sábado, 23 de janeiro de 2010

ESPAÇO CARTOGRAFIA: CARTOGRAFIA NÓRDICA, DEFEITOS E VIRTUDES

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Após um longo interregno, o “Espaço Cartografia” está de regresso às páginas do Orientovar. Recuperando um tema sumamente interessante e cuja aplicação prática teve em Arraiolos o seu ponto alto, vamos hoje ao encontro da chamada Cartografia Nórdica, das suas implicações, dos seus defeitos e das suas virtudes.


“Quando terminei esse percurso é como se tivesse descoberto uma fórmula mágica, enquanto atleta e cartógrafa. O que se evidenciava no terreno, era evidente no mapa”. As palavras de Raquel Costa, a propósito da 2ª etapa do IV Troféu OriAlentejo, são aquilo que de melhor existe para definir a Cartografia Nórdica. Com efeito, a prova de Bardeiras (Vimieiro), no dia 21 de Novembro de 2009, ficará para a história da Orientação em Portugal como a primeira disputada no nosso País cujos mapas obedeceram aos princípios deste tipo de cartografia e cujo conceito se baseia na representação apenas dos elementos considerados essenciais para uma boa e segura progressão. Na prática, estes mapas apresentam-se mais “limpos” e com uma leitura facilitada.

Já este ano, aquando do I Meeting Internacional de Arraiolos, a Cartografia Nórdica teve a sua verdadeira “prova de fogo”. Oito centenas de praticantes experimentaram um tipo de cartografia muito diferente do habitual e, naturalmente, tiveram a oportunidade de formar as suas próprias opiniões. É precisamente sobre os dois mapas da prova de Arraiolos que nos iremos debruçar, comparando-os e procurando extrair daí as necessárias conclusões.

Mesmo princípio, critérios diferentes

O mapa de Santana do Campo (prova de Distância Longa), utilizado no primeiro dia, foi elaborado por Janne Weckman (FIN), Anti Harju (FIN) e Mario Rodriguez (ESP), a mesma equipa de cartógrafos que desenhou o mapa de Bardeiras. Já o mapa do segundo dia (Distância Média), Barrocal e Fonte Ruivo, foi elaborado por Raquel Costa e Tiago Aires, em alternativa ao mapa da mesma área anteriormente executado pelos cartógrafos russos Alexander Shirinian e Viktor Rylov. Um mapa que constituiu o maior percalço de toda a organização do I Meeting Internacional de Arraiolos e que, segundo Raquel Costa, “por não haver correspondência correcta entre o terreno e o mapa, nem critério adequado”, teve de ser rejeitado.

Dos mapas, dos terrenos, dos percursos e da superior organização do evento, já praticamente tudo se disse. Mas bem a propósito do assunto que hoje abordamos, importa reforçar esta ideia e lançá-la à discussão: A verdade é que o mapa de Santana do Campo não teve assim tanto a ver com o mapa do Barrocal e Fonte Ruivo. Apesar de obedecerem ao mesmo princípio, tiveram critérios de execução diferentes. Princípios e critérios que colocam a tónica naquilo que Luís Santos, responsável pelo Departamento de Cartografia da Federação Portuguesa de Orientação, salientava nestas páginas, no passado dia 4 de Janeiro: “Um mapa de Orientação é uma representação subjectiva de um terreno representada por um cartógrafo.”

Um “híbrido” de excelência

O mais curioso no meio disto tudo é que o mapa do primeiro dia, precisamente aquele elaborado por Weckman, Harju e Rodriguez, não “caiu no goto” da generalidade daqueles que tiveram oportunidade de o experimentar. “Simplificar, sim; mas tanto é que não!…” parece ter sido a ideia dominante, congregando uma ideia crítica em relação ao tipo de cartografia e à omissão de detalhes considerados essenciais. Já o mapa do segundo dia, da autoria de Costa e Aires, foi elogiado como um dos melhores alguma vez desenhados, verdadeiramente primoroso na conjugação entre o que é de simplificar e o que é de relevar.

Numa opinião meramente pessoal, Raquel Costa e Tiago Aires tiveram a coragem e o bom-senso de jogar no meio-termo, alcançando uma perfeita combinação entre Cartografia Nórdica e aquela que tem feito escola no nosso País (“cartografia de Leste”?) e que nos foi legada, essencialmente, por um dos pais da Orientação portuguesa, o já referido Alexander Shirinian. O mapa do Barrocal e Fonte Ruivo poderá ter sido obra do acaso, resultante da inexperiência e menor domínio da técnica no que à Cartografia Nórdica diz respeito, um mapa “contaminado” no entender dos puristas de uma e outra escola. Mas a verdade é que Raquel Costa e Tiago Aires, com este formidável “híbrido”, poderão ter lançado as bases duma nova escola de cartografia, a “Escola Portuguesa”, mais adequada e consentânea com a realidade dos nossos terrenos. Apesar de "romântica", é pelo menos esta a conclusão que eu gosto de retirar disto.

Agora a palavra é sua


Finalmente, o objectivo deste artigo não se prende com fazer a apologia daquilo a que designei acima por "Escola Portuguesa", mas tão somente lançar o debate. E muito menos elevar uns cartógrafos em detrimento de outros. O meu respeito por nomes como Armando Rodrigues, Rui Antunes, Alexandre Reis, Luís Sérgio, Valdemar Sendim, José Batista e tantos, tantos outros, é inquestionável e julgo mesmo que, em primeira instância, deverão ser os cartógrafos a pronunciarem-se sobre o assunto.

Mas cabe também a si, estimado visitante deste espaço, sobretudo se viveu e sentiu os mapas dos dois dias de provas e , naturalmente, formulou as suas próprias conclusões, partilhá-las connosco, enriquecendo o debate. Cá ficamos à espera dos seus comentários.

[excerto de mapa gentilmente cedido por Tiago Aires]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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2 comentários:

oliveira disse...

Olá, não posso deixar de dar aqui o meu contributo.
Num espaço que lança a todos, mas ainda mais aos cartógrafos um desafio aliciante é indispensável o nosso contributo.
Penso que o Tiago e a Raquel conseguiram um óptimo trabalho na conjugação dos dois estilos conseguindo o que é o essencial na cartografia e num mapa:representar os elementos do terreno, no mapa de uma forma que qualquer praticante de orientação o consiga ler.
Isto é o essencial, sendo essencial também que os cartógrafos caminhem no sentido de o fazerem todos da mesma forma e conteúdo, sendo que aqui a FPO tem a sua cota relevante de responsabilidade....para quando as ditas Acções de Formação (à muito anunciadas) que permitiriam aos cartógrafos portugueses trocar experiências e enriquecer a cartografia portuguesa.
Força Tiago e Raquel, continuem o belíssimo trabalho que desenvolvem em prol da cartografia e da orientação em geral.


Jose Oliveira
Nº Fedº 3131
Cartografo

antunes disse...

Boa Tarde;

Começo por enviar os meus parabens ao Clube Gafanhoeira pelo excelente contributo que tem dado em prol da orientação sobre todos os aspectos.É efectivamente uma referência e está no moda.
Relativamente ao assunto,quero dar os parabéns aos cartógrafos (Tiago e Raquel) pelo trabalho efectuado no mapa do segundo dia e também discordar relativamente á dita pseudo-excpcional qualidade da cartografia (Nórdica ou Portuguesa/Espanhola/Finlandesa,(sinceramente não me apercebi dessa mesma) já que inexplicavelmente para mim e para a lógica que deve imperar num mapa de orientação(uniformidade de critérios), não dá para entender que este mapa tenha sido elaborado por 5/6 cartógrafos.
Tal como referi no local do almoço ao Tiago Aires em resposta ao seu pedido de opinião,lanço aqui a mesma suposição:
Imaginem aquele 1º mapa elaborado por um qualquer cartógrafo português e sem a bem elaborada e melhor conseguida lavagem/preparação dos participantes em relação ao que iriam encontrar e já com a garantia dada pelos responsáveis que aquele mapa era o que era e que por conseguinte,tudo o que fosse dito contra seria denegrir,
imaginem dizia eu a feira que havería por aquelas bandas.
Reafirmo que é apenas uma suposição e termino como iniciei.Os meus sinceros parabéns.

Rui Antunes