sábado, 30 de janeiro de 2010

O MEU MAPA: LUÍS SANTOS NAS NEVES DE LAS MIMBRES

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O Orientovar dá hoje início a uma nova rubrica intitulada “O Meu Mapa”. No último sábado de cada mês, aqui traremos um momento de conhecimento e partilha, vivido na primeira pessoa e lembrando um espaço e um tempo com mapa por pano de fundo. Nem de propósito, o pontapé de saída cabe ao responsável pelo Departamento de Cartografia da Federação Portuguesa de Orientação. Ouçamos, pois, Luís Santos e a sua experiência inesquecível no mapa de Las Mimbres.


Granada, Janeiro de 2000.

Estreei-me na Orientação em 1999 e foi em Outubro que começou a minha primeira época mais a sério em H21B. A terceira prova dessa época 1999/2000 realizou-se em Janeiro perto de Granada no mapa de Las Mimbres tendo sido a minha primeira oportunidade de fazer uma prova de Orientação no estrangeiro.

A prova do primeiro dia foi cancelada devido à neve, o que foi um pouco frustrante depois de uma viagem tão longa, mas acabou por ser um dia bem passado com os amigos a brincar na neve. Mas no 2º dia foi viável fazer a prova e lá fomos para um cenário deslumbrante, todo coberto por um espesso manto branco, numa floresta situada já a uma altitude considerável.

A caminho do primeiro ponto de controlo as coisas correram bem porque o relevo era nítido, mas o caminho mal se via no meio da neve. A caminho do segundo ponto de controlo surge o primeiro grande desafio. Saio do ponto 1, subo um esporão e vejo diante de mim uma ribeira com uma descida abrupta e uma subida íngreme do lado contrário. Na descida correu tudo bem, passei a linha de água e comecei a escalada. Ao fim de 7 ou 8 metros a escalar (a subida tinha 50m como se pode ver no mapa contando as curvas de nível) já não sentia as mãos. Percebi cedo que não era boa ideia cravar as mãos nuas na neve para me segurar. A meio da escalada passei por um espanhol que estava virado de cara para a rocha completamente petrificado uns 10 metros ao meu lado num local ainda mais íngreme. Perguntei-lhe se precisava de ajuda na esperança egoísta de uma recusa e foi isso mesmo que ele fez. “Estava tudo bem.” A custo cheguei ao cimo, mas como ia desconcentrado perdi-me à procura do ponto 2. Quando finalmente controlei o ponto já ia com cerca de 35 minutos de prova...

Do ponto 3 para o 4, a minha inexperiência fez-me recear ir a direito em direcção ao ponto e fui dar uma enorme volta apanhando o caminho junto à linha de água a norte. E mesmo assim perdi-me na mesma à chegada ao ponto 4

À saída do ponto 5, mais uma descida acentuada. O facto de não sentir as mãos fez com que deixasse fugir o mapa quando me preocupava só em procurar o sítio para passar a linha de água lá em baixo. O mapa ficou à vista mas tive que voltar a escalar uns 15 metros para o apanhar, pois entretanto já tinha deslizado na neve/lama. Como já tinham passados muitos atletas, os locais de saída e chegada aos pontos tornavam-se em autênticos lamaçais dificultando ainda mais a prova no aspecto físico. Por vezes uma subida que levaria um ou dois minutos em condições normais, ali era ao ritmo de 3 metros para cima, 2 para baixo e acabava por levar uns 10 minutos.



Do ponto 6 para o ponto 7 passávamos perto da chegada e a vontade de desistir era enorme. A próxima dificuldade era subir o monte a norte da estrada (mais de 50 metros). O factor que mais me motivou a não desistir foi o ranking da Taça de Portugal… Na altura, a pontuação era estabelecida com 20 pontos para o 1º classificado, 19 para o 2º classificado e assim sucessivamente até ao 16º classificado. A partir daí todos os participantes recebiam 5 pontos. No entanto, como esta prova era em Espanha e só estávamos 3 participantes do H21B, bastava-me terminar para receber 18 pontos… Por isso era necessário não desistir.

Encontrei o ponto 7 rapidamente e para o 8º a ligação era deslumbrante sempre em progressão numa área aberta no cimo de um esporão. E o momento mais hilariante aconteceu à chegada ao ponto 8. A zona era mais uma encosta íngreme e eu lá fui a escorregar por ali abaixo numa zona que estava totalmente enlameada e mais parecia um escorrega onde eu só conseguia travar a progressão agarrando-me com as mãos aos poucos tufos de erva que iam passando por mim… O problema é que quando passei à mesma altura do ponto estava uns 30 metros ao lado dele e continuava a escorregar para baixo. Lá parei uns 15 ou 20 metros mais abaixo completamente esgotado e sem força para voltar a subir. Devo ter levado vários minutos mas lá consegui controlar o ponto 8…

A caminho do ponto 10 perdi-me outra vez e quando cheguei ao 14, novamente perdido, comecei a sentir que isto ia ser uma prova muito ingrata. Mesmo o pouco ambicioso objectivo de chegar ao fim para obter os 18 pontos começava a ficar em risco porque o tempo limite de prova era de 3 horas e eu no ponto 14 do meu percurso de 7,1kms já ia com 2h20… Se chegasse depois das 3 horas poderia ser desclassificado e receber apenas 2 pontos em vez de 18… Comecei a olhar muito para o relógio…

Às 2h30m de prova perdi-me mais uma vez nas imediações do ponto 16. Faltavam três pontos para terminar e comecei nessa altura a ouvir a cerimónia de entrega de prémios… Para quem ainda andava perdido na neve não era um som reconfortante ouvir os aplausos e as chamadas ao pódio... Mais uma vez perdido no ponto 17. Estava extenuado e a concentração era nula.

Consegui terminar com 2h53m. Fiz 19 pontos para o ranking (um dos meus colegas de escalão desistiu), e foi sem dúvida inesquecível. Quer pelos cenários belíssimos, quer pelo facto de ter vencido o meu duelo com o relógio, com a lama e com a neve… Segundo os meus registos já fiz cerca de 500 percursos de Orientação em competição depois deste (dos quais uns 80 no estrangeiro), mas nenhum me ficou assim marcado na memória…

Foi uma das minhas primeiras provas da Taça de Portugal e marca claramente um dos pontos mais significativos da minha nova vida desde que descobri esta modalidade fascinante – nunca sabemos o que nos espera no próximo percurso que nos surgir pela frente...

Luís Santos
Fed 2076
CPOC – Clube Português de Orientação e Corrida

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6 comentários:

Joaquim Margarido disse...

Um agradecimento muito especial ao Luís Santos, por estrear este espaço. Permitir-nos partilhar desta forma tão saborosa um especial momento da sua já longa história como orientista é, de facto, um privilégio.

Gostaria de saudar ainda "o senhor que se segue", o nosso bem conhecido e estimado José Fernandes e chamar desde já a atenção para esse momento tão especial que irá partilhar connosco no último sábado de Fevereiro.

Até lá, se porventura tem uma boa história e um bom mapa para nos mostrar, faça-nos chegar a sua proposta. Teremos todo o gosto em dá-la à estampa.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

Acacio disse...

Uma primeira correcção à data (VII Campeonato Ibérico, 20/21 de Novembro de 1999). Depois, a ironia: a neve traz o defeso aos nórdicos do gelo, enquanto os ibéricos do Sol fazem o seu campeonato na neve. Finalmente, a constatação: este podia ser o mapa/prova de muita gente, incluindo este chaparro (não tivesse ele muitos mais)--fomos lá fazer a rodagem do Marea, (comprado uma semana antes, por telefone--o Tipo dera o berro), apanhando de tudo (neve, chuva, lama, ah, e pó e sol tórrido no regresso). Também foi nesta prova que me rendi aos ténis com "pitons", depois dos inúmeros tropeços e muito "skuar"...

Vitor disse...

Esta prova foi sem duvida memorável para todos os que nela participaram.
Estava um dia magnifico de Sol depois de ter nevado no dia anterior.
A paisagem era de uma extraordinária beleza, com os campos e árvores cobertas de um enorme manto branco.
Para terem uma ideia, era como fazer orientação num postal de natal.
Para alem do prazer de navegar sobre aquele manto branco e das descidas feitas em "Sku", do que não me esqueço foi da maneira como entrei no mapa.
Não é que cá o "esperto" quando chegou ao triângulo usou a bussola para saber que direcção tomar? Reparem onde resolveram colocar o triângulo...pois é, mesmo debaixo duma linha de alta tensão... como as coisas não batiam certas, por três vezes voltei ao triângulo para confirmar a direcção.

Luís Santos disse...

Obrigado pela correcção Acácio. Eu achei estranho esse Ibérico ter sido em Janeiro e não no final de 1999, mas este texto foi escrito (agora fiz-lhe adaptações) pouco depois de fazer a prova e coloquei a data do texto e não a data da prova.

Houve muitos outros episódios pitorescos nesta prova que eu não contei. Lembro-me por exemplo que o parque de estacionamento ficou transformado num imenso lamaçal e os últimos carros a sair de lá tinham uma missão deveras complicada no meio de muita patinagem... :-)

Mas agora temos aí à porta mais um Portugal'O'Meeting com mais de 1000 estrangeiros e certamente novas histórias teremos para contar...:-)

Saudações orientistas,
Luís Santos

Vitor disse...

A neve, os cavalos... e a baliza.

Para recordar em:

http://picasaweb.google.pt/vrodrigues54/Granada1999#5432608959021799314

NL disse...

Grande prova! Grande pelas memórias!
Um forte nevão no sábado, o pessoal a vir embora, o autocarro da selecção que nao conseguia fazer uma subida e o nosso antigo Setra sempre a "partir cascalho"! :) E a técnica de "um par de meias, um saco plástico e outro par de meias"! A fórmula mágica para manter os pés quentes de início ao fim! :)

Um abraço,
Nuno Leite