segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ANTÓNIO RODRIGUES: "A FEDERAÇÃO NÃO SE PODE SUBSTITUIR AOS CLUBES EM TODAS AS SITUAÇÕES E ESSA É, TALVEZ, A MAIOR FRAQUEZA DA MODALIDADE"

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Liderou a Direcção da Federação Portuguesa de Orientação ao longo dos últimos dois anos e está agora de saída. Tornando pública a sua indisponibilidade para se manter no cargo e completar aquilo que falta de mandato para o quadriénio 2008/2012, António Rodrigues aproveita a embalagem e faz um balanço da experiência. São vinte as questões às quais responde de forma correcta e honestíssima, como aliás é seu timbre. Leia, aqui e agora, mais uma Grande Entrevista.
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Orientovar - Estamos a poucos dias das eleições e, publicamente, ninguém sabe se a actual Direcção irá ou não a votos. O Orientovar sabe, contudo, que já há muito tempo que o Presidente da FPO e restante Direcção decidiram não se apresentar a novo mandato. Porque é que resolveu alimentar o tabu até agora?

 António Rodrigues - Não existe nenhum tabu. Desde a aprovação do novo regime jurídico das Federações Desportivos e do seu regime de incompatibilidades que quem acompanha mais de perto estes assuntos sabe que, por pertencer à Direcção dum Clube, eu não poderia ser candidato. Se juntarmos a minha cada vez maior dificuldade em conciliar a minha actividade profissional com as várias horas de trabalho que a Presidência da FPO ocupa, chega-se a esta conclusão.
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Orientovar - Este baixar dos braços – porque é claramente disso que se trata – não vem dar razão àqueles que acusam esta Direcção de estar cansada, de não ter ideias, de não ter projectos?

António Rodrigues - Cada um dos membros desta Direcção teve as suas razões para não querer também continuar, desde problemas também com o regime de incompatibilidades, profissionais, pessoais e até de cansaço de muitas horas dadas à Orientação, retiradas à actividade profissional, pessoal e de lazer, sem o devido reconhecimento, muito pelo contrário.


“Enquanto as decisões foram ao encontro da maioria dos destinatários não houve nenhum problema”

 Orientovar - O Orientovar também sabe que a Direcção, na qualidade do Presidente e também do Presidente da Assembleia-Geral, não queria patrocinar qualquer lista mas mostrou-se disponível para discutir e procurar uma solução que assegurasse a continuidade da transparência e boa gestão financeira e desportiva da modalidade. Quer concretizar? Quais as entidades sondadas?

 António Rodrigues - É necessário clarificar um mal entendido que por vezes se comete. Desde o novo regime jurídico que não existe Presidente da Direcção. Existe o Presidente da Federação e existe a Direcção, composta pelo Director Executivo, o Director Financeiro, o Secretário e três vogais. Dada a minha já referida impossibilidade de continuar, e como pessoa responsável, procurei, em conjunto com a Mesa da Assembleia-Geral, encontrar uma solução de continuidade que prosseguisse o trabalho efectuado até aqui.

 Orientovar - Herdou da anterior Direcção uma situação que eu classificaria como “muito simpática”, pelo menos do ponto de vista financeiro e, ao princípio, as coisas até correram bem. Quando é que começou a sentir que o “estado de graça” tinha acabado?
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 António Rodrigues - Não se trata de nenhum estado de graça. Esta Direcção e o Presidente sempre se dedicaram à resolução de todos os assuntos duma forma séria e honesta. Enquanto as decisões foram ao encontro da maioria dos destinatários não houve nenhum problema; quando algumas delas começam a não ser o que deseja, surgem sempre algumas críticas.


“O meu carácter reservado levou a que não promovesse por vezes o diálogo”

 Orientovar - Do seu ponto de vista, qual foi o grande erro desta Direcção?

 António Rodrigues - Quanto ao Presidente da Federação, julgo que o meu carácter reservado levou a que não promovesse por vezes o diálogo com os diversos actores da modalidade e que isso poderá ter sido o maior erro.

 Orientovar - Aceita a crítica generalizada de não responder às questões que lhe foram sendo colocadas, preferindo uma “fuga para a frente” e esperando que o tempo se encarregasse de resolver, por si só, os problemas?

 António Rodrigues - Todas as questões, que me lembre, foram analisadas e debatidas. Talvez depois a comunicação para fora não tivesse sido a mais eficaz.


“O que aconteceu foi um desrespeito da Direcção da Prova em relação a um órgão eleito da Federação”

 Orientovar - Há uma situação que marca claramente este seu final de mandato e que tem a ver com a Assembleia-Geral de Vinhais, em Abril passado. Afinal, o que é que se passou em Vinhais que tivesse deixado tão agastado o Presidente da AG e tivesse criado uma ruptura tão grande, tanto nas bases como nas cúpulas da própria FPO?

 António Rodrigues - Na minha opinião, o que aconteceu foi um desrespeito da Direcção da Prova em relação a um órgão eleito da Federação, ao alterar a Cerimónia de Entrega de Prémios [Campeonato Nacional de Sprint de Orientação Pedestre] para uma hora coincidente com a Assembleia-Geral, levando a que a quase totalidade dos delegados permanecesse na cerimónia e atrasando a Assembleia-Geral em cerca de uma hora.

 Orientovar - Vinha sendo norma a variação de região geográfica entre o POM e a prova WRE que se lhe segue, quatro dias depois. Esta situação não se verificará no próximo ano (POM e II Meeting de Arraiolos têm lugar em terrenos quase contíguos) e está na origem duma “guerra” Norte – Sul. Porque é que não se acautelou devidamente esta situação?

 António Rodrigues - A atribuição de provas faz-se mediante as candidaturas que são apresentadas pelos clubes e, que me lembre, foram essas duas que se apresentaram.


“Esta época foi pródiga em más interpretações do Regulamento de Competições”

 Orientovar - Outra situação que eu, pessoalmente, nunca entendi é porque é que a Direcção retirou publicamente os títulos nacionais de Sprint e de Distância Média de Orientação Pedestre ao João Mega Figueiredo e depois repôs a verdade devolvendo os títulos ao atleta mas nunca tornando isso público. Porque é que se escondeu isso?

 António Rodrigues - A primeira decisão foi errada e depois de analisados novos argumentos e novos dados foi reposta a situação. Se não foi devidamente informada, foi por problemas de comunicação e não de tentativa de esconder o que quer que fosse.

Orientovar - Em que pé se encontra o imbróglio que envolveu alguns atletas do Clube GafanhOri e que lhes valeu a perda de títulos nacionais de Distância Longa e de Estafeta de Orientação Pedestre, alegadamente por situações de irregularidade nas renovações de licenças (um caso em tudo semelhante ao do João Mega Figueiredo)?

 António Rodrigues - Esta época foi pródiga em más interpretações do Regulamento de Competições por ter havido uma versão base e outra aprovada com todas as alterações sugeridas. Para obviar a isso, irá ser apresentado na Assembleia-Geral um Regulamento de Competições para 2011.


“As participações em provas neste momento de crise financeira generalizada têm muitas variáveis”

Orientovar - Tiago Aires, Raquel Costa e António Marcolino “bateram com a porta” no tocante às selecções jovens de Orientação Pedestre. A Direcção da FPO terá solicitado uma reunião para tentar ultrapassar a situação mas até hoje a data está por acertar. Não era essa uma situação merecedora da maior urgência no tratamento a dar?

 António Rodrigues - Começou por ser urgente mas os compromissos internacionais de alguns intervenientes, as férias, uma dificuldade de agenda e o aproximar de eleições obviaram a que não se realizasse essa reunião.

 Orientovar - O que sente um Presidente da Direcção da Federação Portuguesa de Orientação quando uma prova da Taça de Portugal de Corridas de Aventura (Beloraid, Burgos) tem um índice de participação zero? O que é que falha nestes casos?

 António Rodrigues - As participações em provas neste momento de crise financeira generalizada têm muitas variáveis que são aferidas pelos praticantes, como por exemplo a qualidade dos terrenos e das provas, a distância, a logística necessária à participação. Neste caso das Corridas Aventura acresce que é uma vertente colectiva em que tem de participar uma equipa que por vezes é difícil de reunir.
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“Um dos pilares deste mandato era reactivar a figura do Director Técnico Nacional”

 Orientovar - Que avaliação faz a Direcção da FPO da forma como decorreram os Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT e, já agora, quanto pesaram nos cofres da Federação?


António Rodrigues - Decorreram de forma muito positiva, como demonstram as declarações de diversos responsáveis das delegações presentes e do representante da IOF. Também a nível desportivo foi um sucesso, tendo sido a melhor representação de sempre em Campeonatos do Mundo. A nível financeiro não pesaram nada nos cofres da FPO porque as receitas quase que cobriram a totalidade dos custos.

Orientovar - Como é que avalia o desempenho da Direcção Técnica Nacional. O Professor António Aires correspondeu inteiramente às expectativas?

 António Rodrigues - Um dos pilares deste mandato era reactivar a figura do Director Técnico Nacional e a sua contratação foi bem conseguida atendendo, não só aos resultados obtidos nas Selecções Nacionais, mas também ao desenvolvimento dos OriJovem e à organização técnica geral da FPO, tudo isso em conjugação com muitos voluntários que ao longo destes dois anos deram muito à Orientação nacional.
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“Os clubes esperam que seja a Federação a tomar todas as iniciativas”

 Orientovar - Mudando de assunto, porque é que a sua Direcção não acarinhou como seria de esperar o Dia Nacional da Orientação 2010? Como é que viu o distanciamento da iniciativa por parte de clubes como a ADFA, o COC ou o Ori-Estarreja, por exemplo?

 António Rodrigues - A FPO acarinhou desde o princípio esta iniciativa e tentou motivar todos os clubes para fazerem desse dia a demonstração da sua força e imagem externa. Mas a Federação não se pode substituir aos clubes em todas as situações e essa é, talvez, a maior fraqueza da modalidade. Os clubes esperam que seja a Federação a tomar todas as iniciativas.

 Orientovar - Se há área onde acredito que vale a pena apostar – embora seja suspeito para o afirmar, até por aquilo que pode ser designado por “deformação profissional” – é na Orientação de Precisão. Nunca percebi, contudo, um esforço sério por dar à Orientação de Precisão a importância que ela merece. Porquê?

 António Rodrigues - Talvez não saiba mas também eu tenho, por razões pessoais, algum carinho pela Orientação de Precisão e, como sabe, o DTN sempre acompanhou e desenvolveu a Orientação de Precisão tendo sempre orientações expressas minhas para o seu empenhamento nesse projecto.
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“Talvez daqui a algum tempo a fotografia precise de ser retocada”

 Orientovar - A Comunicação e Imagem era uma das áreas prioritárias de actuação do programa desta Direcção. Que avaliação faz do trabalho desenvolvido?

 António Rodrigues - Foi talvez a área menos desenvolvida destes dois anos mas que teve o seu ponto alto nos Campeonatos Mundiais de Orientação em BTT onde se realizou um trabalho meritório e que durante a semana da sua realização deu a conhecer a modalidade em muitos meios de comunicação.

 Orientovar - Tudo leva a crer que Alexandre Guedes da Silva será o seu sucessor. Como é que entendeu as críticas que foram dirigidas pelo próprio à sua Direcção neste último mês e meio e, porque é que nunca esboçou qualquer espécie de defesa e, já agora, que credibilidade lhe merece esta candidatura?

 António Rodrigues - Um estudo teórico que é a opinião de quem o realiza, com o seu conhecimento da realidade que nunca é completo, não necessita de contraditório, é uma fotografia. Mas num curto espaço de tempo o estudo teórico levou o seu autor a mandatário duma lista e, pelos vistos, a candidato a Presidente. Talvez daqui a algum tempo a fotografia precise de ser retocada. Quanto à credibilidade da candidatura, quando estou a escrever estas linhas não conheço nenhum outro nome da lista candidata e não conheço suficientemente bem o Sr. Alexandre Silva para fazer algum juízo de valor.
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“Continuarei a ser um praticante assíduo”

 Orientovar - Que FPO vai encontrar o seu sucessor? Ou, colocando a questão doutra forma, do seu ponto de vista qual o actual estado da FPO se o compararmos com aquele que encontrou há dois anos atrás?

 António Rodrigues - Como sempre afirmei, a minha candidatura era de continuidade do trabalho desenvolvido até aí e não de ruptura. Procurei continuar as políticas seguidas até então com a minha visão pessoal e tenho a consciência que deixo a FPO preparada para continuar a fazer aquilo que é a sua missão, desenvolver a Orientação.
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Orientovar - A Orientação para si “morre” no dia 25 de Setembro ou vamos continuar a tê-lo no seio da família orientista?

 António Rodrigues - A Orientação foi uma modalidade que descobri e que me motivou pelos seus princípios, a sua conduta e os amigos que fiz. Desde que esses parâmetros se mantenham continuarei a ser um praticante assíduo.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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