quarta-feira, 27 de outubro de 2010

TIAGO AIRES: "A MINHA PRIORIDADE É SER ATLETA, É PENSAR EM MIM"

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Estreou-se no dia 11 de Janeiro de 1997 e a ideia que se retira das suas experiências iniciáticas é a de que estávamos perante um jovem sem o mínimo de jeito para a prática da Orientação. Fez da teimosia a sua maior virtude, dedicou-se a tempo inteiro ao treino, tentou perceber os segredos da floresta, desenhou mapas, traçou percursos e acabou fazendo de tudo um pouco. Hoje, uma dúzia de anos volvidos, continua a ser um dos melhores orientistas portugueses da actualidade, Campeão Nacional Absoluto e uma figura de quem muito há, ainda, a esperar.


Ultimate Orienteering (U.O.) – Competiu recentemente em duas grandes competições internacionais – EOC e WOC – mas os resultados ficaram aquém das suas expectativas…

Tiago Aires (T.A.) –Sem dúvida que os meus resultados ficaram muito aquém do esperado, mas lembrando que nos últimos dois anos e meio estive praticamente sem competir devido a lesão talvez os resultados não tenham sido assim tão maus. Actualmente, qualquer grande competição, ao nível dum Campeonato da Europa ou dum Campeonato do Mundo, sobretudo no sector masculino – infelizmente nota-se bem a diferença para o sector feminino, é uma realidade a nível mundial e não apenas nesta modalidade – tem um nível competitivo muito elevado. Quem está de fora e analisa os resultados friamente constatará que o nível dos portugueses é sempre baixo. E vai continuar a sê-lo ainda durante alguns anos.

U.O. – Quando parte para uma grande competição, que conhecimento tem dos seus adversários?

T.A. – Quem estiver atento percebe que há hoje uma panóplia de meios diversificados de divulgação. Aliás, temos o Ultimate Orienteering ou o World of O onde todos os dias são publicados dezenas de testemunhos, de mapas e de competições no mundo inteiro. A grande maioria dos atletas possui hoje meios onde divulgam aquilo que fazem, os seus treinos, as suas provas. As próprias Federações promovem o conhecimento dos seus atletas. Todavia, isto é cada vez mais problemático e aquilo que pensamos conhecer dos adversários nem sempre corresponde à verdade. Recordo que até há bem pouco tempo o Thierry Gueorgiou publicava tudo o que fazia e, de há dois anos para cá, praticamente não publica nada. Curiosamente, desde que perdeu o título de Distância Média nos Mundiais da Dinamarca. Desde então deixou de escrever no blog. Coincidência? Eu diria que não. Temos de divulgar aquilo que somos e o que fazemos para justificar os patrocínios mas não podemos abrir demasiado o jogo. A Orientação tem um factor cognitivo muito importante e se divulgarmos na íntegra os nossos métodos, as nossas tácticas, como intervimos nas mais variadas situações, saímos a perder.

U.O. – Em relação aos atletas estrangeiros, em que patamar se coloca?

T.A. – Para responder a essa questão devo referir dois pontos-chave. Por um lado, estamos aqui na ponta da Europa, temos de fazer muitos quilómetros para competir e as nossas participações nas grandes competições internacionais acabam por ser escassas. Se a isto juntarmos as grandes dificuldades financeiras da nossa Federação, o resultado é não conseguirmos estar presentes em mais do que uma grande competição por ano, talvez duas se contarmos com o Portugal O’ Meeting. Quer queiramos, quer não, um atleta como eu que não consegue adaptar-se muito rapidamente aos diferentes terrenos, acaba por se sentir mais pequeno e, logo à partida, tem uma atitude negativa do ponto de vista psicológico. Até parece que quando os Campeonatos estão a terminar é que nos estamos a adaptar aos terrenos, o que é muito frustrante. A solução passa por competir, estagiar, participar nas provas internacionais. Os melhores atletas nacionais deveriam ter mais possibilidades para competir, terem um clube nos países nórdicos, poderem participar na Jukola, na Tiomila, fazerem campos de treino no Verão e ainda participarem nas provas da Taça do Mundo, no Nordic Tour, nos Campeonatos da Europa e nos Campeonatos do Mundo. Só assim poderemos chegar aos lugares da frente e não será no imediato. Sem isso é impossível exigir seja o que for e estaremos sempre em patamares muito distantes dos melhores.

U.O. – A realidade portuguesa não permite aspirar a mais e melhores resultados?

T.A. – É óbvio que é sempre possível mais, todavia a realidade portuguesa neste momento é esta. Tenho muito orgulho em fazer parte dum grupo de cerca de dez atletas que, neste momento, treinam mesmo muito. A maior parte das pessoas que acompanham a Orientação em Portugal não tem essa noção, mas treinamos realmente muito, embora mais a nível físico, é verdade. Tendo em conta a realidade da Orientação em Portugal, fazemos muito mais do que a nossa obrigação. Custa-nos muito e somos os primeiros a sofrer quando vamos às competições e os resultados ficam muito longe daquilo que realmente valemos.

U.O. – Para a Orientação portuguesa, que importância tem um evento como o Portugal O’ Meeting?

T.A. – Tem uma importância elevadíssima. Eu devo afirmar – e não sou o único a fazê-lo – que nós, em Portugal, temos tudo para sermos uma das principais potências da Orientação mundial. Apesar de não ser um país totalmente florestado, como os países nórdicos ou alguns países da Europa Central, temos um excelente clima e condições para treinar ao longo de todo o ano, temos uma enorme variedade de terrenos, temos mapas de muita qualidade em locais fantásticos e temos um passado histórico muito valioso ao nível das provas de resistência e de fundo, assim como ao nível do treino. Ou seja, temos as condições ideais para sermos os melhores. A questão é que temos de fazer muito mais do que aquilo que estamos a fazer. Praticamente não fazemos captação junto das camadas mais jovens e é fundamental termos uma base da pirâmide muito mais alargada. Enquanto assim não for, vai ser muito complicado termos um fora-de-série.

U.O. – Falando em captação, há dois anos atrás o Tiago Aires [juntamente com a Raquel Costa], lançou um projecto de captação e formação junto duma pequena comunidade do Alentejo, no interior sul de Portugal. O GafanhOri - Clube de Orientação da Gafanhoeira – Arraiolos poderá ser hoje um “case study” a nível mundial. Quer-nos falar sobre isso?

T.A. – A prova de que em Portugal se faz muito pouco pela captação reside precisamente no facto de terem de ser dois dos melhores atletas nacionais a fazer esse trabalho. Isto é bem demonstrativo de como a nossa modalidade é pequena e da falta de recursos para trabalhar. O facto desse projecto ter o impacto que tem e de ter os resultados que tem – em pouco mais de um ano somos o clube que fornece mais atletas para a Selecção Nacional -, se por um lado é gratificante, por outro lado deixa-me muito triste porque é bem demonstrativo do muito que há para fazer. Sem querer ser arrogante ao ponto de achar que todos os projectos devem ser como este, a verdade é que não se vêm mais projectos – deste género ou doutro – a surgirem em Portugal. A triste realidade é que no nosso País há dois ou três clubes de Orientação, não há mais. Por muito que as pessoas possam ficar tristes ou ofendidas com esta afirmação, a realidade é que não há clubes de Orientação em Portugal. Não há! Um clube é um local onde os atletas se juntam, onde o treinador os vai buscar e levar a casa, os acompanha nos aspectos técnico e físico, lhes dá o apoio psicológico necessário, os leva às provas e por aí fora. Um clube não é um grupo de amigos que moram a cento e tais quilómetros uns dos outros, vestem o mesmo equipamento e se juntam nalguns fins-de-semana.

U.O. – Para além de ser treinador do clube, é também dirigente, atleta, cartógrafo, traçador de percursos, organizador de estágios e campos de treino, responsável pelas selecções nacionais jovens, formador, enfim, é um homem dos sete instrumentos. De que forma consegue gerir esta multiplicidade de funções?

T.A. – Começo a não conseguir. A realidade – e não tenho problema nenhum em afirmá-lo – é que estou cansado de fazer tanta coisa sem haver qualquer tipo de reconhecimento. Toda a gente diz que o exemplo do GafanhOri é muito bom, toda a gente diz que as organizações do GafanhOri são muito boas, toda a gente diz que os traçados de percursos são muito bons, toda a gente diz que os mapas são todos muito bons mas a Orientação continua na mesma. Se eu visse mais pessoas a caminhar no mesmo sentido, talvez não me sentisse tão frustrado. E talvez não sentisse que nada disto deveria ser eu a fazê-lo. Ou seja, exigem-me resultados como atleta mas ao mesmo tempo exigem-me que leve os jovens às Selecções Nacionais e que apresente resultados, exigem-me que faça mapas, que os mapas sejam bons e que os atletas estrangeiros venham cá, que tenha um clube, que tenha atletas e que os treine… É impossível. Estou determinado a abandonar a grande maioria dessas tarefas para me dedicar adequadamente àquelas que realmente me interessam.

U.O. – Quer concretizar?

T.A. - Com tanta coisa ao mesmo tempo, tenho descurado as minhas potencialidades enquanto atleta e isso é muito frustrante Não quero de maneira nenhuma chegar aos 50 anos e ouvir os meus netos perguntarem-me porque é que, enquanto fui atleta, nunca fui um bom atleta. Tenho poucos anos para ver até onde consigo chegar e é aí que devo apostar. Quero estar eternamente ligado à modalidade mas penso que os próximos dez anos serão fundamentais para mostrar a mim próprio qual é na realidade o meu valor. A minha prioridade é ser atleta, é pensar em mim. A modalidade é linda e espero conseguir cumprir os meus objectivos. Penso aliás que esta entrevista pode ajudar porque, ao assumir publicamente este compromisso comigo próprio, sinto-me mais obrigado a cumpri-lo, obviamente.

U.O.- Centrar a atenção na sua pessoa enquanto atleta vai implicar muitas mudanças. Já pensou naquilo que vai mudar?

T.A. Não só pensei, como algumas dessas mudanças já estou a pô-las em prática. No passado mês de Julho tomei a decisão de abandonar as Selecções Nacionais de jovens e apresentei a minha demissão à Federação Portuguesa de Orientação. Quem me conhece sabe que sou muito crítico em relação aos mais variados assuntos e a participação de Portugal no EYOC 2010, em Soria (Espanha) foi um momento que me marcou. Confesso que, no regresso dos Campeonatos, quase me convenci a mim próprio que a minha missão era dedicar-me inteiramente aos jovens e abdicar de mim enquanto atleta. “É para isto que eu tenho jeito”, pensei, consciente das minhas capacidades de trabalho junto dos jovens, da forma como os consigo motivar. Quem tem a noção daquilo que Portugal alcançou no EYOC este ano – e são muito poucas pessoas, infelizmente - percebe perfeitamente aquilo a que me refiro. Aliás, bastava o reconhecimento que recebi da parte dos atletas para ficar convencido que valia a pena apostar nestes jovens. Mas quando estamos a participar e, mesmo depois, quando chegamos dum Campeonato da Europa e vemos que não há uma única mensagem de apoio da parte da Federação, da parte dos Técnicos, da parte dos Clubes, que duma forma global a comunidade orientista nacional alheia-se da situação e não dá os parabéns a estes jovens, não reconhece o seu esforço e sacrifício – os custos de viagens e estágios saíram, em grande medida, do bolso deles -, é impossível continuar. Não contem mais comigo.

U.O. – Mais do que deixar cair os braços é um “bater com a porta”…

T.A. – É um “bater com a porta” claramente. Fiz ver isto aos responsáveis e os resultados surgiram na página da Federação mas tive que ser eu a escrevê-los. Será que os resultados destes miúdos não mereciam o devido destaque? A Federação acusou o toque, pediu uma reunião para tentar resolver a situação mas até hoje a reunião continua por marcar. É triste passarmos a vida a “remar contra a maré”, a levarmos com o rótulo de “papa viagens” e de só querermos andar a passear. Isso é ridículo. A nossa responsabilidade é enorme e não temos qualquer reconhecimento. A verdade é essa e aquilo que fiz foi claramente um “bater com a porta”.

U.O. – Uma última questão e que tem a ver com o II Meeting Internacional de Arraiolos WRE, uma organização do Clube de Orientação da Gafanhoeira e que se irá realizar cinco dias após o Portugal O’ Meeting 2011 e na mesma região. Que Meeting vai ser este?

T.A. – Apesar da plena consciência do sucesso que tivemos com o Meeting do ano passado posso garantir que a edição deste ano irá ser tão boa ou melhor ainda. No ano passado tudo correu bem, tivemos mapas fantásticos, o tempo ajudou, foi fantástico ver todos os participantes rendidos àquilo que foi o evento nas suas múltiplas vertentes e temos consciência que colocámos a fasquia muito alto. Mas quem for a Arraiolos em Março do próximo ano vai encontrar uma das melhores provas algumas vez realizadas em Portugal, vai encontrar terrenos muito bons, percursos muito bem traçados e um programa social paralelo enorme. Tenho a certeza que os atletas estrangeiros irão deixar os seus países que estão cheios de neve, irão aderir em massa e lançarão aqui as bases duma época recheada de sucessos, tal como se provou este ano, com a generalidade dos atletas mais badalados nos Campeonatos da Europa e nos Campeonatos do Mundo a fazerem a pré-temporada em Portugal. Esta é uma região que gosta de acolher bem aqueles que a visitam, esta é uma organização jovem, empenhada e que faz questão de inovar e penso que este irá ser mais um marco inesquecível para o GafanhOri e para a Orientação portuguesa.


[Trabalho de cooperação entre Ultimate Orienteering e Orientovar. Esta entrevista pode ser lida também nas versões FRANCESA e INGLESA. Traduções para francês de Madalena Corboz e para inglês de Lucie Babel.]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

Rafael da Silva Miguel disse...

Boas tardes

Quero deixar aqui o meu MUITO OBRIGADO ao Tiago por todo o trabalho (e foi MUITO!!!) desenvolvido em prol da Orientação portuguesa e em particular em prol dos jovens!

Foram muitos os estágios que o Tiago programou e muitas as vezes que nos tirou dúvidas. Muitas vezes ele deixou os seus interesses pessoais para trás para nos ajudar!
Se não fosse o Tiago os resultados do EYOC 2010, do WSOC 2009 e outras competições, não teriam sido tão bons. Ele é um dos principais responsáveis pelo nível dos jovens (e não só) portugueses!

Por tudo isto e por muito mais deixo aqui o meu sincero MUITO OBRIGADO ao Tiago Aires!

Espero daqui a uns anos ver o Tiago a fazer uns belos resultados a nível internacional! :D

Beijos e Abraços
Rafael Miguel
Ori-Estarreja/Selecção Portuguesa

José disse...

O Tiago como jovem apaixonado pela modalidade, dispersou-se, abraçando uma série de funções e actividades no seio da ORI. A sua opção tê-lo-à traído, afastando-o duma promissora carreira internacional como atleta.

O seu contributo em prol da ORI tem sido enorme, mas, se calhar,nem todos lho reconhecem.

Se ele tivesse seguido o exemplo de alguns atletas de países, ditos pequenos na ORI que optam por representar um clube num país escandinavo, sem dúvida que ele estaria a um melhor nível e os resultados seriam bem melhores.

Ainda não é tarde para se dedicar exclusivamente, de corpo e alma à competição. Gostava de vê-lo numa final A dum Mundial como já o fez como júnior.

Após a sua carreira na elite, o Tiago com a experiência que adquiriu tem muito para dar à modalidade.

Um abraço do velho.