sábado, 4 de setembro de 2010

O MEU MAPA: MARGARIDA GONÇALVES NOVO E A CARTA MILITAR 592

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O mapa de que vos vou falar, a Carta Militar 592 (Bordeira) faz parte duma série de 4 mapas que o Leandro e eu usamos há talvez uns 12 anos nos nossos passeios e que inclui, além desta carta, a 593 (Bensafrim), a 601 (Vila do Bispo) e a 609 (Sagres). Destas quatro, escolhi a que acho mais bonita e espero que estas linhas vos dêem vontade de fazer Orientação duma forma simples: desdobrar o mapa, definir um percurso, pegar na bicicleta, nos “mantimentos”, no mapa e na bússola e partir à descoberta!

Nesta carta, normalmente começamos perto da Carrapateira, onde deixamos o carro, seguindo depois pelo Vale da Ribeira da Carrapateira durante alguns quilómetros quase em plano, para aquecer as pernas. Depois, é subir, à esquerda ou à direita, consoante programamos regressar pelos cabeços da Bordeira ou pelos cabeços que vão dar à Praia do Amado, terminando quase sempre com alguns quilómetros numa zona fácil para fazer o arrefecimento.

E quando se começa a querer subir e a deixar os vales é que a coisa se complica. A carta da Bordeira que usamos é de 1979, a de Bensafrim (que fica ao “lado” desta) é de 1978, a de Vila do Bispo (que fica por “baixo” desta) é de 1977 e a de Sagres (que fica por “baixo” da de Vila do Bispo) é de 1978. Isso quer dizer que para além da estrada principal, do relevo e das linhas de água, quase tudo o resto é história!

Por isso, como na vida, apesar de termos um rumo definido, temos de estar preparados para o alterar, se for necessário, bem como para explorar caminhos que não estão no mapa e ignorar outros que lá estão, mas não nos servem. É isso que faz todo o encanto deste tipo de orientação em BTT, em que sobressaem tipos de referências normalmente menos utilizados. Aqui não podemos reclamar do cartógrafo, nem do traçador de percursos, só de nós mesmos!

São paisagens que nos fazem faltar o ar, de tão bonitas que são, sempre com o cheiro do mar e das estevas por perto e são mapas cheios de magia, em que cabe a cada um escolher o percurso que melhor lhe convém.

Voltando à carta da Bordeira, aqui vos deixo a minha sugestão para um percurso light. Evitem a “época balnear” por razões óbvias e, devidamente munidos da vossa carta militar (podem comprar pela Internet sem qualquer dificuldade), deixem o carro perto do cruzamento da EN268 com a EN1134 a norte da Carrapateira.

Prontos? Então vamos começar e dou-vos duas opções...


Uma é seguir para sueste, pelo Vale da Ribeira da Carrapateira até à Herdade do Beiçudo e depois apanhar o caminho à direita que segue para sudoeste até ao entroncamento com o caminho que vem do vértice de Tercenas.

A outra é virar à direita até à Carrapateira pela EN268. Entrar na Carrapateira (nordeste) e subir para apanhar o caminho (sueste) para o vértice de Tercenas e depois até ao entroncamento com o caminho que vem da Herdade do Beiçudo.

Aqui para a frente é igual. Seguir para sueste até ao entroncamento com a EN1135. Virar à direita e seguir até chegar à EN268. Virar à esquerda (sul) e entrar no 1º entroncamento à direita (oeste) para apanhar uma gigantesca descida fabulosa, técnica q.b. e com uma vista daquelas como só há na Costa Vicentina! Seguir sempre para noroeste até ao entroncamento para a Charneca do Amado/Cerro da Vigia. Virar à esquerda e seguir até ao mar, primeiro para sudoeste (Praia do Amado) e depois para noroeste e norte em direcção ao vértice do Pontal. Seguir depois para nordeste e finalmente para sueste, sempre na mesma estrada (EN1134) até chegar ao carro.

Assim posto, parece duma simplicidade linear não é? Pois não é realmente muito complicado em termos físicos nem de orientação, mas também não são favas contadas... Se quiserem saber porque digo isto, olhem para a imagem desta área do Google Earth e vejam quantos caminhos estão lá que não estão nesta carta! Além disso, a zona plana do Pontal e que se julgaria “sem espinhas” pode ser um verdadeiro desafio mesmo para os mais fortes caso se apanhe uma nortada daquelas comuns nestas paragens!

Para os que acharem o “percurso recomendado” demasiado fácil, experimentem as outras opções para subir para a EN1135/EN268 antes da Herdade do Beiçudo e depois, na EN268, sigam para sueste/sul e explorem as outras descidas possíveis para a Charneca do Amado. Aviso já que nem todas têm saída! Se quando chegarem ao carro ainda não estiverem cansados, sigam pela EN268 para norte, apanhem o trilho a seguir ao Monte da Cunca e tentem descobrir a passagem de regresso à Ribeira da Carrapateira. Para dar uma ajudinha, posso adiantar que ainda se pode fazer por caminhos que estão no mapa!

Espero que a voltinha sugerida nesta carta da Bordeira vos desperte a vontade doutras aventuras nesta ou numa das outras três cartas que referi.

Os “trepadores” irão certamente gostar também da carta de Bensafrim, com as suas subidas bem massacrantes, como, por exemplo, Quinta da Samouqueira – Barranco do Rebentão – Benfica – Águas Ferrenhas –Vale do Grou – vértice do Jogo da Bola: dos 56 aos 222 metros em cerca de 5 km sempre a subir! Quem pensar que é melhor subir antes pelo Barranco do Inferno provavelmente arrepender-se-á...

Os “radicais” apreciarão seguramente a carta de Vila do Bispo, com as suas descidas muito técnicas, entre as quais o “trilho do Leandro”, também conhecido por “fio dental”, que não vem no mapa e desce do Cerro da Barriga para a praia da Cordama ou Cordoama, com precipício à esquerda e precipício à direita e que eu, obviamente, nunca fiz (prudentemente, vou à volta...).



Já os “estradistas” gostarão mais da carta de Sagres, que é a mais rolante, como por exemplo do Vale Santo à Laginha. São cerca de 3km sempre ligeiramente a descer e em bom piso e no Verão então, com a nortada pelas costas... é mesmo a voar!


E é claro, para os verdadeiramente destemidos da BTT e craques de orientação, recomendo pegarem nas quatro cartas e começarem, por exemplo, perto do vértice de Poldra na carta de Bensafrim e tentarem chegar a Sagres sem ir ao alcatrão... e preferencialmente no mesmo dia!

A todos os que resolverem aventurar-se, desejo um bom passeio e que os vossos dotes de leitura de curvas de nível, linhas de água e navegação com bússola não vos deixem ficar mal, como nos aconteceu (e acontece) a nós tantas vezes!

Margarida Novo
FPO 4179
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2 comentários:

Manuel disse...

Eu e a bibicleta nunca fizemos um casal feliz, mas em 1993, com o meu filho e o meu afilhado, ambos com 17 anos na altura, decidi aventurar-me a uma travessia do Algarve interior, de Alcoutim a Aljezur/Arrifana, só recorrendo ao alcatrão quando não houvesse alternativa. Utilizámos 16 folhas da carta militar, incluindo três das mencionadas no texto da Margarida Novo: 593, 601 e 609. A 592 também ia na mochila, mas as dificuldades que os meus jovens companheiros revelaram na subida para o Mu (577 m), na serra do Caldeirão, desaconselharam-me a projectada passagem pela Fóia (902 m), de modo que, na parte final da viagem, trocámos Monchique e Aljezur por Bensafrim e cabo de S. Vicente. Foi uma semana maravilhosa, nas férias da Páscoa, com a serra bem florida, as ribeiras mansas e a passarada alegre entre acasalamento e nidificação.
Agradeço à Margarida a recordação dessas horas felizes, que acabei revivendo numa reportagem de duas páginas que na altura escrevi para um suplemento de Verão.
Manuel Dias

Margarida Novo disse...

Caro Manuel Dias,
Obrigada pelo comentário. É realmente uma zona absolutamente fantástica e ainda não destruída. Já agora, o excerto do mapa que aparece no cabeçalho é do mapa de Bensafrim e não da carta 592 (Bordeira). Acabou por ir ali parar porque eu me esqueci de dizer ao Margarido a que carta pertencia...
Feito este esclarecimento, agradeço mais uma vez as suas palavras. E, quem sabe, acabamos por nos cruzar no terreno?