quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

JOÃO MANOEL FRANCO: "ORIENTAÇÃO É MAIS QUE UM DESPORTO, É UM ESTILO DE VIDA"


É com enorme satisfação que o Orientovar volta a abordar a Orientação no Brasil, apresentando uma Grande Entrevista com um dos seus mais destacados representantes. Hoje “voamos” até São José dos Campos ao encontro de João Manoel Franco, Chefe da Torre de Controlo do Aeroporto local, militar e orientista.

Nascido em 14 de Junho de 1967 em Bauru, no Estado de São Paulo, João Manuel Franco descobriu a Orientação na Escola Militar em 1984. Atleta da Equipe de Orientação da Força Aérea Brasileira de 1986 até 2008, do seu vasto currículo constam três títulos de Campeão Brasileiro de Orientação das Forças Armadas (1987, 1999 e 2001), duas vitórias no Campeonato Sul-Americano (1997 e 1999), vários títulos de Campeão Estadual no Rio de Janeiro e em São Paulo e sete participações nos Campeonatos Mundiais Militares de Orientação (Suécia em 1991, Brasil em 1992, Noruega em 2000, Portugal em 2001, Holanda em 2004, Finlândia em 2005 e Croácia em 2007).

À margem da competição, trabalhou como cartógrafo e traçador de percursos de Orientação em numerosos eventos e foi ainda um dos membros da Comissão Organizadora do Mundial Militar de Orientação no Brasil, em Guarapuava (2006). É do seu percurso que falamos nesta longa conversa, um percurso que serve de pretexto para abordarmos circunstanciadamente o passado, presente e futuro da Orientação brasileira.


Orientovar - Para si, o que é a Orientação?

João Manoel Franco - Orientação é um excelente desporto, onde pude reunir meus interesses em actividade física, contanto com o meio ambiente, aventura em locais antes desconhecidos, desafios de competição com outros concorrentes, superação de obstáculos naturais, desafios mentais interessantes, conhecer óptimas paisagens e lugares pitorescos, viagens interessantes por todo o país e na Europa, uso de mapas e equipamentos de auxílio à navegação, contacto com novas pessoas em ambiente amigável e oportunidade para boas amizades. Orientação é mais que um desporto, é um estilo de vida.

Orientovar - Como é que surgiu o contacto com a modalidade? Que recordações guarda desses momentos primeiros?

João Manoel Franco - Meu primeiro contacto foi numa escola militar em 1984. Logo no início do curso foram seleccionados os atletas das várias modalidades para a competição interna. Eu tinha interesse em praticar algum desporto, mas não tinha nenhuma experiência anterior. Tentei a equipe de corrida rústica, mas não consegui índice, pois havia vários colegas que já corriam antes. Quando chamaram 10 voluntários para uma nova modalidade que envolvia corrida, logo me prontifiquei. Eu não sabia o que era, mas como estava interessado em aprender a correr, levantei logo a mão. O grupo foi levado para uma apresentação sobre Orientação com Vitorino Calvi, que participava da equipe da Força Aérea desde 1971, e que naquele ano era o técnico. Quando ele mostrou o que era a Orientação, com algumas fotos dos Campeonatos Brasileiros e dos Campeonatos Mundiais Militares em que participou, visualizei que aquele era um desporto no qual eu poderia ir bem se tivesse dedicação. Ele disse que para praticar Orientação era necessário correr bem e ser esperto. Pensei comigo: “Eu sou inteligente, só preciso treinar para correr melhor”. Fiquei apaixonado pelo desporto desde aquele dia e coloquei como objectivo pessoal fazer parte da Equipe da Força Aérea e participar no Campeonato Mundial. Foi um entusiasmo que persistiu ao longo dos anos.

Orientovar - Ao longo de 22 anos, foi um assíduo e interessado praticante. Como é que foi a sua evolução como orientista e de que forma tem acompanhado a evolução da Orientação no Brasil?

João Manoel Franco - Minha evolução como atleta foi rápida, quando comparada à de outros orientistas brasileiros da mesma época, pois tinha disposição para treinar muito e tive um bom apoio inicial nos primeiros anos de aprendizagem, o que é fundamental para quem está começando. Entretanto, enfrentei todas as limitações que haviam na década de 80 e 90 para o desenvolvimento da Orientação no Brasil, como mapas de baixa qualidade, feitos na maioria das vezes por cartógrafos sem contacto com a modalidade, poucas competições fora do meio militar até 1995, pouco apoio para ser atleta em tempo integral e poucos clubes de Orientação. Desde 1990 comecei a envolver-me na organização de eventos, traçando percursos e aprendendo a confecção de mapas, inclusive viajando para a Europa para aprender mais. Havia a necessidade de cooperar para o aumento na quantidade de eventos e na qualidade dos mapas. Meu ápice da preparação física foi em 92, quando tivemos um Campeonato Mundial Militar no Brasil, mas como orientista só tive resultados mais consistentes a partir de 2000, quando haviam mais competições nacionais e mais oportunidades para competições internacionais. Apesar de estar entre os primeiros atletas do Brasil até 2008, sempre fui um apoiante na organização dos Campeonatos, inclusive fazendo mapas e traçando percursos para etapas de Campeonato Estadual e do Campeonato Brasileiro da CBO, além dos Campeonatos entre as Escolas Militares. Pude conciliar bem o interesse do desporto no meio militar com a ajuda ao desenvolvimento da Orientação, utilizando os mapas das provas militares para competições civis, logo em seguida.

Orientovar - Na sua perspectiva, ponderado o actual estado da Orientação brasileira, quais os aspectos onde é necessário um maior investimento?


João Manoel Franco - Houve um grande trabalho inicial da CBO em prol da estruturação da Orientação no Brasil, cuidando das regras, apoiando os Campeonatos Nacionais e capacitando cartógrafos, árbitros e técnicos. O próximo passo será a implantação da Orientação nas escolas a nível nacional. Mas um ponto em que é necessário mais investimento seria num Centro de Treino nacional, com profissionais adequados e apoio em tempo integral para os atletas. Isto ainda não aconteceu plenamente no meio militar, razão pela qual estamos próximo da 15ª posição nos campeonatos recentes. Para melhorar esta situação, para termos atletas de nível internacional, precisamos investir em jovens com potencial – que temos encontrado com certa regularidade – e dar apoio para que eles treinem em tempo integral, competindo regularmente no circuito nacional e participando numa temporada por ano no exterior.

Orientovar - Percebe-se que, no Brasil, são ainda poucos aqueles que aderiram à proposta dos blogues. Por outro lado, as páginas institucionais encontram-se frequentemente desactualizadas pelo que há a necessidade de suprir essas falhas. Quer-me falar um pouco do seu “Blogue do Orientista”?

João Manoel Franco - Como já referi, sempre trabalhei para o desenvolvimento do desporto, dentro das minhas possibilidades. Uma característica pessoal foi a de apoiar novas iniciativas e implementar novidades. Não tenho muito tempo para usar a Internet, nem para manter uma página na Web, mas propus-me a disponibilizar algumas informações sobre os eventos nacionais, que estão com pouca divulgação actualmente. O blogue é uma ferramenta de fácil manuseio, na qual podemos comentar sobre as novidades e até colocar algumas opiniões pessoais. Ainda estou longe de fazer um bom blogue, devido a limitações pessoais, mas espero que outros sigam o exemplo e façam algo melhor. E espero que os clubes de Orientação passem a actualizar mais suas páginas, divulgando melhor seus eventos.

Orientovar - Sei que está na calha um livro que pretende publicar proximamente. Seria possível fazer-nos uma antevisão da obra?

João Manoel Franco - O objectivo desse livro é disponibilizar parte do conhecimento técnico já difundido pelas Federações Internacionais, adaptando aquilo que vem sendo aplicado nos treinos aqui no Brasil. Senti a necessidade de livros para os principiantes na Orientação. Resolvi compartilhar com mais pessoas o conhecimento que adquiri ao longo de mais de 20 anos competindo na categoria Elite, cartografando e montando eventos de Orientação. O livro é escrito na primeira pessoa, em formato de dicas numeradas, onde as instruções são baseadas em experiências pessoais, com algumas histórias interessantes que presenciei, conhecimentos adquiridos em várias palestras, com a leitura de textos de diversos autores e também citações de algumas regras essenciais para todos os orientistas. O título deverá ser: “Manual do Jovem Orientista – Dicas de um Orientista da Elite”. Acredito que minhas dicas serão interessantes, pois nunca as vi colocadas da maneira que estou fazendo. Espero que meu livro venha acrescentar algo mais para o desenvolvimento da Orientação no Brasil, mostrando aos jovens orientistas algumas técnicas interessantes que podem ser utilizadas no treino individual, com detalhes que poucos sabem mostrar.

Orientovar - Possivelmente vamos vê-lo empenhado na Organização dos Jogos Mundiais Militares de 2011, no Rio de Janeiro. Que lições se poderão retirar duma experiência que, seguramente, trará ao Brasil muitos dos melhores orientistas de Elite a nível mundial?

João Manoel Franco - Em 2006 organizámos nosso 3º Campeonato Mundial, que foi bastante elogiado pelos participantes. Nós temos algumas limitações em termos de estrutura para um evento tão grande, mas fazemos o melhor possível e podemos atender à expectativa principal. O Rio de Janeiro é óptimo para turismo, mas tem algumas dificuldades para a organização de eventos de Orientação, onde a principal delas é o limitado número de áreas disponíveis para o desporto. É provável que o formato das competições não seja o tradicional, por causa da dificuldade de área para o percurso longo, mas o objectivo é que a nossa modalidade continue incluída nos Jogos Militares, que podem acontecer em países que não têm tradição na Orientação. Há a possibilidade de ocorrer um evento de Sprint, com maior visualização pelo público. Será uma experiência interessante para saber como seria se a Orientação estivesse no programa dos Jogos Olímpicos de 2016.

Orientovar - Falando precisamente dos Jogos Olímpicos, o Rio de Janeiro recebe, em 2016, esse grande acontecimento, numa altura em que a Orientação se bate para ser admitida no leque das modalidades olímpicas. Na sua opinião, de que forma poderíamos almejar ao tão ambicionado estatuto?

João Manoel Franco - Esta é uma questão difícil, que depende muito da política do Comité Olímpico Internacional, mas que depende mais da evolução da Orientação nos países que ainda não são membros da IOF. Alguns desportos recém-incluídos tiveram sua vez devido à popularidade internacional, outros poderiam até ser retirados. Quando a Orientação for vista como um desporto mais atractivo ao público internacional, devido à sua difusão pelo mundo, certamente terá fortes hipóteses de ser incluída nos Jogos Olímpicos.

Orientovar - Em 2009, a Orientação brasileira viveu sob o lema "Orientação - Um Esporte para Estudantes". Que avaliação faz do trabalho desenvolvido neste particular sentido?

João Manoel Franco - O Presidente da CBO trabalhou nisto o ano todo, para incorporar esta mentalidade e na última actividade do ano, no dia 22 de Dezembro de 2009, foi convidado pela CDMB para ir ao Ministério da Educação para aderir ao Programa “Mais Educação”. O que isto significa? A Orientação será oferecida a todas as escolas públicas do Brasil. E agora? O que vamos fazer? Esta é a pauta da Assembleia-Geral da CBO de 2010, que vai decidir como deveremos actuar. Temos uma base de educadores com experiência em Orientação, formados nos cursos de Educação Física de dois estados, e vários outros professores que conheceram a modalidade e participam nos nossos eventos. Temos uma boa quantidade de cartógrafos espalhados pelo país. Já temos vários exemplos de sucesso com actividades de Orientação em escolas públicas e espero que possamos atender à tarefa de aderir a um programa nacional, divulgando mais o nosso desporto ao público jovem.

Orientovar - Quer deixar uma mensagem aos orientistas, em particular aos seus colegas brasileiros?

João Manoel Franco - Eu nasci na mesma cidade do primeiro astronauta brasileiro e tenho em comum que sempre sonhei bastante e trabalhei para que os meus sonhos se tornassem realidade. A Orientação no Brasil tem experimentado um crescimento progressivo. As condições de competição hoje estão muito melhores do que há vinte anos atrás. Muitas pessoas trabalharam com afinco para que isto fosse possível. Espero que os orientistas das novas gerações valorizem o que já conseguimos alcançar e procurem trabalhar connosco para que o nosso desporto continue crescendo.
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[Fotos gentilmente cedidas por João Manoel Franco]

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Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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1 comentário:

Simone disse...

Esse cara é mais que 10. É quase 11!
Simone-esposa