quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

NAOM 2010: FERNANDO COSTA NA GRANDE ENTREVISTA

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Nos próximos dias 20 e 21 de Fevereiro, o Município de História Viva transforma-se na Capital Mundial da Orientação ao acolher a 4ª edição do Norte Alentejano O’Meeting. Evento com a assinatura do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, espreitamos hoje com a ajuda de Fernando Costa o NAOM 2010, ainda e sempre pelo buraco da fechadura.


Orientovar - É quase obrigatório começar por lhe colocar a seguinte questão. Quando, há quatro anos, o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos se lançou nesta aventura do Norte Alentejano O’ Meeting, era expectável que o evento atingisse, em tão pouco tempo, esta dimensão?

Fernando Costa – Não nego que, quando avançámos com o projecto, tínhamos conhecimento das excelentes condições existentes nesta particular região do País para a realização de eventos de qualidade. Apesar das expectativas que fomos criando, sabemos que na Orientação é sempre complicado estabelecer uma previsão a longo prazo. Agora o que é um facto é que temos sabido, ao longo dos anos, manter um evento de bom nível, sobretudo muito equilibrado, o que já vai fazendo do NAOM um dos pontos altos do calendário nacional e vai, inclusivamente, alcançando algum reconhecimento a nível internacional.

“Sabemos que não podemos falhar”


Orientovar – Ter 535 estrangeiros inscritos até ao momento na edição deste ano constitui, seguramente, uma enorme dor de cabeça. Que problemas é que isto vos colocou?

Fernando Costa – Acabámos por ser confrontados com um número invulgar de atletas de Elite quando o evento não foi pensado para estes quantitativos. Um dos grandes problemas teve a ver com a necessidade de refazer os próprios percursos. Tínhamos as coisas planeadas para um “loop”, como aliás é habitual, e acabámos por ter de ajustar os percursos para termos dois “loops”. Por outro lado, ficámos sem hipótese de intervalar a saída dos atletas que irão partir com apenas um minuto entre si. Mesmo assim, esta situação irá prolongar a duração das partidas e poderá trazer algumas complicações, visto reduzir substancialmente o tempo de intervalo entre a prova de Distância Longa e o Sprint Nocturno. Para já as coisas parecem controladas, mas…

Orientovar – Apesar de tudo é muito bom ter aqui toda esta gente…

Fernando Costa - Claro que é uma grande responsabilidade ter aqui este número de atletas. O nosso objectivo inicial apontava para um total de mil atletas, 300 dos quais estrangeiros. O primeiro objectivo está praticamente alcançado e o segundo foi já largamente ultrapassado. Mas o que mais nos impressiona nestes números é a qualidade dos atletas que irão estar aqui representados. Mesmo à margem dos escalões de elite, estarão no Crato atletas veteranos de renome internacional e com enorme qualidade. Por tudo isto, sentimos o peso da responsabilidade e sabemos que não podemos falhar.

“A qualidade do evento estará salvaguardada”

Orientovar – O contacto dos nossos atletas com um tipo de Orientação mais evoluída que mais-valia poderá acarretar para a Orientação nacional?

Fernando Costa – É sempre bom a vinda destes atletas a Portugal, desde logo pelos contactos que se estabelecem. Não nos podemos esquecer que estamos numa ponta da Europa e é sempre complicado chegar ao centro ou ao norte da Europa que é onde, quer queiramos ou não, tudo continua a passar-se. Mas também por tudo quanto podemos aprender com eles, a forma como encaram o treino, a competição, a forma como evoluem… Poder apreciar isso de perto, poder aprender com eles, só isso já é muito bom. Para os jovens, então, funciona como uma motivação acrescida. Fá-los perceber a importância de trabalhar mais e melhor, fá-los perceber que estas coisas não caem do céu. As próprias organizações devem ter os pés bem assentes na terra e não pensarem que são os melhores do mundo. Aproveitar para auscultar as opiniões dos participantes sobre a cartografia, sobre os percursos, sobre o terreno e, dessa forma, procurar melhorar no futuro é algo que as organizações não podem descurar. Se bem se recordam, nós próprios fizemos essa experiência no ano passado, abrindo à plateia as conversas com o Michal Smola e com a Eva Jurenikova e criando ali um espaço deveras interessante e vantajoso do ponto de vista da partilha de conhecimentos e experiências.

Orientovar – Vamos falar dos mapas e vai-me desculpar mas vou deixar de fora o mapa do Crato, onde irá decorrer o Sprint nocturno. “Aldeia da Mata” e “Laje do Meio-Dia”, qual dos dois está no seu coração?

Fernando Costa – Não sei responder… Gosto dos dois! Aquilo que dá beleza aos eventos é poder apresentar dois mapas que, apesar de muito diferentes, se interligam e complementam. São uma surpresa atrás de outra. Pode parecer curioso dizer isto mas quase poderíamos estabelecer uma comparação com os dois mapas do I Meeting Internacional de Arraiolos, no início do passado mês de Janeiro. São situações que têm muito a ver uma com a outra. O mapa de Aldeia da Mata é um mapa fisicamente muito mais exigente e obriga a um esforço muito maior. É um mapa com muito mais vegetação, com muito mais declive. Quem se recorda do mapa da Lameira de Cima, no NAOM 2009, sabe do que estou a falar, já que este mapa é a continuação do anterior. Já o mapa da Laje do Meio-Dia é um mapa muito mais plano, muito equilibrado mas com uma concentração de elementos rochosos enorme. Não é o nosso melhor mapa – aliás, não é fácil fazer em cada ano um mapa melhor que o do ano anterior – mas penso que as pessoas vão gostar e, nesse aspecto, a qualidade do evento estará salvaguardada.

“As pessoas passarem por aqui e não apreciarem a beleza daquele monumento seria quase criminoso”

Orientovar – Nisa, Castelo de Vide, Alter do Chão e agora o Crato. O apoio inequívoco das autarquias tem sido uma das chaves do sucesso do NAOM. Gostaria que me falasse da articulação com a Câmara Municipal do Crato.

Fernando Costa – Com a Câmara do Crato aconteceu uma situação nova para nós. Com efeito, as eleições autárquicas de Novembro determinaram uma mudança à frente da autarquia, mas este novo executivo tem compreendido o que está em causa e tem sabido dar continuidade a todo o processo. Devo acrescentar que a relação de cordialidade existente com a actual Câmara Municipal do Crato nos deixa particularmente contentes e tranquilos, sobretudo pela vontade demonstrada em aproveitar da melhor forma o facto de estarem aqui mais de meio milhar de atletas de 23 países e, através do evento, em valorizarem o muito de bom que há na região.

Orientovar – E o que de bom há na região?

Fernando Costa – Desde logo há a paisagem. Mas há também a Gastronomia e um património construído riquíssimo que faz do Crato o Município de História Viva. Posso adiantar que é intenção da autarquia oferecer a Ceia de sábado à noite no Mosteiro de Santa Maria, na Flor da Rosa, que é apenas um dos monumentos mais belos do Mundo. Aliás, independentemente de a ideia da Câmara do Crato vingar ou não, o Secretariado da prova irá estar lá instalado. As pessoas passarem por aqui e não apreciarem a beleza daquele monumento seria quase criminoso.

“Não nos podemos esquecer que estamos a 350 quilómetros de distância da nossa casa”

Orientovar – O Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos já tem uns anos largos disto e as pessoas são praticamente as mesmas. Que desgaste é que isto provoca?

Fernando Costa – Uma coisa é termos uma equipa nova, um evento novo e há uma motivação inicial muito grande, ao passo que nosso caso estes eventos já se arrastam há mais de dez anos e começa a ser complicado manter a homogeneidade da equipa. Apesar de alguma renovação da equipa, o passar dos anos vai deixando as suas marcas e cada vez é mais difícil manter a união no seio da equipa. Não nos podemos esquecer que estamos a 350 quilómetros de distância da nossa “casa” e esse é que é o grande problema. Se estivéssemos ali, à beirinha da porta, tudo isto era muito mais fácil. Assim, são milhares de quilómetros feitos ao longo do ano, são muitos fins-de-semana gastos na preparação do evento e todos sabemos que as pessoas têm as suas vidas, têm os seus problemas e é complicado, por vezes, gerir esforços e vontades. Penso, contudo, que temos todas as condições para manter o nível dos anos anteriores e vamos fazer o melhor possível para que a Orientação nacional possa sair, uma vez mais, prestigiada.

Orientovar – Aparte a competição, o NAOM sempre privilegiou de forma muito particular as vertentes social e cultural. Inovar tem sido a fórmula encontrada para o valor acrescentado do evento. Até onde vão os limites da vossa imaginação?

Fernando Costa – Partilhamos dessa ideia de que é muito importante podermos oferecer às pessoas algo mais do ponto de vista social e cultural do que a Orientação em si. Penso que se não houver algo mais do que a prova, a Orientação terá muita dificuldade em evoluir e em trazer os Órgãos de Comunicação Social. Isto agora é uma guerra, toda a gente luta por um bocadinho de espaço e esse espaço é cada vez menor. Para conseguirmos alguma notoriedade, temos de apresentar algo novo, algo que salte à vista, que tenha interesse e que seja minimamente adequado. Daí que este ano tenhamos connosco a Fernanda Ribeiro e o Mário Zambujal, distintos Embaixadores do NAOM 2010 e que, qualquer um deles, dispensa apresentações. E depois teremos ainda, para além do lançamento do segundo volume das Crónicas do Norte Alentejano O’ Meeting Alter do Chão 2009, uma Exposição de Fotografia alusiva ao evento do ano passado e ainda um Concurso de Fotografia que pretende motivar os participantes a descobrir e registar a beleza impar das paisagens do Norte Alentejano, pano de fundo do evento agora promovido. São desafios que aceitamos, são experiências que vamos fazendo e alguma há-de dar certo.

“Quando eu comecei era muito mais fácil uma televisão ir a um evento”

Orientovar – Numa modalidade com tantas virtualidades, num evento com tanta qualidade e interesse, lutar por alguma notoriedade poderia parecer um contra-senso. Mas é, contudo, essa a nossa realidade. Porquê?


Fernando Costa – O problema não é só da Orientação. São muitas as modalidades que estão em pé de igualdade connosco. Tudo o que não seja Futebol – e numa medida muito pequenina também o Atletismo, o Andebol e o Basquetebol -, parece não ter qualquer interesse. Temos que fazer um esforço muito grande para que o pequeníssimo espaço que sobra possa ser ocupado também pela Orientação. Se não o fizermos, se prova após prova não formos todos nós a batalhar nesse sentido, não vamos conseguir nada. Que ninguém esteja à espera que o pessoal venha cá à nossa procura. Mas isto é muito difícil, isto tem de se pagar. Ou seja, se não investirmos no ‘marketing’, se não investirmos na comunicação, cada vez estamos pior. Quando eu comecei era muito mais fácil uma televisão ir a um evento, conseguir que uma rádio fizesse uma cobertura; há dois anos atrás, já tudo estava muito mais complicado e agora é muito mais difícil. Por isso mesmo é que é necessário um esforço muito maior.

Orientovar – A pouco mais de quinze dias do evento, o que lhe causa ainda alguma preocupação?

Fernando Costa – Era fundamental que o tempo estivesse bom. Os estrangeiros procuram muito o Sol e era importante podermos juntar a uma boa prova umas condições atmosféricas agradáveis. De resto, aquilo que tememos sempre é que possa aparecer à última da hora, ali pelo meio, algum proprietário menos bem-humorado e que venha a provocar algum problema no evento. Para já tivemos um apoio fora de série da parte de todos os proprietários contactados e estamos convencidos que tudo vai correr dentro do previsto. Falta concluir os arranjos gráficos dos mapas, a sua impressão e depois é montar toda a estrutura logística. As pessoas podem não se aperceber disto mas o grande problema da Orientação tem a ver com a logística. Tanto a Federação como os clubes têm uma capacidade logística muito reduzida, pelo que estamos sempre dependentes do empenho e boa vontade dos municípios, duma quantidade muito grande de instituições, nomeadamente Bombeiros, Cruz-Vermelha e Guarda Nacional Republicana, dos estabelecimentos de Hotelaria que nos dão um enorme apoio e, naturalmente, dos Órgãos de Comunicação Social locais e regionais, cuja importância é vital nesta vertente da comunicação de proximidade.

Pode encontrar toda a informação sobre o evento em
http://www.gd4caminhos.com/naom/2010/. Convido-o também a saborear o vídeo promocional do NAOM 2010, em http://www.youtube.com/watch?v=aGu_GYb4WF4. São pouco menos de seis minutos de rara beleza.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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4 comentários:

Acacio disse...

Não querendo ser "cusco", porquê deixar de fora a análise do mapa do Crato, cuja prova também conta para a classificação final, e que também deverá ser interessante, até pelo carácter histórico da vila?

Joaquim Margarido disse...

Com esta é que o Acácio me "entalou", não pelo mapa, não pela contagem para a classificação final, mas pelo carácter histórico da vila. Nem tudo lembra...

A ideia subjacente à questão - desafortunadamente amputada - teve a ver com o facto dum Sprint Urbano ser... um Sprint Urbano. É aquela coisa de andar a correr de gasogéneo na cabeça, rua acima, viela abaixo, dois lanços de escada de permeio, uma baliza atrás dum banco de jardim, outra num gaveto da rua direita, outra ainda entre o segundo e o terceiro arco da Varanda do Grão-Prior. Ou seja, não me pareceu que houvesse algo de muito interessante a dizer acerca disso.

Foi só por isto, meu bom Acácio. E como o Fernando não me contradisse, tão pouco me falou numa versão nova duns Jardins do Álamo às escuras ou num mapa dos dois lados da folha, avancei com a peça mesmo assim.

As minhas sentidas desculpas, ficando o compromisso de, em peça avulsa, poder falar desse património fabuloso do Município de História Viva. Valeu?

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

Acacio disse...

Não era meu objectivo "tramar" o nosso ilustre cronista, com contributo essencial para que tantas vivências tenham passado para o papel, para gáudio de orientistas e não só...

Também sou suspeito por apreciar essa particular disciplina (sem favor) da orientação, que é frequentemente minimizada (não é só o "Trail-O"), em termos bem menos literatos que os que o Joaquim usa.

No entanto, em qualquer disciplina da orientação, pode haver bons e maus terrenos, e mapas, e percursos, e atletas, e estratégias, ... E, porque será que uns têm bons resultados nuns e péssimos noutros?

Para concluir, o caso do Álamo é paradigmático: não é preciso muito, para tornar (muito!) interessante um "sprint" urbano nocturno (é como o ovo do Colombo).

;-)

fernando disse...

Então vou abrir o jogo!
O mapa do Crato é similar a Alter do Chão, mas com um pouco mais de desnível.As vilas do Norte Alentejano são muito parecidas mas em cada uma há sempre um beco ou uns degraus que dificultam a vida ao Orientista menos prevenido.
Cumprimentos