domingo, 25 de abril de 2010

GRÂNDOLA, VILA MORENA

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Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Tantas vezes te cantei, Grândola. Desde que te ouvi pela vez primeira - Abril menino ainda -, até hoje, não sei quantas centenas, quantos milhares de vezes te entoei. Sempre me puxaste para ti, me embalaste na tua toada visceral, me emocionaste com a força das tuas palavras e me levaste a bater os pés com força e a levantar a poeira do chão, num clamor de liberdade. Cantei-te sozinho e cantei-te em grupo. Na primeira e na segunda voz. Em escalas mais altas ou mais baixas. A sós, em casa. Em grupo, nas ruas e nas praças. E sempre me arrepiaste quando fizeste das palavras, certezas. Porque “o povo é quem mais ordena”, Grândola. Mas estava para vir o dia em que te não cantava e esse dia chegou. Hoje mesmo, Grândola, 36 anos depois de tanto “Cantar Abril”.

O espectáculo começou quase à hora marcada. O Centro de Artes de Ovar abriu-se para Abril para se fechar sobre ti. Ao meu lado, mão na mão, empunhámos um cravo. E cantámos. E emocionámo-nos. “Um e dois e três, era uma vez um soldadinho…”, “senhora dos olhos cansados, porque a fatiga o tear…”, “tinha uma viola numa mão, um cravo vermelho noutra mão…”, “torres cinzentas que dão para o vento, dentro do meu pensamento”, “… vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”… E depois dos muitos aplausos, duma plateia rendida a Abril, chegou a vez de te cantar!

Tu sabes, Grândola. Estou fraco, estou velho, mas não esqueço. Não te esqueço, Grândola. E mal tentei juntar a minha às outras vozes para te cantar, Grândola, não consegui. Amarraste-me a garganta com tal nó, Grândola, que não consegui. Não consegui… E só consigo agora dizer-te isto, Grândola, porque as minhas mãos e os meus dedos ainda são parte de mim. E esses são livres de dizer aquilo que te quero dizer.

Voltarei a cantar-te Grândola. Em Abril e sempre. Fica a promessa!

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

Manuel disse...

Querido amigo,
obrigado por partilhar connosco a alegria rubra dos seus cravos. O melhor do meu 25 foi a poesia da Margarida Vale de Gato, que escolheu este data para o lançamento do seu primeiro livro individual. Deixo aqui a 2ª quadra de um soneto intitulado "Cat People": "quando me ataca o cio eu toda ardo, / e pelos becos faço eco, a voz / esforço, estico e, como outras de nós, / de susto dobro e fico um leopardo". Uma sessão com gente conhecida (Rui Zink, Hélia Correia, João Barrento...), a oportunidade de rever a Diana e o Zé Mário e de pedir autógrafos para a Sandra, a Sónia e a Otília. Enfim, gente de outros campeonatos em que cada um buscou também o seu norte.
Aproveito para, tardiamente embora, saudar à sábia decisão de manter o blogue. Passou-me à margem essa tormenta, desterrado como estava em Peguerinos, onde, com uma tribo de três tiagos, andei pisando e repisando as cinzas de Martin Kronlund.
Manuel Dias

Fernando Andrade. disse...

Também a mim, meu querido Amigo, me puseste um nó na garganta, pela emoção de ver aqui, tão bem cantada,esta terra que simboliza um País livre e nos deixa a saudade de um tempo de acreditar de um porvir que... nunca veio.
Um grande e fraterno abraço.
FA