terça-feira, 6 de abril de 2010

MICHAELA GIGON: "ANDAR DE BICICLETA TEM MUITO MAIS PIADA DO QUE CORRER"

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Actual líder do ‘ranking’ mundial de Orientação em BTT, Michaela Gigon tem estado em Portugal nestes últimos dias, treinando e participando em várias provas do nosso Calendário. Amanhã a atleta regressará à Áustria, mas antes disso o Orientovar teve oportunidade de falar com ela e apresenta aqui o resultado dessa conversa.


Orientovar - Comecemos por falar um pouco de si. Como é que surgiu este gosto pela Orientação em BTT?

Michaela Gigon – É uma história engraçada. O meu irmão começou a fazer Orientação na Escola e um dia quis ir a uma prova pedestre. Como ninguém mais do clube queria ir com ele, foram os meus pais e eu acabei por ir também. Achei que seria muito aborrecido ficar apenas a observar e decidi tomar parte na prova. A verdade é que gostei e foi assim que tudo começou. Só dez anos mais tarde, em 2000, participei na minha primeira prova de Orientação em BTT.

Orientovar – Neste entretanto, entre ter começado a fazer Orientação e ter conhecido a Orientação em BTT, que tipo de progressos teve?

Michaela Gigon – Evoluí a ponto de integrar, primeiro, a Selecção Nacional austríaca de Juniores e, posteriormente, a de Elite. Também participei nalguns Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre. Entretanto a Orientação em BTT teve o seu início na Áustria em 1999 e eu comecei em 2000, portanto fui uma das pioneiras da modalidade no meu país.

Orientovar – Do seu ponto de vista, quais as grandes diferenças entre a Orientação Pedestre e a Orientação em BTT?

Michaela Gigon – Dum modo geral, penso que andar de bicicleta tem muito mais piada do que correr (risos). Em cima duma bicicleta, podemos ir mais longe e ver mais coisas. As subidas podem ser duras, mas depois as descidas são uma tremenda diversão. A Orientação em BTT pode parecer mais simples porque se desenrola ao longo de caminhos, enquanto na Pedestre temos de nos embrenhar na floresta. Se nos focarmos apenas no mapa, sim, é verdade que a Orientação em BTT é tecnicamente mais acessível. Isto é uma realidade para os principiantes, por exemplo. Mas à medida que evoluímos, as coisas passam a não ser tão lineares. O simples facto de nos deslocarmos muito mais rapidamente numa bicicleta do que a pé torna as coisas mais difíceis. Não é possível ler o mapa tão facilmente em cima duma bicicleta, cometem-se erros de qualquer maneira, acaba por ser um desafio constante este balanço entre a velocidade na condução e a rapidez na leitura e interpretação do mapa.

Orientovar – Como definiria o seu percurso na Orientação em BTT?

Michaela Gigon – Participei na minha primeira prova da Taça do Mundo em 2000 e penso que fui a segunda ou terceira a contar do fim. Foi realmente mau. Corri com a bicicleta do meu irmão, não era sequer uma bicicleta todo-o-terreno e a prova constituiu um enorme desafio para mim. No ano seguinte comprei uma bicicleta mais adequada, recebi uma série de noções técnicas do meu treinador e os resultados começaram a aparecer muito rapidamente. Em 2003 consegui o meu primeiro pódio numa prova da Taça do Mundo e em 2004 fui campeã pela primeira vez.

Orientovar – Que tipo de evolução se nota na Orientação em BTT entre a altura em que começou, há dez anos atrás, e o momento presente?

Michaela Gigon – Em 2000, quando comecei, não havia muitas provas e as que havia utilizavam frequentemente mapas de Orientação Pedestre. Eu não tinha a minha própria bicicleta. Hoje há muitos mapas de qualidade, os equipamentos são melhores e mais seguros, há um número crescente de pessoas a praticar a modalidade, pessoas de muitas nações dos quatro cantos do mundo. Então ao nível dos atletas de topo, tem havido uma evolução incrível e cada vez se torna mais difícil alcançar uma medalha num Campeonato do Mundo.

Orientovar – Porque é que os países nórdicos dominam a Orientação Pedestre e o mesmo não acontece na Orientação em BTT?

Michaela Gigon – Esse aspecto tem seguramente a ver com o tipo de terrenos. Para a Orientação Pedestre, os países nórdicos possuem sem dúvida as melhores florestas. Mas um bom mapa de Orientação em BTT exige condições de altimetria adequadas, associadas a uma boa rede de caminhos e portanto o número de países com boas condições para a prática da Orientação em BTT acaba por ser maior e mais variado. Por outro lado, penso que as Federações dos países nórdicos também não encorajaram muito o desenvolvimento da modalidade, mas as coisas parecem estar a inverter-se. Julgo que, muito em breve, a Suécia e a Noruega apresentarão equipas bastante fortes e capazes de lutar também pelos melhores lugares.

Orientovar – E qual é o panorama da Orientação em BTT no seu País?

Michaela Gigon – Na Áustria, a Orientação Pedestre tem um peso muito maior do que a Orientação em BTT. Todavia, a Áustria tem excelentes locais para a prática da modalidade. Não temos muitas corridas, é verdade, mas o facto de estarmos muito próximos da República Checa, da Eslováquia e da Hungria, onde – aí sim! – há muitas e boas provas, facilita as coisas. Até mesmo a Ucrânia está próxima. Estar no centro da Europa e termos a facilidade de nos deslocarmos a boas provas, em locais relativamente próximos, é realmente uma grande vantagem.

Orientovar – Ser a nº 1 do Mundo acarreta algum tipo de responsabilidade em particular?

Michaela Gigon – Não. Não é nada de especial ser a nº 1 do mundo, neste momento. A Christine Schaffner, por exemplo, está aqui comigo, é a nº 3 do ‘ranking’ mundial e não sinto que haja qualquer diferença entre nós. O facto de ser uma boa atleta em termos da Orientação em BTT não faz de mim uma pessoa especial, penso eu. A única responsabilidade que esta situação acarreta tem a ver com a motivação que a liderança do ‘ranking’ me dá e que faz com que procure ser cada vez melhor.

Orientovar – Durante vários anos, as tabelas do ‘ranking’ mundial estiveram alojadas na sua página pessoal. Porquê?

Michaela Gigon – No início, foi preciso encontrar alguém que estivesse disponível para fazer uns cálculos. A ideia partiu da Comissão de Orientação em BTT da IOF – Federação Internacional de Orientação e perguntaram-me se poderia encarregar-me dessa tarefa. Foi um trabalho que fiz com dedicação, com interesse também, mas felizmente as coisas terminaram. Os ‘rankings’ – Pedestre, Esqui e BTT - são feitos agora por uma mesma pessoa e devo dizer que estou muito contente com o facto de as coisas estarem agora como estão e de ter saído de cima de mim esse encargo.

Orientovar – Tem estado em Portugal ao longo destes dias. Porquê Portugal?

Michaela Gigon – Sobretudo porque vamos ter aqui os Campeontaos do Mundo. Para além das provas em que tenho participado, estive na região de Chaves onde pude perceber que tipo de condições poderemos encontrar. Fiquei bastante impressionada com o elevado número de praticantes de Orientação em BTT existentes em Portugal. É realmente muito bom ver tanta gente nas provas.

Orientovar – Relativamente aos Mundiais de Montalegre, no próximo mês de Julho, quais são as suas expectativas?

Michaela Gigon – Sempre que corro, o meu objectivo é alcançar a melhor posição possível e lutar por um lugar no pódio. Mas há muitos atletas que têm os mesmos objectivos, claro, pelo que as coisas se tornam um pouco difíceis (risos). Mas tentarei, claro. É para isso que me estou a preparar, para alcançar os melhores resultados e conservar o título de nº 1 do Mundo.

Conheça melhor esta fantástica atleta visitando a sua página pessoal em http://www.michigigon.at/.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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