terça-feira, 8 de junho de 2010

O MEU MAPA: JOSÉ FERNANDES, OS 4 DIAS DO MINHO E A SERRA DA CABREIRA

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Cheguei bastante tarde à Orientação.

Nos meus tempos de infância e juventude nem se ouvia falar de tal modalidade em Portugal, pelo menos no meio civil.

Em Julho deste ano de 2010 completarei o meu décimo quinto ano de prática deste desporto arrebatador. Foram anos de muitas competições e de muitas organizações, nos quais somei alguns êxitos e desilusões, mas no final de cada corrida houve sempre um pensamento reconfortante, o de que a seguir viria a próxima.

Hoje, é com enorme satisfação que constato que alguns dos meus melhores amigos são praticantes de Orientação e isso constitui um privilégio para mim.

Mas, para que este desporto aconteça é necessário que exista o seu verdadeiro e maior protagonista, o mapa.

Frequentes vezes na nossa vida somos desafiados a eleger o melhor dos mais variados temas, amigos, família, gostos pessoais, etc.

Desta vez solicitaram-me que falasse sobre o mapa que mais me marcou até hoje e apesar de já ter corrido em bons mapas tanto em Portugal como no estrangeiro, o meu mapa é sem dúvida o mapa da Serra da Cabreira.

Dele apenas posso falar enquanto organizador e traçador de percursos e, nessa condição, tive o privilégio e o tempo suficiente para poder visitar e admirar quase todos os recantos das suas excepcionais florestas. Com a sua ampliação em mais três quilómetros quadrados para a organização do Campeonato Nacional de Distância Longa em 2009, um anseio de uma década, creio que posso afirmar sem correr o risco de errar, que se pode organizar nesse mapa praticamente tudo o que se queira em Orientação.

A minha ligação a este mapa começou em 1998 aquando da organização da primeira edição dos “4 Dias do Minho”, na qual se disputou também o Campeonato Nacional de Distância Curta, hoje denominada Distância Média. Sendo o responsável pela equipa de montagem dos pontos de controlo, tive que calcorrear todos os recantos do mapa várias vezes e, já nessa altura, ainda sem uma experiência muito vasta na modalidade, fui descobrindo coisas novas em cada visita que fazia ao terreno e experimentando um entusiasmo crescente à medida que ia conseguindo assimilar a importância de cada uma dessas descobertas.

Essa edição dos “4 Dias do Minho” foi uma tarefa hercúlea para um grupo muito pequeno de amigos que constituíam na altura a Secção de Orientação de Associação Recreativa e Cultural do Campo, ARCCa, que mais tarde deu origem ao .COM - Clube de Orientação do Minho. A tarefa foi realmente muito grande, mas o contributo que demos para o desenvolvimento de modalidade no nosso país foi também assinalável. Alguns desses amigos já deixaram a Orientação, mas a maior parte continua a praticá-la e a trabalhar para o seu desenvolvimento.

Foram vários os atletas internacionais de nomeada que participaram nos “quatro dias”, mas a cabeça de cartaz foi sem dúvida a grande campeã austríaca, Lucie Boom, que era Campeã do Mundo de Distância Curta na altura e que não se cansou de nos felicitar pelo evento que conseguimos pôr de pé em condições tão difíceis.

Volvida mais de uma década após a primeira utilização do mapa da Serra da Cabreira, tive a responsabilidade - mas também o privilégio - de ali planear os percursos do Campeonato Nacional de Distância Longa 2009. Passei longos dias no terreno na escolha e verificação dos pontos de controlo, efectuando pequenas correcções de cartografia, tomando notas de determinadas áreas para fornecer aos cartógrafos para o trabalho de revisão final do mapa, seleccionando as melhores pernadas em função das áreas de partida e chegada, que teriam que ter em conta a estação do ano em que se realizava o evento, verificando possíveis passagens por forma a não atraiçoar os atletas. Tive inclusivamente que abrir pequenos carreiros pelo meio de matagais de urzes, prontamente cartografados, para poder proporcionar em algumas ligações mais do que uma opção.

A maior parte deste trabalho, fi-lo de uma forma solitária e como apenas tinha disponibilidade aos sábados, os que por lá passei começavam bem cedo e terminavam apenas quando a falta de luz já não me permitia ler nada.

No silêncio daquelas florestas, onde só se ouvia de vez enquanto o piar das aves ou o gorgolejar de um pequeno regato, tive a felicidade de ter alguns encontros com veados e javalis, tendo eu sido um digno companheiro de habitat, pois andei sempre tão silencioso ou mais do que eles próprios.

Com o trabalho terminado faltava apenas a chegada do grande dia.



Nunca foi minha pretensão agradar a todos e a missão do traçador de percursos tão pouco é essa, no meu entender. É, sim, saber dimensionar um percurso para o escalão a que respeita e proporcionar a cada atleta a possibilidade de colocar em prova todas os seus recursos, físicos ou técnicos. Isso só é possível havendo múltipla escolha de itinerário na ligação do maior número possível de pontos num percurso de Orientação. Dentro das especificidades do terreno procurei dar a maior atenção a estas vertentes e proporcionar aos participantes uma competição justa.

O dia da competição amanheceu ventoso e gélido, factores fortemente penalizadores para uma organização que escolheu e preparou da melhor forma possível o local de concentração dos atletas (mas isso são variáveis impossíveis de controlar).

Iniciadas as partidas, restava-me esperar pela chegada dos atletas e à medida que eles foram chegando fui constatando que os tempos dos vencedores estavam dentro do intervalo que eu tinha definido. Nas conversas entre atletas do mesmo escalão ia verificando que nas principais pernadas tinha havido opções diferentes e de uma maneira geral o ambiente era bom, apesar do frio intenso.

Faltava-me apenas verificar o que tinha acontecido no escalão HE, no qual havia uma ligação de três quilómetros em linha recta entre dois pontos de controlo, para a qual eu tinha pensado três opções possíveis, sendo que para dois atletas que escolhessem a opção mais à direita ou mais à esquerda, estariam a meio da pernada separados entre si cerca de dois quilómetros e chegariam ao ponto de controlo seguinte com tempos não muito dispares.

Pois bem, nesta ligação, a somar às três opções que eu tinha pensado e que foram todas utilizadas, houve atletas que ainda descobriram uma quarta opção.

Com a prova terminada fui sendo invadido por uma agradável sensação de paz e as felicitações chegaram de muitos atletas, mas o que mais me tocou foi ouvir o obrigado de alguns “meninos” que eu conheci e vi crescer na Orientação e que ali tinham dominado completamente.

Para os amantes do “Serra da Cabreira”, o que eu posso dizer é que ele ainda pode e vai crescer um dia. Não posso é precisar quando.

Quanto a mim, sempre que me é possível volto lá porque aquela natureza constitui uma verdadeira delicia para os meus sentidos.

Um muito obrigado ao Joaquim Margarido por esta oportunidade.

José Fernandes
.COM – Clube de Orientação do Minho
Fed 1532

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3 comentários:

Almeida disse...

Caro Zé,
Um Abraçãoooooooo!

Manuel disse...

Caro Zé, obrigado pelas recordações que o teu texto veio avivar. O mapa reproduzido é o “Cabreira III” e o percurso, imagino, o HE do CND Longa 2009. O H55 era uma brincadeira ao lado desse, mas tinha também os seus desafios e deu-me uma das maiores alegrias da época, com 48.45 nos 5,4 km.
Aproveito para espreitar os “Serra da Cabreira I” e “II”, ou seja, para relembrar o “I GP Minho” (Maio 2003) e os primeiros “Quatro Dias” (1998). Permite que deixe uma homenagem a Alexander Shirinian. Foi dele o primeiro trabalho de campo, em Out/Nov 97, para este mapa maravilhoso, a cuja cartografia foram ficando ligados também os nomes de J. C. Pires, S. Kollznetsov, A. Reis, V. Sendim e tu próprio, J. Fernandes.
A memória mais viva é de 1998. Na altura, eu fazia H45. Os mapas de 1:10 000 pareciam lençóis: 35x41cm. Os percursos eram desenhados à mão; e as sinaléticas, umas tiras de papel coladas no mapa.
Dormimos em Cabeceiras de Basto e, depois da 2ª etapa, jantámos opiparamente num grupo que incluía o Brázio (que será feito dele?). Um minuto antes de começar a 3ª etapa, que certamente não contava para a classificação geral, diz-me o responsável pelas Partidas: “Olhe que esse é o cesto com os mapas da Elite”. Respondi: “Obrigado, eu sei”. E lá fui, com um mapa de 1:15 000, para um percurso de 9,0 km.
Mas quem deve ter uma boa história para contar sobre essa prova é o pessoal do Estarreja. Não foi aí que o velhinho autocarro do clube ficou atolado na lama?

José disse...

Almeida e Manuel, obrigado pela vossa amizade.

Foi realmente o autocarro do Ori Estarreja que ficou atolado naquele dia de autentico dilúvio.
Relativamente à homenagem que o Manuel faz ao Alexander Shirinian, ela é totalmente merecida.
Ele foi um grande mestre para mim e para muitos outros, que queriamos aprender e volvidos tantos anos tenho a consciência de que a tarefa ainda vai a meio ou talvez menos.

Um grande abraço para vocês.
José Fernandes