sexta-feira, 23 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: O BALANÇO DE EDUARDO OLIVEIRA

.

O Orientovar coloca hoje um ponto final no conjunto de grandes entrevistas efectuadas no decurso dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT 2010. Ao encontro de Eduardo Oliveira, ficamos a saber como o Director do Evento viveu e sentiu este verdadeiro marco na história da Orientação portuguesa.


Orientovar – Quando se aceita um desafio destes, imagina-se que vai ser assim?

Eduardo Oliveira - … não (risos)! Bom, acho que há uma ideia mas só quando passamos pelas coisas é que ficamos como uma noção concreta. Isto é uma tarefa de médio e longo prazo, é um trabalho de quase três anos de preparação que incluiu uma ida aos dois últimos Mundiais – Polónia e Israel – para tentar perceber o modo de funcionamento dum evento desta natureza, do que é costume fazer, o que corre bem e o que corre menos bem. Isso acabou por me conferir alguma bagagem e por me preparar para enfrentar o desafio. Mas isto não é uma pessoa apenas, é o trabalho duma equipa como um todo. Foram muitas pessoas, durante muitos dias, a trabalhar em conjunto e a preparar tudo para que as coisas corressem bem. E acho que correram, as pessoas esforçaram-se bastante, tivemos pessoas muito profissionais nas suas funções e o sucesso da organização é o sucesso de todos aqueles que voluntariamente participaram e contribuíram para que tudo corresse bem.

Orientovar – Um trabalho de três anos, resumido a uma semana de competição na qual encontramos, naturalmente, um dia chave: O primeiro. Como é que se sentia no início dos Campeonatos?

Eduardo Oliveira – O primeiro dia era o mais difícil e nós sabíamo-lo. Era a primeira vez que as equipas estavam a trabalhar em conjunto e a articular entre si e havia o risco implícito pelo facto de estarmos ainda a afinar o modo de funcionamento entre todos. Havia também o problema de termos uma prova muito limitada em termos de tempo. Era uma prova de Sprint, uma prova muito rápida, mas tínhamos apenas uma hora e meia para realizar a prova toda, não podia atrasar nada e qualquer falha poria em causa a prova. Tivemos logo de manhã uma má notícia porque era suposto o autocarro da Câmara estar cá às 7h00 para levar os atletas para Chaves e às 7h30 ainda ninguém sabia do autocarro. Eram 50 atletas que estariam impedidos de participar caso o problema não se resolvesse. Felizmente resolveu-se, os atletas acabaram por chegar cinco minutos antes da hora limite para a entrada na zona de quarentena, mas foi um tremendo stress. Nos dias seguintes fomos acertando pormenores – houve coisas que correram bem, houve outras que não correram tão bem… - e tivemos aquele percalço do ponto mal marcado na final júnior de Distância Média, um daqueles azares que não podem acontecer mas aconteceram.


“Errar é humano”

Orientovar – Entendeu a situação como um azar? O que é que sentiu nesse momento?


Eduardo Oliveira –Fiquei muito decepcionado, como é óbvio, mas errar é humano. Havia mecanismos criados que, supostamente, deveriam ter impedido que estas coisas acontecessem. Era um ponto fácil de marcar, tinha fita colocada, as pessoas que destacámos tinham competência e provas dadas noutras situações e o ponto foi validado por três pessoas – a pessoa que colocou a estaca, a pessoa que colocou a estação e controlador nacional que verificou o ponto – e nenhum dos três verificou que o ponto estava fora do sítio.

Orientovar – Mas foi possível reparar a situação, repetindo a final…

Eduardo Oliveira – Felizmente tivemos essa possibilidade. Conseguimos em tempo record montar um percurso no dia seguinte para resolver a situação. Claro que o mapa não era tão bom em termos de Distância Média uma vez que era uma mapa que estava pensado para a prova qualificatória de Distância Longa. O percurso foi adaptado dentro das circunstâncias mas pelo menos conseguimos ter os títulos em disputa e os Campeões do Mundo de Distância Média nos escalões juniores.


“O trabalho de cartografia acabou por ser em duplicado ou mesmo em triplicado”

Orientovar – Este é um aspecto que mancha os Campeonatos mas há ainda um aspecto que marca o evento pela negativa e que nos deixa a todos muito penalizados. Estou a falar do acidente sofrido pela atleta checa Hana Dolezalova. De que forma é que esta situação o afectou?

Eduardo Oliveira – Somos todos humanos e o acidente com a atleta acarretou um sentimento de desconforto muito grande. É algo que nos transcende, aquele mapa era dos menos perigosos em termos de terrenos – houve outras situações, noutros mapas, que nos levaram a avisar as pessoas para terem as devidas cautelas -, o local da queda é um local perfeitamente normal, uma descida suave sem qualquer situação de risco excepcional… Aconteceu algo com a atleta, um descuido a olhar para o mapa, um azar, ninguém sabe - nem ela própria sabe! – e a queda acabou por ter consequências muito graves. Mal soubemos da situação actuámos prontamente, colocámos de imediato a ambulância e a nossa médica no local do acidente e fizemos todos os possíveis para prestar a devida assistência até à chegada ao Hospital de Chaves. Estamos solidários com a atleta e estimamos uma recuperação da melhor forma, dentro do possível.

Orientovar – Os mapas e os percursos mereceram o elogio generalizado. Houve a grande preocupação, por parte da organização, em garantir os melhores cartógrafos e os melhores traçadores de percursos?

Eduardo Oliveira – Sim. Pelo menos foi nossa intenção garantir o trabalho dos cartógrafos com maior experiência, particularmente no desenho de mapas específicos de Orientação em BTT. Tivemos alguns percalços pelo facto de termos tido um Inverno muito rigoroso, o que danificou grande parte dos caminhos. Os mapas estavam preparados no ano passado mas tiveram de ser todos revistos. As chuvas afectaram a classificação dos caminhos, o vento e a neve derrubaram imensos pinheiros, a vegetação cresceu bastante na Primavera, ou seja, o trabalho de cartografia acabou por ser em duplicado ou mesmo em triplicado. Daí que o trabalho de fecho dos mapas acabasse por ser mais tardio do que estávamos a contar, o que acarretou também um certo stress acrescido, mas à boa maneira portuguesa conseguimos, a tempo e horas, ter tudo pronto.


“Todas as equipas corresponderam perfeitamente”

Orientovar – E à boa maneira portuguesa resolveu-se também o problema dos mapas chegarem, sistematicamente, a poucas horas do início de cada uma das provas…


Eduardo Oliveira – Bom, esse foi um problema com o qual tivemos de lidar e que criou também algum stress, mas que não foi muito visível para o lado dos atletas. Só uma vez tivemos cá os mapas com dois dias de antecedência, embora a situação estivesse sempre relativamente controlada a esse nível. Também é importante que se diga que houve muitas alterações de última hora em relação aos mapas, ajustes de percursos que tiveram de ser feitos muito tardiamente, percursos traçados na véspera no caso da repetição da final de Distância Média e tudo isso também condicionou o facto de termos os mapas mais cedo. E estou a falar de muitos mapas, sete ou oito diferentes, alguns deles ainda com variantes, troca de mapas e ‘loops’ intermédios. Posso dizer que as coisas correram mal em termos de preparação porque não houve o tempo suficiente, mas correram bem no dia-a-dia, com as provas a realizarem-se sem problemas a esse nível.

Orientovar – Tivemos implicadas cerca de cem pessoas, distribuídas pelas várias equipas. Cem pessoas, cem cabeças, cem sentenças… Foi complicado liderar esta vasta equipa?

Eduardo Oliveira – Avaliar em causa própria não é a melhor coisa. Mas posso dizer que me senti sempre confortável neste papel. Tive uma grande preocupação em definir adequadamente as áreas implicadas na organização da prova e colocar à frente de cada uma delas pessoas com experiência e provas dadas ao nível das organizações dos seus clubes. A esse nível correu bem e todas as equipas corresponderam perfeitamente. Nos últimos dias o meu trabalho consistiu em garantir que tudo estava controlado e assumi um papel essencialmente de coordenador para garantir que, em conjunto, tudo funcionava da melhor forma.


“Só esta semana é que as pessoas começaram a perceber que isto era uma coisa a sério”

Orientovar – Jan Cegielka foi o Supervisor Internacional do evento. Como avalia as suas intervenções?


Eduardo Oliveira – Se usar como termo de comparação a experiência com o David May nos Mundiais de Veteranos de Orientação Pedestre WMOC 2008, posso dizer que o Jan Cegielka foi muito menos interventivo, muito menos exigente. Visitou-nos antes do evento em duas ocasiões distintas, acompanhou os locais, validou as arenas e foi validando, posteriormente, alguns pontos mais críticos. A sua opinião foi muito útil nalgumas situações, como é natural, mas confiou na nossa capacidade organizativa, viu que as coisas estiveram sempre controladas, deu-nos alguma liberdade para fazer as coisas como fizemos e não precisou de ser tão interventivo quanto isso.

Orientovar – Qual o ‘feed-back’ recebido da parte das muitas individualidades que estiveram no evento e que mais o marcam?


Eduardo Oliveira – O ‘feed-back’ que tive foi claramente positivo a todos os níveis, exceptuando obviamente aquele problema que tivemos na prova de Distância Média. Os atletas estabeleceram algumas comparações com provas anteriores, colocando-nos no melhor ou no segundo melhor Campeonato do Mundo entre as oito edições já realizadas. Quem esteve nas Arenas e presenciou os espectáculos que foram montados ficou encantado com aquilo que aconteceu. Conseguimos conciliar um conjunto de meios de Comunicação Social – quer a nível local, quer a nível regional e nacional – que estiveram presentes e que puderam sentir ‘in loco’ o que é uma prova de Orientação em BTT, mostrámos-lhes todas as zonas de Arenas e tentámos levá-los sempre que possível aos locais de competição para que vivessem mais de perto o evento. Penso também que as Cerimónias foram momentos particularmente empolgantes – as bandeiras, os hinos – e tudo isso confere maior solenidade e importância ao evento. Em relação à população local, andámos cá durante dois anos mas só esta semana é que as pessoas começaram a perceber que isto era uma coisa a sério, que era algo de muito importante para Montalegre e para toda esta região.


“Há que aproveitar esta embalagem”

Orientovar – Em que medida o apoio do município de Montalegre foi fundamental para o sucesso do evento?


Eduardo Oliveira – Foi fundamental a todos os títulos. Estamos aqui a conversar num Pavilhão Multiusos que é excepcional em termos de espaço e de funcionalidade e que constituiu uma ajuda fundamental para a organização. Assinámos um protocolo com a Câmara Municipal de Montalegre há cerca de dois anos e, ao longo deste tempo, a colaboração connosco foi sempre espectacular. Trabalhámos em conjunto em várias situações e, a nível logístico, operacional e no apoio diário, a sua intervenção foi sempre fundamental. Deixo aqui o meu muito obrigado à Câmara Municipal de Montalegre porque conseguiu conciliar todas as situações para que tivéssemos um bom evento e que fosse do agrado de todos. Isso foi o mais importante.

Orientovar – Daquilo que é a Orientação portuguesa e, em particular, a Orientação em BTT, que imagem passa para o exterior?

Eduardo Oliveira – As tarefas organizativas do dia-a-dia impedem-me de fazer uma avaliação relativamente à imagem que tem passado mas penso que foi desenvolvido um trabalho muito aturado no sentido de dar a conhecer, passo a passo, aquilo que aqui se foi passando. Um dos objectivos dum evento destes reside em criar notoriedade e divulgar a modalidade e acho que isso foi atingido, já que as pessoas começaram a ouvir e a falar de Orientação em BTT. Em termos de frutos para o futuro, temos de dar tempo ao tempo. Há que aproveitar esta embalagem, estes contactos, apostar em força na comunicação na próxima época e potenciar esta experiência para as provas do dia-a-dia a nível nacional.


“Acho que isto é bom é para rodar entre vários”

Orientovar – Se por um qualquer acaso, a Federação Internacional resolvesse atribuir a organização dos Mundiais de 2011 novamente a Portugal e o Presidente da FPO lhe dissesse para pôr de novo mãos à obra, aceitava?


Eduardo Oliveira – Felizmente isso não vai acontecer. Os próximos Mundiais serão em Itália e não vejo que haja alguma circunstância que possa inverter a situação. Já agora, só um parêntesis por curiosidade, depois dos problemas na Faixa de Gaza no ano passado, Portugal até poderia ter organizado os Mundiais de 2009, pelo menos chegou a colocar-se essa hipótese. Mas para 2011 e 2012, os Mundiais estão atribuídos à Itália e à Hungria e aí não haverá grande volta a dar. Mas regressando à questão… acho que isto é bom é para rodar entre vários (risos)! Se uma ou outra coisa correu menos bem é porque tenho pouca disponibilidade em conjugar a vida profissional com este tipo de actividades. Mas daqui a uns anos, quando me reformar e quando tiver tempo disponível, se calhar não teria qualquer tipo de problema em voltar a aceitar um desafio destes.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

.

1 comentário:

Almeida disse...

Parabéns Amigo.
Abraço
Augusto