sábado, 18 de setembro de 2010

MIRIAN FERRAZ PASTURIZA: “MESMO NÃO SABENDO NADA, DECIDI QUE SERIA UMA ORIENTISTA”

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Chama-se Mirian Ferraz Pasturiza, tem 25 anos de idade e é a actual líder do ‘ranking’ nacional brasileiro no escalão de Elite feminina. Atleta do COSaM - Clube de Orientação San Martin - e Militar de profissão, a atleta conta no currículo, entre outros, com os títulos de Campeã Sul-Americana, Vice-Campeã Sul-Americana e Bi-Campeã Brasileira. Vencedora do ‘ranking’ nacional brasileiro nos últimos três anos, é ela a convidada do Orientovar no “Espaço Brasil” deste mês.


Orientovar - Que significado tem para si “ser orientista”?

Mirian Ferraz Pasturiza - "Ser orientista" significa muita coisa para mim, pois foi na Orientação que conquistei muitas amizades, conheci muitos lugares, aprendi a amar ainda mais a natureza e também a superar os obstáculos. Hoje até tenho retorno financeiro e posso-me manter e ajudar a minha família. Posso dizer que “ser orientista” é a minha profissão, a qual levo a cabo com muito prazer e alegria.

Orientovar - Como é que nasceu esse seu gosto pela Orientação?

Mirian Ferraz Pasturiza - Sempre gostei de desporto, mas faltavam-me oportunidades. No campo, onde morava, não tinha como ser atleta de nada. Em 2001, quando estava namorando, o Leandro [Pasturiza] levou-me a algumas etapas do Campeonato Gaúcho; posso dizer que foi “paixão à primeira vista”, pois logo da primeira vez, mesmo não sabendo nada, decidi que seria uma orientista.


“Quando regressei à competição não esperava chegar tão rapidamente ao lugar mais alto do pódio”

Orientovar - Competitivamente falando, quer partilhar connosco o seu primeiro grande momento na modalidade?

Mirian Ferraz Pasturiza - Foi o 3º lugar no Campeonato Sul-Americano em 2005, pois foi nesse ano que fiz a minha estreia na Elite e sem nenhuma perspectiva no tocante a resultados. Possuía uma deficiência física grande mas, a dois meses do Campeonato, resolvi levar as coisas a sério e treinar. Para minha grande satisfação o resultado apareceu e este foi, realmente, o meu primeiro grande momento na Orientação.

Orientovar - Até à data, qual a sua maior alegria na Orientação? E qual a grande decepção?

Mirian Ferraz Pasturiza – A minha maior alegria aconteceu no final do ano de 2007, quando fui Campeã Sul-Americana. No início desse ano sofri um acidente de viação e, por esse motivo, tive um ano bastante difícil com uma paragem muito prolongada. Quando regressei à competição não esperava chegar tão rapidamente ao lugar mais alto do pódio.

A decepção veio em 2009, no Campeonato Mundial Militar, na Estónia. Até essa altura nunca tinha corrido em terrenos na Europa e não tinha a noção das dificuldades. A verdade é que me encontrava em muito boa forma física, fui para a Estónia acreditando num bom resultado, mas isso não aconteceu. Juntando as expectativas elevadas com a falta de experiência, as coisas acabaram por correr mal e sofri uma decepção muito grande.


“Estamos com algumas décadas de atraso em relação aos europeus”

Orientovar - Das recentes experiências em grandes competições internacionais – Suécia e Noruega – quais os aspectos que mais a marcaram?

Mirian Ferraz Pasturiza - Na Suécia o terreno, pela grande dificuldade técnica e pela facilidade de áreas para se praticar Orientação. No Brasil precisamos de viajar muitos quilómetros para encontrar um mapa para treinar ou competir enquanto lá saimos de casa e estamos dentro de um mapa. E bom! Na Noruega, aquilo que me impressionou foi a grandiosidade do WOC, o elevado nível técnico e físico dos atletas do mundo inteiro e também a óptima organização do evento.

Orientovar - Estabelecendo um paralelismo entre a realidade da Orientação brasileira e aquilo que lhe foi dado apreciar, que avaliação faz?

Mirian Ferraz Pasturiza - Eu diria que estamos com algumas décadas de atraso em relação aos europeus. Os nossos terrenos e o tipo de vegetação não são semelhantes aos da Europa, temos dificuldade em encontrar aéreas para se praticar Orientação e as que temos não possuem a exigência técnica que encontramos por aí. Mas eu sou muito optimista e acredito que, se soubermos passar os conhecimentos adquiridos às nossas crianças e aos nossos jovens, conseguirmos formar no Brasil uma equipe jovem e dar-lhes a oportunidade de participar em eventos internacionais, teremos futuramente brasileiros entre os melhores do Mundo. Temos aqui grandes talentos, o que nos falta é oportunidades e condições iguais de treino.


“Muita gente acha que a Orientação é apenas coisa de militar”

Orientovar - Como é que tem acompanhado a evolução da modalidade no seu país?

Mirian Ferraz Pasturiza - Não penso que seja a melhor pessoa para falar de evolução deste desporto, pois considero-me uma novata em relação a outros atletas que já têm mais de dez anos de Orientação. Todavia, desde 2005 que eu e o meu esposo participamos em todos os eventos Estaduais e Nacionais e tenho percebido, ao longo destes cinco anos, uma grande evolução. Por exemplo, o sistema electrónico, que quando me iniciei ainda era por picotagem. Também os mapas evoluíram muito e hoje pode-se confiar no mapa, que é muito importante para o atleta. Outra evolução é a preocupação em participar em eventos internacionais. O próprio nível físico e técnico dos atletas evoluiu bastante nos últimos anos.

Orientovar - Há uma exagerada dependência da Orientação em relação às entidades militares e paramilitares no Brasil? Isso é bom ou é mau?

Mirian Ferraz Pasturiza - Não posso afirmar se é bom ou mau. Por um lado é mau porque acabamos por não evoluir devido à falta de divulgação e aceitação do público. Por exemplo, quando falamos de Orientação a uma pessoa qualquer, ela diz: “Aquilo que os militares fazem”, ou seja, muita gente acha que a Orientação é apenas coisa de militar. Todavia, o apoio dado pelas Forças Armadas tem sido muito importante, principalmente aos atletas de Elite. Hoje a maioria dos atletas de Elite são militares e são esses que conseguem ter apoio para treinar e competir. Eu, por exemplo, até há um ano atrás tinha dificuldade em conseguir participar em todos os eventos. Hoje sou militar da Marinha e ganho o meu salário para treinar e competir. Por conta disto tive ainda a possibilidade de participar em eventos internacionais, o que a título particular seria impossível.


“Quero estar ligada à Orientação enquanto Deus me der vida”

Orientovar - Se estivesse nas suas mãos a capacidade de decidir, qual a primeira grande linha de atuação que introduziria no sentido de ver crescer a Orientação brasileira?

Mirian Ferraz Pasturiza - Introduzia a Orientação como parte integrante do Currículo Escolar e crivar escolinhas de iniciação nos Clubes, dando a prioridade às crianças e adolescentes.

Orientovar - Dentro duma década, como espera ver a Orientação no seu país?

Mirian Ferraz Pasturiza – Tendo uma maior aceitação do público em geral, devido a uma maior divulgação por parte dos meios de comunicação social, situação que hoje ainda não temos e acredito ser necessário. Espero também poder ver uma forte equipa representando o Brasil nos eventos internacionais.

Orientovar - Até quando vamos vê-la ligada à Orientação?

Mirian Ferraz Pasturiza – Quero estar ligada à Orientação enquanto Deus me der vida. Quando não tiver mais ‘pique’ para competir quero continuar transmitindo o que aprendi e incentivando os mais novos.






Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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1 comentário:

Paulo Franco disse...

Boa entrevista. Parabéns por mais uma excelente rubrica. Miriam, isso aí... em frente galera! :)

Paulo Franco