segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

I MEETING INTERNACIONAL DE ARRAIOLOS: A ANTEVISÃO DE LUÍS SANTOS

.

O I Meeting Internacional de Arraiolos marca o reencontro de três importantes individualidades da Orientação portuguesa. Três pessoas que são, acima de tudo, grandes amigos. Falo de Raquel Costa, a Directora da prova, de Tiago Aires, o seu Director Técnico e de Luís Santos, o Supervisor. E se Tiago Aires já abordou a prova, neste mesmo espaço, há alguns dias atrás, hoje é com a ajuda de Luís Santos que fazemos a antevisão do primeiro grande evento de 2010.


Orientovar - Após um longo período de afastamento relativo, é bom vê-lo de regresso à alta-roda organizativa. De que forma abraçou esta oportunidade e como encara o seu papel de Supervisor na primeira grande prova de fogo dum clube-modelo como é o GafanhOri?

Luís Santos - A oportunidade de trabalhar com o Gafanhori surgiu muito antes da decisão de reduzir a minha carga de trabalho ligada à Orientação. A nomeação para o evento surgiu em Junho de 2008. Afastei-me mais da Orientação em Maio de 2009, principalmente com a saída da Direcção do CPOC, mas mantive os compromissos que tinha assumido na Federação, nomeadamente nas tarefas de Supervisão, nos trabalhos do Conselho de Arbitragem e no Departamento de Cartografia.

O meu interesse em fazer esta Supervisão do Gafanhori prende-se essencialmente com a grande amizade que me liga ao Tiago Aires, pois trabalhamos juntos em organizações praticamente há 10 anos, ele sempre mais ligado à parte técnica e eu à gestão dos eventos. É para mim uma enorme honra poder estar ligado a este grande evento que irá marcar a estreia do GafanhOri na organização de eventos de nível nacional e internacional.


Orientovar - Como é que tem corrido a articulação entre a sua Supervisão e a Direcção da Prova?

Luís Santos - Também conheço a Raquel Costa desde os primeiros passos que deu na Orientação. Desde aí ela tornou-se numa das mulheres mais activas da nossa modalidade, sendo a única cartógrafa a exercer e já tem provas dadas na Direcção de Eventos, desde o primeiro em que foi Directora de Prova em Dezembro de 2005, na Gâmbia (Setúbal), numa escolha minha quando ela ainda estava comigo no CPOC. Ainda recentemente, já o GafanhOri estava em plena actividade, e nós continuávamos a trabalhar juntos no grande projecto que foi o Portugal O’ Meeting 2009, em Mora. Sendo ela a Directora de Prova e o Tiago o Director Técnico, é fácil constatar que nos articulamos de forma perfeita.

Orientovar - Poderá parecer estranha a questão, mas permita-me colocá-la nestes moldes: Enquanto Supervisor da prova, em algum momento sentiu que a forte amizade e sadia cumplicidade que mantém com o Tiago Aires e com a Raquel Costa poderão tê-lo condicionado nalgumas tomadas de decisão?

Luís Santos - Isso poderia realmente ser um problema se houvesse tendência para facilitar e se o clube organizador visse esta prova como uma oportunidade para obter lucros e nada mais. Todos sabemos que, no GafanhOri - e esse espírito já vem do nosso trabalho conjunto no CPOC e ainda há mais tempo no CDCE - o que move todo o grupo é a satisfação de todos os participantes sendo o grau de exigência e empenho do Tiago e da Raquel muitíssimo elevados, quer para os padrões nacionais habituais, quer mesmo para os padrões internacionais. Isso vê-se em aspectos técnicos como a escolha dos cartógrafos. Apesar de tanto o Tiago como a Raquel serem cartógrafos, foram contratar cartógrafos russos e finlandeses, numa grande aposta para a produção dos mapas. Mas também em aspectos logísticos, como a oferta das duas refeições a todos os participantes ou o cuidado de não ter ninguém do clube a participar, permitindo ter uma equipa de trabalho com 98 pessoas, são reveladores dessa exigência e da dedicação que todo o clube coloca neste evento.

Com estes dados na minha cabeça posso concentrar-me com clareza nas minhas tarefas de Supervisão, não num trabalho de "ajuda" à organização, como em muitos eventos acabamos por ter de desempenhar, mas sim num trabalho de antecipar aspectos que possam não estar a ser acautelados, tendo sempre em vista a satisfação dos participantes no evento e a justiça desportiva da competição.

Orientovar - Quais são, na sua opinião, as grandes mais-valias deste I Meeting Internacional de Arraiolos?

Luís Santos - Se começar a falar nos aspectos logísticos, como a óptima página do evento, as refeições oferecidas ou a projecção das excepcionais Arenas de ambos os dias, será como dizer que determinado filme tem óptimos cenários e boa música... O essencial para tornar este evento memorável, vão ser os terrenos, os mapas e os percursos. A área da prova de Distância Média está ao nível do melhor que foi oferecido aos atletas no Portugal O’ Meeting 2009 e o terreno da prova de Distância Longa é muito bem escolhido. A diversidade de desafios que os participantes irão encontrar ao longo da prova é tal que prefiro optar por nada dizer mais dizer sobre o terreno da Longa.

Também para os que são menos regulares e gostam de fazer Orientação só pelo prazer de passear, têm tudo para um fim-de-semana memorável. Bons alojamentos nas imediações, um excelente ambiente nas Arenas e percursos em locais lindíssimos nas imediações da bonita ribeira do Divor, onde desde tartarugas a pequenos veados, passando pelos imponentes rochedos que surgem quando menos se espera, já tive o prazer de ver tudo isso. Nestas circunstâncias é lógico que as minhas palavras valem de pouco. Importante é experimentarem e aparecerem. E depois de concluído o fim-de-semana logo dirão se valeu a pena...

Orientovar - A ideia de implementar na prática mapas obedecendo ao princípio da Cartografia Nórdica colocou-lhe algum tipo de reservas?

Luís Santos - Para além de Supervisor da prova, também sou responsável pelo Departamento de Cartografia da Federação Portuguesa de orientação e é principalmente a pensar nesse cargo que dou esta resposta. Recordo que um mapa de Orientação é uma representação subjectiva de um terreno representada por um cartógrafo. Como tal, o papel essencial de um mapa é que seja legível e represente o terreno de forma a que os participantes possam navegar nele compreendendo sempre a relação terreno/mapa.

Eu sou um defensor da adaptabilidade da escala ao terreno (a utilização de 1:7 500 em distâncias médias e de 1:10 000 em longas é para mim uma boa opção sempre que o detalhe do terreno a isso obrigue, em contradição com a postura rígida da IOF em defesa de todas as longas a 1:15 000 e todas as médias a 1:10 000). Mas o que é um facto é que, com esta forma de cartografar mapas, esse problema parece ter menos razão de existir. Há menor cuidado com detalhes menos relevantes para os atletas (como o enorme rendilhado branco/amarelo que alguns mapas nossos têm) e há simplificação na marcação de detalhes rochosos e transformação de alguns desses detalhes em relevo. É assim que vejo as diferenças. Na minha opinião, a cartografia nórdica funciona muito bem nestes terrenos alentejanos. Para os participantes, vão notar diferenças, mas não acredito que alguém se perca "por culpa da cartografia nórdica". De qualquer forma, esse aspecto foi salvaguardado pelos organizadores e eu recomendo vivamente a todos os participantes que queiram perceber calmamente o que vão encontrar em prova a solicitarem à organização o mapa de aquecimento (que vai ser disponibilizado para ambos os dias).

Orientovar - Num evento que se joga ao mais alto nível e que tem, sobretudo, a grande ambição de se mostrar, de mostrar toda uma região e de se projectar no futuro, que valores acrescentados terão, no todo ou em parte, a sua marca?

Luís Santos - O supervisor de um evento tem diferentes papéis no produto final oferecido aos participantes, conforme a forma como a organização o aborda. Ou seja, já estive em supervisões onde fiz de tudo, mas encaro isso com naturalidade tendo em conta as dificuldades vividas no momento. Quando o Supervisor presencia essas dificuldades, não deve ficar de braços cruzados "preso" às suas funções de Supervisão. Também já estive em eventos onde o papel do Supervisor era quase inútil; e cito um Troféu Internacional de Cantanhede do Ori-Estarreja e uma regional do ATV em Óbidos, por exemplo, porque tudo estava muito bem planeado e a minha presença serviu apenas para validar o trabalho técnico e garantir que não surgiam problemas no decurso do evento. Este evento tem estado a esse nível. Faço sempre questão de ver todos os pontos no terreno, dei algumas indicações técnicas sobre os mapas e sobre a sinalética e a colocação dos pontos, mas limitei-me a aprender um pouco mais com o grau de precisão do organigrama e dos esquemas de montagem de Arenas.

O papel de Supervisor num evento destes não deixa marcas se o trabalho prévio dos organizadores e do supervisor for bem feito. Eu diria ainda que somos como árbitros de futebol. Quando o nosso trabalho é discreto, é sinal que tudo correu muito bem para os atletas. Quando há problemas, aí surge a necessidade de intervirmos e deixarmos a nossa marca, nalgumas circunstâncias com papel importante na resolução dos problemas que possam surgir. Nesses casos é necessário ter cabeça fria e bom senso para que a nossa marca possa ser positiva para os participantes envolvidos no evento.

Orientovar – Em que medida sente que este I Meeting Internacional de Arraiolos pode ser importante para o GafanhOri e para toda uma região?

Luís Santos - Nesse aspecto, penso que este evento não é essencial, nem para o Gafanhori, nem para a região. A nível nacional, a marca de qualidade dos eventos do Gafanhori já está divulgada e todos sabem aquilo de que o clube é capaz. Por esse motivo, mesmo quem nunca foi a eventos organizados pelo GafanhOri, já ouviu certamente falar do que vai encontrar em Arraiolos. Para os estrangeiros, não é um evento de dois dias como este que lhes trará um significado acrescido mas sim os Campos de Treino organizados pelo GafanhOri nos quais o evento se insere. São eles, na verdade, que poderão catapultar a região de forma ainda mais significativa e projectar uma imagem internacional de grande interesse para a região e para os atletas estrangeiros que a procurem. Recordo que Arraiolos está situada entre dois concelhos bem conhecidos dos atletas nacionais mas também de muitos atletas estrangeiros, como são os casos de Évora (desde há mais anos) e de Mora (mais recentemente).

Orientovar - Que aspectos particulares lhe vão merecer nos próximos dias a maior atenção ou suscitam ainda alguma preocupação?


Luís Santos - Os trabalhos prévios de supervisão ao nível técnico e logístico estão concluídos. Falta apenas validar o sorteio de partidas e mais perto da prova avaliar a qualidade de impressão dos mapas, aspectos que, pela experiência elevada do clube organizador e dos colaboradores que com ele trabalham, não me tiram o sono. Preocupa-me o único aspecto que nunca podemos controlar: As condições climatéricas. Por um lado, o mau tempo das últimas semanas assusta possíveis interessados e por outro poderá trazer dificuldades acrescidas à Organização nos dias do evento. Mas apesar de morar a 130 kms de distância, vi sempre o sol em todos os dias que lá fui e espero que o sol brilhe também nos próximos dias 9 e 10 para que o prazer de andar e correr naqueles terrenos possa ser redobrado.

Orientovar - Enquanto Supervisor desta prova, quer deixar-nos uma palavra final?

Luís Santos - Pelas escolhas feitas pelo Gafanhori, pelos locais, pelo trabalho e pelo carinho que vai ser posto por uma Organização que inclui dezenas de jovens, só tenho pena que não haja 1500 inscritos para usufruírem deste evento. A todos os que lá vão estar, preparem-se bem, corram, sejam inteligentes nas vossas provas e fora delas, aproveitem tudo o que vos irá ser oferecido.

Tudo para conferir na página oficial da prova em
http://www.gafanhori.pt/meeting10/.

[foto extraída do excelente álbum de Tiago Leal,
AQUI]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

.

6 comentários:

Rafael da Silva Miguel disse...

Boas.
Isto pelos vistos promete...

Tenho uma dúvida e talvez aqui alguem me possa esclareçer.

Na dist. Média reparei que o mapa foi feito pela Raquel e pelo Tiago. O tipo de cartografia que vamos encontrar é igual ao do dia anterior?

Tiago Aires disse...

Viva,

Respondendo ao Rafael Miguel:
Sim o tipo de cartografia é muito similar em ambos os dias.

Mas nada melhor que os participantes irem com tempo, para utilizarem o mapa de aquecimento que na média tem nove pontos de controlo e na longa 10 pontos.

Cumprimentos
Tiago Aires

PFernandes disse...

Viva,

e não é que ainda faltam 4 dias! :(

Sim 4 dias, pois a noite anterior já faz parte da própria prova (é o medo de que o despertador não toque, o stress de preparar todo o equipamento e verificar que afinal o SI ou a bússola ficaram em casa, ...).

A vontade de chegar aos terrenos e fazer o melhor resultado é muita, e a espera vai ser loooooonga...

Desejo mais uma vez Boa Sorte aos excelentes organizadores (apesar de que já nada têm a provar, a não ser estarem ao mesmo nível do que já nos têm habituado).

Até ao próximo Sábado!


Saudações Orientadas,
Paulo Fernandes

Ricardo Telmo disse...

Ola!
Tenho pena de nao poder a esta prova , pois sem duvida que o terreno e a organizacao vao ser excelentes; Boa sorte a todos e desejos que o tempo ajude!

abraco

José disse...

Viva

Sem dúvida que vai ser uma grande prova, pelo empenho das pessoas envolvidas, que dispensam apresentação.

Contudo, interrogo-me quanto à participação no que respeita a estrangeiros, terá ficado muito aquém do esperado, o que terá falhado?

À organização desejo os maiores sucessos e que o S.Pedro colabore.

Joaquim Margarido disse...

Vou meter a colherada a propósito da última mensagem do José. O que terá falhado, no que à participação de estrangeiros diz respeito? O ano passado por esta altura, mesmo sem Meeting, tinhamos na Gafanhoeira a Selecção da Finlândia...

Há três semanas, o Tiago Aires fazia a antevisão da prova e queixava-se da designação WRE ter sido atribuída à prova "só em Setembro", logo "demasiado tarde para captar atletas estrangeiros que planeiam os seus calendários com muita antecedência."

Mas porquê só em Setembro? Estas coisas não têm 'timings' próprios?

Tiago, uma ajudinha.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO