sábado, 20 de março de 2010

A MINHA ESCOLA: EB 2,3 / S CUNHA RIVARA (ARRAIOLOS)

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Depois de termos estado no coração do Verde Minho, onde visitámos a Escola Secundária Carlos Amarante (Braga), descemos este sábado com “A Minha Escola” até Arraiolos, ao encontro do Grupo-Equipa de Orientação da Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos com Ensino Secundário de Cunha Rivara.


Filólogo, jurista e historiador português, Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara nasceu em Arraiolos a 23 de Junho de 1809 e morreu a 20 de Fevereiro de 1879. Apesar de formado em Medicina pela Universidade de Coimbra, começou por desenvolver as funções de primeiro-oficial da Administração Geral do distrito de Évora, passando depois a reger a disciplina de Filosofia no liceu local. O seu nome ficou ligado aos diversos cargos públicos que, com dedicação e competência, desempenhou, nomeadamente como bibliotecário da Biblioteca Pública Eborense e como Secretário-Geral do Governo do Estado da Índia, função que exerceu durante vinte e dois anos.

Enquanto permaneceu no Oriente, prosseguiu de forma notável a sua actividade de investigador de temas históricos. Homem interessado em filologia, publicou várias obras das quais se destaca o Arquivo Português-Oriental (1857-76), onde transcreveu, por ordem cronológica, os documentos que encontrou no Oriente acerca do domínio português. Deputado às Cortes na legislatura de 1853, Comissário-Régio para a circunscrição das Dioceses no Real Padronado do Oriente e Comissário dos Estudos da Índia, Cunha Rivara pertenceu à Academia das Ciências de Lisboa, ao Instituto Histórico e Geográfico do Brasil e à Real Sociedade Asiática, sendo também um dos fundadores do Instituto Vasco da Gama [para saber mais sobre Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, vale a pena ler AQUI
o artigo do historiador goês Teotónio R. de Souza, assinalando os 200 anos do seu nascimento e publicado no “Semanário” de 20 de Fevereiro de 2009].

Um caso ímpar de sucesso

Hoje, o nome de Cunha Rivara está bem vincado na terra que o viu nascer. Exemplo maior disso é o facto da Escola EB 2,3 / S da vila branca de tapetes colorida ter o seu nome. Um nome que tem subido bem alto no panorama da Orientação nacional e internacional graças aos títulos alcançados num passado muito recente, no Desporto Escolar, pelos seus atletas. Ao movimento de implementação e evolução da modalidade no concelho de Arraiolos, soube a EB 2,3 / S de Cunha Rivara responder de forma adequada, constituindo-se numa extensão do Clube de Orientação da Gafanhoeira – Arraiolos, um caso ímpar de sucesso na modalidade e um verdadeiro “case study” a nível mundial.

É ao encontro desta realidade que vamos hoje, numa conversa com tanto de surpreendente como de fascinante com o professor responsável pelo seu Grupo-Equipa de Orientação. Surpreendente, pela forma como humildemente rejeita quaisquer louros pelos excelentes resultados alcançados (e cabe aqui lembrar os títulos de vice-campeã do Mundo de Inês Catalão, em Iniciados Femininos e da equipa Juvenil Feminina composta por Ana Coradinho, Ana Salgado, Ana Tomás, Inês Pinto e Rita Rodrigues); fascinante pela riqueza de ensinamentos que transmite, nessa aceitação inequívoca da condição de professor que aprende com os próprios alunos. O nosso interlocutor é o Professor José Mateus, nascido em Beja em 28 de Agosto de 1977 e Licenciado em Educação Física e Desporto pela UTAD (1995-2000). Com uma breve passagem pelo Ensino Superior – leccionou na ESE Beja – e pelas Escolas de Castro Verde e Liceu de Beja, é professor efectivo de Educação Física na EB 2,3 / S de Cunha Rivara desde 2006/2007, tendo assumido o Grupo-Equipa de Orientação em 2008/2009.


“A Orientação foi uma descoberta”

Orientovar – Como é que surge esta ligação entre o Professor José Mateus, a EB 2,3 Cunha Rivara e a Orientação?

Professor José Mateus - Depois de três anos em Quadro de Zona Pedagógica, efectivei este ano na EB 2,3 Cunha Rivara, pelo que este é o meu quarto ano a dar aulas na Escola. A Orientação foi uma descoberta. Eu sou um homem da Natação Pura, inclusive a minha área de mestrado é a Natação Pura Desportiva. Por motivos vários acabei por sair da modalidade a meio duma época e houve a necessidade de que algum dos professores da Escola pegasse numa modalidade que estava a surgir no concelho de Arraiolos e que era a Orientação.

Orientovar – Mas sentiram mesmo isso como uma necessidade?

Professor José Mateus – Sim, sim, sentimos como uma necessidade. Ou seja, a Orientação começou a existir a nível do concelho e a nível do Clube GafanhOri, os alunos trouxeram a Orientação para a Escola e acabámos por sentir a necessidade de dar continuidade ao projecto a nível do Desporto Escolar. Uma vez que estava já um pouco saturado com o ambiente de piscina e com uma certa competitividade levada muitas vezes ao extremo, decidi aceitar o desafio e tocou-me a mim ficar com a Orientação.

“Estes alunos têm experiências fantásticas”

Orientovar – Já conhecia a modalidade?

Professor José Mateus – Não. Não tinha qualquer experiência com a modalidade. Foi realmente um processo de aprendizagem, em conjunto com os meus alunos. Recordo-me, inclusivamente, da primeira prova do Desporto Escolar, em Vendas Novas, de ver os meus alunos a não hesitarem perante qualquer obstáculo e de me ver a mim, um verdadeiro principiante na altura, a contornar todos os obstáculos, fossem eles quais fossem.

Orientovar – E esse processo de aprendizagem em conjunto ainda se mantém…

Professor José Mateus – É verdade que sim, até um certo ponto. Estes alunos têm experiências fantásticas. Basta dizer que, durante as férias escolares, passam meia dúzia de dias em casa e o resto do tempo é aplicado a correrem nos melhores mapas que existem na Europa. Daí que, para mim, se torna muito difícil acompanhar toda a evolução que eles têm tido. Ou seja, são miúdos com uma grande experiência na modalidade e eu vou procurando absorver, em termos práticos, todos os ensinamentos que eles me vão transmitindo.

“Não se percebe onde acaba a Cunha Rivara e começa o GafanhOri”

Orientovar – No sentido de dar resposta às exigências colocadas, que mecanismos ou que facilidades têm para desenvolver as actividades?

Professor José Mateus – Em termos de carga lectiva, fazemos três treinos semanais, com Natação à terça-feira, treino de Orientação com saída para o campo que dura toda a tarde de quarta-feira e depois, à sexta-feira, treino no Pavilhão Gimno-Desportivo de Arraiolos, onde fazemos treino técnico, treino físico, treino de simulação e outros. O relacionamento muito salutar que temos com o Clube de Orientação da Gafanhoeira – Arraiolos permite-nos treinar em conjunto. Ou seja, chegados ao local de treino, não se percebe onde acaba a Cunha Rivara e começa o GafanhOri. Uma vez que somos o único Grupo-Equipa de Orientação do Alentejo, integramos todas as provas do Troféu OriAlentejo. A deslocação para os mapas faz-se através do apoio da Câmara Municipal de Arraiolos e da Associação Monte, com a cedência de carrinhas. Mas felizmente não precisamos de fazer grandes deslocações para irmos ao encontro de mapas de excelente qualidade.

Orientovar – As actividades de Orientação abrangem todos os alunos da Escola ou limitam-se àqueles que fazem parte do Grupo-Equipa?

Professor José Mateus – Todos os alunos da Cunha Rivara, num universo superior a quinhentos, têm contacto com a modalidade a nível do ensino da Educação Física, tanto aquele que é ministrado por mim como pelos meus colegas. Existe uma base de trabalho desenvolvida pelo Clube GafanhOri, com uma série de mapas de treino, nomeadamente o da própria Escola e das áreas limítrofes, que os professores estão a utilizar neste momento.

“Não era, seguramente, o Professor José Mateus que conseguiria este tipo de resultados”

Orientovar – Esperava, num tão curto espaço de tempo, ver uma equipa sua sagrar-se Vice-Campeã do Mundo de Desporto Escolar?

Professor José Mateus – Para ser sincero, face ao meu desconhecimento quase absoluto da modalidade e da qualidade dos outros miúdos que iríamos enfrentar, não imaginava que tal pudesse suceder. Aliás, este tem sido um processo que sofreu uma evolução muito rápida e isso deve-se, exclusivamente, à qualidade técnica das pessoas que estão à frente do Clube de Orientação da Gafanhoeira – Arraiolos. Sem essa componente, é claro que todo o processo não teria, nem de longe nem de perto, a evolução que tem tido. Não era, seguramente, o Professor José Mateus que conseguiria este tipo de resultados. Todo o mérito tem de ser dado a quem de direito, ou seja, ao Tiago Aires e à Raquel Costa.

Orientovar – Porque é que, em toda esta vasta região, o único Grupo-Equipa de Orientação é o da EB 2,3 Cunha Rivara?

Professor José Mateus – Possivelmente porque os núcleos do Desporto Escolar partem muito da vontade dos professores que leccionam nas respectivas escolas. Na nossa, ao invés, essa vontade partiu dos próprios alunos e o Corpo Docente empenhou-se em apoiar e dar resposta aos desafios que lhe foram colocados. Aquilo que se verifica com frequência é a ausência de sensibilidade para ir ao encontro daquilo que a Escola necessita ou do que aqueles miúdos realmente procuram.

“Temos que fazer para que tal aconteça”

Orientovar – E como é que se contorna o problema e se torna a Orientação mais abrangente no leque de escolas do Alentejo, por exemplo?

Professor José Mateus – Penso que uma boa iniciativa poderia consistir em enviar convites às Escolas para frequentarem uma prova, por exemplo, do Troféu OriAlentejo e na qual esses miúdos pudessem ter a experiência dum primeiro contacto com a modalidade e ficassem a saber que a Orientação existe.

Orientovar – Mas isto não se faz, porquê?


Professor José Mateus – Temos que fazer para que tal aconteça.

“O interior do País continua a ser esquecido neste tipo de eventos”

Orientovar – Em 2013, vão-se realizar no nosso País os Campeonatos do Mundo de Orientação de Desporto Escolar. Como é que via a possibilidade de tal vir a acontecer na região de Arraiolos? [*na altura em que foi realizada a entrevista, ainda não estava definido o local da competição e que será, ao que tudo o indica, o Algarve]

Professor José Mateus – Acho que seria excelente, sobretudo devido à qualidade dos mapas que hoje em dia são uma realidade no próprio concelho. A verdade é que o interior do País continua a ser esquecido neste tipo de eventos e que se continuam a privilegiar as zonas que, por si próprias, já têm visibilidade. Penso que seria muito importante para toda esta região e também um prémio de reconhecimento pelo trabalho que aqui tem sido desenvolvido.

Orientovar – No médio e longo prazo, que ambições ou que sonhos tem para a Orientação em geral e, muito particularmente, em relação a si e à sua Escola?

Professor José Mateus – Desde logo, se tudo correr bem, espero continuar ligado à Orientação por muito tempo. Pessoalmente, os meus esforços vão no sentido de continuar, dentro das minhas possibilidades, a dar todo o apoio a este projecto que existe nesta região em relação à Orientação. Espero que a base de miúdos que frequentam a modalidade comece a crescer e a alargar-se, para que a pirâmide continue a ser alimentada e que muitos e bons valores surjam daqui, da zona de Arraiolos, para a Orientação nacional.











[revisitando a jornada gloriosa dos Mundiais ISF Madrid 2009 em fotos gentilmente cedidas por Professor Hélder Ferreira]

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Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

Somos a turma... disse...

Basta acreditar para a vitória surgir! Os valores que alguns professores em Arraiolos incutem nos seus alunos são todos eles bem intencionados... Os alunos crescem "orientados" e divertem-se!
Parabéns! Da colega Carla Vieira que faz o mesmo noutras áreas e entende perfeitamente o esforço que tu e os teus alunos fazem diariamente.