segunda-feira, 19 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: ENTREVISTA COM MIKA TERVALA

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Mika Tervala é, reconhecidamente, o melhor Orientista em BTT da história da modalidade. Seis títulos mundiais de Elite conferem-lhe o estatuto de atleta com mais medalhas de ouro da história da competição. O finlandês marcou presença em Montalegre, na qualidade de treinador das selecções nacionais do seu País e concedeu ao Orientovar um momento para entrevista.


Orientovar – Há oito anos atrás, o Mika Tervala foi o primeiro Campeão do Mundo de Orientação em BTT. Começaria por lhe perguntar que recordações guarda desse especial momento?

Mika Tervala – França e o ano de 2002 foram muito importantes para mim. Foram os meus primeiros Campeonatos do Mundo e também a minha primeira medalha de ouro e isso recordarei sempre com emoção. Apesar de ter vencido a Taça do Mundo em 2001, este título mundial significou realmente muito para mim. E ainda significa.

Orientovar – Desde então, a Orientação em BTT tem crescido e vai-se consolidando. Num contexto geral, que avaliação faz da evolução da modalidade ao longo destes últimos anos?

Mika Tervala – O ponto alto desta evolução relaciona-se com os mapas. Os mapas são hoje melhores, de mais fácil leitura. Lembro-me bem que, há dez anos atrás, não havia mapas especialmente elaborados para a Orientação em BTT. Eram adaptações de mapas de Orientação Pedestre e que colocavam imensos problemas de leitura quando se pretendia rolar mais depressa. Mas não é apenas na questão dos mapas que se evoluiu. Penso que também a Federação Internacional de Orientação e as pessoas que estão à frente das várias organizações de provas têm tido uma maior sensibilidade e cuidado na escolha das áreas de competição. As provas de Sprint, por exemplo, são agora muito mais desafiantes do que eram no passado. Esta novidade dum Sprint totalmente urbano, como se verificou este ano em Chaves, representa um enorme salto qualitativo para a modalidade. Trazer a Orientação em BTT para junto das pessoas mostra-lhes que a modalidade existe. Isto para além da própria competição em si e da necessidade de definir as várias opções de itinerário duma forma muito mais rápida. A realidade é que, numa prova de Sprint, não se pode parar para perceber o que fazer a seguir. Sim, as coisas evoluíram e estão muito melhor do que há dez anos atrás.


“Aquilo que faço procuro fazê-lo bem”

Orientovar – O que é ser o Seleccionador Nacional da equipa finlandesa de Orientação em BTT?


Mika Tervala – Este é o meu segundo ano à frente das equipas masculina e feminina de Elite e também me ocupo das equipas juniores. É um trabalho do qual estou a gostar mas a verdade é que a Orientação em BTT não é um desporto muito popular na Finlândia, lutamos com imensas dificuldades por falta de dinheiro, não conseguimos campos de treino como gostaríamos e, desta forma, os resultados também acabam por se ressentir. Mas penso que este é um problema transversal a muitos outros países.

Orientovar – Apesar de tudo, os resultados nestes Mundiais são bastante bons. A Finlândia leva na bagagem um belo conjunto de medalhas e isto tem, naturalmente, o seu dedo…

Mika Tervala – Claro que temos gente com muito valor, mas que é muito jovem e que tem bastante falta de experiência. Procuro aconselhá-los, dar-lhes as dicas necessárias para que possam tirar o maior partido das suas potencialidades e características. Ajudo-os na gestão do seu plano de treinos e digo-lhes como estar em prova, como encarar as competições. Samuli Saarela, Marika Hara ou Pekka Niemi são um bom exemplo, uma vez que conseguiram resultados excelentes, apesar da sua pouca experiência. Em qualquer circunstância procuro ajudá-los e transmitir-lhes aquilo que sei. Faz parte do meu trabalho e aquilo que faço procuro fazê-lo bem.


“É surpreendente a forma como a modalidade tem evoluído”

Orientovar – Como vê a Orientação em BTT noutros países?


Mika Tervala – É surpreendente a forma como a modalidade tem evoluído. Posso citar a República Checa, a Polónia, Portugal… A Itália, por exemplo, que nunca tinha ganho uma medalha em Campeonatos do Mundo, ou a própria Hungria que também conquistou a sua primeira medalha nestes Campeonatos... É bom, é muito bom mesmo que não apenas a Rússia, juntamente com um pequeno leque de países, consigam medalhas. Na verdade, a prestação de alguns países superou em muito aquilo que estaria à espera. No caso da Finlândia, quando regressamos a casa com uma ou duas medalhas apenas, sentimo-nos muito desapontados, mas quem consegue o que os países que citei conseguiram, julgo que é muito bom e muito motivador para eles.

Orientovar – Também mencionou Portugal…

Mika Tervala – Sim, sim. Na verdade esperava um excelente resultado de Portugal nestes Mundiais, mas pensava que viria do Daniel Marques. É verdade que ele não teve sorte e é muito bom ver que há um nome novo no top-10 e que é português. Não conheço o Davide Machado, não posso adiantar muito em relação ao atleta em si mas estou muito contente que ele tenha conseguido tão bons resultados aqui, em Portugal.



“Esta organização merece bem um 9,5”

Orientovar – Que avaliação faz da organização dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT este ano, em Montalegre?


Mika Tervala – Bom, se tivesse de dar uma classificação de 0 a 10, eu diria que esta organização merece bem um 9,5. A qualidade da competição foi enorme. A primeira vez que estive aqui, na Primavera passada – fizemos campos de treino em Chaves e em Leiria – fiquei surpreendido por encontrar áreas tão boas para a prática da Orientação em BTT. E aí percebi que estes Campeonatos do Mundo iriam ser perfeitos. Por exemplo, os mapas dos dois dias da prova de Distância Longa, analisei-os ao pormenor. Procurei colocar-me na posição dos atletas, tentei imaginar o que faria nas múltiplas situações que se deparam e constato que estes mapas e estes percursos têm uma qualidade elevadíssima, com enorme exigência ao nível das opções de itinerário.

Orientovar – Houve alguns atletas que criticaram o traçado da final de Distância Média, preferindo chamar-lhe uma “Curta Distância Longa”. Partilha dessa opinião?

Mika Tervala – Um pouco, um pouco… Mas é necessário pensar naquilo que tínhamos ali, no local onde se desenrolou a competição. Tínhamos o mapa, tínhamos o terreno e tínhamos a necessidade de encontrar uma solução para, naquelas condições, levar a cabo uma prova com o nível que se exige num Campeonato do Mundo. Na Finlândia, por exemplo, temos enormes problemas por causa dos pântanos, mas com toda a facilidade abrimos um novo trilho, criando o número de opções necessárias para que possamos elevar o grau de exigência da prova em termos técnicos. Aqui não temos isso. Daí, na Final de Distância Média, encontrarmos tão poucos pontos de controlo e pernadas bastante longas entre eles. Em minha opinião, o traçador de percursos esteve excelente, face às condições do terreno. De outra forma, não estaríamos a falar de Orientação. Era um percurso simples, com uma ou duas opções de itinerário e toca a andar…


“Somos humanos e estas coisas acontecem”

Orientovar – Como é que viu a questão do ponto mal marcado que levou ao cancelamento da Final de Distância Média do Mundial de Juniores, obrigando à sua repetição no dia seguinte?

Mika Tervala – Foi de facto um grande desapontamento para todos o facto de haver um ponto mal marcado mas eu posso errar, tu podes errar, qualquer pessoa pode errar. Afinal somos humanos e estas coisas acontecem. Não deviam acontecer, mas acontecem. A verdade é que a organização soube encontrar uma solução e isso foi bom. Foi uma decisão rápida: “A competição disputa-se já amanhã e agora é tempo de olhar em frente”. Isso foi bom. Penso que serão muito poucos os atletas que, no futuro, recordarão que houve um ponto mal marcado.

Orientovar – Qual a sua opinião acerca das provas de qualificação para uma Final A de Distância Longa? Justificam-se face a um número relativamente reduzido de competidores?

Mika Tervala – Não é uma questão de resposta fácil. Talvez na óptica de alguns atletas este modelo posso não parecer muito justo mas penso que as organizações têm muito poucas alternativas. Se olharmos para o que sucedeu há cinco anos, na Eslováquia, onde estiveram presentes 130 atletas só no sector masculino, percebe-se que não é fácil lidar com a situação se não tivermos provas qualificatórias. Daí que eu pense que as provas de qualificação devam existir. Aliás, se eu tivesse algum poder de decisão, não as resumiria apenas à Distância Longa, mas estendia-as também à Distância Média. Esta é a minha opinião.


“Precisamos de espectadores nas nossas competições”

Orientovar – Daqui a dez anos, como espera ver a Orientação em BTT?


Mika Tervala – Um dos aspectos mais prementes para que a modalidade possa continuar a evoluir prende-se com a necessidade de sermos – como direi? – mais “comerciais”. Precisamos de ter do nosso lado as rádios e televisões, os jornais… Era tão importante termos do nosso lado a televisão, bastavam dois minutinhos. Precisamos de espectadores nas nossas competições. Penso que a Federação Internacional de Orientação e a Comissão de Orientação em BTT devem analisar em conjunto esta situação e tentar perceber como lidar com ela. Penso que em termos da qualidade dos mapas e das próprias organizações, atingimos um limiar muito elevado. O desafio está na mediatização. Nós não somos conhecidos, as pessoas não sabem o que é a Orientação em BTT. Na minha actividade enquanto treinador das selecções da Finlândia, sou convidado para falar sobre a modalidade e vejo que ninguém sabe o que é a Orientação em BTT. É nessas alturas que percebo o quão pequeninos somos. Não sei muito bem como é que se poderá ultrapassar este desafio, mas confio que alguém saberá.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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