sábado, 16 de outubro de 2010

DIANA COELHO: "GOSTARIA QUE AS PESSOAS COMEÇASSEM A TRATAR-SE POR IGUAL"

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Poderia ter sido apenas um mero acidente, sem grandes consequências. Um acidente igual a tantos e tantos outros que acontecem, fruto da irrequietude e força de ser criança. Quis o destino, porém, que este ficasse para sempre gravado no corpo e na memória da Diana.


Chama-se Diana Patrícia Pinto Coelho, tem muitos sonhos para viver e uma história para contar. Com apenas 8 anos de idade, a pequena Diana sofreu um acidente que lhe roubou os movimentos da cintura para baixo e a atirou para uma cadeira de rodas. Assistida inicialmente no Hospital de S. João – Porto, foi transferida depois para o Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital da Prelada, onde permaneceu internada durante longos três anos e meio. Nunca deixou de frequentar as aulas, aí fez o exame da 4ª classe, aí prosseguiu os anos seguintes do Ensino Básico, aí assistiu às naturais transformações que o seu corpo foi sofrendo. E aí percebeu que a sua vida seria, a partir desse momento, feita de adaptações.

Actualmente com 17 anos e frequentando o 12º Ano de Escolaridade na Escola Secundária de Baião, Diana Coelho é a convidada de honra do Orientovar. É ela que nos fala das suas experiências e dos seus anseios, dos seus sonhos e receios. E que nos dá a ver uma sequência de passos onde a realidade - assente na palavra “reabilitação” - caminha de mãos dadas com a esperança num mundo mais justo e melhor.


“De início não mexia as pernas nem as sentia”

Orientovar – Para que se perceba melhor o que está em causa, quer-me falar um pouco da sua doença?

Diana Coelho – No dia 12 de Março de 2002, sofri um acidente que me afectou a coluna e me fez ficar paraplégica. Com muito trabalho de reabilitação já recuperei um pouco da sensibilidade nos membros inferiores, sobretudo no membro inferior esquerdo, e também já tenho mobilidade no membro inferior direito. Mas de inicio não mexia as pernas nem as sentia.

Orientovar – Em que consiste esse trabalho de reabilitação?


Diana Coelho – Actualmente é um trabalho feito em regime de Ambulatório, e desloco-me de Baião, três vezes por semana, ao Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital da Prelada, no Porto. Todo o trabalho tem como objectivo tornar-me o mais independente possível. Entretanto já iniciei treino de marcha e andar com a ortótese e canadianas é o tratamento de agora; o objectivo será poder incluir nalgumas coisas do meu dia-a-dia esse treino. Se conseguisse, seria óptimo.


“As dificuldades começam logo dentro de casa”

Orientovar – De que forma é que se sente condicionada nas actividades de vida diárias?

Diana Coelho – Claro que tive de fazer uma série de ajustes no meu dia-a-dia, mas a minha força de vontade faz com que vá conseguindo levar uma vida praticamente normal. As dificuldades começam logo dentro de casa, mas essas consigo contornar... Por exemplo, a minha casa tem escadas e felizmente já me consigo firmar no corrimão e posso subi-las e descê-las. Agora, há outras nos lugares públicos que não consigo evitar e não tenho muito como as vencer. E há ainda aquelas que a Sociedade nos coloca. As dificuldades por vezes já existem e as pessoas à nossa volta, em vez de compreender e facilitar, fazem questão de tornar as coisas ainda mais difíceis.

Orientovar – A Escola Secundária de Baião está devidamente adaptada a pessoas com este tipo de deficiência?

Diana Coelho – Por aquilo que ouço e do que conheço, a minha Escola não é das piores. Na verdade os passeios são um bocadinho altos, são mesmo aquele tipo de passeios que não se conseguem subir. Essa é, basicamente, a grande barreira arquitectónica dentro da Escola. De início a Escola também não tinha elevadores. Onde era realmente necessário um elevador era no Pavilhão onde tinha aulas e onde ficavam a Biblioteca e o Auditório e na verdade o Conselho Directivo tratou de colocar um elevador na escada. Entretanto foram também construídas rampas de acesso a algumas zonas e, agora que a Escola vai entrar em obras, espero que as restantes barreiras arquitectónicas possam ser abolidas.

Orientovar – Essa menor facilidade em se deslocar não a faz sentir-se diminuída em relação aos seus colegas, por exemplo?

Diana Coelho – Se calhar um bocadinho, mas vou conseguindo ultrapassar isso. Os meus colegas aceitaram-me sempre muito bem e isso tem sido muito bom na forma como lido com a situação e vou conseguindo ultrapassar alguns problemas.


“Gostava que em Baião fizéssemos uma prova de Orientação de Precisão”

Orientovar – No passado dia 16 de Agosto teve uma reunião com o Presidente da Câmara Municipal de Baião. Será que poderia revelar um pouco dessa conversa ou é segredo?

Diana Coelho – Não é segredo nenhum. Eu frequentei no mês de Julho a Universidade Júnior, no Porto e, na última semana, fizemos uma fotografia de conjunto para a página da Câmara e para o Jornal de Baião. Nessa altura, estava presente o Vereador da Câmara e falei com ele acerca daquilo que achava que estava mal e com o qual não concordava, nomeadamente as barreiras arquitectónicas. Penso que por vezes os Municípios empregam o dinheiro em certas coisas e, talvez por desconhecimento, não olham para outras que são mais necessárias. O Vereador sugeriu então que falasse com o Presidente e eu lá fui. A reunião correu muito bem, fui muito bem recebida e voltei a falar das questões que, no meu entender, deviam merecer mais atenção, caso dos passeios muito altos – eu sou contra os passeios! -, das árvores ou dos postes no centro dos passeios ou da falta de rampas.

Orientovar – Eu julgo saber que no meio da conversa veio à baila a Orientação de Precisão. É verdade?

Diana Coelho – É verdade, sim. Eu disse também ao Presidente da Câmara que gostava que em Baião fizéssemos uma prova de Orientação de Precisão. Este é um meio ainda pequeno e uma prova de Orientação de Precisão seria uma forma de chamar a atenção daqueles que têm ainda essa ideia que uma pessoa em cadeira de rodas não pode fazer muita coisa. Desporto, então, está fora de questão. Seria uma maneira de abrir um bocadinho as mentalidades das pessoas.


“Mas aquela primeira prova… Eu adorei!”

Orientovar – Mas porquê a Orientação de Precisão e não outro desporto qualquer?

Diana Coelho – A minha primeira experiência com a Orientação de Precisão foi em Alijó, no dia 4 de Outubro do ano passado. Foi surpreendente! Eu não praticava qualquer tipo de desporto e esta foi a primeira vez que participei em algo do género. É claro que, apesar dos condicionalismos, uma pessoa como eu pode praticar desporto. São necessárias adaptações, dá algum trabalho, mas é possível. A verdade é que os meus professores de Educação Física, até ao 9º ano, me puseram sempre um bocadinho de lado. Foi só no 10º ano que tive uma professora que me proporcionou alguma actividade física no âmbito da disciplina. Fez um plano de aulas só para mim e era avaliada, tal como os meus colegas, embora dentro de parâmetros diferentes. A partir daí passei a fazer Educação Física e agora estou a fazer. Mas aquela primeira prova… Eu adorei! Não tinha a noção do gozo que poderia ser fazer uma prova de Orientação de Precisão.

Orientovar – Quando os colegas lhe perguntam o que é a Orientação de Precisão, o que é que lhes diz?

Diana Coelho – Tento mostrar-lhes que se trata dum desafio. No caso deles não é tanto a parte física que está em causa, embora para nós uma prova destas implique talvez um pouco mais de esforço do que aquele que é habitual no dia-a-dia. Mas é um desafio sobretudo intelectual e que nos mostra que o desporto é para todos. É uma forma de ultrapassar o preconceito de que só podem fazer desporto as pessoas que não têm problemas.


“Aquilo que é simples para mim, pode não o ser para os outros”

Orientovar – Em Alijó confessou que era bom que houvesse uma prova destas na sua Escola e, na verdade, dois meses depois, o seu desejo concretizou-se. Foi no Dia Internacional da Pessoa com Deficiência e teve a participação de outras pessoas com problemas semelhantes aos seus. Ainda se lembra do que sentiu?

Diana Coelho – Foi muito bom, ainda para mais porque a reacção dos meus colegas e da generalidade dos alunos da Escola foi muito agradável, muito positiva. Só foi pena que não se tivesse mobilizado toda a comunidade escolar para participar na actividade, mas mesmo assim foi muito bom. Julgo que acharam interessante, ficaram sensibilizados e viram que, afinal, podemos participar numa mesma actividade em pé de igualdade. Não adianta muito vermos na televisão o dia-a-dia de certas pessoas, já que não se fica com uma realidade tão presente; aquilo que é importante é que se esteja próximo das pessoas, que se viva esse mesmo dia-a-dia. A reacção deles, no final, foi no sentido de manifestarem o interesse em que se continue a fazer este género de coisas.

Orientovar – Até hoje, participou em três actividades do género. Qual a sua opinião sobre o grau de dificuldade das provas?

Diana Coelho – A dificuldade maior tem sempre a ver com a progressão. Mesmo nas cidades, foi necessário uma ajuda para vencer os passeios ou outras coisas assim. Mas em termos das provas em si, o nível de exigência não foi muito elevado. Há sempre aqueles pontos onde temos mais dúvidas e que colocam alguns problemas. Mas aquilo que é simples para mim, pode não o ser para os outros ou vice-versa. Isto não apenas no aspecto intelectual, mas também físico, visto que algumas pessoas precisam mais de ajuda do que eu, por exemplo, a chegar a determinado ponto ou o contrário.


“É preciso lutarmos por estas coisas”

Orientovar – Depois dessa conversa com o Presidente da Câmara Municipal, vamos mesmo ter uma grande prova de Orientação de Precisão em Baião?

Diana Coelho – Eu espero que sim. Não apenas por uma questão de mostrar às pessoas o que é a Orientação de Precisão, mas também como forma de as pôr em contacto com outro tipo de pessoas. Eu não gosto quando fazem duma pessoa um ‘coitadinho’ ou ‘oh que pena’. Não gosto. Esta era uma maneira das pessoas em Baião verem a realidade duma forma diferente.

Orientovar – Gostaria de continuar a praticar Orientação de Precisão?

Diana Coelho – Adorava. Era importante que houvesse mais provas, um pouco por todo o País e mesmo que eu não pudesse participar, poderiam participar outras pessoas. Aliás, as pessoas que têm este tipo de problema, se tiverem oportunidade de experimentar o que é uma prova de Orientação de Precisão, recomendo que o façam. As pessoas que, tal como eu, têm alguma incapacidade física, não devem ficar a pensar naquilo que não podem fazer. Devem, isso sim, criar objectivos, participar em iniciativas. Devem pensar no que podem fazer, no que podem investir para que sintam bem, realizados e com prazer na vida. E devem fazê-lo porque é preciso lutarmos pelas coisas e fazer coisas que nos dão prazer e que nos fazem sentir felizes... temos esse direito!


“Colocar o preconceito de parte”

Orientovar – Para finalizar, que mensagem gostaria de deixar?

Diana Coelho – Gostaria que as pessoas começassem a tratar-se por igual. Normalmente temos um bocadinho a tendência para discriminar, seja por problemas físicos, por questões de raça, por razões de natureza social e outros. Parece que só aquilo que é nosso ou se parece connosco é que é bom e, afinal, não é bem assim. Acho que é preciso colocar o preconceito de parte porque, se formos a ver, somos todos iguais. Está na altura de pôr um ponto final na discriminação. Está na altura de nos ajudarmos e de transmitirmos confiança àqueles que mais necessitam. Aqueles que são, aos olhos da sociedade, menos válidos, têm muito a dar. E todos aqueles que estão à sua volta têm muito a aprender com eles.


JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

Dani disse...

Força Diana!
Desejo-te as maiores felicitades.
A descriminação deve ser visto como um crime social, é difícil ignorá-la e impossível de percebê-la.

Anónimo disse...

Olá,Diana!
Estive a ver a sua entrevista, e vejo que é uma pessoa com muitas qualidades....
Desejo-lhe muitas felicidades, e que tenha muito sucesso......
Um beijo, de quem te ama.....