sábado, 13 de março de 2010

THIERRY GUEORGIOU: "ADORO PORTUGAL!"


Thierry Gueorgiou é o convidado de honra do Orientovar neste sábado a cheirar a Primavera. Na Arena do XVIII Troféu Ori-Estarreja, com ele mantivemos uma longa e agradável conversa na qual Tero nos falou, entre outras coisas, da sua gloriosa carreira, da temporada que agora começa, da Orientação no Mundo e, naturalmente, do porquê de ser visita assídua no nosso País.

Conquistou, por direito próprio, o título de “Rei da Distância Média” e é, incontestavelmente, uma das maiores referências de sempre da Orientação Mundial. Sete medalhas de ouro (seis na prova de Distância Média e uma na prova de Sprint) nos últimos sete Campeonatos do Mundo, vitórias na Taça do Mundo em 2006 e 2007, campeão europeu de Distância Média nas três últimas edições e líder do ‘ranking’ mundial em cinco alturas distintas, nomeadamente nesse longo período de 93 semanas entre 5 de Outubro de 2006 e 17 de Agosto de 2008, dão bem a ideia do valor do atleta francês.

Preparando a época que se avizinha, Thierry Gueorgiou esteve pela última vez em Portugal na semana de 28 de Fevereiro a 07 de Março. No final da segunda prova do XVIII Troféu Ori-Estarreja (Palheirão, Tocha), fomos ao seu encontro. A tarde caía rapidamente e a carícia dos últimos raios de sol envolvia a Arena. De Tero guardamos a imagem duma pessoa simples, afável, com um discurso tão rápido e fácil como se duma prova se tratasse. É desses onze minutos de impressões e de opiniões que aqui se dá conta.


“A Orientação é o mais belo desporto do Mundo”

Orientovar – O que é, para si, a Orientação?

Thierry Gueorgiou – Para mim, a Orientação é o mais belo desporto do Mundo. São muitas as qualidades deste desporto que se pratica em cenários magníficos e sempre diferentes. Não é, de modo algum, como o Atletismo, onde uma corrida de 400 metros é a volta à pista aqui ou em qualquer lugar. Agora estou aqui, corri num ambiente muito especial, amanhã regresso a casa e vou treinar noutros terrenos, na próxima semana estarei na Bulgária onde, de novo, encontrarei um novo cenário e será uma nova história… É realmente isto que me atrai na Orientação e que me leva a gostar tanto deste desporto.

Orientovar – Como é que conheceu a Orientação?

Thierry Gueorgiou – Comecei na Orientação muito cedo, por volta dos meus quatro ou cinco anos. Os meus pais desempenhavam papéis com responsabilidade no Clube de Saint-Étiènne e foi acompanhando-os que tomei contacto com a modalidade. De início, encarei a Orientação como uma forma de diversão mas, com o passar do tempo, fui levando as coisas cada vez mais a sério até se transformarem numa verdadeira paixão.

“Trabalho, trabalho, trabalho”

Orientovar – Mas essas qualidades que fazem de si um orientista de eleição já nasceram consigo (!) ...

Thierry Gueorgiou – Estas coisas não nascem connosco. É trabalho, trabalho, trabalho… Há mais de vinte anos que pratico Orientação o que representa, na realidade, uma enorme quantidade de viagens, de muito trabalho. Não há qualquer segredo nisto. Na Orientação, aquilo que mais conta é a experiência. Daí que eu corra em muitas florestas diferentes e, de cada vez que chego a uma floresta nova, tenho já um conhecimento tão vasto que advém das experiências anteriores que acabo sempre por encontrar parecenças e por me sentir bem em qualquer floresta do Mundo.

Orientovar – Isso quer dizer que não há nenhuma bússola dentro da sua cabeça…

Thierry Gueorgiou – Não, não há nenhuma bússola dentro da minha cabeça. Como toda a gente, vou desenvolvendo o meu sentido de Orientação, mas isso é fruto de muito trabalho.

“Adoro Portugal”

Orientovar – Portugal tem sido um destino muito procurado por si, particularmente nesta altura do ano. Porquê Portugal?

Thierry Gueorgiou – Adoro Portugal! É realmente um país muito belo e que, apesar de ser muito mais pequeno do que a França, consegue condensar num mesmo território terrenos bastante diferentes entre si e todos eles magníficos para a prática da Orientação. Este terreno onde corri hoje, uma floresta de areia e dunas, é diferente daquele que encontramos em Évora, com todas aquelas rochas e é igualmente diferente do que encontramos bastante próximo daqui, em S. Pedro do Sul ou ainda mais a Norte, com uma enorme variedade de terrenos montanhosos. Tudo isto confere um verdadeiro prazer à descoberta de novos terrenos, de novas paisagens, a cada vez que cá venho. Este ano foi inaugurada uma linha aérea que liga Saint Étiènne ao Porto e daí que possa sair de casa e, em quatro horas apenas, estar no meio desta floresta. Ou seja, estou tão perto daqui como de Paris, por exemplo.

Orientovar – Que percepção tem da evolução da modalidade em Portugal?

Thierry Gueorgiou – Fico cada vez mais admirado com a qualidade das vossas organizações. Ainda há poucas semanas, o Portugal O’ Meeting foi uma competição extraordinária. Mas aquilo que mais me surpreende pela positiva tem a ver com a qualidade dos mapas. Posso afirmar, sem qualquer tipo de complexos, que são bem melhores do que em França. De momento, o único aspecto que está a falhar é vermos um ou mais atletas portugueses com performances de nível internacional. Espero, sinceramente, que isso seja uma realidade no mais curto espaço de tempo possível.

“São necessários mais passos”

Orientovar – Em que medida é importante preparar a época em terrenos variados?


Thierry Gueorgiou – Preparar a época numa variedade grande de terrenos dá-me um maior à vontade para encarar os desafios que tenho pela frente. Este ano teremos o Campeonato da Europa num terreno muito especial, na Bulgária; depois, o Campeonato do Mundo, na Noruega, em terrenos muito diferentes. Daí que busque essa flexibilidade quando preparo a época. E isso em Portugal, não só é possível como é muito agradável. Esta semana, por exemplo, fiz dois tipos de terreno, em Mira e em S. Pedro do Sul, uma experiência muito produtiva.

Orientovar – Porque é que a Orientação não é mais conhecida, mais falada na Comunicação Social?

Thierry Gueorgiou – Talvez ligeiramente atenuado na Escandinávia mas o problema é geral. Os meios de comunicação social apenas prestam atenção aos grandes desportos como o Futebol. A questão, na minha opinião, tem a ver com duas situações. Em primeiro lugar, somos uma modalidade não muito próxima do público. A competição desenrola-se na floresta, estamos escondidos e as pessoas acabam por não conseguir acompanhar o desenrolar duma prova e por não entender as dificuldades e os desafios da Orientação. Vêem o atleta a partir e a chegar mas não presenciam tudo aquilo que se passou na floresta. Felizmente, pouco a pouco, com o recurso às novas tecnologias, vamos conseguindo tornar a Orientação mais visível. Depois, julgo que a Orientação é um desporto eminentemente técnico e não é fácil explicar a um não praticante porque é que esta opção é melhor do que aquela. Não é como na generalidade das modalidades, onde as regras e os princípios são lineares. Para mudar as coisas é necessário um trabalho de base muito grande, ensinar às crianças o que é a Orientação – e aqui o Desporto Escolar desempenha um papel fundamental – e alterar determinado tipo de conceitos. As provas de Sprint introduzidas pela IOF foram um excelente passo, permitindo trazer a Orientação para o centro das localidades, para perto das pessoas. Mas são necessários mais passos como este.

“Importante é aquilo que temos pela frente”

Orientovar – Agora que a época está a começar, vamos voltar a vê-lo na liderança do ‘ranking’ mundial?


Thierry Gueorgiou – Espero que sim. Esse é sempre o meu grande objectivo. Estou muito satisfeito com a forma como tem decorrido a minha preparação ao longo do Inverno. A primeira competição realmente importante acontecerá daqui a cerca de dois meses pelo que ainda há muito trabalho pela frente, mas de momento estou a cumprir o plano de treino nos ‘timings’ precisos e espero que tudo possa continuar a evoluir desta forma. Tenho uma enorme ambição em relação a esta temporada.

Orientovar – O leque de candidatos aos lugares cimeiros do ‘ranking’ tem vindo a aumentar…

Thierry Gueorgiou – Sem dúvida. É verdade que na temporada passada eu e o Daniel [Hubmann] nos destacámos um pouco dos restantes atletas, mas temos agora um grupo de seis ou sete corredores que podem aspirar ao título de melhor do mundo. A cada ano que passa, é necessário ter sempre bem presente esta questão. O contador parte do zero e o que está para trás pouco importa. Importante é aquilo que temos pela frente e penso que vai ser uma grande luta.

“No desporto há sempre uma nova oportunidade”

Orientovar – Em 2008 e 2009, a Estafeta francesa nos mundiais contou com imponderáveis que a afastaram dum bom resultado. Será que esta espécie de maldição vai ter o seu fim em 2010 e vamos ver o merecido Ouro, finalmente, ao peito da equipa de França?

Thierry Gueorgiou – Vamos fazer os possíveis por isso. Não tivemos realmente sorte nos dois anos anteriores mas todas as sequências têm um ponto final. Espero sinceramente que este ano seja o nosso ano. Mas se assim não for, paciência, teremos hipóteses nos anos seguintes. No desporto, há sempre uma nova oportunidade.

Orientovar – Esse espírito desportivo e combativo vai mantê-lo na Orientação por quanto tempo mais?

Thierry Gueorgiou – Sou um verdadeiro apaixonado pela Orientação e penso que, daqui a trinta ou quarenta anos, se ainda conseguir correr, continuarei ligado à modalidade. Espero fazer Orientação de alta competição durante mais dois ou três anos e depois gostaria de me dedicar aos mais novos, transmitir-lhes tudo aquilo que aprendi e, dentro das minhas possibilidades, continuar a fazer provas de Orientação um pouco pelo mundo fora.

“Teria o maior prazer em ver um português, rapaz ou rapariga, alcançar um importante resultado de nível internacional”

Orientovar – A terminar, um desejo…

Thierry Gueorgiou – É fantástico estar em Portugal, sentir este ambiente que aqui se vive, o acolhimento caloroso que recebo. Teria o maior prazer em ver um português, rapaz ou rapariga, alcançar um importante resultado de nível internacional. Espero que a França, Portugal, a Espanha e a Itália, países que têm uma base cultural muito próxima, consigam grandes feitos. De cada vez que um atleta destes países consiga um bom resultado, isso será sempre para mim um enorme prazer.

Acompanhe na primeira pessoa este fantástico atleta em
http://tero1.free.fr/

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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