sábado, 18 de setembro de 2010

ALEXANDRE GUEDES DA SILVA: "É CHEGADA A ALTURA DE INVERTER ESTE RUMO"

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É uma entrevista aguardada com naturais expectativas. As eleições para os Corpos Sociais da Federação Portuguesa de Orientação do próximo sábado suscitam paixões e levantam interrogações. Alexandre Guedes da Silva é o convidado de honra do Orientovar e responde aqui e agora a um conjunto de questões julgadas, nesta altura crucial, particularmente pertinentes. Em ambiente de enorme cordialidade, a conversa pessoal, tida ao final da tarde de hoje, chega agora a público. A si, leitor, o direito de julgar.


Orientovar - Num momento crucial para a nossa modalidade, surge como mandatário duma lista que, agrupando um leque respeitável de individualidades, não tem Presidente da Direcção. Porque não acredito em tabus e porque a situação é, no mínimo, anómala, atrevo-me a perguntar-lhe: É candidato à Presidência da Direcção da Federação Portuguesa de Orientação?

Alexandre Guedes da Silva – Sim. Acabámos por concluir que, de facto, dentro do leque de pessoas que está disponível, pela experiência, pelos recursos e até pela disponibilidade, eu serei a pessoa com melhores condições para conduzir esta lista. Há aqui uma questão acrescida e que se prende com o facto de ser necessário para o cargo uma pessoa que tenha uma percepção política da situação e que consiga fazer passar a mensagem a quem nos governa, aos outros parceiros, aos “take holders” da Orientação, e acabei por interiorizar que, de facto, serei eu a liderar a lista.

Orientovar - Estas são umas eleições impostas por força das alterações à legislação enquadrante das Federações Desportivas e que corta um mandato a meio. Ao levar uma lista própria a sufrágio contra os actuais Corpos Sociais, não teme que a iniciativa possa ser classificada como um "assalto ao poder"? Ou seja, não seria mais coerente dar a oportunidade à actual Direcção da FPO de levar o seu mandato até ao fim?

Alexandre Guedes da Silva – Quando aparece uma lista concorrente a qualquer eleição há sempre um assalto ao poder. Isso é natural, faz parte do jogo democrático e é normal que assim aconteça. Sobretudo quando esse “assalto ao poder” é um assalto que tem a ver com novas ideias, com o debate de ideias, com o ser capaz de discutir aquilo que são as propostas que podem moldar o futuro. Eu acho, portanto, que é salutar que haja essa disputa. Em relação aos actuais dirigentes da Federação e ao facto de deixar que prossigam o trabalho, de facto apercebi-me ao longo deste mandato que esta não era uma equipa coesa. Era uma equipa desconexa, era uma equipa que partiu para este mandato completamente cansada porque já vem de mandatos anteriores e há ali todo um cansaço acumulado. Foi perdendo ânimo pelo caminho, foi perdendo elementos pelo caminho e está, quanto a mim, muito desmoralizada. Não me parece sequer que seja uma equipa que queira continuar um projecto que ela própria não consegue definir e que, por essa via, não traz nada de novo e demonstra, inclusivamente, uma ausência de futuro naquilo que devem ser as ideias e a direcção a seguir. Nesse sentido, não estou a usurpar a oportunidade a ninguém. Estou a disputar uma eleição, estou a fazê-lo com ideias e com uma equipa motivada para trabalhar.


“A força anímica das pessoas diminuiu claramente”

Orientovar - Nestes últimos tempos, percebeu-se o seu empenho em fazer um levantamento exaustivo do actual estado da nossa Orientação, com um enfoque muito grande sobre o tratamento dado aos problemas por parte daqueles que têm carregado a responsabilidade de gerir os destinos da modalidade. O seu estudo macro tem aspectos de enorme relevância, apesar dos números avançados se reportarem basicamente a um período até 2008, numa altura em que Augusto Almeida era ainda o Presidente da Direcção da FPO. Assim, as suas críticas são dirigidas em particular a Augusto Almeida, a António Rodrigues - o actual Presidente - ou a ambos?

Alexandre Guedes da Silva – Eu não pessoalizo as críticas, tal como não pessoalizo as lideranças. As lideranças são partilhadas sempre com uma equipa e é uma equipa que define o rumo a tomar. Embora com características diferentes, o Augusto e o António lideraram equipas constituídas por si e acho que a crítica é sobretudo àquilo que foi o desempenho colectivo dessas equipas e não às pessoas que as lideraram. Essas terão responsabilidades no estado de coisas, naturalmente, mas não são o objecto da crítica.

Orientovar - Margarida Gonçalves Novo alertava, no Fórum FPO, para o risco de desaparecimento da nossa modalidade. Este risco é real?

Alexandre Guedes da Silva – A Orientação, tal como a conhecemos, hoje em dia está em risco de desaparecer. Tivemos um período de apogeu mas estamos já numa fase de acentuado declínio. Esse período de apogeu aconteceu à custa duma enorme energia, com muita gente, muitos voluntários, muitos clubes, muitas organizações que se mobilizaram em torno de projectos e de eventos e que está hoje sem força anímica. Portanto, a Orientação que se conheceu nestes últimos anos tende a reduzir dramaticamente a quantidade de energia que tem sido patente e estamos num momento em que travagem pode ser brusca e acarretar consequências muito sérias. A força anímica das pessoas diminuiu claramente.


“Sem trabalho não há soluções”

Orientovar – Na sua opinião estamos hoje, com António Rodrigues, pior do que há dois anos atrás? O que é que faltou a esta Direcção?

Alexandre Guedes da Silva – A esta direcção faltou quase tudo. Não existiu um plano estratégico, não se conheceram aquilo que seriam as linhas mestras do mandato. Houve uma série de decisões avulsas que aumentaram a incerteza nas pessoas, nos clubes. A própria alteração na legislação fez com que o desnorte fosse ainda maior, porque a imagem que foi transmitida para os clubes era de caos. Vem aí o caos, não há soluções… Na realidade as soluções não são fáceis. Exigem trabalho e sem trabalho não há soluções. Foi seguramente um mandato infeliz, o conjunto das pessoas valeu pouco e tenho a perfeita consciência que cada uma delas, de per si, vale muito mais do que aquilo que mostrou. Portanto, o diagnóstico destes dois últimos anos é francamente desanimador. Não sou o único a pensar assim, há muita gente que sente esse desânimo, essa tristeza. É chegada a altura de inverter este rumo.

Orientovar - Concorda, todavia, que houve uma melhoria quantitativa e qualitativa da própria modalidade, traduzida em materiais e equipamentos mais adequados e em resultados das nossas selecções, sobretudo ao nível das camadas jovens?

Alexandre Guedes da Silva – Não concordo. Mais uma vez, aquilo que é evidente é que não havia plano para esses resultados. Aconteceram por “obra do acaso”. Não houve nada que guiasse esses resultados para que eles aparecessem de forma evidente. Não é que não tenha havido trabalho. Houve trabalho mas um trabalho não devidamente objectivado. Aquilo que deveriam ser as metas não se conheciam. As pessoas trabalharam sem se perceber bem o que esperar. E depois veio aquele “excepcional resultado na Orientação em BTT”, por exemplo. Mas porquê? Porque é que não perspectivaram aquele resultado antes? Aquilo que me parece evidente e que se demonstra à saciedade é que a Federação não conseguiu estruturar-se dentro daquilo que são as políticas desportivas nacionais. Há um conjunto de directivas macro que não foram bem entendidas por esta Direcção. Não conseguiu alinhar-se com elas e não conseguiu apresentar as propostas devidas para cada uma delas. Hoje em dia, quando uma Federação de Orientação continua sem ter um contrato-programa de desenvolvimento desportivo para a Alta Competição e para as Selecções Nacionais quer dizer que não tem perspectivas de futuro. Ou seja, se me pergunta honestamente se os resultados apareceram, se não se trabalhou, acredito que se trabalhou, acredito que os resultados não foram só obra do acaso, mas também tenho a certeza absoluta que o programa não foi eficaz porque, pura e simplesmente, não existiu.


“Se não vieram os resultados, não terá sido por falta de empenho da nossa parte”

Orientovar - O seu estudo reflecte muito sobre os apoios e financiamentos sistematicamente desperdiçados, adiantando o desconhecimento, a inabilidade ou a inércia das sucessivas Direcções da FPO como causa para este estado de coisas. Não teme, nestes capítulos, esbarrar em dificuldades "inesperadas" e acabar por ter de dar "a mão à palmatória" no tocante à incapacidade em rentabilizar eventuais fontes de apoio e de financiamento?

Alexandre Guedes da Silva – Para responder a isso, devo recorrer à velha máxima do “quem não arrisca, não petisca”. Invariavelmente, aquilo que transpareceu e que é notório é que não houve sequer a tentativa de arriscar. Quando uma Federação não apresenta propostas de financiamento aos financiadores é impossível obter financiamento. O nosso compromisso reside em apresentar as propostas. Se depois elas logram vencimento, dependerá da nossa habilidade em demonstrar a sua validade, dependerá da receptividade dos financiadores em acolhê-las para financiamento. Aqui, o compromisso que o grupo assume vai no sentido de construir as propostas, de apresentá-las e de lutar por elas. Se não vieram os resultados, não terá sido por falta de empenho da nossa parte. Há depois algumas lógicas que têm de ser seguidas e bem percepcionadas. As propostas não podem ser feitas sem serem devidamente enquadradas. Se pespectivarmos propostas na área do mecenato, junto de Fundações ou de entidades benfeitoras, temos de perceber para onde estão vocacionadas, qual é a missão delas, que tipo de apoios dão. Do estudo que eu fiz, ficou claro que cerca de 90% das instituições – sobretudo Fundações - que facultam financiamentos para actividades desportivas, facultam-nas a pessoas com deficiência, a pessoas excluídas, a pessoas que doutra forma não poderão participar nelas. É impensável que uma modalidade que tem uma disciplina vocacionada prioritariamente para pessoas com deficiência, o Trail-O, não tenha sido objecto de propostas a essas organizações para apoio. Portanto, o Trail-O é claramente uma área onde a minha direcção irá apresentar propostas para financiamento.

Uma última achega: Nenhuma dessas instituições está disponível para financiar a Alta Competição, entendem que essa não é a missão dela. É no Estado – neste caso no Instituto do Desporto de Portugal – que devemos apostar fortemente para o financiamento da Alta Competição. Há ainda o “sponsoring”, uma área difícil e que tem de ser tratada a nível profissional. O grau de exigência na contratualização com esses sponsors” é de tal maneira elevado que só um corpo profissional e especializado consegue dar resposta. E é por isso que algumas Federações conseguem ter esse tipo de apoios e outras não têm. A Orientação não tem esses apoios porque nunca conseguiu apresentar garantias de que iria cumprir os contratos com profissionalismo e com o retorno negociado com esses “sponsors”.


“Eu não temo qualquer isolamento, antes pelo contrário”

Orientovar - A sua intenção em suscitar o debate de ideias mereceu da comunidade orientista um incompreensível alheamento. Admite que a forma como foi tirando ilacções e descredibilizando os grandes responsáveis pelos destinos da modalidade possa ter retirado seriedade ao seu estudo e afastado as pessoas?

Alexandre Guedes da Silva – De facto o estudo seguiu uma metodologia científica e houve uma preocupação muito grande de, para cada assunto, fazer um levantamento exaustivo do que estava ali em causa e em fundamentar toda a demonstração do tema com base em dados sólidos e credíveis. Esse foi, ao fim e ao cabo, o fio condutor de todo o estudo. Houve depois a introdução de elementos que eu considero de “técnica comunicacional”, que de alguma forma tentaram criar, junto das pessoas que iam acompanhando o estudo, espaço para a interacção, para suscitar o tal debate que se pretendia. Penso que terei sido bem sucedido no primeiro conjunto, não terei sido bem sucedido no segundo. Falha minha, não ter conseguido encontrar um modelo que espicaçasse mais o debate, que fosse mais incisivo, que criasse mais oportunidades às pessoas. Se calhar inabilidade minha, talvez não tivesse colocado os assuntos a um nível que permitisse às pessoas entraram, talvez fosse demasiado científico. A verdade é que, a partir de determinada altura e sempre que me foi possível, forcei questões por forma a que desse a oportunidade de contraditório. Ele não aconteceu e não aconteceu por vontade expressa das pessoas a quem esse contraditório era dirigido. Deverá perguntar a elas o porquê de tamanho silêncio. Para a maior parte dos orientistas ficou a ideia, eventualmente errada, de que tudo aquilo que lá está é verdade e que as pessoas não tinham por onde se defender. Eu não acredito nisso, mas ficou essa ideia nas pessoas.

Orientovar - Se projectarmos na sua pessoa este alheamento da comunidade orientista, no caso de vencer as eleições - e estou certo que está na corrida para vencer - não teme ficar isolado?

Alexandre Guedes da Silva – Não, de maneira nenhuma. Isso não irá acontecer. E não irá acontecer porque a equipa está motivada para a interacção. Ela vai forçar a interacção. Ela vai ressuscitar algumas das ferramentas de interacção que a Orientação sabia usar e usava bem. Uma das ferramentas de interacção que é óbvia é a reunião de clubes. É inconcebível que esse hábito extraordinariamente salutar tivesse desaparecido. Não há explicação para que isso tivesse acontecido. A partir do momento em que os clubes, nessas reuniões, forem chamados a debater os assuntos sérios, a dar a sua opinião, sobretudo a serem ouvidos, aí concerteza que vão dar contributos muito importantes. Eu não temo qualquer isolamento, antes pelo contrário. Acho que as pessoas estão ávidas de serem ouvidas e, sobretudo, de terem a percepção que, de facto, há alguém com disponibilidade para as ouvir.


Leia AQUI a segunda parte da Entrevista.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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