sábado, 16 de janeiro de 2010

A MINHA ESCOLA: ESCOLA SECUNDÁRIA DE PINHAL NOVO

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Depois de termos ficado a conhecer melhor o Grupo-Equipa de Orientação da Escola Básica Integrada da Apúlia, naquela que foi a estreia da rubrica “A Minha Escola” há quinze dias atrás, rumamos hoje à Península de Setúbal. Com o Professor Daniel Pó, vamos ao encontro da Escola Secundária de Pinhal Novo, o estabelecimento de ensino do País com o mais vasto historial ligado à Orientação do Desporto Escolar.

Corria o ano lectivo de 1998/1999 quando, na Escola Secundária de Pinhal Novo, foi lançado o AventurezaSPN, núcleo do Departamento de Educação Física que se propunha desenvolver actividades de contacto e exploração com a natureza. Além da Canoagem, Escalada e BTT, uma das vertentes desenvolvidas foi, precisamente, a Orientação, naquele que constituiu o pontapé de saída da modalidade na Escola. Os primeiros tempos foram de aprendizagem, mas em 2001/2002 era já possível vermos Joana Vitorino a disputar o apuramento para os Mundiais de Desporto Escolar da Marinha Grande, o qual viria a falhar por muito pouco.

Em 2002/2003, com a criação do Centro de Formação Desportiva de Orientação do Concelho de Palmela, assiste-se ao verdadeiro ponto de viragem do grupo. Neste âmbito é estabelecido um protocolo entre o Desporto Escolar, Câmaras Municipais de Palmela e Setúbal e Associação de Atletismo “Lebres do Sado”, permitindo mais e melhor trabalho, melhores actividades e uma maior participação no quadro federado. No ano seguinte os resultados começam a surgir de forma surpreendente, saldando-se até à data em inúmeros pódios nacionais, quatro pódios em Campeonatos do Mundo e ainda em oito dos seus atletas a terem a honra de envergar a camisola das quinas.

Quem é Daniel Pó?

Nascido em Moçambique, Daniel Jorge Martins Coelho Pó é o grande responsável por todo este brilhante trabalho. Tendo crescido em contacto permanente com a natureza, as suas primeiras experiências de Orientação deram-se na Faculdade de Motricidade Humana, no estágio profissional na Secundária de Palmela, numa Formação do CIMO e no Centro Militar de Educação Física e Desporto. Hoje com 38 anos de idade e dezasseis de actividade lectiva - treze dos quais na Secundária de Pinhal Novo, dois na Secundária de Palmela e um na Secundária Lima de Freitas – ao Professor Daniel Pó se deve o lançamento na Orientação de Joana Vitorino, Fábio Pereira, André Pedralva, Luís Silva, Mário Silva, Jorge Fortunato, Tiago Romão, Paulo Pereira, Miguel Mouco, Ricardo Reis e Fábio Silva, entre outros, todos atletas com resultados de destaque a nível nacional e internacional, quer pelos seus clubes quer pela Escola.

Actualmente com 12 Grupos-Equipa, a Escola Secundária de Pinhal Novo respira uma cultura de Desporto Escolar. Este facto, associado à actividade interna já desenvolvida antes do seu aparecimento formal no Programa de Desporto Escolar, permite que a Escola seja reconhecida a nível da Península de Setúbal e que seja condecorada com o prémio “Escola do Ano”. Toda esta dinâmica e exemplos de sucesso fazem com que haja continuamente novos alunos a quererem integrar o grupo e a tentar seguir as pisadas dos seus colegas ou ex-colegas de Escola.

“Há que dar alguma importância à angariação de novos atletas”

Orientovar - Ano novo, vida nova. Começava por lhe pedir um ponto da situação relativamente ao Grupo-Equipa de Orientação da Secundária de Pinhal Novo?

Professor Daniel Pó - Desde há alguns anos que a Escola Secundária de Pinhal Novo consegue ter alunos em três níveis de formação - Iniciação, Evolução Competitiva e Competição. No primeiro nível pretende-se angariar novos praticantes e ensinar-lhes as bases, no segundo nível aumentar-lhes o nível técnico e no terceiro trabalhar para o rendimento competitivo. Só em poucas ocasiões se conseguiu ter um equilíbrio entre os três níveis, devido à maior ou menor entrada de alunos para o grupo e às necessidades de maior atenção ao grupo de competição, especialmente nos anos de Campeonato do Mundo.

A participação da equipa de Juvenis Masculinos nos Mundiais ISF Madrid, com o grupo de jovens com quem já vinha trabalhando há alguns anos, como que ‘semi-encerrou’ um ciclo de formação no ano lectivo anterior. Este ano lectivo há que dar alguma importância à angariação de novos atletas. Realmente houve um conjunto de entradas no escalão de Iniciados que esperemos que venham a garantir o futuro das equipas de Orientação desta escola. O número total de alunos tem estado estável nestes três anos lectivos, com cerca de 35 inscritos e um número máximo de 20 participantes em treinos/ competições, até ao momento. Estes números são cerca de metade do que já se verificou nos "anos de ouro", com a ligação às “Lebres do Sado”, o Centro de Formação Desportiva, maior número de horas de Desporto Escolar, mais professores, outro dinamismo e maior disponibilidade da minha parte.


“Incutir-lhes o gosto pela modalidade”


Orientovar - Qual o segredo para uma Escola se manter na ribalta por um tão longo período de tempo?

Professor Daniel Pó - Actualmente é a cultura de modalidade na Escola, na Freguesia e no Concelho. Claro que este facto resulta de muito trabalho, dedicação e de um conjunto de jovens com talento que souberam agarrar as oportunidades que lhes foram dadas por um punhado de projectos que fizeram crescer a modalidade. Desses projectos destaca-se o do Centro de Formação Desportiva de Orientação, liderado pelo professor Ricardo Chumbinho, pessoa decisiva na minha formação e que, conjuntamente com o Professor José Paulo Pinho, da Escola Secundária de Palmela, têm sido meus parceiros de muitas organizações e projectos ao longo dos últimos 15 anos.

Orientovar - Quando aborda a Orientação com os seus alunos e o faz pela primeira vez, quais as suas principais preocupações?

Professor Daniel Pó – Incutir-lhes o gosto pela modalidade, tentando que as primeiras experiências não sejam frustrantes. Sempre que possível, respeitar as etapas de progressão, garantindo autonomia suficiente para realização de percursos com crescente nível de dificuldade.

“Gostaria de ter um Pavilhão Gimnodesportivo na Escola”

Orientovar - Os seus colegas também partilham desse entusiasmo e participam, mesmo que esporadicamente, em provas de Orientação?

Professor Daniel Pó - Há uns anos, em 1998, quando se iniciou o grupo AventurezaSPN, a Orientação fazia parte de um conjunto de actividades de aventura e exploração da natureza desenvolvidas pelo grupo. Cedo se destacou pelo cariz competitivo e pelos resultados, tornando-se a actividade mais realizada. O Departamento de Educação Física foi muito importante pelo apoio que sempre deu e pela participação na organização de actividades que visavam promover o grupo. Durante alguns anos havia um colega a trabalhar no grupo, mais vocacionado para o BTT, mas que trabalhava em conjunto comigo na dinamização de várias actividades, entre as quais a Orientação, levando também à participação em provas. Por vezes esses colegas ainda participam em provas.

Orientovar - Quais as condições que tem para desenvolver o seu trabalho? E quais gostaria de ter?


Professor Daniel Pó - Ao longo dos anos houve uma melhoria das condições de trabalho na própria Escola e área urbana circundante, dado o aumento dos mapas disponíveis. A instalação de iluminação nos campos de jogos também veio permitir outro tipo de trabalho. Os apoios da Escola, da Junta de Freguesia, da Câmara Municipal de Palmela e de algumas empresas da região têm igualmente permitido a participação em provas que não somente as do quadro competitivo escolar o que, nesta fase em que não temos uma estrutura como tínhamos quando estávamos ligados ao projecto CFD Orientação Palmela/ Lebres do Sado, é muito importante para a evolução dos atletas. Obviamente que gostaria de ter um Pavilhão Gimnodesportivo na Escola, preferencialmente com Ginásio e com uns balneários condignos. De qualquer forma, mais decisivo seria poder ter mapas de floresta próximo da Escola e uma carrinha de 7 ou 9 lugares sempre disponível para se poder treinar em mapa com uma frequência muito mais elevada. Outros aspectos importantes seriam ter uma manhã ou tarde em que não houvesse aulas para se poderem fazer esses treinos. A possibilidade de ter um colega da Escola a ajudar-me seria também importante.

“O nível dos ‘carolas’ é muito elevado”

Orientovar - Na Secundária de Pinhal Novo, existe alguma articulação directa entre o Desporto Escolar e o Desporto Federado ao nível do Grupo-Equipa de Orientação?

Professor Daniel Pó - Quando deixou de haver a possibilidade de continuar com o projecto que tivemos entre 2002 e 2007 com as Lebres do Sado através de um Centro de Formação Desportiva, questionámos os clubes da zona que nos davam maiores garantias de poder dar continuidade de apoio aos nossos atletas, inscrevendo-os ou renovando as inscrições pelo seu clube e transportando-os. Em termos técnicos poderíamos continuar a dar apoio total ou parcial, consoante a situação. O CPOC e a ADFA foram os clubes que mais apoio prestaram, principalmente este último. A ADFA conseguiu criar uma organização de transportes que permite levar às provas entre 8 a 16 alunos de Palmela e Pinhal Novo. Trata-se de uma parceria informal que muito tem beneficiado ambas as partes estando nós, escola, professores e alunos, muito agradecidos ao clube e ao sr. Jacinto Eleutério pela forma como todo o processo tem sido conduzido. É um sistema que se apresenta como uma excelente forma de possibilitar aos alunos a participação nos quadros competitivos nacionais e nos estágios, contribuindo decisivamente para elegerem a Orientação como a sua modalidade. O apoio técnico e material pode ser também um valor acrescentado.

Orientovar - Partilha da ideia da Professora Maria de Belém Magalhães (EBI da Apúlia) de que a Orientação continua a ser uma actividade para carolas?


Professor Daniel Pó - Já foi mais. Felizmente, e espero que cada vez mais, há pessoas que fazem da Orientação o seu modo de vida, não só profissionalmente mas também como forma de estar e de ocupação. O nível dos "carolas" é muito elevado, havendo um elevado número de pessoas com excelentes capacidades de liderança, de trabalho, de organização e de relação social que, pelo que conheço de outras modalidades, me deixa orgulhoso e confiante por também estar ligado a esta modalidade.

“A qualidade da organização nacional tem vindo a melhorar”

Orientovar - Ao nível do Desporto Escolar, que avaliação faz da evolução da modalidade?

Professor Daniel Pó - Apesar de parecer haver uma estagnação e até retrocesso nalguns anos no que respeita ao número de escolas que têm equipas de Orientação, a qualidade da organização nacional tem vindo a melhorar, fruto de uma real intenção de melhorar a modalidade e da ligação existente com a Federação Portuguesa de Orientação. Os bons resultados internacionais, embora fruto do trabalho realizado ao nível federado e de alguns malabarismos regulamentares, atestam a melhoria da organização institucional.

Orientovar - Estamos em ano de defeso no que aos Mundiais ISF diz respeito. Como tem visto o comportamento da Escola Secundária de Pinhal Novo nas provas já realizadas e que perspectivas se abrem quanto às provas futuras e, em particular, quanto aos Nacionais?


Professor Daniel Pó - Quanto aos Nacionais, continua a haver muito boas perspectivas, especialmente nos Juvenis Masculinos, mas também nos Iniciados Masculinos e Femininos. Ao nível das Juvenis falta-nos, de momento, mais duas atletas para compor a equipa. No que respeita aos Mundiais ISF, a equipa de Juvenis Masculinos poderá vir a ter algumas hipóteses de apuramento, embora tenha um potencial inferior ao das equipas de anos anteriores. A equipa de Iniciados Masculinos, caso alguns dos jovens que iniciaram este ano façam uma real aposta, poderá ter condições para lutar pelo apuramento.

“É decisivo cativar jovens nas escolas”

Orientovar - Todos desejamos vê-lo ligado à modalidade no Desporto Escolar por muitos e bons anos. Como é que gostaria de ver a Orientação daqui a uma década?

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Professor Daniel Pó - Para além de se manter o espírito único que a modalidade apresenta, com as famílias a participar, com os participantes a partilharem o "solo duro" e algumas vezes a partilharem e confeccionarem refeições, com o conhecimento de todo o pais e com o contacto com a natureza, gostaria de ver ainda mais aumentado o número de participantes, melhorado o nível competitivo das selecções e que a Orientação fosse considerada como uma actividade turística de grande importância.

Para lá chegar há que criar condições para que os elementos que se destacam na modalidade a vários níveis - competitivo, técnico, organizacional, cartografia, etc. possam apostar na modalidade como meio de vida. Há também que seguir a linha de desenvolvimento que tem vindo a ser seguida, procurando levar a Orientação a muitos locais e áreas de actividade, tentando que todos os que estão envolvidos na modalidade possam dar o seu contributo para cada vez mais trazer mais praticantes. Claro que é decisivo cativar jovens nas escolas, motivando os professores a trabalhar nesta área do Desporto Escolar, com mapas e provas nas proximidades das escolas, motivando-os também a participarem ao nível federado.

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Artigo relacionado - Escola Básica Integrada da Apúlia [AQUI]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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3 comentários:

Jorge Fortunato disse...

É com muito orgulho que vejo este projecto continuar a motivar jovens à prática da modalidade.
Pela formação que me deram, quer desportiva que a nível pessoal, à Escola Secundária de Pinhal Novo e ao prof. Daniel Pó um grande "obrigado".

Nuno Rebelo disse...

É verdade se não fosse o Daniel Pó e o Ricardo Chumbinho não tinha voltado á orientação ainda nas Lebres do Sado.
E ainda agradecer o esforço de levarem a orientação para as escolas do concelho e ter criada umas das melhores "fábricas" de jovens orientistas destes ultimos anos. As provas de desporto escolar e o Troféu Ori-Lebres foi a montra para alguns destes jovens.
Parabéns a todos o Profs que com muito esforço poderam dar o seu tempo para a nossa modalidade.

José disse...

Não há dúvida, os clubes não podem fazer tudo.
O desporto escolar é a fonte do desporto federado nas várias modalidades.
Particularmente no que à ORI diz respeito, a nossa modalidade só poderá crescer quando um maior número de escolas do país estiver ao nível destas, do Pinhal Novo e de Palmela.
A FPO tem que continuar e reforçar o seu papel estratégico junto dos responsáveis do desporto escolar. Os clubes, igualmente, têm que colaborar estreitamente com as escolas das suas áreas.
Não é tarefa fácil, sabemos que na esmagadora maioria das nossa escolas não há profs de educação física com conhecimentos de ORI.