quinta-feira, 6 de maio de 2010

GRANDE ENTREVISTA: LILIANA ROCHA E A ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO

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A Orientação de Precisão foi tema dum poster apresentado a concurso no XI Congresso da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação. Face a tão inédito acontecimento, a Grande Entrevista dá hoje a conhecer a sua autora, Dra. Liliana Rocha, naquilo que representa uma visão diferente - mas absolutamente complementar - do que é a Orientação de Precisão.


A Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação levou a efeito o seu XI Congresso, um momento de reflexão sobre a especialidade que serviu para trocar experiências e debater as melhores técnicas de reabilitação nas mais variadas áreas. Abrindo pela primeira vez as portas aos profissionais de saúde das áreas de Reumatologia, Medicina Geral e Familiar, Ginecologia e Ortopedia, o Congresso abordou temas tão interessantes como as “alterações osteoarticulares em mulheres com menopausa”, “exercício físico e fortalecimento muscular na artrose”, “reabilitação cognitiva”, “metodologias de avaliação clínica da dor” ou “novos modelos de gestão clínica em reabilitação”. Durante o evento houve ainda espaço para a apresentação de comunicações orais e de posters.

Precisamente nesta última vertente, foi possível encontrar a concurso um poster [o qual pode ser visto
AQUI] da autoria de Liliana Rocha, médica-militar actualmente no 2º ano do Internato Complementar de Medicina Física e de Reabilitação no Hospital da Prelada, no Porto. Natural de Viana do Castelo, Liliana Rocha tem sido uma das grandes impulsionadoras da Orientação de Precisão no Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do seu Hospital de “acolhimento” e, daí, o facto de ter elegido como tema para o seu poster esta particular disciplina da Orientação. O Orientovar conversou com ela e dá hoje a conhecer um pouco do que vive e sente alguém que vê no Desporto Adaptado e, em particular, na Orientação de Precisão, uma ferramenta preciosa com vista à reabilitação plena da pessoa com deficiência motora.


“Explicar o sentido da expressão Orientação para Todos”


Orientovar – Que objectivos presidiram à elaboração deste poster e à sua apresentação a concurso no Congresso Nacional de Fisiatria?

Liliana Rocha – O grande objectivo teve a ver com a oportunidade de explicar o sentido da expressão “Orientação para Todos” e dar a conhecer a Orientação de Precisão junto de Fisiatras, internos da especialidade de Fisiatria, Reumatologistas e Clínicos Gerais. São eles, no fundo, os profissionais de saúde que mais facilmente chegam às pessoas que se deslocam em cadeira de rodas e constituem um importante alvo se queremos ter mais praticantes de Orientação de Precisão.



Orientovar – A forma como o trabalho foi recebido e classificado com uma Menção Honrosa correspondeu às suas expectativas?

Liliana Rocha – O trabalho foi muito bem recebido, sobretudo porque a maioria das pessoas que tiveram oportunidade de ver o poster e de assistir à sua apresentação desconheciam completamente esta modalidade. Foi muito bom perceber que consegui cativar alguns deles e talvez poder vê-los num futuro próximo numa actividade de Orientação de Precisão. Foi pena a apresentação ter sido dirigida a um número limitado de ouvintes, uma vez que decorreu num dos intervalos do Congresso e numa altura em que as pessoas acabam por estar um bocadinho dispersas. Quem sabe, num dos futuros Congressos, poderei voltar ao assunto e apresentá-lo sob a forma de Comunicação Oral. Aí estou certa de que terei uma plateia mais vasta a ouvir-me e a ter conhecimento do que é a Orientação de Precisão.


“O verdadeiro desporto de inclusão”


Orientovar – A estrutura do poster recai sobre a Orientação de Precisão como um todo. Ao apresentá-lo, houve alguma particularidade que mais realçou?

Liliana Rocha – Aquilo que eu pretendi realçar foi, dentro do leque de modalidades adaptadas que eu conheço, esta ser a única que consegue pôr em pé de igualdade uma pessoa portadora de deficiência motora com outra sem deficiência a esse nível. As condições necessárias, basicamente, são apenas duas: Conseguir ver e ser capaz de ler e interpretar o mapa. Nesta medida, andar a pé ou em cadeira de rodas é exactamente igual. Por isso, para quem está num Serviço de Medicina Física e Reabilitação este é, mais do que qualquer outro, o verdadeiro desporto de inclusão.



Orientovar – E é isso que mais a cativa nesta modalidade?

Liliana Rocha – Mesmo antes de conhecer a Orientação de Precisão, eu já estava um bocadinho cativada pela modalidade, visto ser Militar e ter contactado com a Orientação nesse âmbito. Mas foi quando cheguei ao Hospital da Prelada, no início do meu estágio de especialidade, que me inteirei daquilo que se começava a fazer no Serviço de Medicina Física e Reabilitação e das virtualidades da Orientação de Precisão. Quase em simultâneo acompanhei os nossos doentes a uma prova organizada pelo Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, o que para nós constituiu uma mais-valia muito grande. Perceber que havia esse factor de igualdade, começar a desvendar os aspectos específicos desta modalidade, ver a receptividade dos doentes e a resposta que eles deram ao fim da primeira prova, foi isso essencialmente que me cativou. A primeira vez que fomos era a descoberta e não sabia muito bem o que esperar. Mas a resposta que tivemos dos doentes foi fantástica, foi uma alegre surpresa e, a partir daí, aquilo que procuramos fazer é cativar cada vez mais doentes e as próprias famílias para que venham praticar este desporto.




“Os nossos doentes sentem-se especiais”


Orientovar – Apesar de tudo, o número de participantes continua a ser baixo. Como é que interpreta esta realidade?

Liliana Rocha – Antes de mais, é preciso entender que estamos a começar e a modalidade é quase uma ilustre desconhecida. Penso que temos de apostar mais na divulgação deste tipo de actividades junto dos locais-alvo e que são os Serviços de Medicina Física e Reabilitação e as Escolas onde encontramos alunos com Necessidades Educativas Especiais. Para além deste aspecto, há outro que me parece fundamental e que consiste em cativar em cada um desses locais uma ou duas pessoas e conseguir fidelizá-las. Seguramente, por arrastamento, outras acabarão por vir também.


Orientovar – Do ponto de vista da reabilitação plena do doente, a Orientação de Precisão pode ser uma ferramenta importante?

Liliana Rocha – É, efectivamente, uma ferramenta importante. Em termos da actividade física em si, as vantagens são relativamente pequenas uma vez que este desporto não privilegia a componente física. Ainda assim, a deslocação de ponto para ponto pode, em determinados grupos de doentes, constituir um desafio importante do ponto de vista físico. Mas as grandes vantagens são a nível biopsicossocial. Uma das nossas funções, enquanto profissionais de saúde num Serviço de Medicina Física e Reabilitação, consiste na integração social dos doentes, quer a nível familiar, quer a nível desportivo e outros. Em muitos casos, nos internamentos de longa duração, este acaba por ser um primeiro contacto do doente com o exterior e com a realidade fora do contexto hospitalar. É uma experiência que o põe em contacto com as dificuldades que se colocam em termos de deslocação em cadeira de rodas, nomeadamente com as chamadas barreiras arquitectónicas, o terreno irregular, os desníveis a vencer e tudo o mais que nunca tinha sido problema até então e agora passa a ser. Aliando a isto o facto de levarmos a família e os amigos a participar também na actividade, a colaborarem com o doente e a fazerem a prova em conjunto constitui, do nosso ponto de vista, um passo importante no sentido da reabilitação. Vemos que, após as provas, os nossos doentes sentem-se especiais, sobretudo porque partilharam um espaço e um tempo de igual para igual.




“Cativar mais pessoas e cada vez mais novas”


Orientovar – Que avaliação faz da forma como a Orientação de Precisão tem vindo a ser acompanhada, acarinhada e tem crescido ao longo deste último ano?

Liliana Rocha – Tem sido fantástico perceber a extraordinária evolução que a Orientação de Precisão tem sofrido em tão curto espaço de tempo. Podemos considerar que existe já um “núcleo duro” de participantes que, mesmo depois de terem alta hospitalar e de estarem a ser acompanhados apenas em regime de ambulatório, são contactados telefonicamente e aparecem com os familiares, sem necessitarem já da nossa ajuda em termos logísticos. Gostaria de deixar o meu agradecimento à Federação Portuguesa de Orientação, porque desde logo assumiu com muito carinho esta modalidade. E um agradecimento especial ao Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, extensivo a todos os clubes que já organizaram este tipo de actividades, uma vez que fazem questão de criar um percurso de Orientação de Precisão em pé de igualdade com todos os restantes percursos, disponibilizando sempre monitores e pessoal de apoio para o acompanhamento dos participantes.



Orientovar – O que é necessário fazer para que este processo continue a desenvolver-se e a dar frutos?

Liliana Rocha – Eu espero que se consigam cativar mais pessoas e cada vez mais novas, no sentido de as fidelizar mais cedo, garantindo uma continuidade em todo este processo e tendo como resultado a evolução das suas capacidades. Temos visto que os doentes que estão envolvidos nestas actividades desde o início revelam já uma grande evolução e não têm nada a ver com aqueles que aparecem pela primeira vez. Isso tem sido visto com muito agrado. Até onde é que isso nos pode levar? Se vamos conseguir fazer sair daqui alguns craques, assim uma espécie de “elite do Trail-O”, isso só o futuro o dirá. Mas podemos considerar que existe já um “núcleo duro” de participantes que, mesmo depois de terem alta hospitalar e de estarem a ser acompanhados apenas em regime de ambulatório, são contactados telefonicamente e aparecem com os familiares, sem necessitarem já da nossa ajuda em termos logísticos.





“Apontar alguns números e mostrar alguns campeões”

Orientovar – E que papel podem ter os clubes no meio disto tudo?

Liliana Rocha – Ao promoverem e organizarem as provas, os clubes são fundamentais em todo este processo. Julgo que seria vantajoso para a modalidade o aparecimento de clubes com uma actividade regular direccionada para a Orientação de Precisão ou, nos quadros dos clubes que já existem, que surgissem Secções votadas exclusivamente à Orientação de Precisão. Por outro lado, era muito importante que houvesse uma maior regularidade de provas. O facto das provas serem sequenciais num curto espaço de tempo permite que aqueles doentes que cativamos no início partilhem as suas experiências com os outros, criando uma dinâmica muito viva e tendo como resultado um maior interesse nas provas subsequentes. Aliás, temos o exemplo das três provas organizadas recentemente pelo Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos no curto espaço de oito dias e que fez com que, na derradeira prova, conseguíssemos ter a extraordinária presença de 15 atletas. Verificamos que um hiato muito grande entre as provas faz com que a maioria dos doentes que teve uma primeira experiência acabe por ter alta. Perde-se a experiência, não há esta troca de ideias e de informação e isso faz com que tenhamos de recomeçar tudo de novo, voltando praticamente à estaca zero.



Orientovar – Quando voltar a concorrer com um novo poster, que grandes alterações gostaria de ver em relação ao modelo que agora apresentou?

Liliana Rocha – Este poster teve como objectivo mostrar o que é a Orientação de Precisão, dar a conhecer sumariamente as suas regras e apelar aos serviços de saúde com doentes motores que colaborassem no sentido de divulgar e incentivar a prática do Desporto Adaptado. Eu espero que no próximo já possa apontar alguns números e mostrar alguns campeões com algumas medalhas, de forma a conseguir cativar outros. E ter muitas mais fotografias de pessoas jovens a praticar Orientação de Precisão e, quem sabe, apresentar um futuro Núcleo Desportivo de Orientação de Precisão do Hospital da Prelada.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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