sábado, 1 de maio de 2010

O MEU MAPA: MARIA PALMIRA, ALHAMA DE MURCIA E O WMOC'96

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Tenho vários mapas - e/ou várias provas - que poderiam ser, qualquer deles, considerados o “mapa da minha vida”. No entanto, escolhi para esse efeito a minha participação no Campeonato do Mundo de Veteranos que se realizou em 1996, na zona de Múrcia – Espanha, pelas várias peripécias que se passaram e porque foi a minha primeira presença em provas além fronteiras. No entanto começo o meu artigo pela minha vinda para o mundo da Orientação.

Estávamos em finais de Outubro de 1994 quando o Albano me diz: “Queres ir fazer a prova da Vagueira a pares com a Joana e a Inês?”. Eu, que tinha andado muitos anos nos escuteiros, achei que “aquilo” não seria muito diferente e como as minhas filhas (Joana e Inês) já tinham feito uns treinos com o pai e percebiam alguma coisa de Orientação, lá aceitei o desafio a pensar que não iria ter grande dificuldade. Aí é que me enganei. Como as minhas filhas corriam muito, conseguir aguentá-las foi um problema. Elas gritavam, “corre mãe, corre mãe”, mas a mãe corria o máximo 50 metros seguidos… Ia morrendo! Mas enfim, cumprimos a dita estreia e acabei até por gostar. Comecei então a ser uma assídua às provas e vejam lá que até comecei a treinar a parte física, na bela companhia do meu cão, que por sinal era cadela “Jáquiná” (pelo menos esta não reclamava da minha lentidão).

Assim comecei calma e tranquilamente entre provas e treinos, onde aprendi alguma coisa. Fui ganhando umas provas no escalão D35, tendo inclusivamente ficado em primeiro no ‘ranking’ neste escalão.

Até que um belo dia recebo uma convocatória da Federação Portuguesa de Orientação para representar Portugal no Campeonato do Mundo de Veteranos em Múrcia. Escusado será dizer que fiquei apavorada mas feliz.

Entretanto, e já em 1996, num sábado de manhã, que não posso precisar o dia, eu e o Albano fomos correr à Azurva para participar numa prova organizada pela ANORT. Chegados ao local instalámo-nos e começámos na “cavaqueira” com os nossos amigos, quando se abeirou de nós um atleta com uns envelopes a distribui-los pelos presentes. Toca a abrir os envelopes e qual não foi o meu espanto de ler, entre outras, a frase seguinte: “As atletas convocadas para o Campeonato do Mundo de Veteranas são de fraco nível técnico, enquanto a melhor atleta, de caras, a nível nacional não o foi”. Ficámos todos perplexos, não pelo conteúdo da carta, mas pelo atleta que andava a distribuir os envelopes, visto ser uma pessoa tida como correcta, não se passando o mesmo com a atleta considerada “de caras a melhor”.

Finalmente chegou o dia da partida para o dito Campeonato, que por sinal foi no feriado de Sexta-Feira Santa, com uma bela comitiva da selecção portuguesa composta pelo Albano, Redondo, Álvaro Coelho, José Batista, Francisco Pereira, Dinis Costa, Teresa Marques, Cardoso Ferreira, Eurico Martins e Higino Esteves (peço desculpa se me estou a esquecer de alguém). Paralelamente, outros atletas se fizeram deslocar, tais como Manuel Dias, Dionísio Estróia, Rui Antunes, uma comitiva da EPAL e os ditos atletas do “envelope”. A viagem, embora longa, foi muito agradável.


Chegados ao local do alojamento, La Manga del Mar Menor, verificámos que iríamos ficar bem instalados e o ambiente entre a equipa era fabuloso.

1º dia de Prova – 1º dia de Apuramento – Nervos à flor da pele. O Dinis Costa e o Francisco Pereira, mais experientes, a darem-me os últimos conselhos e a acalmarem-me, até que lá parti. Ainda em mente com o ultimo conselho, “sair bem dos pontos e saber sempre onde estão”, lá fui fazendo uma prova segura, de ponto a ponto, com poucos erros, lá cheguei ao fim. Fiquei satisfeita com a minha prestação e mais contente fiquei, pois tinha sido a melhor portuguesa, entre as três participantes nacionais.

2º dia de Prova – 2º dia de Apuramento - Mesma situação do dia anterior, mas agora com a responsabilidade acrescida de tentar manter o lugar que me garantia a presença na final A e também como melhor portuguesa. Novamente nervos, ansiedade, parecia que íamos para um exame. A prova não me correu tão bem como no dia anterior e, além disso, perdi para a atleta do “envelope”. Mas dava para manter o lugar de melhor portuguesa e ir à final A.

3º dia de Prova – Final - Foi utilizado o mapa de La Muela – Alhama de Múrcia – escala 1:10 000 – equidistância de 5 metros – 6000 metros e desnível de 210 metros. Era um sonho, embora recente, que se estava a concretizar, ir a uma Final de um Campeonato do Mundo. Nessa noite não consegui dormir, não consegui tomar o pequeno-almoço e as pernas tremiam consecutivamente. Não me lembro de uma situação assim.

Novamente com os conselhos dos mais experientes, lá parti para a prova. O 1º ponto era fácil, o segundo também, o que ajudou a descontrair e apanhar confiança. Surge a primeira dificuldade ao ir para o ponto 5, optei pela solução mais segura, que foi contornar a linha de água e descer o caminho do esporão. E assim foi durante todo o percurso, ter a maior calma possível, sair bem dos pontos e atacar o próximo pelos elementos mais seguros. Quando saí para o último ponto, nº 15, pensei, “dever cumprido”. Aí sim, dei o meu máximo.
Tinha consciência que tinha feito uma boa prova, embora para o meu fraco nível internacional, mas no fundo e na verdade queria ser a melhor portuguesa e conseguir acima de tudo ganhar à atleta que dizia que a minha convocatória tinha sido injusta e demonstrar que um pouco de humildade não faz mal a ninguém.

Quando todos terminaram a prova, tive a feliz notícia que de facto tinha sido a melhor portuguesa. Como se compreende fiquei muito satisfeita e com a satisfação de “objectivo cumprido”.

Antes do regresso a Portugal e a convite do Presidente da Federação, Sr. Higino Esteves, toda a comitiva foi jantar, incluindo os atletas extra-selecção. O senhor Presidente, entre os elogios a todos os presentes pelas belas prestações obtidas e pelo bom ambiente que se viveu durante o Campeonato, destacou que “afinal estes Campeonatos tinham encontrado uma nova revelação nacional, pois havia uma atleta portuguesa que tinha ganho à melhor atleta nacional. Ou seja, tinha nascido uma estrela”.

Maria Palmira
COC
Fed 1183

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3 comentários:

Manuel disse...

Essa viagem marcou, imagino, todos os que nela participaram. Obrigado, Palmira, pelas boas recordações que vieste avivar. E parabéns! Escreves como navegas: bem, muito bem!
Manel

Anabela disse...

Recordações, dessa época, não tenho, pois em 1996, ainda, não andava nesta vida, mas a partir 2003 muito aprendi com esta Grande Atleta e Boa Amiga. Obrigada e parabéns!
Bjs.
Anabela Vieito

José disse...

Interessante recordação duma atleta considerada uma histórica da modalidade.

Ultimamente, temo-la visto menos na floresta, esperemos que seja uma situação passageira.

Oxalá o próximo WMOC lhe traga a motivação, como nos seus bons velhos tempos.