domingo, 14 de março de 2010

TRAIL-O / ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: EM NOME DA INCLUSÃO

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Faz hoje um ano que tudo aconteceu. Clubes e demais agentes da modalidade uniram esforços e vontades e levaram por diante um sonho meu, tornado realidade com o primeiro Dia Nacional da Orientação. Mas não é desse sonho que vamos falar. É antes dum sonho dentro do próprio sonho. O sonho de ver na Orientação um Desporto Para Todos. O sonho de alguém que contribuiu decisivamente para que a Orientação de Precisão seja hoje uma realidade no nosso País. Neste dia tão significativo, Albino Magalhães leva-nos pela mão até à roda dos sonhos.

Orientovar - O relançamento da Orientação de Precisão em Portugal começou por um sonho e tornou-se realidade, marcando de forma indelével o primeiro Dia Nacional da Orientação levado a cabo no nosso País. Que particulares recordações guarda desse momento primeiro, no Complexo Desportivo do Monte Aventino, faz hoje precisamente um ano?

Albino Magalhães - Como diz, o relançamento da Orientação de Precisão em Portugal partiu de um sonho conjunto, meu e da Diana. A nossa modalidade descreve-se como sendo vocacionada “para todos”, mas achávamos que as pessoas portadoras de dificuldade motora estavam a ser "esquecidas". Ora, tendo a Orientação uma vertente em que a capacidade física não faz a mínima diferença mas sim a capacidade cognitiva e de precisão na escolha da baliza certa, decidimos lançar um pouco ao ar esta nossa maneira de ver e esperar que algum clube se interessasse e nos apoiasse. Foi então que o GD4 Caminhos, na pessoa do seu Presidente, Fernando Costa, nos fez o convite para colocarmos no terreno uma prova de Orientação de Precisão e materializar este sonho no Dia Nacional da Orientação. Agarrámos a oportunidade e, com a ajuda do Joaquim Margarido que conseguiu os primeiros atletas do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital da Prelada, conseguimos realizar a prova.

Agora respondendo mais directamente à questão, as recordações que guardo desse dia são muito gratificantes. É fantástico ver o sorriso naquelas pessoas que passam dias fechadas dentro de quatro paredes, é fabuloso no final ver os olhos de criança com que ficam e a dizerem que adoraram, que querem voltar a repetir, que a Orientação é única, que praticamos uma modalidade interessante e que não nos esquecemos deles ao realizarmos este tipo de provas. Guardo a recordação de os ver sentirem-se integrados, a poderem de novo medir forças com as chamadas pessoas "normais". Como que se "levantam" das suas cadeiras e se tornam enormes, porque nota-se que nesta vertente aquela pequena diferença que é a locomoção dos membros inferiores já não é obstáculo. Aquela foto de família que foi tirada no inicio da prova mantenho-a guardada na minha mente.
Orientovar - Dum modo geral, partilhar um espaço e um tempo duma prova de Orientação com atletas tão especiais e reconhecer o valor inclusivo deste tipo de iniciativas gera que tipo de reacções?

Albino Magalhães - Depois da prova realizada no Monte Aventino, já mais clubes - e muito bem! - realizaram novas provas. Tenho a certeza que aquilo que descrevi na questão anterior, foi igualmente sentido pelas pessoas que lidaram de perto com esses atletas. Por isso digo, seguramente, que mexe connosco e sentimos que o tempo e dedicação aplicada foram bem empregues. Mas também sei que realizar uma prova deste tipo, para alguns, gera um bicho de sete cabeças porque dizem que são poucos os atletas que vão participar e não se sente o retorno, ou é o problema logistico, ou é a falta de monitores, ou são outros motivos... Neste tipo de iniciativas, como noutras, existem pessoas inovadoras e empreendedoras e existem os “Velhos do Restelo”.
Orientovar - Ao longo do ano de 2009, foram várias as iniciativas neste campo e, paulatinamente, a Orientação de Precisão vai-se afirmando e crescendo. Este crescimento está dentro das suas expectativas?

Albino Magalhães – Sim, foram surgindo ao longo de 2009 e mais recentemente, no Portugal O’ Meeting 2010, iniciativas louváveis de provas de Orientação de Precisão. A sua evolução já era expectável tal como se observou, não esperávamos um crescimento explosivo mas sim gradual como se tem registado e acho que é melhor mesmo que seja assim pois vamos aos poucos construindo bases seguras. O nosso primeiro objectivo é dar a conhecer e elucidar todos os interessados e criar curiosidade nos mais cépticos que os leve a experimentar. Temos conseguido que atletas com dificuldades motoras participem, o que é muito bom porque temos consciência das dificuldades que existem no seu transporte para as provas; por outro lado, como foi registado na prova do POM’10, já temos também atletas de top da Orientação Pedestre a participar. Se continuarmos assim, acho que temos um futuro risonho pela frente.Orientovar - Enquanto elemento integrante da actual Comissão de Acompanhamento da Orientação de Precisão da Federação Portuguesa de Orientação, quer-nos fazer um ponto da situação?

Albino Magalhães - Dado o fenómeno da realização de provas de Orientação de Precisão em Portugal e com a vontade de se realizar um Campeonato, o Director Técnico Nacional achou por bem criar uma Comissão que teria por base um grupo de voluntários que iriam "escrever" os principios/regras técnicas de uma prova de Orientação de Precisão e orientar, quando assim solicitadas, organizações deste tipo de provas. Neste momento já temos, faltando só limar umas pequenas arestas, um documento técnico, estando também a ser elaborado um outro com os princípios básicos e de mais fácil interpretação. Em termos do lançamento de um Campeonato Nacional ou futura participação lusa num Campeonato da Europa, são pontos não esquecidos mas que estão em estudo.
Orientovar - O que falta para vermos com frequência e de forma espontânea as Organizações a incluírem nos seus eventos percursos de Orientação de Precisão?

Albino Magalhães - Por vezes basta apenas boa vontade.
Orientovar - Que mecanismos deveriam ser postos em prática no sentido de atrair mais praticantes?

Albino Magalhães - A Orientação de Precisão entrou com suavidade de modo a demonstrar os seus fundamentos. Agora que muita gente já os conhece, temos que partir para um novo patamar que consiste em aumentar o nível técnico. As organizações não podem escolher unicamente parques, onde o detalhe de terreno é praticamente nulo e onde as balizas estão a norte ou a sul de uma árvore. É necessário passar estas provas para zonas de elevado detalhe de relevo, sem contudo descurar a base de circulação dos atletas porque pisos irregulares ou declives acentuados são entraves a quem necessita de uma cadeira de rodas. Acho também que se um atleta se sentir desafiado a um elevado nível técnico a surgir-lhe dúvidas na escolha da baliza correcta e a ter que errar, por certo que se sentirá tentado a melhorar a sua performance numa próxima vez. Outro ponto é a entrega de prémios. Por muito simbólico que seja, o prémio para quem o conquista é algo fantástico, é sinal que foi melhor que os outros. Ninguém se sente motivado a fazer uma prova em que não se obtêm no final nada, é preciso diferenciar e galardoar os vencedores.
Orientovar - Começou por um sonho e é já uma realidade. Mas uma realidade, estou certo, que encerra novos sonhos. Como é que gostaria de ver a Orientação de Precisão daqui a dez anos?

Albino Magalhães - Perfeitamente instituída, a ser uma modalidade paralímpica, a termos um campeão paralímpico e muita gente a ter que "engolir uns sapinhos" e a reconhecer que somos um desporto de eleição, o único com tantas vertentes, um verdadeiro Desporto para Todos.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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