segunda-feira, 5 de abril de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: A GUERRA DOS CEM DIAS

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Entre os dias 9 e 18 de Julho, a Orientação portuguesa enfrenta o desafio organizativo de maior responsabilidade da sua (ainda curta) história. Trata-se da realização em Montalegre da 8ª edição do Campeonato do Mundo de Orientação em BTT, conjuntamente com a 3ª edição do Campeonato do Mundo de Juniores de Orientação em BTT, MTBO WOC & JWOC 2010. Oportunidade para escutarmos Eduardo Oliveira, o Director da Prova, num discurso marcado pelo entusiasmo a cem dias do evento.


Orientovar – Em traços largos, quais os principais passos dados até ao momento no capítulo organizativo do MTBO WOC & JWOC 2010?

Eduardo Oliveira - O processo remonta a 2006-2007, quando apresentámos a candidatura à IOF - Federação Internacional de Orientação. Na altura, assistíamos em Portugal a um grande crescimento da Orientação em BTT, tínhamos participado em vários Campeonatos do Mundo e sentíamos que a nossa capacidade organizativa estava à altura dum evento desta dimensão. As coisas correram bem, a IOF aceitou a nossa candidatura em 2007-2008 e é desta forma que chegamos aos Mundiais de Julho. Inicialmente a nossa intenção apontava para a realização dos Campeonatos no Alentejo, mais concretamente na zona de Grândola, mas a autarquia local acabou por não se comprometer em termos de apoios e surgiu a oportunidade de Montalegre como sendo a opção acertada. Montalegre já tinha organizado um Campeonato do Mundo de Parapente, aposta claramente na promoção da região por via deste tipo de desportos e pareceu-nos que, sendo um local distante, é um local interessante, não apenas em termos desportivos - e, no caso concreto, em termos da BTT -, mas também em termos culturais e sociais. Em Outubro de 2008 assinámos um protocolo com a Câmara Municipal de Montalegre e temos estado desde então a trabalhar em conjunto e a avançar com a organização.

Orientovar – Qual a face visível desse trabalho até ao momento?

Eduardo Oliveira – Há, de facto, um conjunto de tarefas que têm de ser preparadas com muita antecedência. A principal prioridade centrou-se na escolha dos locais em termos de provas e é importante que se perceba que estamos a falar de cinco locais para cinco provas diferentes. A maior dificuldade residiu na escolha dum local para a prova de Sprint. Esta é uma prova que exige um mapa com muitas opções, muitos caminhos e a nível de floresta não encontrámos um local que reunisse as condições técnicas necessárias. Estamos neste momento a avaliar e a estruturar a realização da prova na cidade de Chaves, o que irá ser interessante na medida em que faremos uma adaptação do conceito urbano também à Orientação em BTT, tirando proveito de toda a zona histórica de Chaves. O risco será maior, exigirá um enorme cuidado com a segurança dos atletas e com tudo o que lhe está adjacente, mas pensamos que valerá a pena corrê-lo. Chaves receberá também a Qualificatória de Distância Longa, enquanto o Model Event decorrerá no concelho de Boticas. Todas as restantes provas serão disputadas em Montalegre.

Orientovar – Para além da prova de Sprint, é possível levantar uma pontinha do véu relativamente às características técnicas das restantes provas?

Eduardo Oliveira – A região de Montalegre é, como o nome permite adivinhar, montanhosa, localizada a 900 metros de altitude, com uma grande complexidade em termos de relevo e uma rede de caminhos média. São caminhos exigentes do ponto de vista físico e vamos ter provas com uma componente física importante mas onde, obviamente, cada opção é relevante e a componente técnica está igualmente presente de forma muito vincada. Há inclusive caminhos mais técnicos, caminhos de pedra, caminhos com bastantes muros, o que também vai dificultar um pouco a progressão dos atletas e exigir redobrada atenção. Não será uma rede de caminhos muito rica, mas vamos procurar ter pernadas mais longas e com mais opções que levem os atletas a ter alguma atenção e a terem de parar para pensar. Em termos dos locais de prova, procurámos dar-lhes a maior visibilidade possível em função do evento. A final de Sprint, como já foi dito, levará a Orientação em BTT ao coração de Chaves. Teremos depois duas provas a terminar em Montalegre, uma delas mesmo no centro e a outra num sítio muito interessante que é o Parque de Merendas, com uma qualidade excepcional em termos de espaço e de condições. Depois teremos ainda uma final a terminar junto à Barragem do Alto Rabagão, num local de enorme beleza.

Orientovar – Esta promoção da região estende-se para lá da competição em si?

Eduardo Oliveira – Estamos a alinhar com as entidades autárquicas a questão das Cerimónias de Abertura e de Encerramento e essas serão oportunidades por excelência de mostrar um pouco da cultura e das tradições das terras de Barroso. Estamos a ver se conseguimos ter uma Chega de Bois, um espectáculo bastante característico da região e outros espectáculos locais onde a componente cultural estará naturalmente presente. No dia livre iremos oferecer alguns programas turísticos com a visita a outras zonas do concelho, nomeadamente Tourém e Pitões das Júnias. Há um conjunto de locais emblemáticos do concelho que não irão ter provas de Orientação em BTT mas que poderão também ser visitados pelos atletas.

Orientovar – Como é que tem decorrido a articulação com o Supervisor IOF?

Eduardo Oliveira – O Jan Cegielka já cá esteve em Abril de 2009, fez uma primeira validação em termos dos locais, do Centro do Evento e afins, e correu tudo bem. Quanto a Chaves, ele está a par do assunto e a prova de Sprint na cidade está igualmente aprovada. Ele regressará brevemente a Portugal, visitará os locais já com os mapas e os percursos pré-alinhados, irá efectuar a validação técnica em relação ao evento e estamos tranquilos e confiantes de que as coisas irão correr bem. Talvez volte cá novamente em Junho, um mês antes do evento, mas é algo que iremos ainda alinhavar com ele. Um pequeno revés que tivemos foi com a questão das chuvas e com este Inverno particularmente rigoroso que estragou uma parte dos caminhos. Temos neste momento a noção de que muitos caminhos estão deteriorados em termos de classificação, também a vegetação com a chegada da Primavera e com toda a água que se encontra nos solos vai crescer com abundância e para termos os mapas fechados vamos ter de fazer uma revisão no início de Junho nestes dois particulares aspectos.

Orientovar – Há alguma estimativa em relação ao número de atletas que poderá estar presente?

Eduardo Oliveira – Estamos numa fase de recepção de inscrições mas na nossa perspectiva serão cerca de trezentos atletas de trinta países, baseando-nos em números de edições anteriores. Neste momento, entre seniores e juniores, é esse o nosso objectivo.


Orientovar – E no que aos portugueses diz respeito, está a haver dificuldade em formar equipas?

Eduardo Oliveira – Infelizmente está. A esse nível temos de confessar a nossa desilusão. Desde 2007 que a Federação está a apostar nesse aspecto através dum programa de acompanhamento dos melhores atletas, gizado por um preparador físico que tem feito um planeamento nesse sentido. A nível de seniores masculinos as coisas têm corrido relativamente bem e temos um bom leque de atletas, tanto em quantidade como em qualidade. Ao nível de seniores femininos o panorama já é um pouco mais complicado, sobretudo ao nível da quantidade de atletas. Nos juniores, devido a factores complementares, digamos assim, as coisas não estão a ser nada fáceis. Temos muita pena, estas oportunidades não acontecem todos os anos, mas de qualquer maneira o nosso critério será sempre o da qualidade. A nível de Federação, pensamos levar apenas atletas que tenham condições de representar condignamente Portugal. Não faz sentido levar uma selecção completa e depois o 4º, o 5º e o 6º não terem resultados minimamente aceitáveis. Queremos apostar na qualidade e os atletas que tiverem condições a nível de treino e a nível de resultados demonstrados irão estar em Montalegre. Mas sabemos que não vamos ter tantos quantos gostaríamos de ter.

Orientovar – Face à presença entre nós dos melhores atletas do mundo, de que forma é que se pensa rentabilizar esta circunstância e atrair a atenção dos media?

Eduardo Oliveira – Estamos a trabalhar nisso. Nunca é fácil para uma modalidade como a Orientação trazer os meios de Comunicação Social, mas estamos a fazer o máximo possível a esse nível. Encetámos contactos com a RTP, assegurámos uma parceria ao nível de media, garantiram-nos já uma boa cobertura diária do evento no Jornal da Tarde e na RTP-N e vamos procurar ter uma transmissão em directo, o que se afigura de momento um pouco mais difícil. Ao nível de outros Órgãos de Comunicação Social, quer nacionais, quer regionais ou mesmo locais, estamos a montar um mecanismo de ‘press releases’ e de informação que possa ser o mais abrangente possível. E depois há toda a componente da ‘web’, que é hoje em dia claramente fundamental para qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. Neste particular aspecto, temos previsto transmissões em directo e resultados de pontos intermédios e do final a serem divulgados em tempo real para aqueles que, à distância, pretendam acompanhar a prova.

Orientovar – Em que medida esta oportunidade poderá ser importante para relançar a modalidade?

Eduardo Oliveira – Um dos objectivos claros do Campeonato do Mundo de BTT, por um lado, é trazer notoriedade a nível nacional à modalidade. É uma oportunidade única a esse nível e temos consciência que um dos aspectos que permitirão aferir o sucesso desta organização terá necessariamente a ver com o facto de as pessoas saberem que existiu um Campeonato do Mundo de Orientação em BTT em Portugal. Tendo sucesso a esse nível, vamos procurar que uma das consequências lógicas desse reconhecimento seja o de vermos mais pessoas nas próximas épocas a fazer Orientação em BTT. Achamos que é um desporto interessante e que merece toda a atenção.

Orientovar – Em termos organizativos, tal como no WMOC 2008, vamos ver toda a gente a despir as camisolas dos clubes, a vestir a camisola de Portugal e a “dar o litro”?

Eduardo Oliveira – Sem dúvida. O modelo organizacional destes Mundiais é similar ao do WMOC 2008, tanto em termos de protocolos como no espírito que está a ser incutido. Iremos ter equipas multi-disciplinares, com elementos de diversos clubes a trabalharem em conjunto. A dimensão da equipa será mais pequena, cifrando-se em torno das cem pessoas de doze a quinze clubes que confirmaram já a sua participação. Este é um evento diferente, um evento mais pequeno em termos de dimensão mas com mais responsabilidade já que, se alguma coisa falhar, é um título de Campeão do Mundo que está em risco. Daí a necessidade de garantir que tudo corre bem. O facto de a prova se desenrolar em Montalegre dificulta as coisas em termos organizativos, é tudo mais longe, mas as pessoas estão empenhadas e, à medida que o tempo vai passando, vão percebendo a importância daquilo que está aqui em causa.

Orientovar – A cem dias do evento, o que falta fazer?

Eduardo Oliveira – A validação dos mapas, naturalmente, já que essa é a parte técnica fundamental do evento e tem de correr da melhor forma. Depois, todas as componentes logísticas e todas as questões que lhes são adjacentes. Há uma milhão de coisas que têm de ser asseguradas, as cerimónias, os hinos, as componentes de secretariado, a informática, o alojamento, os transportes e todo um conjunto de pormenores que temos de garantir e em relação aos quais estamos a trabalhar.

Orientovar – Em termos pessoais, o que é que este desafio tem representado?

Eduardo Oliveira – Algumas preocupações e muitos cabelos brancos. Mas é um trabalho voluntário e portanto estou a fazê-lo com todo o gosto e sem dúvida que tem valido a pena. É exigente, é complicado, mas espero sinceramente levá-lo com sucesso até ao final.

Orientovar – A terminar, qual o seu maior desejo?

Eduardo Oliveira – Espero que o evento corra bem e que dê uma imagem condigna de Portugal. Vamos ter aqui os melhores atletas do mundo inteiro a participar e queremos deixar uma boa imagem de Portugal a nível organizativo e da nossa capacidade e competência. Acho que isso será o mais importante. Depois, claramente, conseguir de alguma forma tornar o evento visível e que a Orientação em BTT continue a crescer, potenciando na justa medida este evento.

Toda a informação referente ao MTBO WOC & JWOC 2010 pode ser consultada em
http://mtbwoc2010.fpo.pt/.


Faça aqui o Download do Boletim 1 e do Boletim 2.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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