quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

SYLVESTER 5 DAAGSE: SYLVESTER MAS NÃO 'AGRESTER'

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(Não tantas vezes quanto gostaríamos, mas…) Manuel Dias regressa às páginas do Orientovar. Com “Sylvester mas não agrester”, viajamos com o popular Manel até à neve, neve, neve da Bélgica, no final daquele que foi o seu ano mais internacional. Mas o melhor é calar-me e passar a palavra a quem, por direito próprio, dela faz notável uso.



Quando me inscrevi na 22ª edição dos “Sylvester 5 Daagse”, tinha dois objectivos: Conhecer um pouco mais da Bélgica e enfrentar o desafio de cinco provas em condições previsivelmente agrestes.

O primeiro objectivo foi integralmente cumprido. Depois do evento, que decorreu de 26 a 30 de Dezembro, a Rosário e eu ficámos com tempo para vadiar por Antuérpia, Bruges, Gand e Bruxelas, dormindo uma noite em cada cidade. Bruges impressionou-me de modo singular, não defraudando a expectativa que a sua história impunha. Felizmente que inventaram as máquinas digitais e já não temos de pagar não sei quantos euros por cada rolo de “35 mm, 200 ASA, 36 exp”. Até me doía a falangeta do indicador direito de tanto disparar contra aquela arquitectura de antologia.

O desafio competitivo só não foi plenamente alcançado porque não cheguei a tempo da 1ª prova. Eu já sabia que ia aterrar em Bruxelas cerca de uma hora depois do início da competição, que se desenrolava a mais de 100 km dali, com várias mudanças de estrada e sem GPS. A organização havia concordado em atribuir-me a última partida, mas a espera das malas e o levantamento do carro tornaram inútil tal gentileza. Esse primeiro dia contava para o World Ranking Event. Quando cheguei, já tinham feito a entrega dos respectivos prémios, desmontado o secretariado e levantado as balizas. Ainda fotografei dois elementos da organização que traziam as últimas estacas. Ofereceram-me uma cópia do “master” com a localização de todos os pontos e lá fui cheirar o ambiente e confirmar pelo pisoteio o sítio onde tinham estado os controlos mais próximos da chegada.

Neve. Neve. Neve.

Para um homem nascido no Algarve e que nunca fixou residência acima da linha do Tejo, a neve é simultaneamente um deslumbramento e uma ameaça. Foi a pensar nela, sobretudo, que falei em “condições agrestes”. Mas não houve vento e o frio seco suporta-se bem melhor do que eu imaginava. A chuva na 5ª etapa (4ª para mim) acabou por ser a única verdadeira adversidade: Sempre que abrandava, na área do ponto ou em troços de progressão difícil, os óculos embaciavam-se irremediavelmente, levantando uma parede entre os meus olhos e o mundo. Nas zonas mais abertas, não divisava o terreno; sob o arvoredo cerrado, nem terreno nem mapa. Um desespero! Mas foi para isso que me inscrevi, não foi?!

Lembram-se da 2ª etapa do POM 2005, no Salto, Montalegre? E do Ibérico de 1999 em Granada? Para a maioria dos praticantes portugueses essas terão sido as únicas oportunidades de contacto com a neve em terreno de prova. Pois nesta “Sylvester”, tivemos disso todos os dias. Não presenciámos a queda de neve, mas corremos sobre ela em todas as etapas. Tinha-se fartado de cair nos dias antes do evento. Macia sobre a terra mole, dura e perigosamente escorregadia sobre pavimentos de asfalto, cimento ou pedra. Temperaturas a rondar os zero ou os dois negativos. Mas pacífico. Só houve um dia em que não dispensei o impermeável, e mesmo nessa altura vi ao meu lado na zona de partida uns jovens de meia manga sobre o pêlo que Deus lhes deu. A coisa não foi, portanto, tão agreste como eu temia.

As provas foram disputadas num raio de 70 km, em 5 mapas perto das seguintes localidades: Koersel, Herentals, Leopoldsburg, Lommel (todas na Bélgica) e Luyksgestel (na Holanda). Dois mapas eram menos interessantes (tipo manta de retalhos), mas os outros três tinham vegetação variada e relevo exigente, a fazer lembrar certos trechos de São Torpes, Bom Sucesso ou Quiaios.

A adesão foi relativamente modesta para uma competição desta envergadura: 120 mulheres e 296 homens, ou seja, um total de 416 participantes. A qualidade, todavia, não foi nada baixa. Em H21E, a vitória coube ao finlandês Jörgen Wickholm, que tem mantido uma carreira internacional regular depois do brilharete no Mundial Júnior de 2002 (medalha de prata na Estafeta e bronze na Distância Média). O britânico Nick Barrable, vencedor em 2007 e 2008, não foi desta vez além do 7º lugar. Na Elite feminina, o triunfo sorriu à belga Greet Oeyen, que não teve de enfrentar a concorrência da “nossa” ucraniana Masha Semak, vencedora das duas edições anteriores.

Os piores augúrios

Na veterania e falando dos que me são mais próximos, o nosso assíduo visitante Matti Railimo, medalha de ouro no sprint do WMOC 2008 e vencedor em H55 das últimas duas “Sylvester”, teve agora de contentar-se com o 2º lugar em H60. No meu escalão (H55), o suíço Hansruedi Kohler, que fora 2º no ano passado em H50, deu-se ao luxo de ganhar as primeiras quatro etapas e nem comparecer na quinta (contavam as quatro melhores). Em 2º lugar ficou Jos Gilot, repetindo a classificação de H50 em 2007, ano em que levou a melhor sobre Hansruedi. Um ajuste de contas, portanto. Quanto a mim, quedei-me pelo meio da tabela (10º entre 25). Vá lá, lembrem-se que não pude deitar fora nenhum resultado, porque já tinha falhado a prova do 1º dia.

E, já agora, deixem-me dizer-vos que não se confirmaram os piores augúrios. A matrícula do carro que me entregaram em Bruxelas terminava em MP (não, não fiz “misspunching”). E o meu peitoral era o 9612, ou seja, noves fora... nada.

Ao contrário dos 3 Dias da Bélgica 2008, nunca levei sinalética errada; desta vez teria sido bem pior, porque não havia sinalética no mapa. E vejam a sorte: num dos dias perdi o “backup” do Emit; voltei atrás e, junto à estação do Finish, lá estava a papeleta do Lisboa OK.

Fechei, portanto, com muita satisfação o meu ano mais internacional. Entre 13 de Junho e 30 de Dezembro, participei em 45 provas no estrangeiro: 8 na Bulgária, 5 em Itália, 5 na Suécia, 6 na Suíça, 5 em Espanha, 12 na Austrália, 3 na Bélgica, 1 na Holanda.

Acho que merecia uma refeição em condições. Depois de uma semana a tasquinhar improvisos, fui com a Rosário, no sábado passado, a um restaurante vietnamita. Comemos bem e bebemos melhor. Quando saímos, o céu de Bruxelas desfazia-se em farrapos, pintando de branco o asfalto das ruas e o metal frio dos automóveis. Eu tinha, finalmente, o meu espectáculo! Mas não há bela sem senão: na manhã seguinte, tivemos de esperar, dentro do avião, mais de duas horas até que limpassem a pista para podermos descolar.
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Manuel Dias
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[fotos gentilmente cedidas por Manuel Dias]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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2 comentários:

José disse...

Já conhecia o espírito globetrotter do Manel, mas não lhe imaginava a coragem e paixão para participar na Sylvester5T da Bélgica com semelhantes condições atmosféricas.

Bravo Manel

Vitor disse...

Grande Manel...e a próxima vai ser no Saara?