quarta-feira, 21 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: ANDRÉ HERMET E A FRANÇA NOS MUNDIAIS

.

André Hermet foi o Director da primeira edição dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT (Fontainebleau, 2002) e é, de há cinco anos a esta parte, o responsável pelas selecções de França. Foi nessa qualidade que esteve em Portugal e, sobre o cair do pano, deixou ao Orientovar as suas opiniões. Aqui se reproduz o resultado dessa conversa.


Orientovar – Recuando oito anos no tempo, que recordações guarda da sua experiência enquanto Director da primeira edição dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT, em Fontainebleau?

André Hermet – Uma grande satisfação pelo facto de ter organizado o primeiro Campeonato do Mundo. Porque foi o primeiro, porque foi em França e porque constituiu um enorme desafio ter de criar tudo aquilo que foi necessário para levar por diante um evento daquela envergadura. Eu fiz os mapas, tracei os percursos, ocupei-me de todas as tarefas organizativas e, com a ajuda de meia centena de voluntários, consegui levar o evento por diante. A Finlândia esteve lá, a República Checa esteve lá, correu tudo bem… e a França sagrou-se Campeã do Mundo de Estafetas e alcançou ainda um título individual, o que foi ainda melhor.

Orientovar – Qual foi o grande desafio de organizar esses primeiros Mundiais?

André Hermet – O grande desafio foi organizar tudo em tão curto espaço de tempo. Esse foi o grande desafio. Estávamos em Outubro de 2001 quando me pediram para organizar os Campeonatos e em Junho estava tudo preparado. Trabalhei, de forma ininterrupta, dez horas por dia durante dez meses. Foi muito trabalho, a coisa fez-se mas foi muito duro.


“Uma grande satisfação ter três gerações numa mesma equipa”

Orientovar – A França colheu frutos desses Campeonatos?


André Hermet – Sim, tivemos dois títulos nesse primeiro ano. Depois tomei conta da equipa de França em 2005 e, nesse ano, na Eslováquia, alcançámos mais duas medalhas nas Estafetas. Em 2007 fomos Campeões Europeus com a equipa feminina e Campeões do Mundo com a equipa masculina e no ano passado, em Israel, o Matthieu Barthélémy foi medalha de bronze na Distância Longa. Este ano temos uma equipa em fase de reconstrução e estamos muito contentes por termos alcançado um número muito grande de diplomas.

Orientovar – São fundadas as expectativas duma França muito forte no futuro…

André Hermet – Penso que dentro de dois ou três anos teremos uma equipa muito forte. Temos o Cédric Beill, com apenas 17 anos, que é um valor seguro da nossa equipa, mas temos também o Jean-Charles Lalevee, com 50. Ou seja, três vezes mais idade que o Cédric. Estão ambos na equipa porque são ambos fortes. Ainda na temporada passada, Lalevee foi Campeão de França de Distância Longa, ex-aequo com Clément Souvray, o mais velho e o mais novo em prova e exactamente com o mesmo tempo no final. Para além de ser uma grande satisfação ter três gerações numa mesma equipa, isto significa que, com trabalho, perseverança e muita cabecinha, qualquer um pode integrar a equipa de França, independentemente da idade.


“Dentro de três ou quatro anos, Portugal será uma nação muito forte”

Orientovar – Como avalia a evolução da Orientação em BTT nestes últimos anos?

André Hermet – Ao nível internacional, a Orientação em BTT progrediu imenso. A cartografia, as organizações e os atletas constituem os principais eixos desta evolução. Os atletas, hoje em dia, correm muito depressa, pensam muito depressa e as performances não são mais o que eram antes. Se olharmos com atenção os tempos gastos numa qualquer prova em Fontainebleau e aqui, em Montalegre, percebemos que não há qualquer comparação. São muito diferentes. As equipas estão mais fortes, mais competitivas. A Dinamarca, por exemplo, não se via há um par de anos atrás. A Suécia e a Noruega estão a começar a aparecer. Há muitos países a alcançarem resultados de grande significado.

Orientovar – E Portugal também?

André Hermet – Claro, os portugueses também. A nível nacional, parece-me que a Orientação em BTT em Portugal tem muito mais importância e projecção que em França. A França tem uma população enorme, mas não tem mais de seis ou sete mil praticantes de Orientação Pedestre e os participantes regulares em provas de Orientação em BTT cifram-se nas duzentas pessoas. Em Portugal, a população é muito menor mas consegue haver um número superior a participar nas provas. Isto deixa perceber que têm mais gente jovem e, consequentemente, são maiores as possibilidades de se formarem equipas que permitam elevar os níveis. Juntando a isto a qualidade e os conhecimentos dos vossos treinadores e organizadores, estou seguro que, dentro de três ou quatro anos, Portugal será uma nação muito forte no panorama competitivo internacional. Hoje há equipas muito fortes mas que não organizam e que têm muito poucos jovens. Veja-se o caso da Suiça, por exemplo. São muito fortes mas era importante que organizassem uma grande competição para atraírem novos praticantes. Doutra forma, arriscam-se a desaparecer.


“Esta família não se pode desintegrar”

Orientovar – Relativamente à organização portuguesa dos Campeonatos do Mundo, qual é a sua opinião?


André Hermet – Muito boa, muito boa. E não digo isto pelo facto de a questão ser colocada por um português. Estive em sete edições dos Campeonatos do Mundo – falhei apenas a segunda edição, na Austrália – e penso que esta é a segunda melhor organização que presenciei, atrás da edição de 2007. Aí, na República Checa, houve coisas muito importantes, houve a televisão e as euro-transmissões, os alojamentos eram fantásticos e os mapas eram de grande nível. Aqui há tudo isso – há também este sol magnífico -, embora falhe na questão da televisão (mas em França é igual...). Particularmente em relação a nós, franceses, quando chegamos a Montalegre ou a qualquer outra cidade, toda a gente fala francês e acabamos por nos sentir praticamente em casa. É prático, é muito bom.

Orientovar – Como gostaria de ver a Orientação em BTT daqui a dez anos?

André Hermet – Espero que, dentro de dez anos, os Campeonatos do Mundo possam contar com muito mais nações a disputá-los, que as organizações mantenham o elevadíssimo nível que já atingiram e o possam ir melhorando cada vez mais e que as coisas não se degradem com a eventual entrada do “doping” neste desporto ou de outras situações nocivas que afectam várias modalidades. O ambiente que se vive na Orientação em BTT é fantástico e devemos fazer tudo para o conservar. Eu precisei de umas peças para as minhas bicicletas, foi um português que mas arranjou; precisei de outras coisas, foi um russo que me passou um pedal. Isto é algo de muito, muito importante. A Orientação em BTT é uma família e esta família não se pode desintegrar.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
.

Sem comentários: