sábado, 27 de fevereiro de 2010

O MEU MAPA: ALICE SILVA, NIKLASDAMM E O O-RINGEN 96

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Depois de, no passado mês de Janeiro, Luís Santos nos ter levado às neves de Las Mimbres, viajamos hoje até aos pântanos da Suécia. Alice Silva partilha connosco essa experiência inesquecível e esse misto de sensações do mapa de Niklasdamm, no primeiro dia do O-Ringen 1996.

Esta tarefa de escolha de um mapa que pudesse contar uma história tornou-se muito difícil para mim. Cada mapa meu tem sempre algo para contar, sejam histórias de sofrimento ou de alegrias, desde grandes enganos a sucessos, desclassificações, lesões físicas e vitórias, quer a nível nacional, quer internacional.

O mapa escolhido faz parte de uma competição bastante conhecida, os “5 Dias da Suécia”, em Julho de 1996, onde tive um misto de sensações: Satisfação / Insatisfação / Admiração.

Satisfação associada ao facto de ter andado de avião pela primeira vez, dos locais de prova e os mapas serem espectaculares e bastante diferentes daquilo a que estava habituada, da rede de transportes ser de tal forma organizada que permitia sair e voltar dos locais onde estávamos instalados para as zonas de competição durante 2/3 horas em autocarros com intervalos de tempo que variavam entre os 10 e os 15 minutos e finalmente grande satisfação/gratidão por, no Hospital da zona onde estávamos, terem atendido e tratado o meu filho (porque caiu e abriu um golpe no queixo) sem solicitarem a sua identificação.

Insatisfação por ter passado muito frioooooooo (!) na primeira noite, uma vez que decidimos ficar numa tenda militar onde éramos os únicos e toda a roupa de Verão que levávamos teve de ser para aquecer o nosso filho de 16 meses (Tiago). Claro que na manhã seguinte mudámos para instalações com melhores condições. Outro facto que criou também alguma insatisfação/receio que me apoquentou durante todo o período que estivemos na Suécia e Noruega foi a hipótese de o meu filho desaparecer e nós não termos um documento que justificasse que ele era nosso. À saída de Portugal, não nos foi pedida documentação relativa ao Tiago e, como tal, não tínhamos nada; mas quando essa questão foi colocada num transbordo, fiquei preocupadíssima tendo feito logo o pedido que só chegou no último dia.

Admiração ao chegar à arena e ver uma imensa multidão onde predominava a variedade de cores (16.034 participantes), os locais de banho e WC. Nunca tinha imaginado tal situação, que me fazia lembrar cenas de campos de concentração com muitos chuveiros/sanitas ao ar livre vedados com madeiras ou toldos e muita gente toda junta. Para nos deslocarmos da arena/chegada chegávamos a percorrer entre 3000 a 4000 metros, encontrando ao longo do percurso diferentes zonas de partida consoante o escalão. Tal como nas chegadas, aliás, onde existiam vários corredores, também distribuídos por escalões.

Bom, todas estas situações podem parecer normais hoje em dia, mas naquela altura em Portugal as organizações ficavam muito aquém daquilo que se faz actualmente e que já se aproxima de toda a situação relatada.



Voltando então ao mapa «Azul», eu escolhi o da primeira etapa (Niklasdamm), que se realizou em Kristinehamn. A escala do mapa era 1/10000, equidistância de 5 m, sendo tão grande que houve necessidade de fazer uma montagem uma vez que o mesmo mede 40x45cm, representando uma área 12,6 km2 e 14,5km2 de perímetro. Optei por este mapa porque, apesar de ter participado no Campeonato do Mundo em 1995, Campeonatos Ibéricos e Provas Nacionais, nunca tinha tido a oportunidade de fazer percursos em zonas ou mapas completamente alagados. Inscrevi-me num escalão que pensei estar de acordo com o meu nível técnico (enganei-me!), mas não me arrependo do que fiz porque contribuiu para a minha formação como atleta. Após ter percorrido cerca de 3000 m, cheguei às partidas e iniciei o meu percurso com o dorsal mais elevado que alguma vez tive (13910), tentando percorrer a distância de 4600m. Assim que peguei no mapa, interroguei-me como conseguiria distinguir as diferentes zonas de água; no entanto parti à descoberta, até porque teria de realizar o percurso o mais rápido possível para que o meu marido pudesse realizar o seu, uma vez que ele só poderia partir quando eu chegasse, por causa do bebé. Do triângulo de partida para o primeiro ponto cometi logo um erro, até porque a minha leitura de relevo não era nada famosa (hoje em dia ainda não melhorou muito) e tal como pode ser visto no mapa, o que está a tracejado foram as opções por mim realizadas. Os pontos 2 e 3 foram realizados sem grandes dificuldades, para o ponto 4 decidi jogar pelo seguro indo pelo caminho, mas a determinada altura, decidi sair do caminho sem confirmar o local exacto onde estava, voltando novamente a fazer asneira. Para o ponto 5 penso que até consegui tomar uma opção aceitável, tentando seguir pelos limites de vegetação e das zonas com água.

Mas como não há bela sem senão eis que voltava novamente à situação de não perceber onde estava, principalmente quando cheguei à zona de falésias. Aí olhei para o relógio e pensei, “já está na hora do Jorge sair e ainda me falta tanto,” e ao fim de algumas tentativas lá dei com o ponto 6. Se até aqui as coisas não iam bem, com a preocupação de querer acabar rápido, no ponto 7 foi o descalabro porque eu percorri quase todas as falésias da zona até encontrar o meu ponto. Para o ponto 8, como se pode verificar, penso não ter tomado a melhor opção, depois de tudo o que já tinha feito penso que teria sido mais seguro ir por caminhos até à zona da falésia, aí deveria contornar a mesma a sul passando pelo objecto especial e assim encontrando o ponto. Deste saí rapidamente e sem dificuldade para o ponto 9 e daí para o fim. Terminei com o tempo de 1.49.56, a 1.12.30 da vencedora, tendo sido a 216ª classificada do meu escalão (D21 2). Senti-me mais realizada no dias seguintes porque o sucesso com mapas de água foi aumentando, eu fui subindo na classificação geral e terminei no 175º lugar.

No que diz respeito ao meu marido, a história não foi tão feliz porque saiu sempre atrasado para o seu percurso. Inclusive, num dos dias já estavam a desmontar as partidas quando ele lá chegou, foi explicada a situação e deixaram-no partir. Qual não foi o seu espanto quando no final se apercebeu que lhe tinham atribuído novo tempo de partida e é de valorizar uma organização deste tipo que, com tantos participantes, ainda teve uma atenção especial para o nosso caso.

Alice Silva
Fed 1092
Grupo Desportivo União da Azóia

[fotos e mapas gentilmente cedidos por Alice Silva]

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Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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