sábado, 2 de janeiro de 2010

A MINHA ESCOLA: ESCOLA BÁSICA INTEGRADA DA APÚLIA

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O Orientovar abre o ano de 2010 com uma nova rubrica. Chama-se “A Minha Escola” e pretende transformar-se num roteiro que, periodicamente, dê a conhecer uma Escola, um Professor e um Grupo-Equipa de Orientação. Nesta primeira edição duma série que se espera de muitas, rumamos ao Verde Minho e à Apúlia, ao encontro da Professora Maria de Belém Magalhães.

Freguesia do concelho de Esposende, a Apúlia é uma pequena vila situada junto à Costa Atlântica, com 10,51 km² e uma população a rondar os 4.500 habitantes. É conhecida pela sua excelente praia, pelos moinhos que bordejam as sobranceiras dunas e por essa figura, hoje praticamente desaparecida, do sargaceiro.

O Agrupamento de Escolas de Apúlia é constituído por uma Escola Básica do 1º Ciclo (EB1 de Areia), quatro estabelecimentos integrados de Jardim de Infância e Escola Básica do 1º Ciclo (EB1/JI de Rio Tinto, Fonte Boa, Facho e Criaz) e por uma Escola Básica Integrada dos 2º e 3º Ciclos (EBI de Apúlia). A Sede do Agrupamento de Escolas de Apúlia situa-se geograficamente na freguesia de Apúlia, concelho de Esposende, nas instalações da unidade de ensino onde funciona a EBI.

Venha conhecer Maria de Belém Magalhães

Ligado ao Departamento de Expressões, o Grupo Disciplinar de Educação Física da Escola Básica Integrada da Apúlia tem na Professora Maria de Belém Magalhães a sua mais recente aquisição. Com 43 anos acabadinhos de fazer, Belém Magalhães é natural da freguesia da Vitória (Porto), é Licenciada em Desporto e Educação Física pela Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto e tem o Curso de Mestrado em Ciências do Desporto, na área de especialização de Desporto de Recreação e Lazer.

O seu percurso lectivo teve início em 1997/1998, na EB 2,3 Padre Américo (Valongo), tendo depois passado pela Escola Secundária de Ermesinde, EB 2,3 Frei João (Vila do Conde), Escola Secundária José Régio (Vila do Conde) e EB 2,3 “A Ribeirinha” – Macieira da Maia (Vila do Conde). Ligada desde sempre à Orientação, onde tem desenvolvido um trabalho notável ao nível da Formação no Desporto Escolar, Maria de Belém Magalhães foi ainda Professora-Coordenadora dum Centro de Formação Desportiva de Orientação (2005/2006 e 2006/2007) e duma Escola de Referência Desportiva de Orientação (2007/2008 e 2008/2009), sempre com sede na EB 2,3 “A Ribeirinha” – Macieira da Maia (Vila do Conde).

“Muito mais difícil do que imaginava”

Orientovar - Apúlia representa um ponto de viragem na sua carreira, enquanto professora. Quais os motivos que a levaram a trocar de Escola?

Maria de Belém Magalhães - Foi uma opção de vida, essencialmente devido à possibilidade de ficar mais próxima de Fão, onde vivo. A Orientação foi um projecto que abracei de forma intensa e que me afastou de casa nos últimos seis anos. Mas senti que na Apúlia teria melhores condições em termos profissionais e pessoais, daí a mudança.

Orientovar - Foi fácil?

Maria de Belém Magalhães - De maneira nenhuma. Foi muito mais difícil do que imaginava. Numa primeira fase, encaminhar os meus projectos para alguém que lhes pudesse dar continuidade foi a minha grande preocupação. Tive a felicidade de ter conversado com o Professor José Mário Baptista, ele abriu as portas aos meus alunos e só não transitou para ele quem não quis. A partir daqui fiquei mais tranquila, mas seis anos numa Escola geram sempre um turbilhão de emoções fortes. São os laços que se criam com alunos, colegas, encarregados de educação e que não são fáceis de quebrar. Por isso custou muitíssimo.

“Enquanto houver paixão, haverá sempre Orientação”

Orientovar - Mudou de Escola mas não mudou de projecto…

Maria de Belém Magalhães - Claro que não. Enquanto houver paixão, haverá sempre Orientação. Dou aulas de Educação Física a três turmas, tenho Área de Projecto e ainda alunos com Necessidades Especiais. Aproveitei trabalhar a modalidade já na Área de Projecto, uma vez que o tema por mim escolhido foi “Desporto, Saúde e Ambiente”, no qual a Orientação encaixa lindamente. Isto é novo para mim e para os meus alunos mas percebe-se que há aqui um grupo interessado. São 21 alunos, todos Iniciados, com 13, 14 e 15 anos, à excepção duma aluna do 5º Ano. Embora isto seja uma Escola Básica Integrada, não está nos meus projectos privilegiar a Orientação no 1º Ciclo.

Orientovar - Que condições tem para desenvolver o seu trabalho?

Maria de Belém Magalhães - Em todos os anos anteriores trabalhei sempre com croquis e aqui, pela primeira vez, tenho uma ferramenta fantástica que é um mapa de Orientação da Escola. Trata-se dum mapa que é um carinho feito por um ex-aluno meu, o Domingos Martins, a quem estou eternamente grata. É mais uma parte emocional a funcionar. Um dia era pequenino como todos os outros e agora já me está a fazer um mapa… Para além disto, há outro aspecto relevante e que tem a ver com os horários. Como a Escola é pequenina, faço aquilo que gosto em horário lectivo, não tendo que despender sistematicamente os meus sábados para os treinos com os alunos. E depois há a Câmara Municipal de Esposende e as Juntas de Freguesia que têm contribuído em termos de transportes. De acordo com as disponibilidades saímos ou não saímos, de acordo com as condições atmosféricas saímos ou não saímos e vamos jogando assim.

Orientovar - E como é que têm corrido essas saídas?

Maria de Belém Magalhães - Estou a fazer a progressão de mapas de acordo com as provas. Numa primeira fase temos explorado mapas de Parque. Já fomos a Barcelos, a Vila do Conde, às Sete Bicas e à Quinta da Conceição. Privilegio este tipo de mapas visto que se torna mais simples para os alunos perceberam o que é a Orientação. Entretanto participámos com 16 alunos na Prova de Abertura do Desporto Escolar em Vieira do Minho, embora em condições climatéricas horríveis, com muita chuva. Até ao momento os resultados são muito positivos e os alunos estão a gostar. Particularmente em Barcelos, foi uma experiência muito gratificante para mim vê-los a terminar a prova, a manifestarem todo o seu entusiasmo e a perguntarem já quando é a próxima.

“Esta continua a ser uma actividade para carolas”

Orientovar - Passámos de 52 Grupos-Equipa de Orientação em 2008/2009 para os 72 Grupos-Equipa no corrente ano lectivo. Esta é uma situação ocasional ou, de facto, a modalidade está a crescer de forma sustentada?

Maria de Belém Magalhães - Eu acho que está a crescer. De acordo com a realidade que eu conheço, referente a Braga, a Professora Paula Serra Campos diz-me que o número de alunos a praticar Orientação duplicou. O ano passado vinham muito menos miúdos. Isto é muito bom, embora tenha o senão de atrasar as provas (risos).

Orientovar - Ainda assim, porque é que não há mais professores interessados em dar Orientação nas escolas?

Maria de Belém Magalhães - Esta continua a ser uma actividade para carolas. Dar Orientação implica sairmos da Escola e, logo aí, há uma montanha de dificuldades a vencer. São necessárias autorizações, contactar entidades que assegurem os transportes, garantir condições de segurança nos locais onde se irá desenvolver a actividade... É preciso uma certa coragem para pegar num grupo de 18 alunos e levá-los para um treino em plena cidade de Vila do Conde, por exemplo. É seguramente muito mais fácil ficar na Escola, ir à arrecadação buscar um monte de bolas e ter os alunos ali debaixo de olho o tempo todo.

Orientovar - E, na sua perspectiva, porque motivo temos bons orientistas em Portugal que até são professores de Educação Física e não os vemos à frente de Grupos-Equipa de Orientação nas respectivas escolas?


Maria de Belém Magalhães - Talvez um pouco por aquilo que disse anteriormente, mas também para fugirem a uma certa saturação. Eu, por exemplo, dedico parte do meu tempo livre ao treino de Squash como forma de compensar o tempo dedicado na Escola à Orientação. É possível que aquelas pessoas que fazem Orientação no dia-a-dia fujam em certa medida à Orientação na Escola, alargando dessa forma o seu leque de interesses. Mas isto é generalizado a todos os desportos. Há professores que têm formação específica numa determinada área mas que não a desenvolvem ao nível do Desporto Escolar. Se calhar também porque são muito competitivos e têm consciência que não encontram na Escola alunos que satisfaçam determinado tipo de exigências.

“Tudo farei para os contagiar”

Orientovar - Que grau de competitividade coloca nas participações dos seus alunos?

Maria de Belém Magalhães - Não sou nada competitiva. Apesar de ter um quadro competitivo no qual sou obrigada a participar, a minha prioridade é a formação, é usar a modalidade ao serviço dos alunos para desenvolver capacidades. A Orientação é uma modalidade que respeita ritmos e pode ser praticada por qualquer miúdo, o gordinho, o baixinho, o lento, o rápido, com necessidades especiais... É a modalidade mais inclusiva que existe. Uma coisa que me irrita na generalidade das modalidades é a necessidade de definir um escalão, deixando sempre de fora um certo universo de alunos. Na Orientação não é assim. Eu vou com um grupo de miúdos de diversos escalões e de ambos os sexos à mesma prova, que podem fazê-la individualmente ou em grupo. Toda a gente participa. Só tem de gostar da natureza, de gostar de conviver e de gostar de desafios. É isto é que me apaixona neste desporto.

Orientovar - Entrados no segundo período, o que poderemos esperar dos meninos da EBI da Apúlia?

Maria de Belém Magalhães - Aquilo que eu peço aos meninos da Apúlia é aquilo que sempre pedi a todos os outros: Que façam a prova correctamente e que se divirtam, que gozem ao fazê-la. É importante que consigam aplicar aquilo que aprenderam mas é igualmente importante que sintam prazer em fazer Orientação. É tudo quanto peço.

Orientovar - Para terminar, quer-nos falar dos seus projectos de futuro?

Maria de Belém Magalhães - Pensando num ciclo de quatro anos, quero pôr os miúdos a gostar da modalidade. Confesso que ainda me sinto bastante insegura mas tudo farei para os contagiar. Nesse aspecto, julgo que estou a ser bem sucedida até ao momento. Custou-me vê-los participar na Prova de Abertura debaixo de chuva, em condições tão desagradáveis. É sabido que para competir é preciso estar presente faça sol, faça chuva ou faça neve mas eu costumo dizer que não sou da competição. Nesse aspecto sou muito comodista, gosto de bom tempo. Particularmente se estamos numa fase inicial, a ensinar, a tentar contagiar os alunos, as condições têm de ser as ideais. Se o aluno ainda está inseguro, se precisa de mais tempo para ler e interpretar o mapa, se anda mais devagar, o prazer que retira da prática da modalidade a chover é muito pouco e o resultado pode ser mesmo contraproducente.








[Fotos gentilmente cedidas por Maria de Belém Magalhães]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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2 comentários:

PFernandes disse...

Bom Ano Orientovar e desde já parabéns pela nova rubrica!

Sem dúvida só a carolice de professores, dirigentes, jornalistas e atletas vai levando a Modalidade ao desenvolvimento e projecção que merece.

Talvez agora o Desporto Escolar (nomeadamente os alunos/futuros atletas) possam iniciar uma visita semanal ao blog, o que decerto contribuirá para o seu enriquecimento na modalidade. E já agora com o respectivo comentáriozinho...


Saúdações Orientadas,
Paulo Fernandes

Vitor disse...

Parabéns por mais esta excelente rubrica, que vai contribuir com certeza para termos uma consciência mais concreta da nossa realidade a nível da orientação.
Sábias as palavras da professora quando define o que torna este apaixonante desporto tão especial.