Federação Italiana se fala de recrutamento a vários níveis (pessoas com deficiência, por exemplo), mas não possuo elementos sobre isso e pessoalmente não é um canal que seguiria. Para se praticar Orientação de Precisão de alto nível são necessários muitos anos de experiência.


“Sejamos traçadores inteligentes”

Orientovar - A modalidade tem tido algum reconhecimento mediático?

Remo Madella – Na página da FISO - Federazione Italiana Sport Orientamento, temos agora muito espaço dedicado à Orientação de Precisão. Existe também um “site” dedicado à Orientação de Precisão - www.trailo.it – desenvolvido por Marco Giovannini e com frequência eu próprio comento no meu blog as incidências técnicas das provas em que participo.

Orientovar - Como vê o futuro da Orientação de Precisão, quer em Itália, quer globalmente?

Remo Madella – Tenho esperança que em Itália o nível competitivo continue a crescer, e que se generalize a intenção de caminhar numa direcção única, a de procurar a equidade entre as provas, minimizando o factor sorte que infelizmente ainda está presente na Orientação de Precisão. Sejamos traçadores inteligentes. Muito interessante em termos futuros é a introdução do Temp-O, uma variante da Orientação de Precisão apenas com pontos cronometrados.


“Fazer os possíveis por minimizar o factor sorte”

Orientovar - Pessoalmente, vai continuar a fazer Orientação de Precisão?

Remo Madella – Certamente. Tenho inclusive traçado alguns objectivos importantes, nomeadamente o O-Ringen 2011 e o ETOC 2012.

Orientovar - Em Portugal, estamos a tentar relançar a modalidade e pensamos em desenvolver actividades regulares já em 2011. Tem algum conselho a dar aos responsáveis portugueses?

Remo Madella – O principal conselho vai no sentido da promover a qualidade das provas. Do meu ponto de vista, a preocupação do traçador de percursos deverá ser a de ir ao encontro daquele que é, efectivamente, o melhor trail-orientista em prova. Para tal, deverá fazer os possíveis por minimizar o factor sorte. Penso que cada traçador deve estar perfeitamente por dentro das regras e propor desafios resolúveis que encerrem um ou mais métodos que permitam ao concorrente ir ao encontro da resposta correcta. No caso de serem vários os métodos de resolução do problema, deve ter-se em atenção que todos eles deverão conduzir a um mesmo resultado. É também importante não fazer da resolução dum problema uma verdadeira “esfrega” para o concorrente. Por último, mas não menos importante, apenas em situações muito claras se deve propor a resposta Z (baliza falsa).






Poderá saber mais sobre Remo Madella, visitando a sua PÁGINA OFICIAL ou o seu BLOG.

[Fotos gentilmente cedidas por Remo Madella]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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1 comentário:

ALIX disse...

Margarido,

Excelente entrevista e uma experiência recente que devemos levar em consideração.

Alexandre