segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ELEIÇÕES NA FPO: ALEXANDRE GUEDES DA SILVA É O NOVO PRESIDENTE

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Alexandre Guedes da Silva é o novo Presidente da Federação Portuguesa de Orientação. Liderando a única lista candidata à Eleição dos Titulares dos Órgãos Estatutários para o biénio 2011-2012, Guedes da Silva tem agora sobre si a responsabilidade de levar por diante um ambicioso programa assente numa premissa que é, em si mesma, uma bandeira da modalidade: “Nós seremos o desporto do Século XXI”.


Uma plateia atenta e interessada encheu por completo o Auditório da SIMLIS na ETAR do Coimbrão, na noite do passado sábado, para duas reuniões magnas da Federação Portuguesa de Orientação. Presidida por Augusto Almeida, a Assembleia-Geral Ordinária, trouxe seis pontos à discussão, dois dos quais – discussão e votação do Plano de Actividades e Orçamento para 2011 e discussão e aprovação do Regulamento de Competições para 2011 - acabariam por ser retirados da Ordem de Trabalhos. O facto de nos encontrarmos perante uma situação de saída duma Direcção para a entrada duma nova determinou esta tomada de posição, votada favoravelmente por maioria.

Dos restantes pontos da Ordem de Trabalhos, destaque para essa leitura de declaração do Presidente da Mesa da Assembleia-Geral para a acta, onde Augusto Almeida deu conta do seu abandono da modalidade, “após 20 anos de vivência como técnico, dirigente e praticante na Orientação”. Na leitura da declaração, Augusto Almeida manifestou-se “desiludido”, assumindo com frontalidade “o termo da ligação afectiva e física à Orientação no final desta Assembleia”. O silêncio que se fez sentir nos momentos seguintes acabaria por ser quebrado pelo futuro Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da Federação Portuguesa de Orientação, José Carlos Pires, pedindo uma ovação, em jeito de homenagem, ao homem que presidiu aos destinos da FPO entre 2002 e 2008 e a ela se manteve ligado nos últimos dois anos, por força do cargo de Presidente da Mesa da Assembleia-Geral.


"Não me parece que deva bater nos amigos"
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Substituindo Augusto Almeida na Presidência da Mesa da Assembleia-Geral Extraordinária que teve lugar logo de seguida, António Amador manifestava o seu desapontamento face à situação: “É uma decisão que compreendo, embora me custe a aceitar. Aprendi a gostar da modalidade e a ser alguém na modalidade com o Augusto Almeida. Os princípios que tenho dentro da Orientação foram-me incutidos por ele. É uma das pessoas mais válidas que existem dentro da modalidade e é, no meu entender, uma perda muito difícil de superar. Mas como amigo dele compreendo a situação e tenho de a respeitar. É essa a função dos amigos, é a de apoiar, mesmo estando em desacordo com as decisões.”

O Orientovar procurou, naturalmente, ouvir Augusto Almeida. A resposta foi clara, simples e concisa: “Sobre o futuro não me pronunciarei porque, face à opção tomada, nada tenho a ver com ele; sobre o passado, não me parece que deva "bater" nos amigos que me proporcionaram as desilusões, porque o importante não é encontrar culpados mas sim a Orientação.”


Resultados do escrutínio

A Assembleia-Geral Extraordinária marcou um momento sempre importante na vida de qualquer colectividade ou instituição, ou seja, a eleição dos Titulares dos Órgãos Estatutários para um dado mandato, no caso concreto para o biénio 2011-2012. A solitária lista presente ao Acto Eleitoral, encabeçada por Alexandre Guedes da Silva, acabaria por ser sufragada por maioria dos 45 delegados presentes (dos 100 que têm assento na Assembleia-Geral com direito a voto), competindo-lhe a partir de agora dirigir os destinos da Federação Portuguesa de Orientação no biénio 2011-2012.

A título de curiosidade, refira-se que os resultados do escrutínio foram os seguintes: Mesa da Assembleia-Geral – 35 votos a favor (10 votos em branco); Presidência e Direcção – 27 votos a favor (17 votos em branco e 1 voto nulo); Conselho de Arbitragem – 32 votos a favor (13 votos em branco); Conselho Disciplinar – 31 votos a favor (13 votos em branco e 1 voto nulo); Conselho Jurisdicional - 31 votos a favor (13 votos em branco e 1 voto nulo); Conselho Fiscal - 32 votos a favor (12 votos em branco e 1 voto nulo).


“A resposta foi muito política, como aliás todo o discurso”

No período que antecedeu a votação propriamente dita, Alexandre Guedes da Silva teve a oportunidade de esclarecer alguns dos presentes sobre questões relacionadas com o Programa Eleitoral desta nova Direcção. Mostrando-se bastante à vontade – “essa é fácil de responder”, seria uma frase recorrente na boca do ainda candidato – Guedes da Silva procurou tranquilizar as hostes, tarefa que não terá sido inteiramente lograda. Pelo menos a julgar pelas declarações de alguns dos participantes nesta reunião magna.

Questionada sobre o facto de ter ficado - ou não – elucidada com as palavras de Guedes da Silva, Raquel Costa, delegada em representação dos praticantes de Orientação, não podia ser mais eloquente: “De forma nenhuma. A resposta foi muito política, como aliás todo o discurso. Agora a eleição está feita e… há que esperar.”


“Não estou desconfiado, estou atento”

As declarações de Tiago Aires, representante do Clube de Orientação da Gafanhoeira – Arraiolos, foram no mesmo sentido: “É difícil ter uma noção do que irá acontecer. As propostas no Programa são apresentadas de forma a que tudo parece tão fácil que quase apetece dar um beliscão para acordarmos e percebermos se aquilo é a sério ou não. A verdade é que algumas das respostas demonstram uma falta de noção do muito que se tem feito, embora numa dimensão menor àquela que parece corresponder à ambição desta nova Direcção.” Mas vai mais longe: “Neste Programa nota-se uma ausência enorme daquilo que é mesmo a Orientação, ou seja, a Cartografia, os Traçados de Percursos, as Selecções Nacionais, as organizações de eventos… mas fundamentalmente o que é um percurso de Orientação, o mapa e o percurso. Nesse campo não temos praticamente nada. Quando vemos numa época inteira apenas duas ou três provas apresentarem a necessária qualidade, obviamente que a culpa é dos juízes controladores que continuam a ter desempenhos muito maus. Não vermos nada no Programa a este respeito faz-me muita impressão.”

Desconfiança em relação ao futuro? Tiago Aires recusa o termo, considerando-o “até ofensivo”, mas… “Tal como não gostei do tom usado por Alexandre Guedes da Silva em relação a tudo o que tem sido feito no passado – e estou à vontade para falar porque não tenho nada a ver com a anterior Direcção -, também não quero usar o mesmo tom. Julgo que é um tom que pode afastar as pessoas que mais têm trabalhado em prol da modalidade, que mais sabem da modalidade e que não são tantas assim. Não estou desconfiado, estou atento e espero que a maior parte das propostas possam seguir em frente para o bem da Orientação.” A terminar, o Campeão Nacional Absoluto e até há bem pouco tempo responsável pelas selecções nacionais dos escalões mais jovens, lança um repto: “Se estamos a pensar em termos seis técnicos a tempo inteiro, porque não apenas um que fosse um Juiz Controlador, uma pessoa conceituada que assumisse o controlo das provas, pelo menos das nacionais, garantindo uniformidade e a qualidade mínima requerida para os eventos mais importantes.”


“As expectativas são grandes”

Instado também a pronunciar-se a este propósito, António Amador, candidato eleito para o cargo de Vice-Presidente da Mesa da Assembleia-Geral, respondeu da seguinte forma: “Tenho a minha visão da modalidade e se estou nela é porque entendo que é uma modalidade importante e pela qual vale a pena lutar. Aceitei integrar esta lista precisamente por ser fiel a estes princípios. Penso que é uma lista com ideias muito válidas, foi a única que se chegou à frente para assumir a continuidade dos destinos da Federação e espero sinceramente que venha trazer algo de novo e algo de bom à modalidade e que a faça evoluir no sentido que os atletas e os Clubes pretendem.”

José Fernandes, Delegado representante dos Cartógrafos de Orientação, a “imagem” do WMOC 2008 e figura particularmente estimada no seio da modalidade, deixou-nos as suas impressões: “Perante uma Direcção eleita democraticamente, a primeira coisa que se deve fazer é dar-lhe o voto de confiança. Creio que esse voto foi dado e agora vamos esperar. Atendendo ao estudo feito pelo Alexandre Guedes da Silva e às suas declarações, as expectativas são grandes. É um homem que não está bem no meio da Orientação mas que também não está fora dela e isso talvez seja positivo. A Orientação tem cá alguns “quistos” e é bom que alguém, com uma visão exterior, possa surgir com novas directivas para dar um outro impulso à Orientação, que é disso que precisamos. Penso que a pior coisa que poderia acontecer neste momento era estarmos desconfiados.”


“Acho que merecíamos respostas mais concretas”

Delegado pelo Clube ATV – Académico de Torres Vedras, Luís Sérgio aceitou falar para o Orientovar mas fez questão de frisar que apenas a título pessoal. E começou por afirmar que as explicações de Alexandre Guedes da Silva, não o convenceram: “Não me satisfez, não foi suficientemente concreto… Logo no início, quando lhe foi pedido para apresentar o projecto, dizer que tem um problema de voz e que já escreveu aquilo que tinha para dizer parece-me pouco, atendendo à relevância e à situação actual. As respostas não foram manifestamente satisfatórias, principalmente no tocante aos meios referidos no Programa, quer materiais quer humanos. Acho que merecíamos respostas mais concretas.” Preocupação, parece ser a nota dominante: “Estou preocupado porque olho em concreto para a Direcção e não vejo lá a massa crítica necessária para conseguirmos levar as coisas a bom porto. Há ideias interessantes, há ideias que são válidas, mas há outras que são claramente megalómanos e era importante haver capacidade para distinguir umas das outras. É fundamental envolver os Clubes em todo este processo, mas aquilo que vimos não foi de inclusão, foi de sobranceria, o que me deixa um bocado preocupado.”

Katia Almeida foi uma das fundadoras da Federação Portuguesa de Orientação e é um dos rostos da nova Direcção. Ao Orientovar, a responsável pela Orientação Pedestre, Internacionalização e Recursos Humanos, falou das prioridades: “Temos de reunir e tentar perceber como é que nos vamos organizar para avançarmos. Em termos pessoais e da própria lista, uma grande prioridade é ouvir o que os Clubes têm para dizer e tomar decisões com base na opinião dos Clubes e dos praticantes, porque eles é que são a modalidade.” Quanto à ambição de virmos a ser o “Desporto do Século XXI”, Katia Almeida afirmou que “tudo o que a modalidade faz está em linha com temas da actualidade, como a prática desportiva, o ambiente, o próprio conceito de família. É pois um desporto que tem muito para oferecer a toda a gente.” E a terminar: “É muito pouco tempo para pormos em prática tanta coisa. É, sem dúvida, um grande desafio e que encerra um compromisso para com todas as pessoas da modalidade.”


“Eu sou o Presidente de todos os orientistas”

Por fim, ouvimos Alexandre Guedes da Silva, o novo Presidente da Federação Portuguesa de Orientação: “A maior prioridade é arrumar a casa e criar condições para simplificar os processos. Continuo a pensar que andámos estes anos todos a desperdiçar muita energia e aquilo que urge é liderar essa energia na direcção certa. Queremos constituir um esforço coadjuvante, não nos substituindo àquilo que é a vontade e o trabalho dos Clubes, antes criando condições para que esse trabalho seja ainda mais gratificante do que é hoje em dia. E vamos sobretudo criar condições para que a modalidade possa ser extraordinariamente apelativa para quem nos visita, para quem chega pela primeira vez.”

Promover o diálogo com os agentes da modalidade é outra das preocupações da nova Direcção: “Vamos ouvir as pessoas, perceber as suas preocupações e depois fazer a nossa análise para podermos tomar decisões. É óbvio que não podemos agradar a todos; aliás, longe de nós pretendermos criar unanimismos. Vamos defender as nossas ideias, vamos falar com toda a gente mas mantendo a independência de decidirmos aquilo que entendermos possa ser o melhor para a modalidade.” A terminar, uma certeza: “Eu sou o Presidente de todos os orientistas. O desafio é muito grande, a equipa está unida, há uma forte vontade de reformar aquilo que está mal e é esse o caminho que iremos seguir.”

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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3 comentários:

Mário Santos disse...

Não sei se já alguém reparou, mas questiono-me porque razão 30% dos meios humanos da FPO vão ser "técnicos de arenas".

Pergunto-me se realmente é isto que vai trazer mais pessoas para a modalidade e conseguir manter aqueles que já cá estão... e não estou a conseguir obter a resposta.

Pelo menos a mim, não será essa a razão que me levará ou não a renovar a minha licença da FPO... talvez outras razões e essas continuo a ver que ainda não foram acauteladas.

Como já as referi no passado, mais que uma vez, dispenso-me de as repetir novamente.

Fabio Silva disse...

As declarações que o Orientovar apresenta no artigo enquadram-se muito bem no retrato da orientação nacional,deixando portanto questões por responder.

Ao longo de todo o acto eleitoral e pela análise das considerações finais (se é que assim se podem chamar) é transmitida a impressão de que esta nova direcção pretende reorganizar a orientação em Portugal da estaca zero.

Espero que esta tenha consciencia do trabalho que tem sido desenvolvido aos diversos níveis e do que realmente precisa de ser trabalho!

Atentando alguns pontos que penso serem cruciais:
-Traçado de percursos;
-Cartografia;
-Logistica de coesam das anteriores.

[Não mencionei as selecções mas é pertinente que estas se tenham em conta visto que estas refletem o trabalho desenvolvido pelos TECNICOS e pelos próprios ATLETAS]

Qual destes o mais importante?!

Pois... se é muito bonito que os vencedores da provas fiquem contentes com as medalhas é mais relevante que dessa experiencia adquiram conhecimentos técnicos.

O que obriga a dois tópicos: traçado e cartografia. Se estivesse a fazer orientação pela primeira vez como um miúdo entre 10 e 14 anos e me dessem um percurso onde sou obrigado a "fazer das tripas coração" para chegar ao fim, sinceramente, nunca mais lá punha os pés e muito menos recomendaria a alguem.
Isto contando que tudo no mapa bateria certo com terreno...

Com isto não quero criticar ninguém!
Queria apenas que face ao que descrevi em cima refletissem se é de facto mais importante ter todos os meios logisticos na arena ou por outro lado ter uma qualidade técnica que excelencia que nos permitisse ter a certeza de que um atleta que realiza todas as provas da taça de portugal e treina regular-me não se encontra em desvantagem para com, por exemplo, um atleta suiço nas mesmas condições.

Se possível gostaria que alguem desta nova direcção, agora que se deram por terminadas as eleições, nos exclarecesse sobre este tipo de dúvidas.

Por certo que se evitaria o burburinho e se poderia realmente dizer "eu confio no futuro da orientação" sem ser com base unica e exclusivamente no programa eleitoral.

Atentamente,

Fábio Silva

grigaspiteira disse...

Concordo plenamente com o Fábio. A nova direcção tem que reflectir sobre aquilo que é mais importante para a modalidade neste momento, se é termos 6 técnicos a tempo inteiro, 3 autocaravanas, 1 tenda etc... Ou termos mapas bem cartografados com percursos bem traçados e apostarmos mais nas selecções nacionais, com estágios etc...

Porque Portugal tem terrenos espectaculares para a prática de orientação, que muitas vezes não são devidamente aproveitados graças a cartografia deficiente ou a percursos desinteressantes.

Sinceramente prefiro ir a uma prova que tenha um bom mapa com um percurso interessante e que na arena apenas existam as coisas essenciais (secretariado, partidas, chegadas...), do que ir a uma prova com um ecrã gigante, tendas com lugares sentados... mas que depois o mapa esteja cheio de erros e o percurso não tenha o mínimo interesse.

É claro que o ideal seria conciliar tudo isso...

Cumprimentos
Grigas Piteira