sábado, 12 de junho de 2010

GRANDE ENTREVISTA: ANTÓNIO JAMBA E A ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO

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António Jamba não poderá jamais esquecer o dia 19 de Outubro de 2007, quando um acidente de viação lhe “roubou” a metade inferior do corpo, atirando-o para uma cadeira de rodas. Desde então, Benguela, Luanda e o Porto são estações duma “via-sacra” onde o sofrimento e o desânimo caminham de mãos dadas com a esperança e a determinação. Ao Orientovar contou a sua experiência de vida e exprimiu os seus sonhos e ambições. Uma conversa que aqui se reproduz e onde se fala, em grande medida, de Orientação de Precisão.


“Esperança é uma palavra bonita”

Orientovar – De que forma é que o acidente alterou a sua vida?

António Jamba - Estar numa cadeira de rodas é tentar renascer. É o outro lado da vida ou de como toda uma vida se pode transformar em dois segundos. É abraçar a dor e com esta dor saber enfrentar o Mundo. Tudo passa a depender só de nós. Não melhorei a cem por cento, ainda continuo na cadeira de rodas, de vez em quando para me distrair ando um bocado com os aparelhos e é aquilo que posso fazer neste momento.

Orientovar – Em que medida há esperança para quem está numa cadeira de rodas?

António Jamba – Esperança… Esperança é uma palavra bonita, uma palavra prometedora de futuro. Mas futuro numa cadeira de rodas? Não vou poder correr mais, há inúmeros obstáculos… Surgiu agora a oportunidade de fazer uma formação na área dos computadores, depois vou ter um emprego e terei de me reenquadrar na sociedade.


“Olhei e vi rampas”

Orientovar – Mas sente que a sociedade está preparada para o receber?

António Jamba – Aqui em Portugal há uma outra visão no relacionamento entre a pessoa deficiente e a pessoa dita normal. Há outra forma de encarar a pessoa deficiente, há outro cuidado específico. Nas poucas vezes que tive oportunidade de sair do Hospital e de passear um bocadinho olhei e vi rampas. Uma rampa, por exemplo, dificilmente se encontra em Angola, mesmo nos lugares públicos. E falo duma rampa porque é uma coisa perfeitamente banal, é algo que com três colheres de cimento se faz. Sinto um enorme desgosto quando digo isto, mas a verdade é que não quero voltar para Angola. Os obstáculos lá são tantos que fazem com que a vida duma pessoa deficiente não seja nada fácil.

Orientovar – Apesar de projectar o futuro em Portugal, tenho a certeza que um pedaço muito grande de si continua em Angola. É ou não verdade?

António Jamba – Sim, sobretudo o clima. Mas, como disse anteriormente, este é para mim um renascer. E estou a renascer num País onde a consciência e as oportunidades são muito diferentes daquilo que encontraria em Angola. Se é verdade que Deus escreve direito por linhas tortas, então eu tive essa sorte de, numa linha torta, alguém ter percebido aquilo que estava escrito. Foi em Angola que tive o acidente, foi lá que surgiram as sequelas, estava a ficar desgastado mas acabei por ter uma mão amiga que olhou por mim.

“Eu tenho de fazer isto, eu vou fazer isto!”


Orientovar – Onde é que se vão buscar forças para superar tanto tempo de internamento num Hospital?

António Jamba – É projectando-nos nos outros que encontramos essa força e a vamos buscar ao fundo de nós próprios. Quer dizer, é quando vemos alguém que está pior do que nós e consegue fazer isto ou aquilo que assumimos que também havemos de conseguir. A nossa vista é como uns holofotes que incidem sobre aquilo que o outro faz e aí dizemos: “Eu tenho de fazer isto, eu vou fazer isto!” Juntando as condições que encontrei aqui, com muita cabecinha e teimosia à mistura, fui multiplicando as coisas e dando passos seguros para a minha recuperação.

Orientovar – Mas foi apenas buscar força aos outros ou também transmitiu alguma da força que os outros necessitam?

António Jamba – Em determinada altura, há uma tendência natural de pensar que “perdido por dez, perdido por mil.” Se pedirmos a alguém que resolva um problema de matemática e esse alguém não conhecer os teoremas, não conhecer as regras de resolução desse problema, então é necessário investigar, procurar as pessoas que sabem e que possam ensinar, aprender mais para poder resolvê-lo. Caso contrário, vão-se gastar energias para nada. Não se resolve o problema, perde-se o ânimo e a vontade, fica-se com a moral completamente em baixo. Também já fui um aconselhador, já tive um amigo que se atirava às coisas de cabeça e sentia que a vida tinha terminado. É preciso tocar para a frente porque assim não se ganha nada, não se adianta nada. É preciso secar as lágrimas, impedir que elas nos prejudiquem e nos impeçam de ver com clareza aquilo que temos à nossa frente.

“Também tive os meus períodos de fraqueza”

Orientovar – E no seu caso concreto?

António Jamba – Quando fui internado, a perspectiva era a de usar aparelhos longos que bloqueassem a anca e fazer uma reintervenção cirúrgica na coluna. Posteriormente, verificou-se que eu tinha uma força surpreendentemente grande na anca, foi possível baixar os aparelhos até à raiz da coxa – poderão mesmo vir a baixar mais ainda – e pôs-se de parte a cirurgia. Mas também tive os meus períodos de fraqueza, durante os quais baixava a cabeça, ficava desgostoso, revoltado e tinha vontade de me ir embora. Estava naquela linha ténue entre aquilo que sentimos que podemos e não podemos fazer. Mas aí houve alguém que me disse para ter força, para lutar. Essa pessoa foi o Carlos Duarte, alguém como eu, igualmente doente. Alguém que foi a minha sombra e sobre a qual fiz a minha própria projecção.

“É só, é só… mas quando se chega ao terreno é que se percebe que não é assim tão fácil”

Orientovar – Ao longo do seu internamento, acompanhou de perto o movimento de relançamento da Orientação de Precisão em Portugal e teve oportunidade de participar em praticamente todas as provas realizadas. Lembra-se da primeira vez que isso aconteceu?

António Jamba – São histórias e vivências que fazem parte da nossa vida. No alento duma simples brincadeira, juntámos um ‘paparazzi’, uma prova de matemática e um desporto-ciência. Percebi que a Orientação de Precisão nos obriga a enquadrarmo-nos num mapa que nos é dado e a reflectir em cada um dos pontos espalhados ao longo do percurso para identificarmos a baliza certa. Nunca tal coisa tinha visto, nomeadamente os pontos cardeais que ouvi falar no 4º ano mas não tinha qualquer noção. Podia perder-me num sítio e facilmente voltar a localizar-me, porque esta modalidade tem tudo a ver com isso. Fiquei maravilhado com a experiência. Foi excelente.


Orientovar – E na sequência dessa primeira experiência?

António Jamba – No internamento, houve muitas pessoas que se mostraram interessadas em saber o que era a Orientação de Precisão e como se praticava. Mostrava-lhes o mapa que me tinham dado e explicava-lhes que as linhas representavam o percurso. Que em cada ponto era necessário escolher entre duas balizas qual a verdadeira e qual a falsa e falava-lhes da importância da bússola. Mas é só isso?, perguntavam. Bem, é só, é só… mas quando se chega ao terreno é que se percebe que não é assim tão fácil. Houve muita gente entusiasmada que começou logo a perguntar quando voltaria a haver uma nova prova de Orientação de Precisão.

“Ele ficou em quarto, a medalha foi para mim”

Orientovar – Há algum episódio que recorda com particular emoção?

António Jamba – Realmente há um momento que guardo nas minhas recordações com muita emoção. Foi em Baião, no Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Havia um ponto meio “esquisito”, um ponto mesmo para atrapalhar o raciocínio, daqueles onde não nos podemos precipitar. Fiz a minha observação, defini a baliza que estava correcta e aí chegou um adversário a dizer que eu estava errado. A verdade é que eu mantive a minha ideia e consegui, dessa forma, ser terceiro classificado e ganhar uma medalha de bronze. Ele ficou em quarto, a medalha foi para mim. Também o facto de ter dado uma entrevista que passou na televisão, quando participei na minha primeira prova, é um momento que guardo na memória.

Orientovar – Qual a maior dificuldade para um praticante de Orientação de Precisão?

António Jamba – Dominar a bússola e ter a noção dos pontos cardeais é o mais importante. Mas é igualmente importante perceber os pontos de referência e conhecer o significado dos símbolos. É que sem estas noções, cada elemento no terreno pode atrapalhar, entre aspas, o nosso raciocínio. De resto, basta querer, basta ter vontade. É bom sentir aquele aroma, aquela agitação, aquele corre-corre…

“De maneira que o Mundo fique ainda mais unido”

Orientovar – Como avalia a evolução da Orientação de Precisão em Portugal?

António Jamba – Não tenho bases suficientes para poder responder concretamente a essa questão mas posso falar da minha própria experiência e daquilo que fui sentindo. No início as provas foram demasiado fáceis, mas esta é uma realidade que só agora consigo perceber e avaliar. Nessa altura estava a tomar contacto com a modalidade pela primeira vez e as coisas no terreno não eram assim tão simples. Perceber o mapa, o dinamismo do mapa em relação ao terreno foi o passo seguinte. Foram situações que surgiram prova após prova, que permitiram esclarecer e resolver as muitas questões que se iam colocando. Se no início me senti fraco, na prova seguinte já me senti mais forte, cada vez mais forte. Numa importante prova que fiz, consegui inclusivamente descobrir pontos mal marcados. Penso, sinceramente, que o nível de dificuldade das provas não aumentou substancialmente, eu é que fui melhorando. Numa escala de zero a dez, as provas estão abaixo da média de acordo com o meu nível actual. Penso que está na altura de elevar o nível de dificuldade.

Orientovar – O que falta fazer para que a Orientação de Precisão se afirme em Portugal?

António Jamba – Até pelas suas características, devia ter mais atenção dos Órgãos de Comunicação Social. Eles são a chave para que a Orientação de Precisão se torne conhecida e se possa afirmar. Há muito pouca gente a participar por uma questão de desconhecimento, por falta de divulgação. Também é fundamental rentabilizar os recursos que existem nos Hospitais, criar em torno da Orientação de Precisão um pólo de atracção, uma forma de ocupar os tempos livres, cartografar os espaços, dar condições para que as pessoas possam participar. E depois fazer com que os vários Hospitais se unam e desenvolvam iniciativas em que todos possam participar, porque a união faz a força. Só assim este pode vir a ser um desporto gigante, um dos mais procurados, um dos mais divulgados e um dos mais participados, não apenas por pessoas deficientes mas também por pessoas ditas normais. De maneira que o Mundo fique ainda mais unido.

“Esse é o meu sonho”


Orientovar – Pensa continuar a fazer Orientação de Precisão?

António Jamba – Conheci e desenvolvi capacidades e quero continuar a fazer Orientação de Precisão. Sempre que me for possível, irei participar. É algo que me ajuda, me areja e distrai daquilo que é a minha situação de doença, que faz com que deixe de pensar nos tabus. Quem sabe, um dia eu poderei ser o mentor da Orientação de Precisão em Angola. É um desporto inovador, tem inúmeros aspectos positivos no que respeita à pessoa deficiente e é uma forma das pessoas se integrarem na sociedade. Dava um Campeonato extraordinário. Penso que as pessoas responsáveis haveriam de apoiar este desporto. Esse é o meu sonho.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

antunes disse...

Bom Dia;
Parabéns ao amigo Margarido e ao seu entrevistado.Entrevista com a habitual oportunidade e muito interessante.
Espero e desejo que todos os sonhos do António Jamba se possam concretizar.
Abço a ambos
Rui Antunes-COC

Ricardo Telmo disse...

Excelente entrevista!
Sem duvida uma licao de vida..

Abraco