terça-feira, 9 de março de 2010

URUGUAI: A ORIENTAÇÃO COMO UMA CAUSA, OU A PAIXÃO DE WINSTON I. ROBILOTTA PELO DESPORTO DA FLORESTA

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Constitui um dos princípios fundamentais deste blogue, tal como é entendido, dar a devida expressão à voz da Orientação nos países com os quais a nossa língua e a nossa cultura se identificam. Brasil e Espanha são presenças frequentes nestas páginas, mas por aqui passaram já a Argentina, o Chile e Moçambique. Desta feita, voltámos a viajar até à América Latina, ao encontro de Winston I. Robilotta, um dos grandes impulsionadores da Orientação no Uruguai. Ele é o nosso guia pelos meandros duma modalidade que dá, ali, os primeiros passos.

Winston I. Robilotta nasceu em Montevideo (Uruguai) no último dia do ano de 1969. Iniciou-se na Orientação em 1996, tendo participado num grande número de eventos, tanto no seu país como no estrangeiro. Sócio-Fundador da Associação Uruguaia de Orientação e Presidente da sua Comissão Directiva nos biénios de 2006-2007 e 2008-2009, Winston I. Robilotta é o actual Tesoureiro da Federação Uruguaia de Orientação. Frequentou o Curso de Ensino de Desporto Orientação promovido pelo Ministério do Turismo e Desportos, possui o Curso de Cartógrafo de Orientação Nível I e é colaborador e autor de diversos mapas no Uruguai. Realizou o Curso de Supervisor Internacional de Orientação, levado a cabo pela IOF no Brasil e ministrado pelo “nosso” Rui Antunes. Participou como colaborador e organizador de diversos eventos de Orientação no País e em particular no Departamento de Maldonado. Desde 2007 que é docente nesta matéria no Espaço Curricular Aberto do Ensino Público Secundário de nível médio.

Elemento integrante do Registo de Especialistas da Rede Nacional de Educação Ambiental, é autor do “Projecto Maior para o Desenvolvimento do Desporto Orientação em Maldonado”. Foi igualmente autor duma proposta apresentada pela Federação Uruguaia de Orientação e pelo Projecto Prisma de Maldonado e que consistiu numa actividade de demonstração no decorrer do II Congresso Nacional do Desporto / IV Congresso Ibero-americano de Desporto em Idade Escolar. Desenhou e conduz Actividades Guiadas de Introdução à Orientação que são actualmente levadas a cabo no Departamento. Entretanto, realizou diversas actividades de convergência da Orientação com outras modalidades desportivas, explorando a possibilidade de desenvolver a Orientação Subaquática no País, bem como a realização simultânea de actividades de Orientação com a Vela e o Remo (Orient-Acal 2009). Trabalha actualmente na redacção de diversos textos que permitam a articulação de Convénios entre as organizações de eventos de Orientação e o Governo e Instituições Públicas e Privadas do Uruguai. Refira-se, a finalizar, que Winston I. Robilotta integra a equipa de Cartógrafos designada para realizar os mapas que irão ser utilizados no XIV Campeonato Sul-americano de Orientação que terá lugar em Maldonado, Punta del Este, no próximo ano.


“Erguer a bandeira e anunciar este desporto aos quatro ventos”


Orientovar - Que importância e significado tem, para si, a Orientação?

Winston I. Robilotta - Em termos pessoais, sem dúvida que a Orientação foi, desde logo, um acontecimento especialmente importante. De início, encarando as provas como um interessante desafio desportivo no qual, por certo, as minhas performances não foram as melhores. Cultivar as aptidões necessárias para ter algum êxito nas provas e dominar as diversas vertentes deste desporto – produzir mapas, organizar eventos e poder ensiná-lo -, mesmo sem ser um grande especialista, foi um longo e moroso processo no qual tive o apoio de várias pessoas e fundamentalmente da minha própria família.

Quisera eu ter conhecido a Orientação mais cedo e que a Orientação fosse um desporto já devidamente implementado no Uruguai. Mas não foi exactamente isso que o destino me reservou: Tocou-me a mim ser um dos que, com muito poucos conhecimentos, devem erguer a bandeira e anunciar este desporto aos quatro ventos, num país onde praticamente ninguém escutou uma menção que fosse ao “desporto da floresta”.


"Praticamente só encontro virtudes na Orientação"

Orientovar - O que vê na Orientação e que avaliação faz da modalidade?

Winston I. Robilotta - Como em nenhum outro desporto, praticamente só encontro virtudes na Orientação, tanto do ponto de vista desportivo, como didáctico, lúdico ou ainda, numa visão mais alargada, quando tomada como uma expressão mais da actividade humana. De todas essas maneiras de ver a Orientação, uma há que se impõe na minha humilde tarefa em prol da sua divulgação e desenvolvimento: A que faz da Orientação uma opção desportiva apta para todos e para toda a vida. Nas nossas propostas, procuramos focar a nossa atenção neste particular aspecto, apresentando a Orientação como uma opção desportiva verdadeiramente ampla, na qual cada um pode encarar o desafio de acordo com as suas capacidades. Para além do desporto em si, projectamos uma visão mais lúdica ou de lazer que reafirme a ideia de que a felicidade não está em fazer tudo aquilo que queremos, mas em querermos tudo aquilo que fazemos.

A Orientação desportiva pode contribuir transcendentalmente para a formação integral da pessoa, desde a mais tenra infância, acompanhando-a praticamente durante toda a vida. Numa sociedade onde a Orientação seja conhecida e praticada por pessoas de todas as idades, a sua capacidade para integrar e fortalecer a instituição familiar é enorme. E esse Aspecto, todos o sabemos, só pode acarretar consequências positivas. Como se não bastasse, a Orientação devolve-nos à mãe Natureza e convida a uma nova comunhão com o meio ambiente. Um evento de Orientação pode constituir um excelente pretexto para convocar as pessoas a descobrirem locais por vezes esquecidos ou menos conhecidos do nosso património natural e cultural.

“Competindo com o meu primeiro filho aos ombros”


Orientovar – Quando falamos em Orientação no Uruguai, estamos a falar duma modalidade que começa a dar os primeiros passos. Quer-nos traçar um pouco da história da modalidade no seu país?

Winston I. Robilotta - Antigamente havia no Uruguai um jogo que hoje praticamente caiu em desuso mas que, no entanto, nos socorremos ainda dele para explicar às pessoas o que é a Orientação. Eram as velhas “caças ao tesouro” ou “cacerias” [N.de T., no original], eventos organizados por instituições educativas, desportivas ou sociais nos quais os participantes iam resolvendo vários desafios ao longo das ruas da cidade. Encontrar objectos, reunir determinados elementos, resolver uma pequena adivinha, constituíam as dificuldades propostas no espaço dum bairro ou duma comunidade. Por vezes, eram mesmo as rádios locais a emitir estes dados ou a fornecer informação que era aproveitada pelos concorrentes, que por certo muito se divertiam. Seguramente que em Portugal também será possível encontrar na memória de muitos este tipo de histórias.

O desporto das corridas de Orientação começou a ser conhecido no Uruguai nos anos 80, primeiro entre os militares que regressavam do vizinho Brasil, no qual a Orientação já era incluída em certos cursos de formação profissional. Também era possível, nessa altura, encontrar um ou outro manual americano sobre este desporto. Contudo, era entendido como algo estranho ou distante.

Em 1996, pela mão de um pequeno grupo – no qual se destaca um oficial do Exército chamado Milton Orrego -, uns quantos curiosos propusemo-nos a frequentar um Curso ministrado por Sérgio Brito, actualmente Coronel do Exército brasileiro. Como resultado desse Curso surgiu o primeiro mapa específico de Orientação realizado no Uruguai, a organização duma primeira prova e, posteriormente, no dia 1 de Março de 1997, a fundação da Associação Uruguaia de Orientação. Esta Associação adquiriu prontamente a figura de Personalidade Jurídica emitida pelo Ministério da Educação e Cultura, um verdadeiro bem patrimonial num país onde as associações civis e as fundações devem aceder a este tipo de reconhecimento se pretendem integrar-se com seriedade no universo das actividades para a cidadania.

Viriam logo os primeiros eventos e campeonatos, alguns deles sumamente auspiciosos, casos dos “Campeonatos do Mercosur”, que de momento não se realizam. Entre esses acontecimentos primeiros, causaram em mim uma muito forte e grata impressão os eventos realizados aquando da passagem pelo Uruguai de uma digressão da WWOP – World Wide Orienteering Promotion, em 1997. Chamou-me particularmente a atenção a integridade, o espírito desportivo sadio e sobretudo a variedade de idades daqueles viajantes. Assisti aos eventos na companhia da minha família e participei competindo com o meu primeiro filho aos ombros, pousando-o no chão para ser ele a picotar o cartão de controlo e decidirmos a melhor forma de seguir para o ponto seguinte.

“Estamos longe de nos conformarmos”

Orientovar – Como é que tem evoluído a modalidade em número de praticantes e qual a estimativa actual?

Winston I. Robilotta – Uma estimativa daqueles que praticaram ou, de alguma forma, tomaram contacto com a modalidade permite-me apontar um número na ordem das 3.800 a 4.000 pessoas. Ou seja, num país com uma população de apenas quatro milhões de almas, uma em cada mil sabe do que falamos quando mencionamos o termo “corridas de Orientação”.

Nas actividades levadas a cabo actualmente, contamos com uma média de 50 participantes, no caso de pequenos eventos locais, ascendendo este número às 150 pessoas nas provas de âmbito nacional. Não é um número famoso, se levarmos em conta os enormes esforços levados a cabo por um pequeno número de pessoas, mas também não é tão mau assim, quando comparado em termos percentuais com o que acontece em países vizinhos ao nosso. Todavia, estamos longe de nos conformarmos.


“Tornou-se clara a necessidade de aglutinar o todo numa Federação”

Orientovar – Existe uma Associação Uruguaia de Orientação e uma Federação Uruguaia de Orientação. Poderia falar-nos dessa complementaridade e de que forma se articulam?


Winston I. Robilotta – No início, criámos a Associação, como instituição civil com Personalidade Jurídica própria e cujos fins, consignados estatutariamente, consistiriam não apenas em promover a Orientação no Uruguai mas também em constituir-se como a entidade directora do desporto neste País.

Contudo, ao multiplicar-se o número de participantes nas várias provas que foram sendo organizadas e, sobretudo, ao surgir o interesse de vários clubes cujas actividades eram desenvolvidas na órbita desportivo-social, principalmente no interior urbano do País, tornou-se clara a necessidade de aglutinar o todo numa Federação. E é esta entidade que, no seu processo de fundação e à medida que se vão resolvendo os aspectos burocráticos inerentes, tem a responsabilidade dessa função directora, constituindo anualmente um calendário nacional e determinando as nossas representações no plano internacional.

A partir daqui, ainda que se reconheça a Associação Uruguaia de Orientação como o decano da Orientação no País, o seu papel desenvolve-se num âmbito mais local, promovendo actividades, apoiando iniciativas e agrupando todos os competidores que desejem filiar-se numa organização na qual possam praticar Orientação. A Associação tem associados em todo o País e dispõem de materiais próprios, sendo uma instituição dedicada exclusivamente ao desporto Orientação.

“Todo o processo será inevitavelmente lento e repleto de dificuldades”

Orientovar – Que tipo de iniciativas vêm desenvolvendo no sentido de tornar visível a modalidade? Quais as grandes dificuldades sentidas para levar a cabo os projectos?

Winston I. Robilotta – Neste aspecto, os nossos esforços têm crescido de forma paulatina. Desde a criação da Associação Uruguaia de Orientação, procurámos ganhar o apoio dos meios televisivos, radiofónicos e também da imprensa escrita, que no Uruguai tem uma grande penetração junto do grande público. Todavia, o boca a boca parece continuar a ser o método com melhores resultados para chegar às pessoas, desmistificando as dificuldades que a sua prática parece acarretar e generalizando a ideia de que se trata de uma modalidade acessível a todos os públicos, processo que favorecemos com a organização de acções de formação e actividades de demonstração com custos de inscrição absolutamente simbólicos.

No ano transacto, no IV Campeonato Ibero-americano de Desporto em Idade Escolar, que em simultâneo foi o II Congresso Nacional de Desporto, demos um passo importante, inclusivamente inovador para o nosso meio. Com o auxílio de uns quantos orientistas, pintámos num ringue de patinagem o mapa da Ilha Gorriti, um emblemático sítio geográfico situado em face da localidade balnear de Punta del Este e, após uma explicação sustentada em meios multimédia, levámos as cerca de 400 pessoas presentes, entre as quais várias autoridades ligadas ao desporto, através dum “percurso” guiado sobre essa representação. Repetimos este método de seguida, em instâncias menores, sempre com enorme êxito, coroando um processo no qual realizámos numerosas actividades de introdução e demonstração, dirigidas a um público cada vez mais atento e interessado.

Contudo, não somos excepção. Também nós nos confrontamos com um obstáculo que, suponho, se coloca nos países onde esta modalidade vai surgindo. Falo das dificuldades em obter uma adequada sponsorização. Isto obriga-nos sempre a admitir que todo o processo será inevitavelmente lento e repleto de dificuldades. Necessitaremos, ainda que isto provenha de uns poucos, duma boa quota de entusiasmo, as mais das vezes o único vento que enfuna as nossas velas.

(CONTINUA)











LEIA AQUI A SEGUNDA PARTE DESTA ENTREVISTA

[fotos extraídas dos álbuns do Projecto PRISMA em
http://picasaweb.google.es/prismaorientacion]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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