sábado, 2 de outubro de 2010

O MEU MAPA: CUSTÓDIO PINTO, S. BENTO DE CASTRIS E O X MEETING ÉVORA PATRIMÓNIO MUNDIAL

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No seguimento do espírito do mentor deste blog, “As histórias não são nada, … … se não as contamos”.

Ora, se a leitura de um mapa de estradas se pode tornar um “cavalo de batalha” para a selecção da melhor rota, imagine-se o que será (i) ver e ler um mapa, (ii) interpretar e relacionar o mapa com a paisagem do terreno da prova, (iii) definir a melhor estratégia para terminar a prova e (iv) correr e ultrapassar os vários obstáculos que surgem pelo caminho (desde regatos, pântanos, areias, arbustos, rochas, sol, calor, sede, cansaço, etc., etc., …). Daí que no início de cada prova, nas partidas, aquele nervoso miudinho ataque muitos atletas.

Mas é a vontade de superar as dificuldades, de testar as capacidades física e psíquicas de cada um e o querer ultrapassar as próprias capacidades e os obstáculos, que torna aliciante esta modalidade. Se assim não fosse, como se explica que tantos atletas troquem o descanso dos fins-de-semana e se esforcem por se levantarem à (mesma) hora semanal de ida para o trabalho, outros até mais cedo, e não se importem de suportar custos elevados para “competirem” no meio de uma floresta. Digo “competirem” porque competir é saudável quando se sabe ganhar e/ou perder, reconhecendo que outros tiveram valores superiores aos nossos na prova. Logo, as histórias possibilitarão a quem as leia ter a opinião, a sensibilidade do quanto é interessante, estimulante … (e outros adjectivos, que cada um dos praticantes atribui a esta modalidade desportiva ….) a prática da ORIENTAÇÃO.

Esta história é um testemunho dos estímulos que me levaram a continuar e aconselhar a prática desta modalidade. Este foi o meu primeiro mapa - como se diz – a sério, e porque é dele que os amigos e conhecidos me falam e me relembram, em toda a sua plenitude, os momentos passados de entusiasmo, sofrimento, vontade e querer.

Foi em 1 de Abril de 2006, no “X Meeting Évora Património Mundial” no mapa de S. Bento Castris IV que, após 3 horas e mais alguns minutos (com um tempo que não será referência e muito menos interessante para a história) “marcava o finish”. Finalmente, terminava a prova e, …, e sentia o prazer da chegada para o descanso em segurança. Àquela hora apenas se viam os elementos da organização, a minha filha Rita (a mais velha) com uma aparência de que esteve bastante preocupada que, com entusiasmo ainda me incitava a terminar a prova o mais rápido possível. A demora foi tanta que a minha esposa (Ana) tinha ido para o carro alimentar a outra filha (Sofia). Havia ainda alguns atletas que acabavam de terminar a prova mas que logo se deslocavam para junto das suas equipas e apenas me lembro de ver também o Jorge Santos, atleta do CPTelecom, um atleta dedicado e apaixonado por esta modalidade que com o seu natural entusiasmo contribui em muito para a sua divulgação.

A aparência preocupada da Rita tinha uma razão de ser pois sabia que este mapa era nada mais nada menos que a minha segunda prova (a primeira individualmente). A primeira prova havia realizado a pares com ela no “I Troféu Internacional de Orientação de Mora”, no dia 4 de Março desse mesmo ano, competindo no escalão “Difícil Curto”. A distância do escalão era de 6,4 Kms e 160 m de desnível.

Também o processo de inscrição nesta prova teve uma peripécia pelos membros da organização, o ADFA, já que apesar de questionados, no momento inicial da inscrição, entre a participação no escalão “Difícil Curto” ou “Veteranos II” não se coibiram de inscrever o principiante no escalão e logo num escalão de competição - “Veteranos II” – o mais difícil.



O mapa de S. Bento dos Castris IV é um mapa de dificuldade técnica elevada, apresentando um relevo acentuado, pouquíssimos caminhos e zonas pantanosas, bem visíveis nos princípios de Abril quando ainda se faz sentir a chuva. E, segundo os especialistas, um mapa muito difícil que está dividido em duas partes completamente distintas: a primeira é um normal percurso de Orientação; a segunda apresentando áreas com elementos rochosos e muita vegetação que em certas zonas dificulta a progressão e visibilidade.

E não é que, quando contornava uma zona de vegetação densa e alta para encontrar uma baliza eis que surge no meu caminho um animal de raça bovina que, segundo creio, estaria a pastar (porque não consegui ter uma percepção nítida da situação). Perante tal aparição o bovino mugiu e eu, o mais rápido que pude, fugi para um local mais seguro e o mais distante possível.

No entanto, apesar do sobressalto que a situação me provocou - não seria qualquer bovino que me atrapalhasse! -, enchi-me de coragem pois recordei-me quando em casa dos meus avós ajudava na recolha do gado que estava nos pastos e também de algumas noções de treino em milícias. Apesar do muito tempo perdido não desisti ali! Corrigi a rota e ataquei a baliza.

Estes eram os condimentos de dificuldade elevada que segundo atletas experimentados (e com melhores condições de adaptação desde a formação inicial e integração na modalidade) se apresentavam a quem fazia o primeiro mapa individualmente e logo em escalão de competição - de ‘experts’ (“Veteranos II”, escalão tecnicamente difícil).

No início a motivação era sustentada pela aventura e ainda pelos conhecimentos adquiridos nos tempos de escuteiro, que em franca consciência de principiante considerava suficientes para ultrapassar os obstáculos que surgissem. É certo que não objectivava qualquer tempo para a sua realização. No decorrer da prova, fui-me apercebendo das dificuldades destas provas quando as referências para ataque de determinada baliza (ponto) desapareciam no horizonte tapadas por outros elementos da natureza que não haviam sido considerados e aí todo o plano traçado desmoronava-se a ponto de fazer inversão de sentido para o ponto inicial e verificar a razão do eclipsar dos elementos de referência.

Contudo com o decorrer da prova fui-me apercebendo da necessidade de uma leitura cuidada das informações técnicas, do dosear do esforço e ainda da necessidade de uma aprendizagem cuidadosa e por níveis.

Chegado ao ‘finish’ trazia comigo aquele tempo físico de uma meia dúzia de quilómetros corridos e mais uns quilómetros psíquicos de cansaço, sofrimento, sede e dores. Nos pés as dores eram muitas, provocadas por algumas bolhas de água, outras bolhas já haviam rebentado e estavam em ferida e umas unhas vermelhas, que posteriormente ficaram negras e caíram (pelo menos duas).

Contudo trouxe ainda comigo uma escola individual e prática de aprendizagem, um conhecimento prático, individualizado e único bem como e principalmente, a determinação e o querer superar todas aquelas dificuldades em próximas provas (e pensava: “perdi esta batalha mas não a guerra”), pois os pequenos treinos de milícias poderiam muito bem superar. Aliás após uma tarde de passeio e alongamentos na bonita cidade de Évora e uma noite bem dormida e de descanso, eis que participei no dia seguinte na prova de sprint pelas ruas do bairro da Malagueira, obra de referência do afamado arquitecto Siza Vieira.

Hoje, passados quatro anos do início da prática de Orientação pedestre, reconheço que apesar da experiência e conhecimentos adquiridos por vezes ainda surge a necessidade da utilização de técnicas “naïf” na abordagem de algumas balizas e também na selecção das melhores estratégias.

Mas, é de tropeções, quedas e derrotas que se constrói a experiência e as vitórias. E as grandes vitórias estão na satisfação e na motivação de superar as dificuldades das provas de Orientação designadamente a leitura dos mapas e …

“Sofrer e lutar significa viver”.

Custódio Pinto
CIMO – Clube Ibérico de Montanhismo e Orientação
Fed 4077

[fotos e mapas gentilmente cedidos por Custódio Pinto]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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