quarta-feira, 21 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: A PALAVRA DE ANTÓNIO AIRES, SELECCIONADOR NACIONAL DE PORTUGAL

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Director Técnico Nacional e responsável máximo pelas selecções nacionais de Orientação em BTT, António Aires era um homem feliz no final da jornada de Montalegre. Aqui fica a sua análise aos bons resultados da selecção portuguesa… e não só!


Orientovar – No final destes Campeonatos, qual o seu balanço?

António Aires – Dia após dia foram sendo batidos os melhores resultados de sempre em Campeonatos do Mundo de Seniores e obviamente fico muito satisfeito porque isto é um sinal do trabalho que se começou a fazer. Um trabalho de fundo, pegando em alguns atletas com muito pouca experiência e que abre excelentes perspectivas em relação ao futuro.


Orientovar – O Davide Machado confessou que não estava nas previsões aquele 7º lugar na final de Distância Longa. E nas suas, estava?

António Aires – Antes de entrarmos para estágio, chegar ao top-10 era, no caso do Davide, um sonho. Mas há medida que nos aproximámos da competição – e logo após o que ele fez na prova de Vila Pouca de Aguiar, na semana anterior -, começámos a ver que o pico de forma dele estava mesmo a acertar em cima dos Campeonatos e acreditámos que as coisas poderiam tomar outro caminho. O Davide é muito jovem, tem apenas 22 anos, tem pouco tempo de modalidade, tem muita inexperiência e esses factores poderiam ser sempre uma condicionante. Mas no dia da prova, sim, já sonhávamos com este resultado.


“Estabeleço entre a Rita Madaleno e o Davide Machado uma certa analogia”

Orientovar – O Paulo Alípio passou um pouco à margem destes Campeonatos. Alguma explicação para o facto?


António Aires – À partida, tudo indica que o pico de forma dele acertou um bocadinho antes da competição. Mas só mais tarde, com cabeça fria é que poderemos analisar o que poderá ter acontecido.


Orientovar – Analisando a prestação da equipa sénior feminina, vemos um brilhante 18º lugar da Susana Pontes na prova de Sprint mas vemos igualmente dois excelentes resultados da Rita Madaleno nas provas de Distância Média e de Distância Longa. Ficou surpreendido com estas prestações da Rita?


António Aires – A Rita Madaleno constituía para nós uma grande incógnita porque ela, apesar de tudo, não se dedicou ainda totalmente à Orientação em BTT. É uma atleta que já treina bastante mas também é uma atleta que tem muito pouca experiência da parte técnica da Orientação. Investiu bastante este ano neste aspecto, andou uma boa parte da época a fazer provas de Orientação Pedestre, e mais uma vez, quando entrámos em estágio vimos que ela estava muito bem fisicamente, muito confiante. A regularidade que acabou por demonstrar foi extraordinária. Aliás, estabeleço entre a Rita Madaleno e o Davide Machado uma certa analogia. Para além do potencial que ambos demonstram, há uma enorme vontade em evoluírem. Tanto a Rita como o Davide estão interessados em pensar já na Itália, no ano que vem.


“Talvez nos possamos aproximar daquilo que se faz na Orientação Pedestre”

Orientovar – Passando aos Juniores, os resultados foram um pouco desconsoladores. Como vê o futuro destes jovens?


António Aires – Temos aqui vamos realidades diferentes. Por um lado, trouxemos um jovem com muita experiência de Orientação Pedestre, que é o João Mega Figueiredo, e que consegue superiorizar-se aos outros nas provas muito técnicas, como foi o caso do Sprint. Os outros, claramente, têm muito pouca experiência na parte técnica da Orientação. Os objectivos passam por trabalhar com estes atletas e também com outros que vão surgindo, procurando fazer com eles um trabalho de quantidade a partir de baixo. Mas sei que há muito trabalho pela frente. No caso das juniores femininas, as expectativas já não eram muito elevadas à partida. As duas atletas estão numa fase crucial dos seus estudos, há que estabelecer prioridade e julgo que devemos compreender isso. Mas penso que ambas demonstraram uma grande regularidade em termos dos resultados obtidos e esse era um dos objectivos delas, o qual foi plenamente atingido.

Orientovar – Estamos numa fase de transição. O Professor Jorge Caldeira vai abandonar o projecto, em Setembro teremos eleições para os Corpos Sociais da Federação Portuguesa de Orientação e há todo um conjunto de incógnitas que se colocam neste momento. Do seu ponto de vista, por onde deve passar o futuro desta selecção?

António Aires – Independentemente da constituição dos novos Corpos Sociais da FPO, penso que vai continuar a haver um interesse em apostar na modalidade e nestes atletas. Os moldes em que vamos fazer isso – principalmente ao perdermos o Jorge Caldeira – é que são ainda uma incógnita. Talvez nos possamos aproximar daquilo que se faz na Orientação Pedestre, em que cada atleta tem o seu próprio preparador físico e nós preocupamo-nos com a parte técnica. Ou então iremos continuar a investir, pelo menos no caso dos atletas de topo, num preparador físico que, na minha opinião, é crucial neste momento.


“Técnicos habilitados não abundam”

Orientovar – O modelo actual, na sua opinião, é mesmo o mais adequado?


António Aires – Bem, não disse exactamente isso. O que quero dizer é que mantemos este modelo ou vamos para um modelo que se assemelhe ao que existe na Orientação Pedestre, tendo para isso que haver técnicos habilitados.


Orientovar – Que não abundam…

António Aires – Por enquanto, sendo uma disciplina nova, técnicos habilitados não abundam, de facto.


“Portugal esteve muito acima da média”

Orientovar – Pedia-lhe um balanço destes Campeonatos em termos organizativos.


António Aires – Infelizmente temos uma situação pontual, um pormenor que pode parecer que mancha a organização porque saltou muito à vista e teve um impacto muito grande. Tratou-se dum ponto mal marcado que obrigou à repetição duma final. Mas penso que a organização não deve ser avaliada por esse pormenor, obviamente. Já estive em várias organizações internacionais e penso que, uma vez mais, Portugal esteve muito acima da média do que se faz lá fora. Nos aspectos técnicos, que é aquilo que eu mais valorizo, Portugal esteve bem.

Orientovar – O que se diz ao grupo, agora que vai de férias?

António Aires – Vamos realmente de férias e voltamos a concentrar-nos no fim de Agosto para começarmos a pensar no ano que vem, embora ainda haja a possibilidade de virmos a participar na última prova da Taça do Mundo, que vai decorrer em Setembro, em Itália. Vamos avaliar a possibilidade de levarmos lá alguns atletas, uma vez que a prova se disputará em terrenos muito semelhantes àqueles onde terão lugar os próximos Mundiais, precisamente em Itália. Seria importante que os atletas pudessem ter essa experiência.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

José disse...

Pelos vistos a Organização esteve bem, mesmo acima da média do que se faz lá fora, resta-nos felicitar toda a gente envolvida.

Aproveito para fazer um reparo quanto à participação em BTT do jovem atleta João Mega Figueiredo.
Sendo o Mega um valor firmado na variante pedestre, interrogo-me se ele não anda a dispersar-se noutras especialidades para as quais parece ter menos aptidão.

É fundamental nestas idades aconselhar, encaminhar e especializar os jovens, não podem ir a todas...

Dani disse...

Para mim o campeonato do mundo foi 5 estrelas.

Prevejo um futuro melhor para a modalidade, mas tem de haver um trabalho sério e humilde de todos os intervenientes.

Acho que o António Aires está a fazer um trabalho fantástico. Tem visão para o futuro e tenta aprender com os erros do passado.

Em relação ao Mega penso que ele ficou encantado pela oportunidade de representar Portugal num evento destas dimenssões e organizado pelo nosso país. Foi, em dúvida, um factor de motivação para ele continuar a praticar orientação ao mais alto nível, seja a pé ou de bicicleta.