domingo, 7 de fevereiro de 2010

DESPORTO ESCOLAR: ORIENTAÇÃO NO CABO ESPICHEL

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Dando sequência ao calendário competitivo 2009/2010, a Associação Desportiva Escolar de Orientação de Palmela viu disputada, na manhã do passado sábado, a sua quarta e penúltima etapa. Entre certezas, surpresas e o deslumbramento dum dos mais belos promontórios “deste jardim à beira-mar plantado”, a prova permitiu constatar, uma vez mais, a enorme vitalidade da Orientação do Desporto Escolar nesta particular região do nosso País.

Corria o ano de 1410 quando um velho de Alcabideche, avistando em noites sucessivas uma misteriosa luz sobre o Cabo Espichel, invocou a Virgem no intuito de ver explicado o significado de tais visões. Durante um sonho, Nossa Senhora ter-lhe-á dito para se dirigir ao Cabo, pois ali encontraria uma imagem escondida há muitos séculos e na qual tinha origem a referida luz. Num sábado, a caminho do Cabo Espichel, o velho encontrou uma mulher do sítio da Caparica que avistara igualmente uma luz misteriosa e, também ela, procurava a imagem por conselho da Virgem. Unindo esforços, ambos porfiaram na sua demanda e lograram encontrar a imagem, logo erigindo a Nossa Senhora do Cabo uma capelinha em alecrim. Depois voltaram para suas casas, espalhando a notícia do milagroso acontecimento e mobilizando as pessoas que começaram a dirigir-se em grande número ao Cabo Espichel.

Vem esta lenda a propósito (ou talvez não!) daquilo a que assistimos no último fim-de-semana de Janeiro e neste primeiro sábado de Fevereiro, com centenas de estranhos romeiros a invadirem literalmente toda a vasta zona do Cabo Espichel. Caminhadas, pedaladas, remadas, escaladas, pernadas, braçadas e o mais que se possa imaginar, tudo serviu para que amantes das Corridas de Aventura e do Desporto da Floresta fizessem do local um incontornável ponto de encontro. Independentemente do seu grau de devoção à Virgem - que acreditamos não possa ser posta em causa -, a verdade é que há nesta coisa da Orientação uma dose de religiosidade muito para além do imaginável. Romaria, culto, liturgia, profissão de fé, evangelização, céu, purgatório e inferno são termos que, com a devida adequação, assentam como uma luva à modalidade, no todo ou em parte.

E vão quatro provas, quatro!…

De regresso a aspectos mais terrenos, digamos que em causa esteve a quarta prova 2009/2010 da Associação Desportiva Escolar de Orientação de Palmela. Inicialmente prevista para o Mapa Novo da Quinta do Anjo (ai, FPO, a continuares assim ainda vais parar ao Inferno!), a prova viu-se deslocada para o “velhinho” mapa do Cabo Espichel, de Abril de 2003, com Trabalho de Campo de Francisco Pereira e José Batista. À partida para esta quarta e antepenúltima prova, uma rápida análise aos ‘rankings’ deixava perceber a enorme competitividade existente em todos os escalões, excepção feita aos Infantis Masculinos, onde Bernardo Pereira vem dominando a seu bel-prazer. A título individual, a luta pelos primeiros lugares no escalão de Iniciados Masculinos e, em termos colectivos, a luta "titânica" entre as Escolas Secundárias de Palmela e do Pinhal Novo pela liderança do ‘ranking’ de Escola, o mesmo acontecendo entre a Escola Secundária da Moita e a EB 2,3 Navegador Rodrigues Soromenho pelo último lugar do pódio, concentravam o grosso das atenções.

Tudo somado, tínhamos que, sendo esta a penúltima de cinco etapas do circuito competitivo local da Associação Desportiva Escolar de Orientação de Palmela, a prova do Cabo Espichel assumia um papel muito importante na definição das classificações finais e do apuramento de Individuais e Equipas para o Campeonato Regional. Sabendo-se que, das cinco provas que compõem o Calendário, apenas quatro contam para o somatório final e que cada atleta poderá, portanto, “deitar fora” um resultado, esta prova revelava-se determinante não apenas para aqueles que, tendo feito as três provas anteriores, pudessem ir com alguma folga para a última, como para os restantes que, não fazendo uma das provas anteriores ou tendo um mau resultado, pudessem rectificar, embora aqui já sem grande margem de erro.

Quase duas centenas de participantes

Quanto à prova em si, de forma muito sintética, as primeiras notas de destaque vão para o tempo e a paisagem: Absolutamente magníficos! Quase duas centenas de participantes, metade do quais em OPT’s - incluindo nestes alunos, encarregados de educação, ex-alunos e elementos da comunidade – proporcionaram um extraordinário ambiente geral de satisfação, alegria e participação... Foi o desporto no seu estado mais puro e com lugar para todos, desde atletas de nível mundial, caso dos jovens presentes no ISF Madrid, até grupos de rapazes e raparigas que experimentaram a Orientação pela primeira vez. O Professor Vladimiro Viana, responsável pelo Desporto Escolar na EAE da Península de Setúbal Sul – DRELVT, o Dr. Francisco Ferreira, conhecido dirigente da Quercus e o Dr. Eduardo Pereira, Chefe da Divisão de Desporto da Câmara Municipal de Palmela, abrilhantaram com a sua presença um evento que, como já se percebeu, teve de tudo para agradar a todos.

Em termos da competição “pura e dura”, apenas se registou um ‘mp’, o que atesta bem a qualidade do trabalho dos Professores. De resto, confirmou-se uma vez mais a enorme superioridade do infantil Bernardo Pereira (ES Palmela), não só pela vitória em si mas também pela diferença de tempo registada para os adversários, à semelhança, aliás, do que sucedeu nas anteriores três etapas do circuito. Verificou-se novamente uma luta muito interessante no escalão de Iniciados Masculinos, com a vitória desta feita a sorrir a Tiago Baltazar (EB 2,3 NR Soromenho) e com os quatro primeiros a pertencerem a quatro escolas diferentes. Realce ainda para o fantástico resultado de Luís Silva (ES Pinhal Novo), em Juvenis Masculinos, vencendo com mais de minuto e meio de vantagem sobre os seus mais directos adversários.




Muito ainda por decidir

Na próxima e última prova, a ter lugar no Pinhal Novo no próximo dia 6 de Março, ficarão definidas não só as classificações finas ainda em aberto, mas também os apuramentos individuais e colectivos em Iniciados e Juvenis para o Campeonato Regional. Isto porque uma análise aos ‘rankings’ permite apurar já algumas situações resolvidas em absoluto. São os casos das vitórias finais já asseguradas por Laura Antunes (ES Palmela) em Infantis Femininos, Bernardo Pereira (ES Palmela) em Infantis Masculinos e Sofia Pinto (ES Pinhal Novo) em Juvenis Femininos. Colectivamente, as vitórias já se encontram definidas em todos os escalões, com a ES Palmela a garantir quatro títulos, a ES Pinhal Novo um e a ES Moita também um.

Em Iniciados Femininos, Leonor Ribeiro e Filipa Rodrigues, ambas da ES Palmela discutirão entre si, na última ronda, os dois primeiros lugares finais. Luta até ao fim também em Iniciados Masculinos, com Oleksandr Zaikin (ES Palmela) a ter o “descaramento” de ainda surgir nesta fase intrometido entre os “gigantes” Tiago Baltazar (EB23NR Soromenho) e Miguel Ferreira (ES Palmela), "bastando-lhe" o triunfo para garantir desde logo a vitória final. Em Juvenis Masculinos, apesar do domínio esmagador da ES Pinhal Novo, com cinco atletas a garantirem os cinco primeiros lugares, nada está definido quanto ao vencedor, já que três deles têm ainda legítimas aspirações ao almejado lugar. Finalmente, em Juniores Masculinos, assiste-se a uma luta ao rubro entre Bruno Jesus (ES Pinhal Novo) e Mykola Zaikin (ES Palmela), a entrarem para a última ronda empatados. Na disputa do título de Escola com melhor conjunto de resultados, ES Palmela e ES Pinhal Novo entram para a última ronda separadas por apenas três pontos, embora com a vantagem a pertencer aos palmelenses.

“Por agora, fico à espera da próxima!”

No final, o balanço do Professor Ricardo Chumbinho, Coordenador Nacional de Orientação do Desporto Escolar era deveras positivo: “registamos sempre com enorme agrado a excelente colaboração de Professores, amigos das Lebres do Sado e do CIMO, e até de alguns alunos, nas tarefas de organização. Isto atesta, uma vez mais, a dimensão alargada e o empenho que um vasto grupo de pessoas coloca nestes eventos do Desporto Escolar.”

Também Francisco Ferreira, Vice-Presidente da Quercus, a maior organização ambiental portuguesa, fez questão de deixar o seu testemunho: “O Cabo Espichel, tradicionalmente ventoso, a que se poderia aliar a chuva que nos tem visitado frequentemente este Inverno, dificilmente poderia apresentar um tempo melhor para a época. Temperatura moderada, céu praticamente limpo. Para quem por vezes participa em actividades de Orientação, como eu, e para muitos que a iam praticar pela primeira vez, melhor era difícil. Com dois filhos em diferentes escolas de Palmela e onde o Desporto Escolar foi o caminho para um maior envolvimento na Orientação, principalmente no caso do mais velho, e ainda com a Escola da minha mulher, a Secundária D. João II de Setúbal, com vários professores e alunos participantes, não podia deixar de lhes fazer companhia, levando o mais pequeno de sete meses às costas. Em grupo fiz um percurso curto mas simpático em OPT, percorrendo a zona bonita e com vegetação rasteira do Espichel, algo erodida pelas condições climáticas da zona, mas também, e infelizmente, com caminhos a mais abertos natureza a dentro por quem quer levar o carro a todo o sítio. Para os OPT não havia classificação, mas foi uma oportunidade de conviver com professores amigos e alunos que davam os primeiros passos na Orientação. Baliza a baliza, algumas por entre a rara vegetação, lá fomos percorrendo um caminho pouco acidentado e fácil comparado com outras provas, mas pedagógico para muitos novatos. Quanto aos filhos, o mais velho mergulhou num maciço de tojo e as marcas de picos são às dezenas; a mais nova diz que precisou de mais uns minutos para encontrar um dos pontos, mas para onze anos não esteve mal. Depois, ainda deu para fazer uma visita às pegadas de dinossáurios da Pedra da Mua e Lagosteiros. Por agora, fico à espera da próxima!”

“Não existe sucesso quando uma das partes envolvidas não colabora”
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A propósito desta magnífica jornada, o Dr. Eduardo Borges Pereira, Chefe da Divisão de Desporto da Câmara Municipal de Palmela, teceu os seguintes comentários: "Foi num cenário lindo - Cabo Espichel, zona envolvente e o Oceano Atlântico - e com condições óptimas para a prática da Orientação - uma linda manhã de Inverno com uma temperatura amena - que cerca de centena e meia de crianças e jovens alunos de dez escolas da Península de Setúbal, acompanhados dos respectivos professores, participaram na quarta das cinco provas que compõem o calendário desportivo deste ano lectivo, antes da competição regional que terá lugar nos dias 30 de Abril e 1 de Maio na Lagoa de Albufeira (concelho de Sesimbra). A organização, mais uma vez, correspondeu ao que dela se espera e todos os participantes concluíram esta actividade com a satisfação do dever cumprido. A provar que esta modalidade é bastante abrangente a nível etário, assistiu-se à participação formal e informal de vários adultos familiares dos competidores numa sã convivência desportiva e social (esta é, também, uma das grandes virtudes da Orientação). Só é pena verificar-se, ainda, uma reduzida participação feminina comparativamente com a que se regista no sector masculino (a exemplo do que sucede noutras modalidades desportivas). Finalmente assinalam-se alguns resultados desportivos interessantes que antevêem uma excelente prestação dos representantes da Península de Setúbal nas competições de âmbito regional e nacional que se aproximam. Todavia, antes - dia 6 de Março - ainda haverá a última prova local que se realizará em Pinhal Novo (concelho de Palmela).


A finalizar, ainda o depoimento do Professor Vladimiro Viana, responsável pelo Desporto Escolar na EAE da Península de Setúbal Sul – DRELVT, que se mostrou particularmente elogioso: “Foi com enorme prazer que aqui estive neste grande dia. Grande em todos os sentidos: na organização, na atitude e participação dos alunos, professores e acompanhantes, na envolvência paisagística do local e… nas condições atmosféricas. A essência do Desporto Escolar marcou hoje presença, no Cabo Espichel. A competição, o ‘fair-play’ e a cultura de uma prática desportiva saudável (que por si só incrementa hábitos de vida saudáveis, com reflexos positivos ao nível da saúde e qualidade de vida) foram disso mesmo testemunho. Para além da dimensão educativa que o Desporto Escolar assume, a função social e cultural deverão posicionar-se num patamar privilegiado nas actividades que se realizam. Na realidade, para além da educação das crianças e jovens num determinado desporto, com as especificidades que cada um encerra em si mesmo, torna-se fundamental o desenvolvimento de competências sociais e cívicas, onde o Desporto Escolar e particularmente a Orientação assumem uma posição de destaque. O que hoje assistimos foi a comunhão destas dimensões, numa organização atenta às responsabilidades que não enjeita.” E, a terminar, uma nota de satisfação “pelo sucesso de mais um encontro do quadro competitivo, que a ADE de Orientação de Palmela já nos habituou. Não existe sucesso quando uma das partes envolvidas não colabora. Não existem sucessos individuais. Neste sentido, felicito todos os Professores, Alunos e Encarregados de Educação presentes, pelo importante contributo que deram para a consecução dos objectivos gizados.”

Veja aqui as CLASSIFICAÇÕES da prova e consulte os RANKINGS actualizados. Tudo isto e muito mais para conferir também em http://moodle.espalmela.net/.

[Fotos gentilmente cedidas por Paulo Fernandes. Aceite a sugestão e delicie-se com o álbum completo em
http://picasaweb.google.com/paulojjf/TrofeuADEOPalmela200910CaboEspichel06Fev#]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

PFernandes disse...

Bom Dia Orientovar,

É hoje o primeiro dia da semana que antecede o POM (além do NAOM). Os dias mais emocionantes da época aproximam-se, mas agora o assunto é outro.

Comentando a excelente jornada de Orientação que decorreu no passado dia 6 de Fevereiro no Cabo Espichel, no âmbito do Troféu ADE´O Palmela 2009/10, e porque a vivi na 1ª pessoa, tenho a partilhar o seguinte:

- O Magnifico tempo de primavera, com uma temperatura amena que quase convidava a um mergulho numa praia não muito distante (não fosse o resistente nevoeiro que teimava em desaparecer a mais baixas altitudes);
- A Paisagem espectacular, já salpicada com as cores primaveris, aliada a um majestoso promontório e a um não menos altivo farol, completaram a tela de mil cores em que se "deixaram perder", e porque não, alguns dos mais promissores atletas de Orientação,
- Destaque também para o excelente mapa de 2003, à escala 1:10.000, rico e cheio de detalhes, numa zona de planalto que à primeira vista parece plana e sem interesse...
- Os saudáveis momentos de confraternização de uma juventude que "está bem orientada e recomenda-se", fruto do trabalho e dedicação dos seus professores,
- A oportunidade de envolver os Pais, os Professores, os entusiastas e amigos da modalidade, os representantes da sociedade civil, além dos próprios alunos, espelha bem a grandiosa dimensão deste desporto "sem idade e para toda a vida"!

Por mim, mais uma vez, tive a oportunidade de juntar um treino a uma reportagem fotográfica, que muito me gratificaram.
Parabéns à Organização e ao excelente trabalho de texto e selecção de fotos do Joaquim Margarido.


Saudações Orientistas,
Paulo Fernandes