segunda-feira, 19 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: OS MUNDIAIS VISTOS POR EDMOND SZECHENYI

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Presidente da Comissão de Orientação em BTT da Federação Internacional de Orientação, o francês Edmond Szechenyi foi, em Montalegre, um observador atento e interessado na forma como decorreram os Campeonatos do Mundo. Homem cordato e afável – um verdadeiro “gentleman” – Szechenyi mostrou-se disponível para responder a um par de questões colocadas pelo Orientovar. É essa conversa que aqui se reproduz na íntegra.


Orientovar – Em que qualidade o vemos em Portugal e, mais concretamente, nestes Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT?

Edmond Szechenyi - Em primeiro lugar, estou aqui como representante da IOF – Federação Internacional de Orientação. Mas o meu interesse em estar aqui prende-se também com o facto de ser o Presidente da Comissão de Orientação em BTT da IOF. Daí o meu interesse em poder apreciar tudo o que se passa aqui.

Orientovar – E o que se passa é do seu agrado?

Edmond Szechenyi – Sim, absolutamente. Encontramos aqui, de facto, tudo o que podemos esperar duma competição desta natureza.
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"Espero que seja um motor para a Orientação em BTT portuguesa"

Orientovar - Como avalia a evolução da Orientação em BTT nos tempos mais recentes?

Edmond Szechenyi – A Orientação em BTT faz parte das disciplinas da Federação Internacional de Orientação desde 1996. Em 2002 realizámos os primeiros Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT. O nível aumentou extraordinariamente e penso que este aspecto é bem elucidativo do grau crescente de popularidade deste desporto. Aquilo que constato é que, há oito anos, havia dois ou três países que conquistavam todas as medalhas e hoje todos os países podem ganhar medalhas.

Orientovar – Ao contrário da Orientação Pedestre, onde o número de países que ganham medalhas é ainda muito restrito…

Edmond Szechenyi – A diferença entre a Orientação Pedestre – que nasceu na Escandinávia, evoluiu fortemente e popularizou-se, tornando-se durante muito tempo como um desporto maior nesses países – e a Orientação em BTT é que na BTT estão todos os países em pé de igualdade pelo facto deste ser um desporto ainda muito recente. Havia realmente, há oito anos, a Finlândia e a França que ganhavam todas as medalhas. Hoje a França e a Finlândia já não são os “papões”.

Orientovar – Na realidade, temos aqui nestes Campeonatos alguns países a conquistarem medalhas pela primeira vez…

Edmond Szechenyi - Precisamente. Vemos a Polónia, a Itália, a Hungria a ganharem aqui as primeiras medalhas, o que é demonstrativo duma forte evolução da Orientação em BTT ao nível dos próprios países. E penso que um dos motores desta evolução reside na organização de eventos. Quando se organizam competições desta natureza, mesmo que não hajam espectadores, aparece sempre uma notícia nos jornais, fala-se um pouco na televisão e isso atrai sempre a atenção das pessoas, em particular dos mais jovens. A Polónia, por exemplo, nunca tinha ganho medalhas. Organizaram os Campeonatos do Mundo há dois anos atrás e agora estão ao nível das medalhas. Creio que isto funciona como um motor e espero que seja um motor para a Orientação em BTT portuguesa.
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"Estas coisas não podem acontecer"

Orientovar – Olhando para o início dos Campeonatos, deparamos com uma prova de Sprint totalmente urbana, uma novidade absoluta na história dos Mundiais. Isto criou em si alguma espécie de relutância ou de receio no sentido de que as coisas poderiam não funcionar?

Edmond Szechenyi – Pelo contrário, achei que era uma ideia excelente. É importante que, no interior de cada disciplina, as diferentes vertentes tenham características próprias. As competições urbanas foram lançadas na Orientação Pedestre e resultou num grande sucesso. É muito importante que a Orientação venha para o interior das populações, como forma de atrair a atenção das pessoas. Aqui, evidentemente, não havia pessoas porque era domingo e toda a gente estava na Missa. Bem sei que estamos em Portugal… e no Norte, em particular (risos). Mas penso que a ideia é excelente e permite aos países que não têm tanta experiência, tomarem parte em algo mais acessível. Não nos perdemos na floresta, estamos na cidade. Também nos enganamos, não vamos tão depressa mas podemos terminar a corrida de forma correcta. Numa corrida como a de ontem [prova de Distância Longa] um competidor inexperiente não consegue terminar a prova desta forma.

Orientovar – Tivemos depois uma final de Distância Média com um ponto mal marcado e a competição dos Juniores adiada para o dia seguinte. Que observações é que esta situação lhe merece?

Edmond Szechenyi – Penso que a solução encontrada era a única coisa a fazer face às circunstâncias. A Organização esteve, portanto, bem. Era uma prova que tinha de ser anulada, não poderíamos guardar os resultados sem que a verdade desportiva fosse falseada. Felizmente a prova podia ser repetida, havia tempo para o fazer. Se tivesse sido ontem, por exemplo, já não teria sido possível. Sem que isto seja entendido como uma crítica, a questão é que estas coisas não podem acontecer. Foi possível reparar a situação, eles repararam a situação mas, repito, isto não pode acontecer num Campeonato do Mundo!
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"Não devem ser mais de quarenta os participantes numa final"

Orientovar – Em sua opinião, justifica-se uma prova qualificatória de Distância Longa com tão poucos atletas?

Edmond Szechenyi – A razão de ser duma prova qualificatória de Distância Longa tem a ver com o facto de não ser possível ter demasiados atletas numa final com estas características. Trata-se duma prova longa, o tempo de partida entre cada atleta tem de ser necessariamente maior e, doutra forma, as coisas arrastar-se-iam e amanhã ainda haveria atletas a partir. Mesmo agora, com sessenta atletas, já é demasiado longa. Se me pedirem a opinião acerca disto, direi que não devem ser mais de quarenta os participantes numa final. As condições da prova para quem parte às nove da manhã são necessariamente diferentes daquelas que se enfrentam ao meio-dia. Quando se pretende que todos participem em pé de igualdade, devemos evitar que estes lapsos de tempo sejam tão grandes. Sobretudo em países como Portugal, onde o tempo da parte da tarde se torna extremamente quente. O atleta que sai às nove esfrega as mãos de contente, o que sai à uma da tarde… bom…

Orientovar – É uma questão que a Federação Internacional irá estudar no futuro…

Edmond Szechenyi – Não, não, não… No futuro, não. Está a estudar neste momento. Está a fazê-lo constantemente. Faz parte das nossas funções. É isso que fazemos. Tomo como exemplo aquilo que se faz na Orientação Pedestre. Aí, fazem-se neste momento finais com quarenta e cinco atletas, precisamente por este motivo. É preciso ponderar bem as situações mas é para uma solução dessas que caminhamos na Orientação em BTT.

Orientovar – Quanto ao acidente sofrido pela atleta checa Hana Dolezalova na prova qualificatória de Distância Longa, na passada quarta-feira, qual a sua opinião?

Edmond Szechenyi – Quanto a isso a IOF não pode fazer nada. Foi um acidente. Lembro-me de termos tido em tempos um acidente muito grave – enfim, não tão grave como este – causado por uma barreira que não estava muito visível. A solução foi criar a obrigatoriedade de marcar no mapa estes obstáculos que poderão não ser muito visíveis. Mas neste caso não há nada a fazer. Foi um acidente. Lamentamos muito mas… são riscos inerentes a qualquer desporto.
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"A única coisa que posso lamentar é que não hajam espectadores"

Orientovar – À margem da competição, ao nível social e cultural, como está a acompanhar o evento?

Edmond Szechenyi – Muito, muito agradável. Percebo que toda a gente se sente bem com as condições criadas, as quais são realmente magníficas. A única coisa que posso lamentar é que não hajam espectadores. Mas não podemos fazer nada, as coisas são como são. Se estivéssemos numa grande cidade, aí teríamos espectadores. Aqui, compreendo que as coisas sejam diferentes. Mas é uma pena.

Orientovar – Posso pedir-lhe um balanço final dos Campeonatos?

Edmond Szechenyi – Ainda estamos muito próximos e não consigo fazer um julgamento adequado. Mas posso afirmar que o melhor tem sido a competição em si. Neste plano, as coisas têm decorrido de forma excelente. Os mapas, os percursos – não falo do erro que levou à anulação da final de Distância Média dos Juniores – são excelentes e é tudo o que posso dizer neste momento. O ambiente é bom, pessoalmente tenho sido muito bem tratado (risos), está tudo muito bem. De negativo, claro, o erro que houve. Foi reparado, está tudo bem, mas se tal não tivesse sido possível, então seria realmente muito grave.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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