terça-feira, 25 de maio de 2010

EOC PRIMORSKO 2010: ANTÓNIO AIRES E A ANTEVISÃO DOS CAMPEONATOS

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A Selecção Nacional de Orientação Pedestre já se encontra na Bulgária onde, a partir da próxima sexta-feira, tomará parte na 8ª edição dos Campeonatos da Europa 2010. Pretexto para uma conversa de fundo com António Aires, o Director Técnico Nacional, onde se aborda esta participação portuguesa como mais uma etapa nesse ideal de “Crescer como Grupo”.


Orientovar – Este processo que levou a Selecção até à Bulgária foi anormalmente conturbado. De que forma é que a Direcção Técnica Nacional e os próprios atletas sentiram que esteve em risco a sua participação nos Europeus?

António Aires – Durante todo o momento de impasse, sempre olhámos para a situação com olhos de ver e de encontrarmos uma solução para a ultrapassar. Da parte dos atletas foi muito bom porque, pela primeira vez, se uniram o que, mesmo em termos de futuro, é sempre positivo. Como resultado dessa união, pela primeira vez deram a sua visão, as suas ideias, os seus sonhos e transmitiram em grupo, efectivamente, algo que apenas vinham transmitindo de forma desgarrada. Dessa forma, fizeram jus ao seu lema que é “Crescer como Grupo”.

Orientovar – A vontade dos atletas era mesmo a de ir à Bulgária…

António Aires – Claramente. Os atletas, mais do que ninguém, durante todo o ano treinaram, durante todo o ano fizeram sacrifícios. Sendo o Campeonato da Europa uma competição onde poderiam ir mais atletas do que ao Campeonato do Mundo, houve mais atletas a sonharem com essa possibilidade e a sacrificarem-se para alcançar esse objectivo.

Orientovar – Apostou-se na Bulgária e não na Noruega, ou seja, apostou-se num Campeonato da Europa em detrimento dum Campeonato do Mundo. Porquê?

António Aires – Naturalmente, por uma questão financeira. Pelo mesmo valor, conseguimos levar mais do dobro dos atletas a uma grande competição internacional, num momento tão importante do crescimento qualitativo dos nossos atletas, tanto masculinos como femininos. Por outro lado, a Bulgária garante aos nossos atletas a possibilidade de participarem numa final, uma vez que tem finais A e finais B, aumentando praticamente para o dobro o número de provas onde poderão participar. Finalmente, os terrenos da Bulgária vêm muito mais ao encontro dos hábitos, das capacidades e da experiência de competição dos nossos atletas.

Orientovar – Estamos na Bulgária com que expectativas?

António Aires – Principalmente em relação aos mais jovens, esta participação tem a ver com o ganhar experiência. Faz parte dum processo de evolução e é esse o nosso interesse. Mas para os mais velhos temos sempre a expectativa duma ida à Final A. São vários os atletas que estão na Bulgária com esse grande objectivo e aí reside, neste momento, o nosso patamar.

Orientovar – Há todo um processo de selecção que teve em Quiaios, há pouco mais de quinze dias, o seu ponto culminante. Quais as fases decisivas que permitiram escolher entre os melhores estes nove elementos que nos irão representar na Bulgária?

António Aires – Na prática, ainda olho para este processo como tendo começado no início de 2009. Aí ensaiamos os passos que acabamos por aplicar, duma forma muito mais competente e funcional, este ano. Já esta época, tudo começou com a realização dos estágios de fim-de-semana, visando criar uma outra abordagem ao grupo e um acompanhamento mais atento dos atletas. Todavia, o processo de selecção em si não dependeu de absolutamente mais nada que não dos dias das provas de selecção. Excepto num caso tivemos de nos socorrer duma situação de repescagem, decidindo chamar a Raquel Costa ao grupo, mas que, por razões pessoais, acabou por declinar a sua ida à Bulgária.

Orientovar – Recuando um bocadinho até ao Estágio de Páscoa, parece haver uma aposta na diminuição de elementos do Grupo de Selecção. Qual o critério para terem estado em Alter do Chão apenas dez atletas?

António Aires - Embora à primeira vista possa parecer estranho estar a limitar a participação num Estágio mediante testes de corrida em pista, esta decisão fez parte de uma estratégia para transmitir aos atletas uma mensagem relativamente à importância da capacidade física num atleta de Orientação de elevado nível. Nesse sentido, uma das acções foi a criação de um objectivo baseado na velocidade pura em pista, planeando um estágio para o qual foi anunciado no início da época que apenas poderiam participar os atletas que cumprissem determinados mínimos, propositadamente difíceis de alcançar.

Orientovar – Em que se baseia esta tomada de consciência que, aparentemente, coloca o aspecto físico acima do técnico?

António Aires - Esta decisão teve origem numa análise feita pela Comissão Técnica para as Selecções, em Outubro passado, da condição física geral dos atletas do Grupo de Selecção que incluiu comparação de resultados em competições internacionais com atletas estrangeiros e concluiu que, ao nível técnico, existe já uma qualidade relativamente elevada, mas ao nível físico estamos num patamar muito baixo. Discordo que, de alguma forma, esta estratégia coloque o aspecto físico acima do técnico. No entanto, não podemos pensar que o aspecto técnico deve ser colocado acima do físico. Um atleta de Orientação que não consiga resultados de relevo na corrida, nunca poderá ser um atleta de topo na Orientação. Ou seja, devemos procurar um elevado nível técnico, através de treinos específicos, estágios, muito trabalho de casa, etc., e um elevado nível físico, mediante o acompanhamento de um treinador, um plano de treinos correcto, e treinar no duro dia após dia.

Orientovar - Ao dirigir o estágio a um grupo tão restrito, não se desperdiçou uma real possibilidade - talvez a única - de juntar todos os atletas que estão agora no EOC?

António Aires - Não temos recursos disponíveis para preparar estágios específicos para todas as competições. Este estágio teve os objectivos específicos que expliquei acima e não de preparação para nenhuma competição específica. Aliás, o número reduzido de atletas permitiu que se tivessem melhores condições ao nível logístico. A preparação específica para o EOC começou a ser feita precisamente hoje, já na Bulgária, visto que os atletas partiram para os Campeonatos vários dias antes do início da competição, participando num campo de treinos. Uma questão verdadeiramente importante numa competição internacional tem a ver com a boa ambientação que os atletas fazem a tudo, tanto aos mapas e aos terrenos, como a coisas aparentemente mais simples, como a estadia, a alimentação ou o próprio clima. Conseguirmos que os atletas lá estejam com o máximo de antecedência possível tem a ver sobretudo com a preparação mas tem a ver, igualmente, com a ambientação.

Orientovar – Falando ainda de Alter do Chão, como é que decorreu esse estágio e que conclusões permitiu retirar?

António Aires – Um dos grandes objectivos traçados para esse estágio consistia em analisar até que ponto a existência de um Grupo de Selecção tão alargado não estaria a prejudicar o sucesso dos estágios. E a prova de que essa análise estava correcta veio com a realização do Estágio que foi um sucesso a todos os níveis. É unânime, junto dos atletas e técnicos presentes, que nunca tínhamos conseguido organizar um estágio com uma intensidade, qualidade, acompanhamento e espírito de grupo tão elevado. Isto leva-nos a concluir o que já pensávamos há algum tempo: Se queremos trabalhar realmente os nossos melhores atletas, isso não pode ser feito com um Grupo de Selecção de 50 atletas, onde o acompanhamento individual não é o devido, as dificuldades logísticas aumentam enormemente e o grupo é extremamente heterogéneo. Depois existem também as limitações financeiras. A maioria das despesas que a FPO tem com a organização dos estágios é proporcional ao número de atletas. Por isso, com muitos atletas, ou se tem custos muito elevados, ou se tem uma menor qualidade. E embora os nossos atletas actualmente estejam habituados a, por exemplo, dormir em solos duros, existem algumas questões, como por exemplo a alimentação, onde não podemos poupar...

Orientovar – Podemos assumir, então, que nos encontramos num ponto de viragem?

António Aires - Sem dúvida. É neste momento quase certo - vamos discutir isto apenas após a participação nas competições internacionais 2010 - que passemos a ter um Grupo de Selecção não apenas com os critérios de potencial divulgados actualmente, mas também mediante mínimos físicos e apenas para atletas a partir de um escalão mais elevado que o actual. Os mínimos a utilizar é que deverão ser um pouco mais acessíveis para não limitar tanto o acesso como nesta experiência que fizemos. A limitação da idade tem a ver, por um lado, com as questões de heterogeneidade e, por outro, porque cerca de dois terços (os mais jovens) do actual Grupo de Selecção têm ao seu dispor, quer um estágio anual para o EYOC/JWOC, quer os OriJuniores, agora claramente direccionados para o treino técnico de alto nível, após a sua separação dos OriJovens.

Orientovar – Regressando à Bulgária, como é que se rentabiliza esta participação e que valor acrescido ela poderá trazer para os atletas e, naturalmente, para a Orientação portuguesa?

António Aires – Claramente, não conseguiremos nunca formar atletas de alto nível se não lhes proporcionamos condições para terem experiência internacional. Por isso, é importante darmos ao maior número de atletas o máximo de experiências. E a experiência não se adquire num percurso de treino ou num estágio de Selecção. A experiência numa situação de stress e todo o conjunto de condições criadas sob este clima nasce da competição realmente pura com os melhores do mundo. Essa é a grande mais-valia. A grande vantagem de não sermos um país de topo é que estamos sempre a evoluir e a nossa margem de progressão é ainda muito grande. Aliás, se fossemos um país de topo, não teríamos neste momento recursos económicos para nos mantermos ao mais alto nível. Seria inviável darmos a um conjunto de atletas condições permanentes para treinar no estrangeiro e terem um estatuto praticamente profissional.

Orientovar – Mas sendo o número de contactos internacionais tão reduzido, estas experiências não acabam por se diluir?


António Aires – Penso que há sempre um ganho. A maior parte dos nossos melhores atletas compreendem muito bem a importância que tem uma competição destas e retiram dela tudo quanto pode representar em termos de experiência. Todos estes atletas andam, há um ano, a preparar a competição em si, precisamente para poderem rentabilizar ao máximo a sua participação. Mas já há um grupo de atletas importante que, por conta própria e com o apoio dos seus clubes, vão a outras competições no estrangeiro, provas WRE, provas da Taça do Mundo, grandes competições internacionais como o O-Ringen, e onde conseguem também retirar essa experiência de competir em diferentes terrenos e com os melhores atletas do mundo. Também a estratégia de trazer a Portugal os melhores atletas do mundo tem sido importantíssimo nessa dinâmica.


Orientovar – E a partilha de experiências faz parte da cultura do grupo…

António Aires – Claramente. Uma coisa que se foi observando foi o desaparecimento dos “grupinhos” para dar lugar ao Grupo. Presentemente, os atletas – e é interessantíssimo ver isto com os ‘messenger” e com os “facebook” – estão todos entre si, analisando treinos e provas dia após dia. Naturalmente, todos eles percebem que só têm a ganhar partilhando as experiências uns com os outros, treinando uns com os outros e vivendo este sonho uns com os outros. Daí, então, o “Crescer como Grupo”, um lema que queremos manter pelo menos durante mais algum tempo.

Orientovar – A 4.000 quilómetros de distância, quer enviar uma mensagem para Primorsko e para a Bulgária, agora que se vai dar início aos Campeonatos?

António Aires – Mesmo longe, continuem a crescer como Grupo!


[Relatos circunstanciados do dia 0 e dia 1, com algumas peripécias à mistura e uma confissão no mínimo curiosa, pode ser encontrada na página pessoal de Joaquim Sousa, AQUI]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

Rafael da Silva Miguel disse...

Boa sorte a todos!
Espero que consigam umas presenças na FINAL A!

FORÇA PORTUGAL!
Beijos e Abraços
Rafael Miguel

antunes disse...

Boas Tardes;

Li com alguma atenção como sempre o faço relativamente a todos os comentários que são feitos no Orientovar e apesar de concordar com e apreciar a maior parte dos comentários do DTN, não posso deixar de ficar estupefacto quando ele afirma que é uma vantagem não termos atletas de topo mundial na nossa modalidade.Confesso que jamais me havia passado pela cabeça que tal facto era uma vantagem em que modalidade fosse.
O que pensaría ele, se fosse um atleta que todos os dias treinasse afincadamente para atingir o topo ao ler este tipo de declarações vindas de quem vêm?É certo que para os comodistas que apenas precisam de fazer o quanto baste para irem sendo selecionados para participarem e ganhartem experiência como ele lhes chama, isso soa a música aos seus ouvidos, mas sinceramente, para quem tenha muita ambição, isso não é nada.
Se a justificação em que se baseia actualmente é a monetária,numa altura em que por obrigação a Federação Portuguesa de Orientação deveria ter uma estabilidade económica como nunca antes havia tido nem irá provavelmente ter, então o que dizer daqui a uns tempos pelo que se vislumbra ao longe.Se a opinião das chefias é mesmo esta que atráz foi transcrita, então vale mais assumir-se que não se justifica ter um DTN?

Cumprimentos
Rui Antunes-1375(COC)