quinta-feira, 18 de março de 2010

ESPECIAL BRASIL: FABIO SOLAGAISTUA, O KAAPORA OC E A ORIENTAÇÃO BRASILEIRA NA GRANDE ENTREVISTA

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A III Copa das Federações de Orientação marca o arranque da época desportiva de 2010 no Brasil, já no próximo fim-de-semana. É este o pretexto para conversarmos hoje com Fabio Solagaistua, o Director Técnico do evento, percebermos de que forma a Orientação brasileira encara a temporada que agora se inicia e sabermos um pouco mais dum dos mais jovens e dinâmicos clubes de Orientação do Brasil, o Kaapora Orientação Clube.


Em mais uma incursão pelo desporto da floresta no país-irmão, o nosso interlocutor de hoje é Fábio Solagaistua de Matos. Nascido no Rio de Janeiro em 16 de Junho de 1979, Fabio Solagaistua é Professor de Educação Física e conheceu a Orientação em 1998, quando ingressou na Escola de Educação Física e Desportos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ]. Existia no local um tradicional evento de Orientação, chamado “corrida dos caloiros”, onde a modalidade é apresentada aos alunos que ingressam no curso. “Num primeiro momento gostei, mas não me tornei um praticante”, diz Fábio Solagaistua, que apenas em meados de 2000 começou de facto a participar nas competições estaduais, nacionais e sul-americanas, pelo Clube de Orientação da UFRJ.

“Como atleta considero-me nulo”, é esta a convicção de quem nunca obteve nenhum resultado expressivo em competições, a não ser na época dos escalões de iniciação. Não se considerando atleta mas sim praticante, é no dirigismo desportivo que Fabio Solagaistua emprega toda a sua energia e capacidades. Foi Presidente da Associação de Orientação do Rio de Janeiro entre 2004 e 2006, Director Técnico da Federação de Orientação do Rio de Janeiro em 2004 e 2005, Vice-Presidente da Federação de Orientação do Rio de Janeiro em 2006, Director Técnico da Confederação Brasileira de Orientação em 2007, ano em que foi fundado o Kaapora OC, tendo-se tornado seu Presidente e Director Técnico. Actualmente desempenha ainda as funções de Director Administrativo da FORJ. Como organizador, conta no currículo a Direcção de Prova de duas etapas do Campeonato Brasileiro de Orientação [CamBOr]: 2ª Etapa de 2004 e 3ª Etapa de 2005 e ainda a Supervisão da 3ª Etapa do CamBOr 2007. Ocupa o lugar de Supervisor e Técnico dos Quadros da Confederação Brasileira de Orientação.


“Temos um número razoável de competições”

Orientovar - Num país tão vasto como o Brasil, percebe-se a necessidade de agrupar os clubes em Federações regionais. Pedia-lhe que nos falasse um pouco desta subdivisão e da sua importância na promoção e desenvolvimento da Orientação no Brasil?

Fabio Solagaistua - Hoje temos onze Federações filiadas na Confederação Brasileira de Orientação [CBO]. Todas seguem as directrizes da entidade máxima, mas trabalham sem intervenções e dentro dos seus conceitos, ou seja, possuem estatuto próprio e não sofrem qualquer tipo de intervenção por parte da CBO. Algumas são melhor organizadas, outras ainda estão em processo de formação. Falando num âmbito geral, graças a esse formato, temos um número razoável de competições, já que as Federações organizam os respectivos Campeonatos Estaduais. Temos atletas filiados na CBO que nunca participaram em competições nacionais, mas praticam uma Orientação em alto nível graças a esse modelo.

Orientovar - Pode um clube, por razões de natureza geográfica ou outras, estar vinculado à CBO sem ter um vínculo a uma Federação regional?


Fabio Solagaistua - Sim. No Brasil temos vinte e seis Estados e um Distrito Federal, e em todos estes existe um lastro da modalidade. Como falei acima, temos onze Federações e muitos Clubes onde não existe uma. Dessa forma, esses Clubes se filiam na CBO mesmo sem estarem filiados numa Federação Estadual. Seria incoerente para o desenvolvimento do desporto tal proibição. Para haver formação de uma Federação, existe a necessidade do Estado possuir três Clubes, além de outras obrigações. Nalguns Estados sem Federação, a CBO criou a figura do Gerente de Orientação, para promover e incrementar o crescimento da modalidade.

“Uma perda significativa para o nosso Calendário”

Orientovar - Distribuindo-se por três etapas, o CamBOr, por exemplo, atribui o título de Campeão do Brasil com base nas pontuações adquiridas. Quanto à Copa das Federações, que espírito preside à sua realização e qual a sua importância na estrutura competitiva brasileira?

Fabio Solagaistua - A formação da Comissão Organizadora da Copa das Federações reflecte bem o momento de cooperação das Federações da Região Sudeste (Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro). Desde o ano passado, as três Federações estão unindo forças na tentativa de alavancar a Orientação. Pela primeira vez, um evento de âmbito nacional possui essa característica, já que normalmente apenas o Supervisor da Prova costuma vir de outro Estado. Foi mais uma lição de sabedoria e humildade dada pelo grande Rogério Campos, Presidente da FOSP – Federação de Orientação de S. Paulo.

Infelizmente esta edição marcará o fim prematuro da Copa. Na primeira edição a competição não teve o número de inscritos esperado. No ano passado, com a inclusão da competição no calendário de provas válidas para o ‘ranking’ nacional de Clubes e Atletas, somado a uma boa organização a Copa ganhou um certo fôlego. Numa época em que deveríamos estar pensando em aumentar o número de competições de grande porte, esta é uma perda significativa para o nosso Calendário, tão carente de provas de mais de um dia e que reúna o que de melhor temos na Orientação brasileira.

“Aquele que vive no mato”

Orientovar - Indigitado Director Técnico do evento, quais as suas atribuições específicas, de que forma tem vindo a desenvolver o seu trabalho e o que espera possa vir a ser esta terceira e última edição do evento?

Fabio Solagaistua - A principal tarefa encomendada até o momento foi o auxílio na distribuição das categorias pelos percursos, assim como ajudar na análise dos mesmos. Também já está certa a responsabilidade quanto à ordem de partida dos atletas. Apesar da distância a que me encontro do evento, tentarei ajudar em todas as tarefas que estiverem ao meu alcance, e me coloquei à disposição para tal.

Orientovar - Fabio Solagaistua é o Presidente dum dos mais jovens e dinâmicos clubes do Brasil, o Kaapora Orientação Clube. Gostava que nos falasse um pouco de como surgiu o clube e, já agora, o porquê de se chamar ‘Kaapora’?

Fabio Solagaistua - O Kaapora surgiu em 2007, da fusão da Associação de Orientação do Rio de Janeiro, com o Grémio Estudantil de Orientação do Projeto Sou Feliz. A AORJ retornou as actividades em 2004 e o Grémio iniciou as suas em 2005. Desde sempre houve uma cooperação mútua entre os seus integrantes, que se apoiavam na organização de eventos e nas diversas atividades, por conta de uma amizade gerada pela prática deste desporto. A união foi a consequência natural e marcou o reencontro de um grupo que fez parte alguns anos antes do Clube de Orientação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Já o nome Kaapora vem da língua Tupi-Guarani, com o significado “aquele que vive no mato”. Achamos o nome bem apropriado para um clube de Orientação.

“Inserir as crianças na Sociedade”

Orientovar - No curto e médio prazo, quais os grandes objectivos do Kaapora OC, nomeadamente no que diz respeito à formação e ao Desporto Escolar?


Fabio Solagaistua - Herança da fusão referida na questão anterior, temos a funcionar no Kaapora OC o Projecto “Sou Feliz Me Orientando”, desenvolvido pelos Professores Luciana Rezende e Diogo Hersen. O Projecto abrange 300 crianças dos quatro aos quinze anos e, mais do que qualquer outra função, o seu objectivo é inserir as crianças na Sociedade, tornando-as capazes de exercer a sua cidadania. O desenvolvimento do projecto ocorre numa área de escassez financeira e de recursos básicos. Dessa maneira, a Orientação preenche um espaço vago na vida dessas crianças, realizando verdadeiras transformações sociais e comportamentais. Dessas, quinze participam com frequência no Campeonato Estadual do Rio de Janeiro e nas competições nacionais.

Orientovar – Ainda há meia dúzia de dias atrás, ministrou uma palestra de iniciação desportiva. Este tipo de iniciativas é frequente? Que tipo de adesão costumam ter e de que forma os resultados são motivadores?

Fabio Solagaistua - Infelizmente são acções isoladas. Não temos público para tornar essas palestras ou cursos mais frequentes. Na grande maioria são pessoas que se interessam pelo desporto devido ao facto de conhecerem alguém que já o pratica. De qualquer forma, é válida a sua realização. Acredito que esta é a maneira correcta da pessoa ser introduzida na modalidade . Perdemos muitos potenciais praticantes por querermos que o primeiro contacto seja em uma competição. Algumas pessoas assustam-se com o desconhecido e geram expectativas que não são as reais e, nalguns casos, frustrações que as afastam logo na primeira experiência.

“Temos que aprender a trabalhar com as nossas limitações geográficas”


Orientovar - Quais as grandes dificuldades para divulgar a Orientação e fazê-la chegar a um número mais vasto de público-alvo? Que importância dá a Comunicação Social à Orientação?

Fabio Solagaistua - Praticamos um desporto que se esconde dos olhos do público e estamos fazendo pouco para mudar essa situação. Hoje, as inserções dos mídia que conseguimos, além de poucas, são regionais. No âmbito nacional, o que surge é muito pouco e sempre com matérias superficiais que não conseguem dizer muito e gerar frutos. Utilizamos pouco o formato de Sprint, principalmente o Park-O e City-O, e quando o fazemos não temos o cuidado de fazer um evento onde o público externo consiga entender o que está se passando e possa até vivenciar um pouco do desporto, fazendo um percurso acompanhado por um atleta. Não sabemos utilizar a figura do “speaker” nem pontos de mídia. São coisas simples que poderiam dar uma outra dimensão a Orientação.


Orientovar - Que balanço faz do actual estado da Orientação no Rio de Janeiro?

Fabio Solagaistua - Administrativamente houve um avanço absurdo no último ano, com o advento do SisFORJ (sistema de gerenciamento desportivo) e com a elaboração de vários documentos de regulamentação. O próximo passo é dar mais qualidade técnica aos nossos eventos, principalmente melhorando a cartografia e a elaboração dos percursos. Temos que aprender a trabalhar com as nossas limitações geográficas. Somos um dos menores estados do Brasil, em extensão territorial, e a característica da nossa vegetação e do nosso relevo impede que tenhamos áreas que são consideradas como ideais para a prática da Orientação. Não podemos deixar é que essas questões inviabilizem a realização de grandes competições. Os nossos cartógrafos e, principalmente, os traçadores de percursos, têm que saber trabalhar nessa área. Esse é o próximo passo da FORJ. Melhorar a qualidade técnica das competições.

“José Otávio foi incansável e tem muitos méritos”

Orientovar - Quais os grandes desafios que se colocam à Orientação brasileira?

Fabio Solagaistua - O grosso do trabalho está feito. A formação de cartógrafos, de técnicos, de supervisores foi um grande trabalho desenvolvido pela CBO. Temos hoje pessoal apto a difundir adequadamente a modalidade e dar qualidade às nossas competições. Nesses onze anos à frente da CBO, o José Otávio foi incansável e tem muitos méritos. Precisamos melhorar alguns aspectos dos nossos eventos, mas isso vai acontecer naturalmente em consequência do que citei acima. Apenas a parte de tornar os eventos maiores é que precisará de mais algum tempo. Digo “maiores” em relação a estruturas físicas, divulgação de informações, ou seja, transformar os eventos numa coisa grandiosa, com diversos valores agregados.

O próximo passo é a inserção da Orientação brasileira no cenário mundial. Precisamos criar condições para que os nossos atletas realizem intercâmbios e participem nos principais eventos ao redor do mundo. Trazer para o Brasil os principais atletas também seria importante. A partir de 2012, os “5 Dias do Brasil” acontecerá em Janeiro. Acredito que essa acção trará ao Brasil alguns atletas e, se conseguirmos ter um percurso WRE nessa competição, melhor ainda.

“Que a Orientação brasileira conquiste o seu espaço na cena internacional”

Orientovar - Regressando ao Kaapora OC, em termos competitivos o que podemos esperar das prestações dos seus atletas ao longo da temporada que agora se inicia?

Fabio Solagaistua - A maior riqueza do clube são os nossos atletas. A nossa Elite feminina conta com atletas (Lislaine Link, Rachel Lemes, Marion Silva e Soraya Cabral) que fazem a história da Orientação nacional. No masculino temos dois atletas que brevemente estarão conquistando títulos importantes (Fabio Kuczkoski e Sidnaldo Farias). Os seis citados fazem parte atualmente da equipe das Forças Armadas que está treinando para os Jogos Mundiais Militares de 2011.

Nos escalões Junior temos os irmãos Ayla e Elison das Neves, que têm um grande potencial para chegar longe dentro de pouco tempo. Nessa perspectiva, a expectativa é que nossos atletas disputem e conquistem títulos importantes, contribuindo para a subida do Kaapora OC no Ranking Nacional de Clubes. Em três anos já estamos ocupando a 8ª posição, o que considero bem significativo.


Orientovar - Embora não seja o Aladino, pedia-lhe, a finalizar, que nos deixasse três desejos: um a título pessoal, outro para o seu clube e outro ainda, mais global, para a Orientação no Brasil.

Fábio Solagaistua - Que tenha a oportunidade de vivenciar este desporto maravilhoso por muitos e longos anos, que o meu clube consiga mais recursos financeiros que lhe permitam a realização de todos os seus projectos e que a Orientação brasileira conquiste o seu espaço na cena internacional.











[fotos extraídas dos Álbuns do Kaapora OC em http://kaapora.multiply.com/]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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