terça-feira, 23 de março de 2010

GLOBAZ.PT - BOXIT: CORRER E SOFRER EM NOME DA AMIZADE

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O Orientovar mergulhou nos meandros das Corridas de Aventura. Nesse sentido fomos ao encontro da Globaz.pt – Boxit, uma equipa que milita no escalão de Elite desta emotiva e espectacular disciplina da Orientação. Aqui trazemos o resultado duma longa conversa onde amizade e espírito de grupo passeiam de mãos dadas com sacrifício e sofrimento.


Jorge Xará não praticava qualquer tipo de desporto até ao dia em que, na Faculdade, o convidaram para integrar a Liga Universitária. Corria o ano de 2000 quando fez uma primeira prova de Corridas de Aventura. O contacto com a natureza, as etapas nocturnas, o andar de canoa e pelo meio do mato tornaram a experiência inesquecível. Uma ligação apaixonada, interrompida subitamente pelo final dum curso trabalhoso e por preocupações de ordem vária. Retomaria mais tarde o contacto com as Corridas de Aventura, o vício entranhou-se e é hoje um atleta completo, fazendo igualmente provas de Orientação em BTT e Pedestre, embora estas últimas de forma pontual.

Já o percurso de Hugo Evaristo é algo diferente. Praticante de Basquetebol ao longo de 17 anos, em 2004 trocou os pavilhões e as tabelas pela bicicleta. Amigos comuns levaram-no a conhecer Jorge Xará e daí às Corridas de Aventura foi um pequenino passo, firmado em Idanha-a-Nova com uma experiência marcada… pela inexperiência. E com muito sofrimento à mistura. A verdade é que gostou. E tanto gostou que não mais parou. Entretanto fez também um pouco de Orientação em BTT mas, como o próprio afirma, “o fim-de-semana não dá para tudo” e hoje dedica-se em exclusivo às Corridas de Aventura.

Praticante de Hóquei em Patins, Adelino Silva conheceu em primeiro lugar as Corridas de Aventura e, em segundo lugar… as Corridas de Aventura. O próprio admite que se sente pouco à vontade com a Orientação. Jorge Xará, ainda e sempre, foi a força motriz que conseguiu convencer Adelino Silva a integrar o grupo. Aquilo que começou por ser um ‘hobby’ e uma forma diferente de convívio entre os elementos do grupo foi evoluindo e a superação dos próprios limites acaba por ser a motivação maior para, no presente, ter um pouco mais de disciplina.


Orientovar – Como é que surge a Globaz.pt – Boxit?

Jorge Xará – A Globaz.pt surge com este nome apenas há dois anos e esta época tem pela primeira vez a Boxit associada ao nome da equipa. Na verdade já corremos com outros nomes e isto tem a ver com os apoios e os patrocínios. Já fomos “Azeméis é Vida”, quando tivemos o apoio do município de Oliveira de Azeméis; também já fomos “FreitaOutdoor.com”, quando organizámos uma prova na Serra da Freita e achámos que esta seria uma boa forma de promover a prova. Mas apesar do nome ir variando, a base da equipa – eu, o Adelino, o Fernando e agora o Hugo – já está junta há cinco anos. Antes de sermos uma equipa, somos um grupo de amigos cujo objectivo é ir às provas para nos divertirmos, passar um bom bocado juntos e fazermos algo de que gostamos. Nunca houve a intenção de quebrarmos esta união pelo facto de um estar a andar melhor ou pior que os outros. Se não pudermos lutar pelos primeiros lugares, o que importante é que consigamos divertir-nos. Ou seja, somos um grupo que fazemos Corridas de Aventura regularmente, que treinamos regularmente e que gostamos no final de ir fazer uma almoçarada. O espírito é o do convívio e da amizade, ao qual juntamos a competição, que é outro aspecto que também nos dá gozo.

Orientovar - Que aspectos conferem às Corridas de Aventura esta atracção tão especial?

Jorge Xará – A Orientação Pedestre ou em BTT são disciplinas mais individualistas. Eu fiz uma má prova, a culpa é minha e as consequências recaem sobre mim. Quanto às Corridas de Aventura, trata-se dum desporto de equipa. Não interessa que um atleta seja mais rápido, interessa é que a equipa, no seu todo, seja mais rápida. Isto implica uma grande solidariedade, muita cumplicidade, muito espírito de grupo. É normal o que está em melhor forma carregar com o equipamento do elemento que pontualmente possa estar mais debilitado, é normal montar uma corda na bicicleta e puxar aquele que está um pouco mais lento. Para além disto, há essa particularidade de haver uma pessoa que leva o mapa, ela é que vai a navegar, a orientar. É importante que a pessoa vá concentrada, mas quando se cometem erros de orientação é mais importante ainda que a equipa saiba conter-se e manter uma atitude positiva. A equipa deve manter-se coesa e estabelecer um elevado grau de confiança entre si para evitar problemas que possam comprometer a sua prestação.

Orientovar – Sendo as Corridas de Aventura uma disciplina que inclui um conjunto de actividades tão diversificadas, que tipo de treino específico é feito?

Hugo Evaristo – Nas Corridas de Aventura as modalidades nobres são a BTT e a corrida, propriamente dita, normalmente em montanha, o ‘trekking’ ou ‘trail-running’. É isso, basicamente, que treinamos. Nesta altura do ano, em que anoitece cedo, então o treino é sobretudo corrida ou ginásio. São quatro ou cinco sessões semanais, sendo que uma é sempre mais longa, aproveitando o fim-de-semana.

Jorge Xará – O “rappel”, a escalada e as actividades de cordas não se treinam. Aprendemos esse género de actividades, no fundo, é nas provas. Mas antes de irmos a uma prova tentamos saber um pouco daquilo em que nos vamos meter. No Estoril Portugal XPD Race, por exemplo, sabíamos que íamos ter patins em linha. Ora, tanto eu como o Evaristo não sabíamos andar de patins, uns meses antes comprámos uns patins e começámos a treinar. Num caso correu bem, noutro nem por isso… Voltando às actividades de cordas, isso é uma coisa que se aprende nas próprias provas porque não chegamos lá e não fazemos sozinhos. Tem lá sempre um instrutor, alguém que garanta a necessária segurança. Com o tempo fomos aprendendo e agora já temos à vontade suficiente para nos metermos ravina abaixo sem quaisquer problemas.

Orientovar – Que percepção têm da evolução das Corridas de Aventura em Portugal?

Jorge Xará – Há uns tempos atrás estava a remexer nuns mapas antigos das primeiras Corridas de Aventura que fiz e o nível dessas provas de então não se compara com o que temos hoje. Tanto em termos físicos como técnicos, a exigência é agora muito maior. As provas são mais duras, mais longas, tecnicamente mais difíceis. Esse foi um processo gradativo cuja percepção ao longo do tempo nem sempre foi muito evidente mas que se revela agora, sobretudo quando faço este tipo de comparação. Ao nível dos equipamentos as coisas também evoluíram. Lembro-me, quando começámos, que íamos de fato de treino e bicicletas do Continente ou do Feira Nova e via-se muita gente assim e todos se divertiam. Hoje em dia já não se vê ninguém assim nas Corridas de Aventura. São pessoas que praticam desporto, que têm bicicletas boas, que têm disponibilidade financeira e de tempo para treinar. Nisto tudo, a única nota dissonante tem a ver com o passo atrás dado há três anos ao estabelecer-se um escalão de Elite com três elementos sempre em prova e assistência exclusiva de alguém externo à prova. Isso levou à desmotivação e à desistência de muitas equipas no escalão de Elite. Nós próprios atravessámos um período difícil, tínhamos que chatear a esposa ou a namorada apesar de elas próprias não saberem arranjar as bicicletas e acabámos por ir a muitas provas sem assistência.

Adelino Silva – É importante contextualizar esta situação já que nas Corridas de Aventura há uma equipa mas não é como no Ciclismo, onde há toda uma série de recursos e de apoios que estendem o conceito de equipa muito para além dos próprios ciclistas, por exemplo. Felizmente que esta situação foi ultrapassada e voltámos ao cenário de quatro elementos, três sempre em prova e um a prestar assistência, mas que se vão revezando entre si. Faz parte da estratégia definir quem fica de fora e quem não fica, de acordo com as exigências da prova e as capacidades de cada um. No figurino anterior, não havia estratégia. Iam todos, as etapas todas.

Orientovar – Com este crescimento e com este grau de exigência crescente, como é que se atraem novos praticantes para as Corridas de Aventura?

Hugo Evaristo – Vão como eu, vão enganados (risos)!... Eu não sabia minimamente para aquilo que ia. Só andava de bicicleta, nem corria muito, mas convenceram-me que era muito giro, que era no mato e mais não sei quantas e pronto, vamos lá. Agora é importante que a pessoa que vai pela primeira vez perceba que se vai divertir mas que vai também sofrer. Porque isso sofre-se sempre. Seja qual for o grau de preparação da pessoa, é sempre para sofrer. Resta saber, depois de terminada a prova, se gostou daquilo que fez e daquilo que sofreu.

Adelino Silva – As coisas também não são assim tão dramáticas. As provas são feitas por etapas. Uma equipa com limitações físicas, do escalão de Promoção, por exemplo, pode optar por fazer apenas as etapas que lhe são mais adequadas. Se calhar a prova tem dez ‘Check Points’ (CP’s) e ela define apenas dois. Consegue-se gerir muito bem isto e daqui advém muito do encanto das Corridas de Aventura. Podem estar todos no seu limite, mas uns fazerem dez e outros fazerem dois. Claro que saltar uma etapa no escalão de Elite não faz sentido, mas já no escalão de Promoção faz. E também o nível de exigência e o número de CP’s neste escalão é menor.

Orientovar – Estratégia é uma palavra-chave nas Corridas de Aventura. Acham que este particular aspecto tem sido devidamente acautelado pelas organizações das provas em Portugal?

Jorge Xará – Desenhar uma prova de Corridas de Aventura – e nós temos essa experiência porque já organizámos uma – não é fácil. Acima de tudo, as etapas devem ser homogéneas em termos daquilo que se exige aos atletas e dos CP’s que valem. Ou seja, não faz sentido ter uma etapa de três horas Pedestre a valer dez CP’s e outra também de três horas de BTT a valer quinze. Isto significa que se está a beneficiar as equipas que andam melhor de bicicleta. Há também os factores adicionais que não têm a ver com a estratégia, mas antes com a perícia, casos do Tiro com Arco ou da Escalada. Mas acho que estes pontos acabam por não pesar muito no resultado final até porque as nossas provas, dum modo geral, exigem que se saltem pontos. Não é possível fazer o percurso total duma prova pelo que as equipas têm de saber fazer uma gestão de saltar pontos. Se eu sei à priori que vou ter de saltar pontos, se calhar salto os pontos que têm actividades que eu não consigo fazer. Há, claramente, decisões estratégicas que é preciso saber tomar.

Adelino Silva – Talvez valha a pena acrescentar que nas provas que temos feito do Campeonato do Mundo a estratégia é zero. A estratégia é fazer todos os pontos em menos tempo possível. Em Espanha, por exemplo, traçam um percurso com um determinado número de CP’s e toda a gente tem de ir aos pontos todos. Não há cá decisões do género “vamos deixar este ou vamos deixar aquele” e ganha a equipa que fizer tudo em menos tempo. Ao contrário, em Portugal estabelece-se uma janela de tempo igual para todas as equipas e ganha aquela que, no final, tiver controlado mais CP’s. Uma vez mais, a questão da estratégia a ter uma importância crucial.

Hugo Evaristo – Lá fora, uma equipa que tenha dois bons orientistas e seja forte fisicamente ganha. Em Portugal já não é exactamente assim. Sabemos ver os nossos limites, o ponto é longe e não vale a pena, outros arriscam e rebentam a etapa… Temos a noção que a capacidade física da nossa equipa não é directamente proporcional aos resultados que obtemos, isto quando a comparamos com equipas mais fortes. Penso que aqui tem tudo a ver com estratégia e nisso somos bons. Honras sejam feitas ao Jorge, é ele o navegador e o estratega da equipa.

Orientovar – Já aqui falaram em sofrimento e também já falaram em Espanha. Querem recordar essa aventura falhada do Bimbache Extrem do ano passado?

Hugo Evaristo – Fui eu que rebentei, ainda nem tínhamos feito 24 horas de prova. Ressenti-me duma mazela contraída no Basquetebol, uma rotura na região posterior da coxa. Estava muito frio, tínhamos acabado de dormir uma meia hora e mal começámos a caminhar – era uma etapa de BTT mas que de BTT tinha muito pouco – senti uma picada na coxa. A partir daí as dores começaram a aumentar, não conseguia caminhar nem pedalar, tão pouco conseguia descer, vinha a arrastar-me, já só pensava “eles vão-me bater” (risos) e pronto… acabou-se!

Orientovar – Depois de tanto tempo a pensar na prova e a prepará-la, como é que se lida com a frustração?

Adelino Silva – Essa é a parte mais simples. Somos três amigos que fazem provas, não somos três atletas que estão numa equipa e que fazem provas. Aconteceu ao Hugo, foi com ele mas podia ter sido com qualquer um de nós. Foi uma facada para todos, ficámos todos muito frustrados mas quem sofreu mais, de certeza, foi ele. Para além do sofrimento da lesão teve esse sofrimento maior de deixar ficar mal a equipa.

Orientovar – E como é que foi no Estoril Portugal XPD Race 2009?

Jorge Xará – Também se sofreu um bocado. Mas, do ponto de vista físico, como são provas muito mais longas, há uma maior gestão do esforço. Às vezes sofre-se mais numa prova de um dia, porque somos obrigados a dar o máximo, do que numa prova de uma semana, onde sabemos que temos de gerir muito bem o andamento. A parte maior do sofrimento prende-se com o não dormir. Tínhamos janelas de tempo muito apertadas, pensávamos poder dormir uma hora ou duas neste ou naquele ponto mas a verdade é que, quando lá chegávamos, percebíamos que já não tínhamos esse tempo. Se falarmos que em seis dias dormimos umas cinco horas, já se percebe a razão de ser do sofrimento que falo. É muito duro apanharmos noites de treze ou catorze horas e não conseguirmos dormir. Adormecemos a caminhar, adormecemos em cima da bicicleta. Quando o dia nasce, de repente ficamos despertos e parece que dormimos a noite inteira. Mas as noites, no período entre a meia-noite e as seis da manhã, são muito complicadas.

Adelino Silva – No contexto pessoal, quando falo com amigos, não digo sequer aquilo que se passa na realidade porque é difícil de acreditar. Eu e o Jorge seguramos o Hugo de lado e ele adormece e continua a caminhar, literalmente. As descidas de bicicleta longas são ainda mais complicadas porque se adormece em cima da bicicleta. Há um ‘site’ que é a referência mundial das Corridas de Aventura e que se chama “Sleep Monsters”. Ora nós, que nunca tínhamos percebido o porquê do nome do ‘site’, percebemos nestas provas. Os “monstros do sono” aparecem mesmo. Somos capazes de olhar para o que quer que seja e o nosso cérebro criar aquilo que vai na nossa imaginação. Estamos no meio do mato mas estamos a ver uma padaria e só quando lá chegamos é que percebemos que não há padaria nenhuma, é apenas uma árvore ou um muro. Nesta prova do XPD Race, estávamos na zona de Nisa e a caminhar já há algumas horas quando vimos uma casa e pensámos logo em ir dormir lá. Pois quando lá chegámos, foi preciso senti-la bem com as mãos para percebermos que não se tratava duma alucinação.

Orientovar – Desafiar os próprios limites, é disso que estamos a falar. Mas em nome de quê?

Jorge Xará – Em nome de cumprir a janela de tempo e continuar em prova (risos).

Adelino Silva – Isto continua a ser um ‘hobby’, apesar de termos uma equipa e de termos alguma disciplina. Cumprimos o nosso plano de treino, fazemos um investimento grande e, basicamente, ganhamos uma t-shirt. O que temos aqui é mesmo o gozo de chegar ao fim, sentarmo-nos e dizermos: Conseguimos!

Jorge Xará – A vitória na prova é secundária. Obviamente que nos deu gozo no ano passado ganhar algumas provas. E ganhámos porque, de facto, nos últimos dois anos houve algum decréscimo de qualidade nas Corridas de Aventura, houve muito bons atletas que praticavam Corridas de Aventura que se retiraram – não sei se temporariamente, se para sempre – e nós beneficiámos um bocado com isso. Mas temos a noção que não somos os melhores. Queremos ir lá e sabermos que fizemos a melhor prova possível. Se a melhor prova possível foi um primeiro lugar, óptimo. Se foi um terceiro, ou um quarto lugar, também ficamos contentes.

Orientovar – Já aqui falámos de quatro elementos e recordo-me que no Estoril Portugal XPD Race havia inclusivamente uma atleta da Estónia que fazia parte da equipa. Querem falar-me disso?

Jorge Xará - Até ao ano passado, como já referido, corríamos nós os três em Elite e formato non-stop e o nosso assistente era flutuante. Este ano, com o novo Regulamento - à excepção do Campeonato Ibérico e do Campeonato Nacional, em que o formato se mantém o do ano passado -, temos um quarto elemento em prova. Na prova da Arrábida e na desta semana, em Idanha-a-Nova, o nosso quarto elemento é um amigo da zona de Lisboa, o Filipe Marques, que já tinha corrido connosco em 2006 e é um excelente companheiro e atleta. Nas provas internacionais em que temos participado, o formato é equipa de quatro elementos todos em prova non-stop, em que um dos elementos tem que ser feminino. Em 2008, quando participámos no Estoril Portugal XPD Race, andávamos à procura de um elemento feminino e estávamos com dificuldades em arranjar uma atleta nacional visto haverem poucas e já não estarem disponíveis. A organização da prova pôs-nos em contacto com algumas atletas internacionais que se tinham disponibilizado para participar mas que também não tinham equipa e, após algumas trocas de e-mails e pedidos de informação, decidimos fazer equipa com a Elo Saue. As coisas funcionaram bem nesse ano e, em 2009, fizemos o Bimbache Extrem em Espanha e o ARWC Portugal 09 com ela. A Elo vem da Orientação Pedestre, tem 37 anos e foi da selecção da Estónia de Orientação durante alguns anos. Quando deixou a alta competição começou a fazer provas mais longas e menos intensas como as Corridas de Aventura e o Rogaining. Ela adora mapas e costuma ser navegadora da nossa equipa nas etapas pedestres. Tem um filho e uma filha adolescentes que também praticam Orientação e fazem parte das selecções jovens da Estónia. A filha até esteve recentemente no POM. No ARWC 09, o Hugo não pôde vir connosco à prova por motivos profissionais e veio o Nuno Renato, um amigo nosso também da zona de Lisboa já com muitos anos e experiência neste tipo de provas.

Orientovar – Corridas de Aventura e Orientação. Notam nisto alguma contradição ou, posto doutra forma, as Corridas de Aventura não beneficiariam se tivessem o seu espaço próprio, fora da Federação Portuguesa de Orientação?

Jorge Xará – Em certa medida concordo com essa ideia. É dito que nas Corridas de Aventura as pessoas podem praticar sem se saber orientar, o que é verdade. Basta haver uma ou duas pessoas a navegar na equipa para haver logo uma ou mais a “fazer Orientação” sem se saberem orientar. É disso que se trata. Mas também acho que não vale a pena agora estarmos a andar para trás em passos que já foram dados. Ou seja, as Corridas de Aventura fazem parte da FPO – e este passo foi um acto corajoso -, as Corridas de Aventura têm a ganhar com isso, é um facto, mas a FPO também não tem nada a perder. Eu dou o nosso exemplo já que todos nós praticamos, em maior ou menor grau, Orientação, mas começámos pelas Corridas de Aventura.

Adelino Silva – Aquilo que está mal é a FPO não apoiar como devia as Corridas de Aventura. Mas também vejo pessoas que praticam Orientação Pedestre e Orientação em BTT a queixarem-se. Uns mais, outros menos; uns com razão, outros, se calhar, sem razão…

Orientovar – Mas há, pelo menos ao nível da promoção televisiva, um Magazine OTV que dedica um espaço interessante às Corridas de Aventura. Concordam?

Hugo Evaristo – Sim. Nesse aspecto, a exposição mediática que acabamos por ter é importante e fruto do empenho da Federação Portuguesa de Orientação que nos abre ali uma janela. Sou, contudo, da opinião que há muito por onde melhorar. É bom termos as Corridas de Aventura na TV mas as reportagens podiam ser muito mais apelativas. Geralmente baseiam-se numa ou duas entrevistas da praxe, dois ou três planos fixos em zonas de assistências, partidas ou chegadas. As reportagens mostram muito pouco daquilo que são as Corridas de Aventura, nomeadamente uma equipa a progredir em autonomia longas horas no meio da Natureza. Raramente vemos uma câmara nos locais mais inóspitos e bonitos - e difíceis! - por onde passamos, as equipas não são acompanhadas pelos repórteres nos locais mais marcantes das provas e as entrevistas no final da prova nunca mostram as emoções que se podem viver ao longo de uma prova. Por outro lado, as etapas de multiactividades urbanas, que geralmente duram aproximadamente 5% da prova, têm grande peso na reportagem e mostram os atletas em jogos tradicionais e gincanas. Isto não são as Corridas de Aventura, este tipo de reportagem passa uma ideia errada da modalidade e presta um mau serviço. Os telespectadores poderão pensar que as Corridas de Aventura são uma espécie de 'rally-paper' e não uma prova onde se exige espírito de sacrifício, de equipa e onde se vai sofrer. Neste aspecto gostaria de destacar os trabalhos notáveis feitos no ARWC 09, com excelentes reportagens televisivas e câmaras a gravar nos locais certos.

Orientovar – Sai muito caro praticar Corridas de Aventura?

Jorge Xará – É difícil contabilizar os gastos porque há material que fomos adquirindo ao longo dos anos. Comprando uma coisa de cada vez não custa mas se fossemos a somar tudo para trás, obviamente que nem quero pensar nos milhares de euros que já gastámos todos. Em média, uma prova da Taça de Portugal ronda os 250 ou 300 euros, a dividir por três ou quatro elementos, enquanto as provas do Campeonato do Mundo têm uma inscrição que ascende aos 2.500 ou 3.000 euros. Participarmos em provas do Campeonato do Mundo só é possível graças aos apoios que vamos tendo.

Adelino Silva – O nosso refúgio é pensarmos que isto é uma despesa que faríamos como se de uma viagem de férias se tratasse. E já agora, falando de apoios e porque estamos na Garagem Paciência, o Fernando Paciência tem-nos ajudado de forma incansável, apoiando-nos na manutenção das bicicletas, algo que também é caro.

Orientovar – Quanto mais tempo vamos vê-los juntos a fazer Corridas de Aventura?

Jorge Xará – Vamos continuar juntos, isso é um facto. Se a fazer Corridas de Aventura ou não, não sabemos. Talvez a fazer Orientação Pedestre ou em BTT de forma mais frequente… Este ano queremos pôr em prática um projecto que é o de angariarmos os pontos necessários para, no próximo ano, nos candidatarmos à inscrição no Ultra Trail do Mont Blanc. Ou seja, vamos arranjando outros projectos paralelos às Corridas de Aventura, exigindo igualmente, esforço, treino e sofrimento, mas que nos vão mantendo juntos. Em nome da natureza, em nome do desporto, em nome da amizade.

[Uma nota de agradecimento para Fernando Paciência pela cedência do espaço onde decorreu esta entrevista]

Para saber mais sobre a Globaz.pt – Boxit e Corridas de Aventura visite a página da equipa em
http://raids-aventura.blogspot.com/.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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