quinta-feira, 1 de abril de 2010

NA ORDEM DO DIA: ORIENTAÇÃO EM BTT, REGULAMENTOS E NORMAS DE CONDUTA

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Os recentes Campeonatos Nacionais de Orientação em BTT mostraram à evidência uma prática que, tal como o joio, vai alastrando e começa a vulgarizar-se. Falo da circulação fora dos caminhos, em trilhos não marcados no mapa ou em áreas interditas, de forma desadequada e ao arrepio de Regulamentos e Normas de Conduta que tutelam a modalidade. Um assunto que, pela sua relevância, está hoje “na ordem do dia”.


Aviso à navegação: Este artigo não pretende apontar o dedo a alguém em particular, pôr em causa esta ou aquela organização ou tornar ilegítimos os resultados alcançados. É importante ter este aspecto presente para se perceber que o que aqui está em causa é, acima de tudo, uma chamada de atenção para um par de situações que, de forma abusiva ou por desconhecimento, continuam a verificar-se hoje em dia. Situações que penalizam aqueles que agem de forma correcta. Situações que, o mais rapidamente possível, devem ser corrigidas, em nome da própria verdade desportiva.

O cenário é o de S. Martinho da Gândara, na manhã e tarde de sábado, aquando da disputa das provas de Distância Média e de Sprint dos Campeonatos Nacionais de Orientação em BTT 2009/2010. Quem acompanhou os relatos aqui no Orientovar, facilmente percebeu que a lama foi uma especial protagonista no desenrolar de ambas as provas, trazendo um factor acrescido de dificuldade física e de desafio técnico a todos os participantes. O resto, bem, o resto é um conjunto de arbitrariedades a ditar as suas leis, com os prevaricadores, em muitos casos por desconhecimento, a promoverem-se à condição de heróis por terem seguido a opção mais acertada. Ora, se há terreno mais lamacento, esse é precisamente o desta “opção mais acertada”.

Duas situações distintas

São muitas as histórias, todas elas com esse ponto comum dos terrenos enlameados. Os caminhos estão no mapa, a lama não. Entre progredir com a bicicleta à mão, com lama até meio da perna ou seguir pelo mato, paralelo ao caminho, com a bicicleta às costas mas sem lama, a opção parece óbvia. E é precisamente aqui que tem início o problema. Rapidamente se percebe, em certas zonas, que não é necessário carregar a bicicleta, porque a progressão pode ser feita com ela à mão. Melhor ainda, o terreno plantado de eucaliptos novos deixa verdadeiros trilhos entre as sequências de árvores, pelo que se opta por montar na bicicleta. E como a disposição geométrica das árvores cria caminhos que rasgam na perpendicular os trilhos traçados no mapa, então porquê ir dar a volta e não atalhar já aqui? Toca a pedalar e vamos embora que se faz tarde.

Mas há outra situação onde a progressão se fez – em cima da bicicleta, com ela pela mão ou com as duas rodas no ar – e que, em circunstância alguma poderia ter sido feita, como é o caso dos terrenos de cultivo. Temos um terreno de cultivo, um trilho que o rasga e se detém a meio e um outro trilho que começa na orla do terreno, após uma linha de água e precisamente no enfiamento do anterior. Tudo isto está no mapa. A tal “opção acertada” está em ligar um trilho ao outro, mesmo carregando a bicicleta com as rodas no ar, mesmo sabendo que se está a invadir uma área interdita. A verdade é que, após a passagem de dois ou três atletas, o terreno de cultivo possui já um trilho que o atravessa dum lado ao outro. Mas que continua a não estar no mapa, sublinhe-se. No final da prova, o trilho profundo criado pelas sucessivas passagens de dezenas de atletas terá uma largura superior a um metro, para desespero do proprietário do terreno.

O que diz o Regulamento

Vejamos, a respeito dos dois exemplos citados, o que diz a legislação. O Regulamento de Competições 2009/2010 [pode ser consultado AQUI
] é claro. No seu Título I – Regulamento Geral das Provas, Capítulo II – Arbitragem e Fair play, Artigo 10º - Código de Ética e Fair play, podemos ler que (1.) “as pessoas que praticam Orientação devem agir com honestidade. Os atletas devem mostrar respeito por todos e por cada um em todas as circunstâncias, organização, técnicos, representantes das entidades presentes, jornalistas, público e habitantes da área de competição”. Avançando um pouco, pode ler-se: (12.) “É obrigatório o respeito pelas áreas privadas, interditas, zonas agrícolas e de cultivo, passagens obrigatórias e todas as indicações relacionadas dadas pela organização.” E ainda que (13.) “é fundamental o respeito ambiental no local da prova (especialmente na Arena pela intensidade de utilização) e com as populações locais. É fundamental respeitar todas as normas gerais de protecção da floresta, e naturalmente não deitar lixo na floresta ou zonas envolventes (utilizar recipientes próprios, reciclar).”

Já no Título III – Disciplina de Orientação em BTT, Capítulo I - Normas Técnicas (O-BTT), Artigo 34º - Regras de Conduta o articulado não deixa margem para dúvidas. No Ponto 1 é referido especificamente o seguinte: “A circulação em bicicleta só é permitida nas estradas, caminhos e carreiros assinalados no mapa. Nestes locais, é igualmente permitida a deslocação a pé, desde que o praticante transporte consigo a bicicleta”. Quanto ao Ponto 2, complementa o ponto anterior e nele se pode ler: “Os praticantes só podem deslocar-se fora das estradas, caminhos e carreiros desde que transportem a bicicleta com as rodas no ar”.

De regresso ao Título I – Regulamento Geral das Provas, uma última achega. No Capítulo I – Geral, Artigo 1º - Regras Gerais, o ponto 4 fala de desclassificações e diz o seguinte: “4. Constitui motivo de desclassificação de qualquer praticante: a) A não execução do percurso pela ordem estabelecida pela organização; b) Perda do SI Card; c) Ausência, não justificada, do peitoral durante a realização do seu percurso; d) Chegar para além do tempo limite para a execução da prova; e) Provocar danos em áreas privadas ou cultivadas; f) Desrespeitar as normas gerais de protecção da floresta; g) Infringir outras regras estabelecidas pela organização.”

Concretizando

No caso do terreno cultivado, não compete ao atleta avaliar se causa ou não dano passar lá. Se está referido como área cultivada, não é opção! (independentemente de até já ter sido ceifado o cereal ou colhidas as batatas...) O que vale é o que está assinalado no mapa. De outra forma, um atleta que escolheu uma opção diferente não pode usufruir da vantagem oferecida por uma situação omissa no mapa.

Quanto aos atalhos entre caminhos, mesmo que se verifique a existência dum caminho não assinalado no mapa (e é fácil, como se percebe, criar um caminho em certos terrenos após uma simples passagem), este não pode ser usado montado na bicicleta, pois mais uma vez dá uma vantagem desleal por usar algo que não era previsível aquando da escolha de opção, criando injustiças óbvias.

Considerações finais

Vou contar-vos uma história. Estamos numa fria noite de Fevereiro e o vento varre as praças e ruas da Vila do Crato. Decorre a segunda etapa do Norte Alentejano O’ Meeting 2010 - o Sprint Nocturno - e, terminada a prova, o sueco Jerker Lysell vem junto da Organização e, pura e simplesmente, pede para ser desclassificado. É que, ao analisar o seu percurso, o atleta chegou rapidamente à conclusão que invadiu uma área privada e, apesar de não haver testemunhas da infracção, sem qualquer reticência tomou a decisão que a sua consciência ditou. “Não ficaria bem comigo mesmo se não fizesse o que fiz”, terá dito na altura em que se desclassificou. Lysell viria a ganhar a terceira e última etapa do NAOM e, no meio disto tudo, aquilo que mais impressiona é que, sem esta tomada de atitude, teria sido ele o vencedor do NAOM 2010. O vencedor, leram bem!

Pelas características do nosso desporto, em que somos levados a tomar todos os atalhos possíveis para ganhar tempo, facilmente se aceita - e por vezes até se encoraja - que se façam atalhos também através das Regras e Regulamentos existentes, pondo assim em causa, claramente, a verdade e a justiça desportiva. Mas aquilo que mais preocupa em toda esta situação, para além dos incumprimentos em si mesmos, é a generalizada convicção de que existe mérito em aproveitar estas situações, manifestada pela descontracção e até orgulho com que são contados estes atropelos às regras. Resta, finalmente, essa completa impunidade que leva a que, quem quer cumprir, se sinta completamente ridículo.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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9 comentários:

PAf disse...

Bom dia,

Depois de ler este texto, estou a reviver o dia à dia em Portugal. Quantas vezes se vêem atropelos às leis, às boas maneiras, à ética e ao bem comum?
Não à punição. E basta olharmos para casos como este para percebermos que este é o retrato do nosso País.
À dias vi o documentário: "Portugal, Um retrato social" que aconselho a quem ainda não viu.
E só quando tivermos consciência de que temos um grande atraso cultural, é que as coisas vão mudar.

Pedro Fernandes

antunes disse...

Bom Dia;
Parabéns pelo artigo.O seu conteúdo não podia ser mais esclarecedor sobre a realidade social em que vivemos.
Foca-se neste caso a OriBtt como se poderíam apontar as mesmas situações á OriPedestre, ao futebol ou em tantas outras situações não desportivas.
É um problema mais nosso?(português?)talvêz!Mas não me parece.A verdade é que vivemos num mundo em que cada vêz,a competição é mais feróz e as pessoas munem-se de todas as artimanhas para saírem á frente.
Os exemplos são tantos que nem é preciso enumerar um.Mas nós neste nosso caso, podíamos melhorar as nossas atitudes.Temos o exemplo que dá o Margarido em relação ao Atleta no NAOMI, mas existem outros e até alguns passados com atletas portugueses.
É certo que cabe aos competidores evitar infringir as regras, mas também a quem dirige e a quem organiza desencorajá-los.
De facto no comentário que fiz ontem, faltou escrever que o que mais me admirou então, foi a descontração com que estas irregularidades eram cometidas.Parecia até que essas sim é que eram as regras.
A minha opinião não vai no sentido de tirar qualquer mérito a quem quer que seja.Apenas tem por objectivo reforçãr uma ideia que sempre tive e que enquanto dirigente ou atleta tentei e tento defender:O cumprimento das regras estabelecidas.Então estas de que estamos a falar, não há dúvida de que são das mais elementares.

Cumprimentos
Rui Antunes

Luis disse...

Olá,

Assumo publicamente que fui conivente e até instigador deste artigo e que o subscrevo na integra.

Mais um serviço relevante do Orientovar à nossa modalidade.


Obrigado!

Luis Sergio

Nuno Pires disse...

Caros,
aquilo que se passa aos Sábados e Domingos na Orientação e nas outras modalidades em Portugal, no cumprimento ou não das regras, é a extensão óbvia e lógica do chico-espertismo dos outros dias da semana. E verdade seja dita, mesmo com vozes sensatas como as do Margarido, Luis Sérgio, Antunes, e muitos mais que irão pronunciar-se sobre isto, a verdade é que quem lê estes artigos e comentários são maioritariamente quem lá esteve, teve a oportunidade de ter a conduta devida, mas não o fez. Tal como no caso do arame e do Daniel, o umbigo fala sempre mais alto, com o objectivo de atingir resultados à margem do potencialmente justo.
Não quero ser pessimista, mas com o país e o povinho como nós o temos, e pelo andar da carruagem, a aproximar-se do desrespeito mútuo a passos largos, não vejo forma de ultrapassar isto.
Vejo uma, que inevitavelmente seria polémica, colocar no terreno juízes-árbitros. Agora como operacionalizar isto de forma justa, com quem, com que consequências prova a prova, etc e tal...
Realmente, ainda bem que pessoalmente esta situação me passa um pouco ao lado, porque não espero trazer da Ori-BTT nada mais que umas dores musculares.
E voltando a pensar na 'lição' do atleta do NAOM e na sua atitude, quantos que leram estas palavras que pensaram imediatamente: "É mesmo burro!!!Ia ao pódium..." Típico do portuga....

bo disse...

Concordo inteiramente! As organizações teem de ter um papel pro-activo neste aspecto (e contra mim falo), Estive uns anos fora da orientação, incluindo organizações, e assim que regressei uma das coisas simples que me fizeram supreender foi o facto de os atletas já não se preocuparem em usar o peitoral! Para mim isso é o básico.
Cumprimentos
bruno

PAf disse...

Enquanto tivermos um atraso cultural temos de munir o terreno de juizes árbitros e juizes para ajuizarem os juizes e ainda câmaras a filmar, e comentadores a dizer de sua justiça e o espectadores ainda a dar os seus juizos de valor e a puxar a brasa à sua sardinha.
Não seria melhor sermos como o atleta sueco??
Ele não precisou de juizes...
Se não cumpriu as regras...
Fez o seu dever, desclassificou-se.

No passado fim de semana quem se auto-desclassificou??
E porquê?

Cumprimentos,
Pedro Fernandes

Cláudio Tereso disse...

Esta é uma discussão que precisa MESMO de ser feita. Temos de evitar que o xico-espertismo típico dos portugueses "estrague" a orientação.

Era importante começar a formar os mais novos com essa mentalidade já que os mais velhos só lá vão com desclassificações e usando as técnicas descrita pelo PAf.

Essa história do Sueco é interessante e acho que merecia maior divulgação, inclusive um louvor aqui no blog.

Ricardo disse...

Olá a todos. Sou assíduo no Orientovar mas creio ser a primeira vez que deixo um comentário.

Move-me a questão da educação. Assisto diariamente a acções e atitudes que denotam a enorme falta de educação cívica que, infelizmente, nos caracteriza. Pior... não só nos falta essa dimensão da cidadania, como muitas vezes não conseguimos sequer perceber essa lacuna.

E se para os que subvertem os principios, regras e leis de forma deliberada para daí retirar vantagem, "bastaria" um conjunto de acções dissuasoras a montante e punitivas a jusante para os casos detectados, nos casos mais dificeis, aqueles em que o batoteiro não percebe sequer que aquilo que faz é batota e acha que os outros são trouxas por não fazerem da mesma maneira... aí a coisa complica-se pois é uma questão de (falta de) educação de base.

Mas não são casos perdidos. De pequenino se torce o pepino, mas também se pode torcer mais tarde.

Este fórum, o post em discussão, os comentários resultantes e a onda de indignação que se possa fazer sentir, são bons elementos para que alguns pepinos comecem a ser torcidos.

Ah e já agora... há algum tempo, numa das etapas de uma prova internacional, pastei tanto que a organização começou a retirar os pontos estando eu ainda em prova, talvez indevidamente pois estavamos dentro do tempo regulamentar. Quando cheguei a um dos pontos, já duvidando de mim próprio, não havia nada para picar. Acabou por surgir alguém com uma mochila às costas e os "meus" pontos lá dentro. Desculparam-se, insistiram e lá piquei os 2 em falta e segui prova fora. Cheguei ao fim e deliberadamente não piquei o 200.

Apesar de não ter sido responsabilidade minha "picar" 2 pontos na mochila da companheira que recolhia as balizas, nunca me sentiria bem se tivesse concluído a prova normalmente... apesar das insistências dos amigos da organização. Felizmente, estou convencido que a maioria teria feito como eu fiz.

cumps
rc

Luis Tenreiro disse...

Bom dia,
Este é um assunto que dá pano para mangas.
Gostava em primeiro de desmistificar um pouco essa ideia do chico espertismo português e que lá fora é que são uns senhores. Serão uns senhores os mesmos que em campeonatos do mundo de sprint os treinadores iam para o terreno chamar os seus atletas e indicar onde estava o ponto, enquanto os portugas bem comportados ficaram a chuchar no dedo em resultados. Lá fora é que é...
Quanto ao tal estranjeiro no NAOM, tenho a certeza que se a prova fosse WRE não faria o mesmo. Para os atletas de topo conta é o dia WRE e estão-se bem a marimbar para NAOMs ou POMs. Basta ver quantos fazem os dias todos. Quando falamos da nossa mentalidade esquecemos que temos connosco o maior heroi da orientação que é o Daniel Pires que abdicou de ser campeão ibérico para socorrer um jovem espanhol. Mas lá fora é que é...
Em relação ao tema oribtt, convém é definir regras e quem as aplica. Em primeiro lugar como é que num campeonato do mundo se pôde andar fora de caminhos? Qual a excepção aos regulamentos que foi feita? Pelos vistos podem ser feitas excepções aos regulamentos.
Em caso de um atleta prevaricar quem da organização tem poderes para desclassificar? Todos? Mesmo quem nunca tenha feito oribtt?
Se o atleta for visto a cometer uma infração mas já for visto de costas como se identifica? Deve ser se for conhecido ou não, como o Antunes quando foi desclassificado num sitio onde dezenas infringiram mas como era o unico conhecido ficou sendo o unico desclassificado da história da orientação btt portuguesa.
Eu em todas as provas ando fora de caminhos. É uma estratégia de orientação como outra qualquer, em que tento andar com a bicicleta no ar mas nem sempre consigo. Convém é definir o que é fora de caminhos. Se apanhar um charco enorme e contornar esse charco pelo pinhal sou desclassificado? Se sim é justo? Se não qual o motivo? Afinal andei fora de caminhos. Só que aí não sobrava ninguém e passavam a vir cada vez menos dos que já vêm principalmente por culpa do calendário quase todo feito no inverno porque banhos de lama são bons é no spa e estragar material já andamos fartos.