segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

NO 11º ANIVERSÁRIO DA CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ORIENTAÇÃO: GRANDE ENTREVISTA COM JOSÉ OTAVIO FRANCO DORNELLES

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“Hoje é dia de Festa…” No 11º Aniversário da Confederação Brasileira de Orientação (CBO), é com sentida emoção que o Orientovar dá a conhecer um pouco deste percurso de vida, nas palavras de quem mais de perto o viveu e sentiu. É este o ponto de partida da conversa com o nosso entrevistado de hoje, Jose Otavio Franco Dornelles, Presidente da CBO.


Orientovar - Faz precisamente hoje 11 anos que foi fundada a CBO. Que imagens guarda desse especial momento?

Jose Otavio Franco Dornelles - Eu guardo muito vivas três imagens desse momento: A primeira, quando foi declarada fundada a CBO e o esporte Orientação no Brasil passava a ser um esporte regular perante a Lei; a segunda foi a minha eleição para Presidente da CBO, pois neste momento senti a responsabilidade pelo processo de organização do esporte Orientação no Brasil; e a terceira, aquando da aprovação do Estatuto da CBO no dia 16 de Janeiro de 1999, após seis dias de trabalho em três turnos.

Orientovar - Podemos considerar que o processo que levou à fundação da CBO é o corolário lógico de uma seqüência de passos, uns naturalmente maiores do que outros. Quando teve verdadeiramente início esta caminhada e quais os momentos mais significativos?

Jose Otavio Franco Dornelles - Em 1990, ao realizar o Curso de Educação Física na Escola de Educação Física do Exército, tive a oportunidade de ser bi-Campeão das Forças Armadas do Brasil e, ao frequentar a disciplina de “Organização e Legislação Desportiva”, passei a conduzir a bandeira da organização da minha modalidade no Brasil. Em 1991 eu participei em Boräs, Suécia, do 24º Campeonato Mundial Militar de Orientação, onde vi pela primeira vez como era grande o esporte Orientação no meio civil e também tive acesso a ISOM de 1990, que foi o meu livro de estudo durante 5 anos.

Os outros momentos importantes têm a ver com a fundação em 1991 do Clube de Orientação de Santa Maria, primeiro clube de Orientação do Brasil e do qual eu fui seu primeiro Presidente; com a fundação em 1996 da Federação Gaúcha de Orientação, primeira federação estadual de Orientação do Brasil e da qual eu fui seu primeiro Presidente; e, não por último, em 1998, após 4 viagens para estudar Orientação na Suécia, fui ao Congresso da IOF em Sintra, Portugal, e depois voltei mais uma vez para a Suécia, desta vez para fazer um mapa em Gotemburgo para competição dos suecos. Neste ano, por onde andei, todos me cobraram a fundação da nossa Federação.

Orientovar - O José Otavio foi o primeiro - e único – Presidente da CBO, até à data. A que se deve este caso sério de longevidade?

Jose Otavio Franco Dornelles - Na verdade eu fui um atleta de elite campeão nacional, bom mapeador, organizador de eventos, professor de educação física e técnico, mas o que me levou a ficar tanto tempo nesta função é a minha dedicação exclusiva ao esporte Orientação.

Orientovar - Ao lermos o historial da Orientação no Brasil [
http://www.cbo.org.br/site/institucional/index.php], há três nomes que chamam igualmente a atenção: Coronel Tolentino Paz, Professor Leduc Fauth e Cesar Valmor Cordeiro. Quer-nos falar um pouco destes três vultos da Orientação brasileira?

Jose Otavio Franco Dornelles - O Coronel Tolentino Paz foi o primeiro militar que após ir para a Europa conhecer Orientação montou um percurso de Orientação no Brasil em 1971; o Professor Leduc Fauth recebeu a missão do Ministério da Educação para trazer personalidades do esporte Orientação da Suécia para divulgação no Brasil; quanto a Cesar Valmor Cordeiro, foi um dirigente que nos ajudou a fazer toda a documentação que constitui as entidades conforme a Lei e também nos acompanhou em viagens de estudo na Suécia para aplicar em nossas competições as regras da IOF.

Orientovar - Ainda de acordo com o mesmo historial, há uma referência relevante a Higino Esteves, Presidente da Federação Portuguesa de Orientação à data da fundação da CBO. Como é que funcionou institucionalmente esta ligação entre ambas as entidades? Essa ligação mantém-se na actualidade?

Jose Otavio Franco Dornelles - Quando decidimos fundar a CBO pedimos apoio a IOF para que pudéssemos fazer o que era correto e a Secretária Geral da IOF nos mandou o Sr. Higino Esteves, que era membro do Conselho da IOF e Presidente da Federação Portuguesa de Orientação. Eu já tinha feito conctato com ele durante a minha estadia em Sintra - Portugal, assim como Luis Sergio e outros membros da direção da FPO na época. Após a sua saída da Federação Portuguesa de Orientação perdemos o contacto e nunca mais nos comunicámos, mas estamos gratos por suas intervenções na fundação da CBO tais como “o esporte tem que ser dirigido pelos atletas e a Assembleia-Geral composta pelo maior número possível de dirigentes”.

Orientovar - Falando do momento actual da Orientação no Brasil, pedia-lhe que nos fizesse um ponto da situação?

Jose Otavio Franco Dornelles – A Orientação é, no Brasil, um esporte organizado maior que muitas modalidades olímpicas, que possui quadros de técnicos registrados no Conselho de Educação Física, quadro de mapeadores, quadro de árbitros, comissão científica com Doutores e Mestres no esporte, dez federações estaduais, 96 clubes e 9.303 atletas filiados. Nossa meta era chegar aos 11 anos com 10.000 atletas, mas não conseguimos e vai ficar para este ano.

Orientovar - Quais as grandes dificuldades que a Orientação enfrenta no Brasil e em que medida condicionam o seu crescimento e desenvolvimento?

Jose Otavio Franco Dornelles - Na verdade implantar um esporte desconhecido num país continental impõe grandes dificuldades, mas a capacitação dos profissionais que fazem o esporte é o nosso maior problema. Também por não ser uma modalidade olímpica, não temos acesso aos recursos previstos na Legislação desportiva, mas já está sendo resolvido com a profissionalização da gestão.

Orientovar - As provas de Parque e, sobretudo, de Praia são uma grande aposta da CBO. Que resultados têm colhido dessas experiências?

Jose Otavio Franco Dornelles - Estamos ainda avaliando, mas me parece que estas provas não contribuíram para mudar o cenário do nosso esporte perante os meios de Comunicação Social e o grande público, como sucedeu com o Voleibol de Praia, criado em Copacabana – Rio de Janeiro. Estes eventos se comportaram como mais uma competição de Orientação e às vezes competindo com outros eventos do Calendário.

Orientação - Percebe-se que o Brasil é o grande farol da Orientação no vasto continente Sul-Americano. Como é que sentem essa responsabilidade e que medidas vão sendo tomadas para corresponder às solicitações de países como a Argentina, o Uruguai, o Chile, o Paraguai, a Colômbia e outros?

Jose Otavio Franco Dornelles - Quando iniciámos a organizar o esporte Orientação, tivemos que iniciar do triangulo de partida e por isso eu não quero ser lembrado no futuro como quem que teve acesso ao conhecimento e não o passou para as outras pessoas. Montámos um grupo de trabalho com pessoas dos diversos países para planear e fomentar a Orientação na América do Sul, mas não está sendo fácil colocar em funcionamento este grupo.

O que temos de concreto hoje: Em relação à Argentina, realizamos cursos de capacitação anualmente e neste ano vamos formalizar algumas parcerias com Universidades; do Chile, temos pedidos para fazer dois cursos nos primeiros meses deste ano; quanto à Colômbia, já confeccionámos mapas do Parque Simon Bolívar e do Comité Olímpico Colombiano e temos que ir lá este ano para fazer Cursos de Formação de instrutores e mapeadores; no Uruguais realizámos igualmente diversos cursos, confeccionámos mapas, organizámos competição e estaremos indo com uma equipe para Punta Del Este no início de Fevereiro para escolher o local do Campeonato Sul Americano de 2011. Acredito que o Grupo de Trabalho vai funcionar e a promoção da Orientação na América do Sul será uma realidade

Orientovar - Até onde pode chegar a Orientação brasileira? Quais as grandes prioridades da CBO relativamente a um futuro a médio e longo prazo?

Jose Otavio Franco Dornelles - Em termos competitivos, a médio prazo (10 anos), teremos um atleta entre 30 melhores do Mundo e a longo prazo (15 anos) próximo ao pódio ou no pódio. Em termos administrativos nós já somos uma grande Confederação esportiva e estamos trabalhando a gestão para ter autonomia financeira e a médio prazo ter um centro de treinamento de atletas de alto rendimento.

Orientovar - Em 2016, o Rio de Janeiro irá receber os Jogos Olímpicos. A CBO tem previstas algumas iniciativas no sentido de se mostrar e de mostrar ao Mundo o desporto Orientação?

Jose Otavio Franco Dornelles - Assim que receber o sinal positivo da IOF nós faremos o contato com o Comité Organizador. Mas não se iludam com isto, pois o esporte Orientação teria que ter mais força nos Comités Olímpicos da América do Sul para garantir um evento paralelo de alto nível de participação. Nós temos convivido com o sonho olímpico da Orientação, mas na verdade nós é que temos que fazer este sonho se tornar realidade e, com certeza lhes digo, ninguém fará isso por nós.

Orientovar - A título muito particular, quase dez por cento dos visitantes do blogue Orientovar são orientistas brasileiros. Isto merece-lhe algum comentário?

Jose Otavio Franco Dornelles - Nós temos mais de 9.000 atletas e grande parte destes atletas tem seu jeito de viver fazendo orientação e ao procurar informações sobre Orientação ao redor do Mundo encontram o blogue Orientovar com facilidade.

Orientovar - Vamos ver o José Otavio na Presidência da CBO mais onze anos? Quais os seus projectos pessoais?

Jose Otavio Franco Dornelles - Eu nunca disputei eleição para Presidente de Clube, Federação e Confederação, sendo sempre eleito por aclamação. Nunca tive - e não tenho! - a pretensão de ficar aqui por muito tempo, mas tenho muita coisa para fazer como, por exemplo, nesta semana fui chamado ao Ministério da Educação para inserir a Orientação no sistema educacional. Até implantar nossa modalidade no maior número possível de Escolas é um longo trabalho e que vai demandar algum tempo e eu estou aqui para trabalhar e não para gozar de presidência da CBO. Temos que deixar claro que este cargo não é um cargo político e nem fonte de renda e por isso é uma função nobre que quem a ocupa exerce, um sacerdócio, a filosofia de vida de muitas pessoas. Quanto aos meus projectos pessoais, têm a ver com a concretização dum Centro de Treinamento de Orientação e com a publicação de dois livros que estou preparando.

Orientovar - Quer deixar-nos uma mensagem da Orientação brasileira para o Mundo?

Jose Otavio Franco Dornelles - Nós somos um país enorme, habitado pelas mais diversas etnias e com os mais diversos tipos de floresta, dominamos a cartografia de Orientação e estamos trabalhando para sermos bons organizadores de eventos e por isso teremos bons atletas e, o que tem de melhor na Orientação mundial nos receberá para competir e também passará por aqui nos próximos 15 anos. Nós trabalhamos Orientação para ser a actividade prazerosa de milhares de pessoas, mas também ser competitiva, olímpica e auto-sustentável financeiramente.







[fotos gentilmente cedidas por José Otavio Franco Dornelles]


O Orientovar agradece publicamente toda a disponibilidade e atenção manifestada por Jose Otavio Franco Dornelles, brindando aos 11 anos da Confederação Brasileira de Orientação, desejando as maiores felicidades a todos os orientistas brasileiros e fazendo votos para que todos os seus sonhos se concretizem. Se partilha deste sentimento, aproveite o espaço de Comentário e não deixe de enviar um forte abraço aos nossos irmãos do lado de lá do Atlântico.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

Ricardo Telmo disse...

Parabens pela entrevista, e muita forca para a orientacao no brazil, adorava 1 dia fazer 1 prova nesse pais cheio de potencialidades.

abraco