terça-feira, 20 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: MARIA CUTOVA, A VOZ DOS MUNDIAIS

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Nasceu na Eslováquia há perto de 30 anos, vive na Suécia e viaja um pouco por todo o Mundo ao encontro de eventos desportivos, particularmente aqueles relacionados com a Orientação em BTT. Um olho nas Arenas, outro nos monitores, Maria Cutova emprestou, ao longo dos Campeonatos, a voz que nos trouxe as emoções de jornadas ímpares. Em tempo real e (quase) sem falhas!


Orientovar – Enquanto ‘speaker’, a Orientação em BTT é a sua especialidade?

Maria Cutova – Podemos dizer que sim. Penso que a Orientação em BTT é muito melhor do que a Orientação Pedestre e aprecio muito a companhia destes atletas.


Orientovar – Quando é que descobriu a Orientação em BTT?

Maria Cutova – Penso que terá sido em 1998, algures na Eslováquia, e foi completamente por acaso. Na realidade, um colega meu pediu-me ajuda para levar um par de coisas para uma competição. De repente estava no meio da prova a fazer de ‘speaker’, as pessoas gostaram e incentivaram-me a continuar. E foi assim que tudo começou.


“Calma e concentração”

Orientovar – Quais as características mais importantes dum ‘speaker’?


Maria Cutova – Acima de tudo, calma e concentração. É difícil perceber o porquê de eu estar a dizer isto porque, quem me conhece, sabe que estes não são propriamente traços da minha personalidade. Mas é isso, basicamente. E depois é necessário conhecer os atletas, ter uma boa memória visual, reconhecer algumas particularidades neste ou naquele, saber quais os diferentes estilos e usar essa informação para enriquecer aquilo que possamos ir dizendo.

Orientovar – Quanto ‘trabalho de casa’ implica esse conhecimento dos atletas?

Maria Cutova – Talvez não traga tanto trabalho de casa assim. Claro que tenho de estar preparada antes dum evento porque há coisas que ficam na memória dumas competições para as outras e é necessário reavivá-las. Estar presente evento após evento acaba por funcionar como a melhor preparação possível. Quando estou a descrever este ou aquele atleta, vêm-me à memória anteriores performances e uma parte importante do trabalho acaba por estar sempre presente, apesar da minha memória ser curta (risos). É assim que as coisas funcionam.


“É tudo ao vivo!”

Orientovar – Hoje, por exemplo, como é que se preparou?


Maria Cutova – Hoje já há muito trabalho feito que vem dos dias anteriores. Aí sim, foi um pouco stressante e estive um bom par de horas a estudar a lista de partida no primeiro dia. Havia imensa gente por ali à volta e não foi fácil identificar uma boa parte dos atletas. Mas geralmente as coisas são bem mais fáceis, é um enorme prazer voltar a encontrar os atletas, ter tempo para trocar impressões acerca de tudo e de nada como acontece hoje. Mas há no trabalho de ‘speaker’ muita coisa que não se consegue prever. É tudo ao vivo!

Orientovar – Como é que viu o convite para ser a ‘speaker’ destes Mundiais?

Maria Cutova – Quando soube que os Mundiais de 2010 se iriam disputar em Portugal, dei comigo a pensar que não sabia nada acerca do vosso País. Conhecia a Susana Pontes, talvez mais um ou outro atleta, mas não suspeitava sequer quem iria estar à frente do evento. Tão pouco sabia se teria alguma hipótese de vir a Portugal fazer aquilo que faço e gosto. A verdade é que eu não queria perder uns Campeonatos do Mundo, é uma experiência fantástica… Foi então que conheci o Eduardo, nos Mundiais de Israel. Julgo que fui apresentada por intermédio da própria organização israelita e aí ficou acertado que seria eu a fazer este trabalho. Na verdade, não terá sido propriamente um convite por parte do Eduardo, acho que foi um pouco de tudo.


“Acho que estou muito melhor agora do que há dez anos”

Orientovar – Este pequeno mundo da Orientação em BTT funciona quase como uma família, não acha?


Maria Cutova – Não somos muitos, realmente. Começa agora a aparecer alguma gente nova, sobretudo quando vemos uma competição destas em que os Juniores competem com os Seniores em conjunto. Não é pêra doce para mim, sobretudo havendo Juniores. Aí é necessário trabalhar realmente a sério para poder acompanhá-los também.

Orientovar – Como é que avalia a sua evolução como ‘speaker’?

Maria Cutova – Como disse, caí na Orientação em BTT por acidente. Acho que estou muito melhor agora do que há dez anos. Pelo menos espero (risos)… Conheço muito melhor os atletas e sinto-me cada vez mais confortável na posição de ‘speaker’. Os sistemas de apoio à nossa tarefa têm-se desenvolvido extraordinariamente e as pessoas compreendem a importância do nosso papel. Os atletas que estão em prova querem saber o que está a acontecer com eles ou com os seus colegas de equipa, as pessoas que assistem percebem o que se está a passar e, desta forma, conseguimos criar uma atmosfera totalmente diferente em qualquer Arena. Não nos podemos limitar a falar de alguém apenas quando cruza a linha de chegada, temos de dar a perceber o desenrolar da prova e o que se está a passar algures, no meio da floresta.



“O pessoal da informática tem um trabalho enorme”

Orientovar – Os meios informáticos colocados à disposição do ‘speaker’ acabam por ser fundamentais…

Maria Cutova – Absolutamente. O pessoal da informática tem um trabalho enorme e admiro-os muito pela sua capacidade e qualidades. Aliás, eu sou totalmente leiga nesse domínio, daí a minha enorme admiração pelo que eles fazem. Limito-me a dar voz à informação que me fazem chegar e, claramente, sem eles tudo seria muito mais complicado.

Orientovar – Quer-me narrar algum episódio engraçado que se tenha passado consigo neste papel?

Maria Cutova – Engraçado… Não sei se lhe posso chamar engraçado… Foi mais um engano e acabou por não ter assim tanta piada. Passou-se na Cerimónia das Flores da Final Júnior Masculina de Sprint e chamei ao pódio, na qualidade de Campeão do Mundo, um atleta que, na verdade, acabara de ser desqualificado. Não foi muito responsável da minha parte. Tinha os resultados finais fornecidos pelo pessoal da informática mas guiei-me pelos meus apontamentos. Tinha acordado nessa manhã e dito a mim própria que esta era uma situação que não podia acontecer… e aconteceu. Não, na verdade não foi propriamente engraçado.


“Estou realmente impressionada”

Orientovar – Pedia-lhe uma opinião acerca da organização dos Mundiais em Portugal?


Maria Cutova – Estou realmente impressionada. Penso, na verdade, que fizeram um trabalho excepcional, há imensa gente envolvida na organização e têm uma excelente distribuição das responsabilidades pelos vários sectores. Sabe, aquilo que realmente aprecio nesta organização é que há muita gente a opinar no sentido de fazer ainda melhor e são muito abertos. Se percebem que algumas sugestões podem realmente resultar, havendo tempo para isso, eles fazem-no. Estou muito impressionada com esta capacidade de trabalho. Torna tudo muito mais fácil.

Orientovar – E quanto a Portugal? Está a gostar da sua estadia aqui em Montalegre?

Maria Cutova – É a quarta ou quinta vez que estou em Portugal – um par de vezes em Lisboa e algures, há cerca duma dúzia de anos, em Portalegre -, mas é a primeira vez que venho a esta região de Portugal. Estou a gostar muito, é uma região muito bonita, têm boa comida, bom vinho e as pessoas são extraordinárias. Realmente não me posso queixar.


“Isso faz de mim uma pessoa especial”

Orientovar – Até quando vamos ver a Maria Cutova a animar as provas na qualidade de ‘speaker’?


Maria Cutova – É tudo uma questão que tem a ver com a qualidade das minhas intervenções e o quanto as pessoas poderão ou não apreciar o meu trabalho. Há muita gente – homens e mulheres – com imenso talento nesta área. A minha vantagem é que conheço toda a gente e isso faz de mim uma pessoa especial. Sobretudo, não está nos meus planos deixar esta actividade. É um excelente ‘hobby’, é maravilhoso.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

Manuel disse...

Muitos parabéns pelo excelente trabalho sobre o Mundial. Eu, que quase nem sei andar de bicicleta e que, portanto, não era suposto ler as notícias de Montalegre, fi-lo entusiasmadamente e pude, assim, emocionar-me com os brilharetes dos nossos representantes, sobretudo desse bravo Davide, a quem não há Golias que meta medo. Agora mesmo acabo de ler, de fio a pavio, a deliciosa entrevista com Maria Cutova. Que maravilha. Não sei se ela faz o tal trabalho de casa, mas o meu amigo fá-lo. E muito bem. Parabéns, mais uma vez. Um grande abraço. Manel

José disse...

Não estou ligado à variante BTT,mas, recentemente, por ocasião duma participação no estrangeiro vi mencionado no blogue: NASCEU UMA ESTRELA, referindo-se ao Davide.

Agora, é que eu percebi. O Davide já é de facto uma estrela entre as estrelas.

Interrogo-me se este jovem terá o seu futuro assegurado como atleta, isto é, se terá apoios e condições para prosseguir a sua preparação ao mais alto nível.

Pede-se, a quem de direito, não deixe cair esta estrela.

Parabéns, Davide!