quarta-feira, 10 de março de 2010

URUGUAI: A ORIENTAÇÃO COMO UMA CAUSA, OU A PAIXÃO DE WINSTON I. ROBILOTTA PELO DESPORTO DA FLORESTA (II PARTE)

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Publicamos hoje a segunda parte da Entrevista com Winston I. Robilotta. Um hino de amor a uma modalidade que dá os primeiros passos no Uruguai.


(CONTINUAÇÃO)

Orientovar – Têm recebido algum apoio por parte do Governo da República do Uruguai, nomeadamente através dos Ministérios do Desporto ou da Educação?

Winston I. Robilotta – O apoio é ainda escasso, mesmo mínimo diria eu. Pesa contra nós esse desconhecimento que ainda persiste junto das autoridades nacionais sobre a Orientação enquanto desporto. O Ministério do Turismo e Desporto do Uruguai suportou algumas actividades e converteu em horas de carga docente as actividades dos Professores de Educação Física na divulgação e ensino da modalidade. Mas isto é claramente insuficiente, não existindo ainda uma proposta que estabeleça conjunturalmente objectivos e normas para a sua difusão no seio da comunidade desportiva do País.

No âmbito educativo existem alguns centros de ensino público de nível primário e secundário onde a Orientação já é ensinada aos alunos, mas isto é fruto de iniciativas e visões muito particulares de responsáveis pelos respectivos estabelecimentos que compreenderam as potencialidades da Orientação, não apenas dos pontos de vista desportivo e recreativo, como também, do ponto de vista pedagógico. Todavia, na órbita do
Ministério da Educação e Cultura do Governo nacional, tão pouco tão pouco existe um projecto director para a Orientação. É claro que uma iniciativa destas deve partir das nossas organizações, particularmente da nossa Federação. Mas, realisticamente, fazer uma proposta com essa magnitude implicaria necessariamente dispor de um contingente de técnicos e/ou desportistas tal que permitisse assumir as responsabilidades criadas, o qual lamentavelmente não existe actualmente no Uruguai.

Essa carência, medular, pode ser ultrapassada dentro dum prazo considerado razoável. Uma das fórmulas concebidas nesse sentido consistiria na criação dum centro dedicado à formação técnica em Orientação, tanto para atletas como para multiplicadores que fizessem uma abordagem ao grande público. Nesse sentido, aqueles que temos responsabilidades ao nível da gestão da Orientação no Uruguai, sabemos que tais esforços exigem recursos. E esses recursos, hoje em dia, neste País, muito dificilmente virão de fontes privadas, sob a forma de apoiantes ou mecenas. Antes deverão resultar da confluência do desporto Orientação com as políticas educativas, sociais e desportivas dos Governos exercidos por pessoas abertas, receptivas e inovadoras.

Orientação, o parente pobre

Orientovar – Que eco é que os vossos esforços têm tido na Comunicação Social?

Winston I. Robilotta – Em muitos meios de comunicação, quando se anuncia o resumo do programa informativo, notamos uma elevadíssima percentagem de referências ao Futebol, algo de Basquetebol, praticamente nada das restantes disciplinas e muito menos ainda da Orientação. Esta situação não se deve exclusivamente a factores culturais, mas também económicos. Os contractos referentes a jogadores, transmissões, eventos e publicidade associados a esses desportos envolvem enormes somas de dinheiro.

Sinceramente, na minha humilde opinião, essas circunstâncias produzem uma contaminação nefasta que, no âmbito do nosso desporto, acarretaria uma irrupção de elementos negativos que hoje, felizmente não nos atingem e para os quais, claramente, não estaríamos preparados. Existe, em troca, uma faixa de certos meios de comunicação que nos apoiam, algo particularmente evidente no Departamento de Maldonado. Esses meios, sem grandes produções, são leais às nossas propostas, tendo percebido o benefício que representam para a sociedade em geral. Na medida do possível, publicam notas, entrevistas radiofónicas e televisivas, artigos e notícias das nossas actividades, permitindo-nos chegar ao cidadão comum e às famílias, contribuindo também para essa necessária articulação com as políticas dos governos municipais (ou mesmo do Governo nacional) no sentido de incrementar hábitos de vida saudáveis e práticas desportivas em locais de importância patrimonial ou na própria natureza.

“Apoio absolutamente inédito”

Orientovar – Percebe-se que Maldonado é a “capital nacional uruguaia da Orientação”. Mas também se percebe que as actividades não se limitam ao Departamento. Quer falar-nos disto um pouco?

Winston I. Robilotta – A história das actividades de Orientação salpica praticamente todo o mapa do território nacional uruguaio. Naturalmente que existem cidades e departamentos onde a expressão dessas actividades é historicamente mais forte, caso de Rivera, cidade vizinha do estado brasileiro de Rio Grande do Sul, epicentro do desenvolvimento da Orientação desportiva nesse país, mas também de Mercedes, Minas, Colónia, numa dada altura também Trienta y Tres e, claro, Montevideo. Todavia, em todos esses aglomerados urbanos, o desporto existiu ou foi gerado a partir de esforços esporádicos de militares que praticam Orientação, institutos e unidades nas quais ensinam ou servem oficiais que possuem esse conhecimento. Tratou-se, porém, de iniciativas um tanto esporádicas, na medida em que a grande maioria não correspondeu a projectos institucionais, tão pouco foram direccionadas para a difusão da modalidade nas respectivas comunidades.

Em Maldonado, pelo contrário, as autoridades municipais expressaram desde logo um apoio absolutamente inédito às nossas actividades as quais, desde logo, foram postas em marcha. Com efeito, a partir de simples actividades de demonstração ou divulgação e ao ser-lhes apresentada uma proposta concreta materializada num documento mais ou menos extenso, estabelecendo como objectivo primeiro o levar esta disciplina a toda a sociedade no seu conjunto, o governo da comuna de Maldonado compreendeu perfeitamente (e logo agiu em consonância) as enormes potencialidades da Orientação como instrumento de inclusão social e promotora de sãos hábitos desportivos.

Foi esse relacionamento da Orientação com um órgão estatal do governo municipal que propiciou as condições a que se refere a questão. Hoje em dia está em execução um Calendário anual “fernandino” (assim designado por pertencer ou estar relacionado com Maldonado) de Corridas de Orientação, o Departamento será a sede do XIV Campeonato Sudamericano em 2011 e também nascerá aqui a projectada “Escola de Orientação”, a qual constituirá, em si mesma, um pólo nacional de desenvolvimento deste desporto.

Falando ainda do Campeonato Sudamericano do próximo ano, devo dizer que a Federação Uruguaia de Orientação assumiu este compromisso como um verdadeiro passo em frente no processo para a afirmação do nosso desporto no Uruguai. A fundação duma Escola de Orientação e a realização de convénios que assinalem um novo relacionamento das nossas organizações com as autoridades municipais e/ou nacionais agrupam-se neste evento. Já estão definidas comissões de trabalho para iniciar contactos e gestões. Naquilo que me diz respeito, comecei a trabalhar na execução de mapas, com os quais procurarei tornar possível a realização de um evento de qualidade, dentro das nossas possibilidades.

“A Orientação chegou ao Uruguai através do Brasil”

Orientovar – Poderia explicar-nos em que consiste o “Projecto PRISMA” e de que forma é considerado fundamental para a implementação plena da Orientação no Uruguai?

Winston I. Robilotta – O projecto PRISMA (Projecto Maior para o Desenvolvimento do desporto orientação em Maldonado) é em princípio apenas uma iniciativa concebida para sócios da Associação Uruguaia de Orientação, materializada numa espécie de declaração de apoio de vizinhos, amigos, responsáveis de firmas e instituições públicas e privadas para que, a partir dela, se impulsionasse a introdução desta prática desportiva em Maldonado. [os Fins e Objectivos estabelecidos no Projecto PRISMA, no seu documento original datado de 12 de Janeiro de 2007, podem ser lidos AQUI]

Orientovar – Ao consultar o Calendário de Actividades para o presente ano, percebe-se que há uma enorme interacção com a Confederação Brasileira de Orientação e com algumas das suas Federações Estaduais. De que forma tem sido importante o papel do Brasil no desenvolvimento da Orientação no Uruguai?

Winston I. Robilotta – Com efeito, a Orientação chegou ao Uruguai através do Brasil, que começou o seu próprio desenvolvimento na década de 70. Hoje, com uma Confederação onde se agrupam cerca de 12.000 praticantes, o nosso vizinho do norte é o País onde podemos encontrar eventos de qualidade e com dimensões superiores aos nossos, algo muito importante se queremos qualificar técnicos e criar uma classe desportiva que nos possa representar com êxito nas competições internacionais.

Contudo, e uma vez que nos foi atribuída a organização do XIV Campeonato Sudamericano de Orientação em 2011, ao qual já me referi anteriormente, parece-me algo importante olhar para o trabalho já desenvolvido na Europa, berço da orientação mundial, enriquecendo o processo do seu desenvolvimento na América Latina, em múltiplos aspectos, alguns particularmente sensíveis como é o caso da Cartografia.

“A Orientação no Uruguai tem pela frente uma empreitada difícil, mas não impossível”


Orientovar – Vamos poder ver uma delegação uruguaia em Portugal, em finais de Setembro, aquando da Taça dos Países Latinos?

Winston I. Robilotta – Sim, é verdade. O Vice-Presidente da Nossa Federação, Victor Pérez, tem a firme intenção de conduzir uma delegação que nos represente em tão importante evento, ao mesmo tempo que apresentará a candidatura uruguaia à organização da Taça dos Países Latinos em 2013.

Orientovar – Quais os grandes objectivos da Associação Uruguaia de Orientação no médio e longo prazo?

Winston I. Robilotta – É importante clarificar que as nossas organizações, que não são assim tantas, buscam a maior coordenação possível entre si e vão abrindo caminho unindo os seus esforços. Somos poucos e pequenos, de maneira que procuramos não esquecer aquela máxima de que “a união faz a força”. A Orientação no Uruguai tem pela frente uma empreitada difícil, mas não impossível: Avançar qualitativa e quantitativamente no sentido do seu desenvolvimento e divulgação no País. Para tal, pretendemos alcançar os acordos necessários para a assinatura de Convénios que nos dotem das forças e apoios necessários, fundar uma escola que ministre cursos para atletas e técnicos em Orientação, cumprir calendários de actividades e provas, realizar com o XIV Campeonato Sudamericano e, se a sorte nos acompanhar, constituirmo-nos em sede da Taça dos Países Latinos em 2013.

Um detalhe menor mas que se torna urgente resolver, devido à sua grande importância, tem a ver com a renovação da nossa já vetusta página na Internet –
www.orientacion-uruguay.com -, na qual não pudemos ainda investir os necessários recursos para a sua modernização e actualização.

“Ver a Orientação definitivamente incorporada na cultura e idiossincrasia do povo uruguaio”

Orientovar – Pessoalmente, enquanto uruguaio e orientista, qual o seu maior desejo?

Winston I. Robilotta – Ver a Orientação definitivamente incorporada na cultura e idiossincrasia do povo uruguaio.

A compreensão, por parte da sociedade no seu conjunto e das autoridades deste País, das enormes potencialidades desta modalidade, traria consigo não apenas uma lufada de ar fresco ao desporto no Uruguai, como criaria um caminho virtuoso cujos benefícios se manifestariam largamente nas gerações vindouras.












[fotos extraídas dos álbuns do Projecto PRISMA em
http://picasaweb.google.es/prismaorientacion]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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