sábado, 27 de março de 2010

O MEU MAPA: MANUEL DIAS, O MONTE PENEGAL NORD E 48 MINUTOS PARA 700 METROS

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A minha primeira tentação foi escrever sobre o mapa de Guardamar, Alicante, onde, no dia 26 de Fevereiro de 2005, participei, com a Raquel, o Tiago, o Alvarez e o Ladeira, na vertiginosa aventura de correr 21 km com 150 pontos de controlo, o recorde mundial da altura. O terreno é simplesmente fabuloso, não admirando, por isso, que tenha sido uma das primeiras propostas para os “101 mapas que você devia correr antes de morrer” (ver Orientovar de 27 de Janeiro).

Mas essa meia maratona foi cumprida sem especiais percalços. Foram 2h52 num ritmo surpreendentemente confortável. Ora, para mim, as memórias mais fortes da Orientação estão associadas a grandes erros, a mapas aonde fico com terríveis ganas de voltar. Desse ponto de vista, Guardamar é um leão adormecido.

A escolha recaiu, então, num mapa do Norte de Itália, entre Trento e Bolzano, na zona dos Dolomitas, Alpes. Chama-se “Monte Penegal Nord” e, no dia 10 de Julho de 1998, foi palco da 4ª etapa dos 5 Giorni della Valle di Non, que teve nesse ano a sua primeira edição. Demorei 48 minutos e 37 segundos para descobrir o ponto 5, situado a 700 metros do ponto 4. A página da prova ainda se pode consultar em
http://www.oripredaia.it/italiano/avviso.html.

A segunda edição destes 5 Giorni teve lugar sete anos mais tarde, em 2005, e voltei a estar presente. Ao invés de fazer as pazes com o mapa, reforcei o meu conflito com ele. A etapa 3 decorreu num mapa com nome ligeiramente diferente – “Penegal (Il Falchetto)” – mas aproveitando cerca de 80 por cento do mapa anterior. O ponto 3, situado a 250 metros do ponto 2, custou-me 17 minutos e 44 segundos. E querem saber? O ponto 2 da prova de 2005 distava 65 metros do ponto 4 da prova de 1998. Mas disso só tomei consciência já em Portugal, ao trocar impressões com a Raquel e o Tiago sobre os excelentes mapas que eu tivera oportunidade de correr nesse Verão.

E essa é também uma das razões para escolher este mapa do Trentino. É que esse Verão de 2005 foi o meu primeiro grande banho estival de Orientação. Fiz 18 provas em 33 dias, incluindo a estreia na Eslovénia. Só para fazer inveja, deixo aqui em traços rápidos o guião desse périplo: Montei a minha base de campanha num modesto hotel de Milão, onde dormi a primeira noite e deixei ficar uma mochila enorme, levando para Coredo apenas a roupa indispensável para os 5 Dias della Valle di Non. Uma semana depois, voltei ao mesmo hotel de Milão para renovar a mochila pequena antes de partir para o Centro Desportivo de Tenero, que foi nesse ano o Event Centre dos 5 Dias da Suíça, disputados em simultâneo com o Mundial de Juniores (JWOC), onde fui o único português a aplaudir os nossos representantes: Alexandre Alvarez, André Ramos, Marco Martins e Pedro Duarte, enquadrados pelo técnico Rui Ferreira.

Mais uma semana e dormia de novo no tal hotel de Milão, desta vez já com a Rosário que, finalmente de férias, fora na véspera ter comigo à Suíça. Desmontámos a base de campanha, alugámos um carro e rumámos à Eslovénia, gastando três ou quatro dias maravilhosos nos Dolomitas (impossível esquecer o lago Misurina e os Três Picos de Lavaredo) e, depois, no Parque Nacional do Triglav e em Logarska Dolina antes de chegarmos a Ljubljana e Mozjrie. Fiquei deslumbrado com os mapas da Eslovénia. Esses 3 Dias souberam-me a pouco. A versão dos 5 Dias só começaria em 2007, ano em que o Norman Jones aproveitou a minha inscrição, depois de eu ter regressado gravemente lesionado do WMOC na Finlândia. Voltei à Eslovénia em 2008 e estou inscrito para a próxima edição (24-28 Julho de 2010), em cuja lista vejo, com muita alegria, que figuram também os nomes de José Bernardo, Sílvia Delgado, Armando Santos, Guida Santos, Catarina Santos e Carlos Lobo.

Feito este aparte, volto ao périplo para dizer que, da Eslovénia, regressei com a Rosário a Trento, onde trocámos o carro pelo comboio para uma viagem de 18 horas (incluindo dormida) até Praga. Os 5 Dias da Boémia disputavam-se em Novy Bor, onde, além da família Ferreira (Carlos, Fernanda, João e Fausto – que belo jantar de aniversário), que já nos fizera companhia na Eslovénia, fomos encontrar uma numerosa representação portuguesa, maioritariamente composta por atletas do COC.



Fecho o círculo e volto ao mapa do Monte Penegal. É que, em 1998, viajei para os 5 Giorni della Valle di Non (7-11 Jul) exactamente a partir de Novy Bor, onde fui o único português a participar no WMOC desse ano (1-5 Jul), com o feliz resultado de ter pela primeira vez atingido a Final A. Voei de Praga para Milão e segui daqui em comboio para Trento.

Quem conhece o mapa de Itália sabe que a linha de comboio que vai de Milão para Veneza e Udine, acompanhando em largos trechos a auto-estrada A4, separa o norte montanhoso da grande planície dominada pelo rio Pó. Já preciso dos dedos das duas mãos para contar as vezes que fiz essa linha de comboio. O momento mais mágico é quando, na estação de Verona Puorta Nuova, se troca essa linha (W-E) pela que segue para Trento e Bolzano (S-N). A viagem de Verona para Trento dura cerca de uma hora, mas é um deslumbramento para quem, como eu, não está habituado à paisagem de montanha. A primeira vez que viajei nesse comboio, em 1998, saltava da janela da direita para a janela da esquerda tentando guardar na película fotográfica o registo desses instantes que cortavam a respiração. Minuto a minuto, a carga mítica dos Alpes pesava na memória e dava asas ao coração, mergulhando todo o corpo numa euforia inebriante que não sei mais descrever.

Depois, em Trento, nova emoção ao tomar o comboiinho de via estreita para Dermulo e, aqui, esperar por um autocarro até Ronzone, onde funcionava “il centro gare”. Esse autocarro deve existir, mas nunca o vi. Em 1998, depois de uma longa espera, já noite cerrada, apanhei boleia num luxuoso autocarro nórdico, que andava por ali em excursão com uns jovens estudantes escandinavos. Em 2005, já mais precavido, telefonei à Stefania que mandou uma carrinha buscar-me a mim e a mais uns quantos desafortunados, que tinham caído ali ao desamparo, como me sucedera sete anos atrás. A Stefania era uma das simpáticas e eficientes raparigas da organização, com quem eu trocara vários e-mails antes de sair de Lisboa. Devo-lhe a reserva do hotel Miravalle onde, depois do jantar, ficava todos os dias à conversa com Mats Eriksson, um sueco do meu escalão, que jantava na mesa ao lado com a esposa e dois filhos.

O Mats, que em corpo fazia dois de mim, não parecendo muito talhado para a corrida, era senhor de uma técnica muito superior à minha. Aprendi alguma coisa nessas sessões de cavaqueira. Nesses 5 dias, entre 63 concorrentes de H50, as suas classificações foram 10-13-3-5-11, enquanto eu não fui além de 15-23-35-19-16. A grande nódoa foi o tal ponto 3 da 3ª etapa. Nesse dia perdi para dois adversários a quem ganhei nos outros quatro dias. Não os conhecia na altura e hoje são dois bons amigos: Martin Checkley e Giovanni Visetti. Foi uma surpresa encontrar os seus nomes quando, agora, revisitei a página da prova para escrever estas linhas. Os resultados estão aqui:
http://www.oripredaia.it/v2/en/risultati.asp.

Uma das referências que todos os portugueses do meu escalão tinham na altura era o britânico Vincent Joyce, que vencera o POM desse ano em Chaves. Pois também o Vincent claudicou nessa 3ª etapa do 5 Giorni, classificando-se no 32º lugar, que rectificou no dia seguinte com a 2ª posição da tabela. O vencedor da prova foi o campeoníssimo Pekka Marti, cujo nome finalmente liguei a um rosto. É um dos meus ídolos e orgulho-me da forma afável como hoje nos cumprimentamos.

Volto ao mapa de 1998 para dizer que foi nestes 5 Dias que pela primeira vez usei o SI-Card, depois de, na semana anterior, ter controlado com o Emit no Mundial da República Checa. Senti-me, por isso, algo credenciado para responder à consulta que, pouco tempo depois, a FPO promoveu no sentido de apurar qual dos dois sistemas mais agradaria aos praticantes portugueses. Não tive dúvidas em apontar o SI e fiquei muito satisfeito quando a Federação optou por esse modelo, que, se a minha fonte não falha, foi estreado na final da World Cup que se disputou na Marinha Grande, a 12 de Outubro de 2000.

Olhando para o mapa do “Monte Penegal Nord”, à distância de quase 12 anos, continuo a não perceber como pude queimar tanto tempo num ponto aparentemente tão simples (do 4 para o 5). Lembro-me de iniciar a pernada tendo como primeiro objectivo o posto de abastecimento; depois, era só seguir o caminho e tinha excelentes pontos de ataque: a zona alagadiça, o limite do amarelo, uma árvore especial à beira do caminho.

Simplesmente não encontrei o abastecimento que, conforme verifiquei mais de meia hora depois, eram umas pequenas garrafas deixadas no solo e não a aparatosa banqueta a que estamos habituados. Desorganizei-me de tal modo que ainda hoje não imagino por onde andei. Com tanta volta e reviravolta, devo ter saído do mapa para sul. Durante muito tempo não vi ninguém, deixei de correr, não valia a pena pensar em desistir porque não tinha onde me apresentar. Então, apontei a bússola a norte, tentando voltar para trás até descobrir no terreno alguma referência facilmente identificável no mapa. Não sei quanto tempo durou essa fase até que, finalmente, me achei à beira de um enorme precipício. Dezenas, centenas de metros abaixo daquelas falésias rochosas, branquejavam ao longe, no meio do verde, as casinhas de uma aldeia. Olhem para o mapa e vejam aquela barra preta no limite leste. São dezenas de curvas de nível impossíveis de representar. Ah, então estava ali! Estava, de facto. E, atingido o controlo 5, demorei daí até ao 12º exactamente 48m56s, ou seja, apenas mais 19 segundos do que o tempo gasto só nesse ponto.

A escolha do Penegal para “o meu mapa” tem também a ver com a região onde se integra, o Trentino, conhecido em todo o mundo pela qualidade das suas maçãs. O símbolo do Orienteering Club Predaia, como podem ver na página da prova, é uma maçã transformada em atleta de orientação. É uma das minhas áreas favoritas para a prática desta modalidade.

Além destas duas provas (1998 e 2005), participei, não muito longe da zona, em dois outros importantes eventos: o WMOC de 2004 (precedido de três etapas do Euregio e do Highlands Open), em Asiago, onde tive um extraordinário companheiro no Dionísio Estróia, e, no Verão passado, os 5 Dias dos Dolomitas, em Fiera di Primiero. Este último evento decorreu em simultâneo com o JWOC onde brilharam tão alto os nomes de Tiago Romão e Diogo Miguel. O Orientovar fez desse campeonato uma tal cobertura que seria estultícia minha acrescentar o que quer que fosse.

Um derradeiro parágrafo para dizer que conto voltar ao Trentino no final de Junho, para participar nos 6 Days of North and South Tyrol (27 Jun – 4 Jul). Os três primeiros dias disputam-se em Itália, a 30 km de Bolzano, os últimos três, na Áustria, perto de Innsbruck. Na altura de redigir esta nota, sou o único português entre os 739 inscritos, mas as inscrições mantêm-se abertas até 31 de Maio. O preço mais favorável termina a 31 de Março. Informem-se aqui:
http://www.tyrol2010.com/cms/

Manuel Dias

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1 comentário:

José disse...

Impressionante! O terreno com aqueles brutais precipícios e o Manel a sair do mapa.
São os tais mapas de que o orientista não esquece, daí que tenha sido citado.
Mas, sinceramente, o que mais me impressiona é o espírito globetrotter do Manel, que se mantém no H55, como antes no H45 e está aí para durar...
Força Manel